Caça ao tesouro
Tio Vicente passou eras comprovando para Portugal que minha vó Maria era mesmo portuguesa.
Passou outro tanto de tempo enviando documentos dizendo que ela se casou com meu avô, aqui no Brasil. Gastou mais paciência informando que ela morreu.
Daí meu pai pegou a coisa semi-encaminhada. Moleza. Ele avisou que é mesmo filho da minha vó Maria, aquela que nasceu em Portugal, que veio para o Brasil, que casou com meu vô Rubens, que teve três filhos, que teve cinco netos e que morreu ainda aqui no Brasil. E a cada esquina do papo com Portugal, mais uma checagem queria saber se meu pai, Ricardo, filho da Maria (portuguesa) e do Rubens (brasileiro) era mesmo quem ele tanto dizia que era.

Daí minha irmã pegou a coisa encaminhada. Bico. E avisou Portugal que ela é neta da Maria (portuguesa), que veio para o Brasil, que casou com o Rubens, que teve três filhos e que teve cinco netos (e que a vó Maria já morreu, conforme já foi informado, Portugal).
Daí eu peguei o bonde. Moleza, bico, baba. Mais fácil impossível, pois minha irmã inclusive já organizou, xerocou e autenticou toda a papelada em comum que comprova que somos filhas de alguém que é filho de uma portuguesa.
Daí que a cada documento que eu pego para enfiar na pastinha para rumar para o Consulado de Portugal, mais mecanismos aparecem exigindo saber se eu existo de verdade.
É como estar para sempre dentro de uma versão menos lúdica de um jogo do tipo caça ao tesouro. Como se cada dica dada tivesse que ser autenticada, acompanhada da versão original, ter recebido um carimbo do Itamaraty e uma beijoca da Xuxa. Algo como ter de comprovar no meio do jogo que você e sua equipe existem mesmo e ter de fazer isso num sistema confuso em que, na dúvida, você não existe:
“Se você é você mesmo, vá até o lugar em que você nasceu e peça para eles confirmarem num papel (que não pode ser o que você já tem) que você nasceu mesmo. Missão cumprida? Muito bem. Agora vá a outro lugar que possa dizer que é verdadeiro o documento que diz que é verdade mesmo que você nasceu naquele lugar que eu pedi pra confirmar se você nasceu ali mesmo.”
Mas isso já passou.
Agora só tenho que assinar um papel e ir a um lugar chamado cartório para que alguma pessoa (que parece ser alguém em quem a nossa sociedade confia muito) confirme que eu sou eu e que minha assinatura é minha de verdade. Depois, então, tenho que pedir para esta pessoa escrever no meu papel com minha assinatura – que ela comprovou que é minha mesmo – que é verdade que é mesmo minha assinatura ali.
Daí com sorte e alguns reais a menos, posso rumar meu barco sentido Velho Mundo, avistar uma terra que não conheço e dizer que é minha.
Mais ou menos como eles fizeram por aqui há uns quinhentos anos.

Romero Britto não é arte?
”Despido da segurança oferecida por um diploma ou por alguma forma de validação incontestável, o artista é forçado a se auto-afirmar artista, na esperança que outras pessoas concordem e também o vejam como artista, mas quanto mais se auto-afirma artista mais é hostilizado ou criticado pela vaidade e arrogância de se auto-declarar artista.”
Alex Castro, em A vaidade do artista
Quando ouvi Agnaldo Farias dizer que Romero Britto não é artista, e que não discutiria com quem achava o contrário, fiquei intrigada. Talvez pelo fato de ser ou não o pernambucano artista aos olhos do acadêmico da USP. Mas intrigada mesmo pelo pedantismo habitual da academia ali exposto na minha cara num festival de artes de grandes artistas e grande amadores.

“A new day”, 2001
Foi no Festival de Arte Serrinha, numa calorosa discussão sobre arte-educação, que caí silenciosamente naquela questão de: o que é arte? Quem é artista? E passei a olhar ao redor: num festival aberto ao público, o mais comum é que surjam muitas mediocridades disfarçadas de arte em ares superiores de “isso aqui surgiu de um insight que eu tive…”.
Pois esta mesma academia que critica Britto absolve um estudante que faz alguns rabiscos e trata como arte. Com meia dúzia de rococós nas palavras e um bom carão se faz arte para muita gente do ramo. Muitos cursos renomados não geram nem ao menos grandes sensos estéticos e acabam por trabalhar apenas com a vaidade, ensinando cada aluno a se expôr confortavelmente. Com o aval da arte.

“New Venus”, 2003
Se é merecedora do título de “arte”, se gera ou não reflexão a arte do artista, como avaliar? A corrente que prega que Britto não pode ser considerado um artista afirma que sua obra se assemelha a um produto de consumo, é imediatista, não provoca reflexão, não contesta a realidade. No entanto, vejo suas obras constantemente em projetos educacionais e lá um fim é encontrado, uma reflexão, enfim. Não serve?
Não escrevo para defender Romero Britto, não. Sua estética nem de perto figura entre as minhas prediletas. Só me intriga a represália a um consagrado ilustrador pelo simples fato dele se dizer artista.

