A arte de bisbilhotar

Estava eu me preparando para o início de mais uma aula no curso em que estou fazendo.

Aliás, começo de curso é um desespero, não é? Você ainda não achou sua turma, teme ter sentado ao lado daquelas pessoas estranhas e passar a fazer parte da turma delas etc e tal. No entanto, eu não tenho medo de não pertencer a turma nenhuma. Prefiro chegar e ler ao invés de tentar resumir minha vida em quinze palavras para a colega da mesa do lado.

Além da leitura, tenho um hobby muito interessante e que me rende boas gargalhadas internas: gosto, adoro, amo prestar atenção nas conversas alheias. Assim, deste jeito que você também faz: faço cara de paisagem, foco o olhar no livro à minha frente, viro páginas. Sou tão boa atriz que, vez ou outra, paro, olho para frente e suspiro, enquanto murmuro algo incompreensível fingindo me referir à minha leitura.

Tenho técnicas porque, realmente, o resultado de se empenhar para ouvir a conversa que acontece ao lado sempre rende boas lições. Mas é preciso ter persistência, um ouvido apurado e a capacidade de transmitir o diálogo com fidelidade aos seus futuros ouvintes — sim, às vezes, reconto a história ouvida, o que torna a coisa ainda mais interessante.

Eu daqui a alguns anos...

Muito bem, eu estava sentada na primeira fileira, quando ouvi uma destas tentativas incessantes de amizade na fileira de trás. Eram três mulheres que tentavam resumir suas vidas (e parecer interessadas nas vidas alheias) e que, a cada quatro frases, tinham que repetir: “Qual seu nome mesmo?”.

Até aí, tudo bem, eu não me intrometeria por pouco nessa história, não é mesmo? O papo passou de aula para professor, depois para professor que tem “voz de travesseiro” e chegou à experiência de uma das três do grupo. Ela contou sobre um professor que teve na ECA (plim!, fez um sino dentro de mim), muito velhinho (plim, plim!), que era ótimo, mas que às vezes tinha “umas piadinhas de velho” (?).

O ponto é, caro amigo leitor que gosta de forçar amizade no começo do curso: ela nem conseguiu elaborar uma argumentação. Colocou o pobre do professor ali, no meio da conversa, só para registrar na cabeça das colegas um acontecimento: ela fez ECA.

Eu já estava atenta às características do professor que fazia “umas piadinhas de velho”, quando ela continuou a descrevê-lo:

— Ele tem uma biblioteca particular e empresta livros pros alunos! — Nada de novo, pensei, afinal, qualquer professor da USP tem uma biblioteca particular e facilmente empresta seus livros aos mais interessados.

— Ah, eu sei quem é! Ele morreu e doou seus livros pra USP, não é esse?

Neste exato momento, posso afirmar que já imaginava qual desfecho a conversa teria. Sim, porque quem morreu e doou sua biblioteca pessoal para a USP e tornou este fato uma grande notícia no ano passado, foi o bibliófilo José Mindlin, que era velhinho e que, por sinal, nunca foi professor da universidade.

Tirei o cabelo das orelhas, me aconcheguei na cadeira e continuei mais concentrada do que nunca em minha árdua tarefa de bisbilhoteira. Foi quando veio a resposta da ECAna:

— Nossa, não acredito! O CLÓVIS GARCIA MORREU?

Internamente, eu ri. Minha alma se contorcia por dentro. Em respeito ao Clóvis Garcia, grande personalidade teatral (que não, não morreu, nem doou seus livros), me contive e esperei o engano ser explicado:

— Morreu, morreu sim! Não sei o nome, só sei que era bem velhinho e tinha uma biblioteca particular…

— Deve ser ele…

— Ele tinha coisas do tipo… Machado de Assis manuscrito…

— Ai, olha, pode ser, viu? Porque ele contava cada história… De vezes que saiu pra conversar e beber com Nelson Rodrigues!

Muito bem, a partir deste momento, nossa ECAna passou a se referir ao Clóvis Garcia no passado. Começou a contar como ele era um ótimo professor. Tudo sofrido, lamentado, afinal, ele morreu ali, na conversa dela. E o plim, plim, plim! do sino que ressoava dentro de mim passou a fazer BLEN, BLEN, BLEN!

Eu tinha que interferir naquela história, tinha que dizer que o Clóvis Garcia está vivinho da Silva, que quem doou os livros foi um grande empresário, tinha que perguntar se elas não liam jornal, tinha que dizer que o Clóvis Garcia foi jurado na apresentação de uma peça de teatro que eu fiz e tinha que contar que ele disse que o autor da peça não merecia meu talento — desculpa aí, Miguel Falabella!

