A arte do ator: não atuar

Existe algo de imensurável no trabalho artístico.

Do ator, é algo que brilha em Marília Pêra, quando inteira em Pixote: a lei do mais fraco. Alguma coisa de dentro dos olhos de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Algo que podem dizer que vem da aura de Cacá Carvalho em sua trilogia de Pirandello. Um indefinível nas coreografias de Pina Bausch. Algo de sublime. É um entre, um hiato, um espaço que não se mede, não se encontra, não se agarra — mas que está lá.

“Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível.” Yoshi Oida contando que um bom ator deve ser capaz de sumir — em “O Ator Invisível”

Se até pouco entendíamos que as tantas técnicas de voz, de palco, de posicionamento é que rendiam um bom trabalho ao ator, hoje o não atuar é padrão nas boas escolas de, vejam só, atuação. A palavra que caiu em desuso, apesar do forte uso: a ideia é a de que sentir é muito melhor do que simplesmente atuar e que não atuar é um grande jeito de interpretar. De tão simples, confuso.

E se depois do estranhamento inicial chega a parecer simples, não é menos refinada esta maneira de entender a atuação. Se sua escolha é não atuar, sua escolha é não se submeter ao fácil, não enganar o público com truques, não recorrer a técnicas que não tenham como fim único te colocar em contato com aquela sensação, com aquele texto e te enraizar no presente de forma que você seja aquilo e mais nada.

“Interpretação vem do corpo, do jeito de andar, do jeito de se movimentar, do jeito de dançar, do jeito de olhar e não do cérebro e da memória.” Depoimento de Karim Aïnouz no livro sobre o método de atuação de Fátima Toledo e este cinema que vem do corpo

E daí se eu não atuar, acontece o quê? Sou sempre eu ali? Não. Se você não atua, você vive, e o resultado é surpreendentemente melhor. Porque por estar ali por inteiro, o público não mais enxerga um ator. Não há joguete. É uma pessoa e pronto, não é preciso desmascarar trejeitos, se preocupar com tipos… O público pode enxergar além. O texto, finalmente, se apresenta.

“Cada texto é diferente e, se o ator está realmente respondendo ao texto, sem se censurar, cada personagem vai afetar o ator de uma maneira diferente.” Continua…

“A personagem é uma pessoa real.” Harold Guskin no livro “Como parar de atuar”

Por isso a grandeza do gesto mínimo. Do pouco. Do antes. Do começo. Da respiração fluida, dos rituais de limpeza, da bioenergética, da importância do pé no chão, da meditação e da necessidade de leituras, de estudos e do contato com diversas formas artísticas.

Absorva arte, diz Harold Guskin!

De Stanislavski e Grotowski a Yoshi Oida e Harold Guskin, passando pela novata brasileira Fátima Toledo, todos têm em comum uma só base: começa em você. Não no outro, não no texto, não numa ideia mirabolante que pode surgir.

O mais belo a ser exposto não pode ser construído privilegiando nosso senso intelectual. Somos sensações! Personagem não se constrói, gente é de carne e osso. Como no teatro essencial de Denise Stoklos, que troca a composição teatral pela presença do ator. Que nos entende entre ativos silêncio e espaço: ator é passivo entrando em ação.

Não somos seres tão racionais quanto pensamos. Nem somos tão diferentes. Nossas particularidades são todas universais. Usemos todas, então.

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2 comentários

  1. Sara Von Zuben |

    Fátima toledo não é novata.

    • Perto de Stanislavski, Grotowski, Harold Guskin e Yoshi Oida, Sara?

      Ela só lançou um livro agora. E um livro quase que de memórias, que não explica em nada seu método, sua aplicação da bioenergética, os exercícios, as respirações, as sensações levantadas.

      O Studio Fátima Toledo está reunindo só agora em uma apostila os pilares do método (que não estão escritos em lugar nenhum). Apesar de estar há anos no mercado, seu método só vai ser amplamente divulgado e entendido quando ela tiver uma base sólida para ensinar aos seus futuros preparadores de elenco.

      Sem crítica alguma (sou aluna do curso de profissionalização para cinema). Adoro o método, sou uma grande entusiasta dele. Mas preciso de base teórica para poder compará-lo aos grandes (apesar de que já o acho um futuro gigante).

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  1. O rito de um fim - Isabellices | Isabellices - [...] chorando quando ouço uma música horrível na hora certa, termino conectando alhos com bugalhos, termino artisticamente mais sensível, sensivelmente mais…

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