“Round”, 2002.
Talvez se Romero Britto, por força do destino, acabasse por apenas vender suas pinturas no calçadão de uma praia qualquer em Recife, de chinelo e entre mercadorias pirateadas, talvez ele fosse perdoado. Tenho a impressão de que, sem fazer alarde, se a USP o encontrasse, seriam louvadas as linhas deste pobre vendedor do nordeste.
Mas ganhar dinheiro com estas pinturas coloridas, Romero? Francamente…
Senso de comunidade
Nesta eleição eu fiquei embutida nos 3% de votos para prefeita que teve Soninha Francine porque, para além de suas propostas, eu acredito em sua visão da cidade: como comunidade.
São muitos os candidatos que prometem alargamento de avenidas, polícia na rua, médico no hospital – tudo absolutamente necessário. No entanto, poucos entendem São Paulo como uma cidade que precisa ser olhada.

Já caminhou pelo seu bairro hoje?
Moro na Mooca, um bairro que já foi mais olhado. Hoje pipocam prédios, condomínios, grandes construções. E as calçadas cada vez mais somem, murcham, se esvaziam. Carros aos montes disputam vagas na rua da Mooca, nos arredores da Paes de Barros e ao lado das fachadas dos imensos prédios com varanda gourmet que por aqui se amontoam.
Muitos moram, poucos andam. Poucos conhecem o sapateiro da rua ao lado, o marceneiro vizinho, o bar do Zé. E me incluo nisso. Há pouco passei a frequentar a feira, a andar pelas ruas. Mas ainda é pouco. Mal sei quem mora ao lado.
Dia desses a cachorra da minha irmã sumiu. E foi aí que o Marquinhos, meu cunhado, passou a conhecer o bairro como ninguém que aqui mora conhece. Até mesmo eu, do pouco que panfletei, descobri muito dos meus vizinhos, dos comerciantes da rua, dos horários dos estabelecimentos, das praças por aqui escondidas, dos cachorros de rua, dos cachorros com donos…
Parece que só acessamos este senso de comunidade quando algo trágico nos une. Antes disso não somos pessoas, não somos humanos, não merecemos olhares.
A cachorra sumiu, criamos empatia com a situação e então nos solidarizamos. Quebraram o vidro do carro num semáforo, ofereço água – é um ser humano dentro do veículo. Arrombaram o apartamento ao lado, olho para meus vizinhos como gente, entendo o drama deles.
Antes do vidro de mais uma pessoa quebrar no semáforo em frente ao nosso comércio, antes de mais um apartamento ser roubado, antes da primeira cachorra escapar de casa, poderíamos conhecer nossos vizinhos, nossa rua, saber o que é estranho por ali ou não.
A polícia e as câmeras de segurança, como forças autoritárias, como incríveis soluções, não funcionam tão bem quanto o olhar atento de quem conosco divide uma rua, um bairro, uma cidade, um planeta.
Poderíamos exaltar o convívio humano nas feiras, nas ruas, nas vilas, nos comércios de rua. Poderíamos preferir o comércio pequeno ao supermercado longe, ao shopping esterilizado, à necessidade de, para tudo, sempre sair com o carro.
Poderíamos cultivar este senso de comunidade, este olhar oferecido ao outro como nós gostaríamos de ser olhados. Como gente.
Da minha parte, me ofereço a conhecer melhor meu arredor a partir de hoje. E você?
PS: A Polenta continua desaparecida. Se souber de algo, entre em contato, por favor.

“Qui da Noi”, gastronomia no Festival de Arte Serrinha
Carlão é um cara difícil de definir. Muito astuto para sonhador. Idealista demais para apenas empresário.

Entre suas conquistas mundanas, seu Galpão Busca Vida, a pinga doce e leve de mesmo nome, o bar Rose Velt em São Paulo, o restaurante na beira da represa no interior, nenhuma pode ser considerada tão ou mais importante quanto sua capacidade em fazer e reunir amigos, sua vontade de estar com a família e de descobrir o mundo.
Empresário sonhador, devaneador que realiza. Foi com este cara que me debrucei na gastronomia italiana de Emilia Romagna e Marche por alguns dias durante o XI Festival de Arte Serrinha.

“Muitos irmãos” foi o tema do festival deste ano, que tem como maior preciosidade reunir para imersão pessoas abertas, interessantes e queridas. O que dá o enredo pouco importa, pois o que acontece é sempre a mesma coisa: bons encontros num lugar com muita gente boa. Cuidado por gente do bem.
E não foi diferente desta vez. Carlão abriu as portas do seu restaurante Cà de Mezz Amig, lá perto da represa de Bragança Paulista e nos acolheu com muitas histórias, vinhos, receitas e muita generosidade.


Foram dias de mão na massa, no molho, no ponto. E noites regadas com todas as gostosuras preparadas. Mais do que o ponto certo da piadina, a receita de strozzapreti, o segredo do ragu ou a forma do cappelletti, a lição ali foi a de um cara que não se deixa iludir. Que sabe que há muito por aí para ser descoberto. Muito para vivermos tão pouco.
Se a receita tem um ponto, um molho, uma dica, tudo serve apenas para a arte de prepará-la para pessoas queridas. Para reunir todas as suas preciosidades em volta de uma mesa. Para a arte do encontro.
Não ser escravizado pela receita, pelo dia, pela vida. Nem pelo capricho ou pela preguiça. Fazer o que tem de ser feito para viver bem, do que realmente nos apetece. De todas, esta é a maior receita que tirei deste cara com quem passei dias frios de julho aprendendo segredos gastronômicos ditos em alto e bom som.

Com Giorgio, novo amigo marchigiano…

E com os colegas e amigos: noites boas!
PS: Fotos minhas e das gentis colegas de turma que compartilharam dicas, receitas e imagens.