Eu tinha, eu bem que poderia. Porém, a arte de bisbilhotar requer discrição. Requer fidelidade ao seu papel: não assumir nunca que estava futricando e, principalmente, não envolver pesquisador com pesquisados. Se você se envolve, não tem post para escrever.

Eu poderia ter feito um parenteses e ter deixado as garotas da fileira de trás mais informadas. Poderia, sim. Mas, como sou antissocial, não fiz. Como sou bisbilhoteira nata, não fiz. Como gosto de ver o circo pegar fogo, não fiz.

Deixei as três lamentando a morte de alguém que está vivinho da Silva.

Related Posts with Thumbnails

Compartilhe...

 

Receba o próximo texto


12 comentários

  1. Hahaha

    Você é má! Tenho medo de você! ;o)

    E para ser fiel ao meu papel, vou confessar: eu NÃO bisbilhoto…

    Bjs

  2. Confesso que faço exatamente como vc, faço uma cara bucólica, olho para frente, faço uma cara pensativa..
    Mas esses dias dei mole, tudo sobre cachorros e gatos me interessa, e as meninas da frente, uma delas trabalha numa pet shop, pelo oque entendi, aí ela tava contando do dia que uma gata pirou com a anestesia..eu parei pra olhar, aí ela me viu olhando …hauhauahuah
    que feioo

    Só pra constar..to sempre aqui, mas nunca comento ..hoho

  3. Aiiii, eu também bisbilhoto! Tenho um ouvido afiado, menina, que vc nem imagina! haha…

    E eu escuto tudo! Impressionante! Acho que é essa coisa de conseguir fazer coisas ao mesmo tempo… Sabe que às vezes eu estou dando aula, super concentrada no que eu estou falando e eu escuto alguma conversa paralela no meio da sala e preciso interromper a aula para fazer um comentário sobre o comentário que saiu! É muito feio isso! haha…

    Mas não sou tão boa atriz como vc! Nem sempre eu consigo disfarçar e começo a rir sozinha, do que escutei na conversa alheia! :)

    Beijos!

  4. Paulinha Rossi |

    Bolhaaaa…
    choro de rir com seus posts… ainda bem q vc preferiu atualizar o blog em vez de dormir ou arrumar o quarto…
    e agora qdo estiver proxima a vc, vou tomar mais cuidado, pq sei q vc eh bisbilhoteira!!! hahahaha
    sdds
    bjoks

  5. É claro que todo mundo que comentar aqui vai dizer: “eu também ouço a conversa das pessoas!” e se identificar com você mas…Cara! Ser atriz a ponto de virar a página do livro, fazer cara de interrogação e até comentários comigo mesma sobre o que estou lendo, achei que fosse só eu que fazia.

    Gosto de pensar nas coisas dessa forma: será que ‘mais alguém no mundo faz isso?’ de tão específico que é? …sempre tem alguém que também faz. Só não poderia imaginar que alguém tão perto de mim, como você :)

    (Já a parte antissocial, sou totalmente o oposto. Eu, no seu lugar, não aguentaria ficar queta. Talvez abrisse a boca antes mesmo de ouvir TANTA baboseira assim.)

    Beijão Isa!

  6. Ahhh

    vergonha por minha colega ECAna!

    Bjos!

  7. Parabéns !!! Muitos anos de vida ! Felicidades, amor e etc…
    Conhecí uma sósia sua. Mato minha saudade de você, olhando para ela, todo dia ! Ela não deve ter esse seu pé horrível, mas…. fazer o quê ? Ninguém é perfeito !

    Beijos e mais beijos !!!

  8. E depois disso, a gente se pega pensando; Quantas vezes eu não deixei de falar algo por quê quis dar risada quando ouvi alguém falar?
    Um beijo pra essas senhoras e um puxão nessa sua orelha, pra ela captar mais histórias.

  9. nossa to me matando de rir! minha mãe sempre fala pra mim tomar cuidado com o que eu falo em publico pq tem sempre alguem mais sabido por perto e depois deste post eu vou levar esse conselho mais a sério.. hahahaha

  10. Bisbilhotei um pouco ontem antes da Assembléia dos Bichos começar… Crianças – bisbilhotagem especialmente divertida.
    Adorei a peça. Não deixe de dar dicas como essas. Desta vez vi a peça antes da dica, mas tudo bem.
    Beijos.

  11. Eu sou muito bisbilhoteira…
    Nem te conto o que ando fazendo…=)

  12. Eu também bisbilhoto, mas não consio ser igual a você eu acabo me intrometendo na conversa quando a língua coça rsrs

    Beijos

Deixe seu comentário