Onde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi
por que me segue o esqueleto?

Livro das perguntas
Pablo Neruda

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2 comentários

  1. É…. alma de menino….vivo tentando me desgarrar dela!
    ~~

  2. Não sei se foram as batidas de leve, ritmadas, no prato, ou o ir e vir dos violinos. Só sei que, quando vi, girava. Desci as escadas e o piano acompanhava.
    Dancei, dancei, dancei…
    Vi, nas costas de uma mulher, uma velha conhecida. Não a chamei, não a toquei. Sorri de longe vendo seus cabelos enquanto ela entrava no ônibus e sumia na eternidade. Sabia que ela não se viraria para observar aquela que a encarava, pois assim se manteria na lembrança não como estranha, mas como conhecida. E o universo assim o fez.
    Partiu o ônibus e eu girei, girei.
    Tenho minha torre de marfim, tenho meu cavalo de sonhos, minhas fantasias. Eu as alimento e as escovo todo dia (cuidadosamente, com uma escova de cerdas amareladas e cabo de madeira). Em resposta, eles se aconchegam em mim. Se entrelaçam a ponto de não poderem mais se enrolar e eu sonho, sonho.
    Me lembro bem da menina. Sua partida. Ela se foi em um meio de tarde em que o sol fica assim, assim, quase etéreo. Eu nem vi, ocupada estava com meu vestido novo, minhas sandálias novas, meus amigos novos.
    “Tchau, menina” – ouvi ela dizer. Indignada fiquei, pois afinal, era mulher, mulher!
    Me deitei então no colchão da cidade. Lá fiquei e fiquei, mas quando assim se deita, as pontas dos prédios ficam a cutucar as costas da gente e, por fim, a gente se cansa e se levanta (ou passa a vida a se incomodar). Foi neste dia que me lembrei da menina.
    Corri então ao espelho. Olhei a imagem embotada e me cansei: arranquei as rugas com as unhas, descolando da carne a pele, do osso a carne e fiquei só o que era: o esqueleto.
    Foi quando acordei do sono sobre a cidade (com as costas doendo, um certo tanto). Ouvi então o bater de pratos, ritmado, e me vi dançando com violinos.
    Desde então, escovo meus sonhos todos os dias, cuidadosamente, com um escova longa de cabo de madeira e cerdas amarelas. Ainda ando como esqueleto por aí (contarei um segredo: as pessoas não gostam de quem sonha!), mas, no geral, gosto mesmo é de voar.

    “O olhar, sempre muda. Mas as vezes a gente consegue escorregar para dentro de outros olhos, passados, e sentir o calor com que a gente se reconfortava no verão” – me disse certa vez um menino careca e desconhecido em um ônibus qualquer.

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