Apenas um jovem: João Felipe Scarpelini
“Prezados senhores, meu nome é João Felipe, tenho treze anos e quero mudar o mundo. Você pode me ajudar?”
Foi em novembro do ano passado, num auditório flutuante de um Rio Negro quase seco, que ouvi a história de João Felipe Scarpelini. Na iminência de um país (e de um planeta) em sufoco, precisando ser mudado.

Não sou emotiva o suficiente para chorar em palestras. Mas a dele foi a que mais me tocou em todo o TEDxAmazonia. Ele queria mudar o mundo. Ele só tinha treze anos.
Foi aquela frase do início o email que ele enviou para mais de cem instituições. Grandes, pequenas, todas com o discurso da importância do jovem. Alguma tinha que retorná-lo.
De fato, retornaram: cinco. Algumas sugerindo que ele colaborasse com dinheiro, outras dizendo que ele ainda era muito jovem para isso.
Eu tenho a mesma idade que ele. De certo modo, tivemos as mesmas inquietações. Mas para João Felipe foi diferente. Aquilo bateu nele. Ele sentiu que precisava agir. Ele sabia que podia.
Passou a organizar debates na escola em que estudava: chamava jovens que estavam mudando o mundo para contarem de suas experiências. Fomentava a ideia de que era possível.
Ele foi o aluno que toda escola quer ter: engajado, participativo, envolvido, protagonista de um projeto, de uma história. Ou deveria querer.
A principal dificuldade dele foi, justamente, com seus professores, que insistiam que ele deveria deixar a bagunça de lado e se focar no vestibular. No ensino formal. Tão sólido, tão careta. Tão cego, às vezes.
Foi isso que João Felipe fez, mas foi isso também que não durou: largou a faculdade de Relações Internacionais logo no início. E foi para a Inglaterra colocar a mão na massa: trabalhar numa organização, com jovens de diferentes lugares do mundo.

“Da noite pro dia eu deixei de ser o jovenzinho bonitinho que queria fazer alguma coisa e passei a ser tratado com um profissional especializado em juventude.”
Hoje, com 25 anos, ele é consultor em questões de juventude da ONU-HABITAT (Organização das Nações Unidas para Assentamentos Humanos). Trabalha ouvindo jovens, dando voz a eles e ajudando-os a conseguirem direitos, responsabilidades e os mesmos critérios que os adultos.
“A gente não quer tratamento especial, a gente quer ser igual.”
Depois de já ter passado por 42 países, em mais de 400 projetos, ele diz que não luta pelo protagonismo juvenil, mas sim pelo empoderamento do jovem. Busca igualdade no tratamento de jovens e adultos, trabalho conjunto. Não pensa em baixar critérios para trabalhar com eles: sabe que são (somos) capazes de muito mais.

“Somos três bilhões de jovens no mundo. Acho que fica claro que falar pro jovem que ele é muito novo para fazer a diferença, tinha que ser um crime.”
Num planeta pedindo socorro, com tantos problemas e tão pouco tempo que temos por aqui, ignorar o trabalho e as ideias de tanta gente querendo ajudar é triste. E foi o que fizemos com João Felipe quando ele queria fazer a diferença.
É espantoso o fato de João Felipe precisar sair do país para ser reconhecido aqui, para ser valorizado. Hoje o Brasil o vê como um especialista em juventude. Mas porque ele foi validado pelo mundo.
Uma tristeza que nosso sistema educacional ainda esteja tão engessado. Formamos (na verdade, nem bem formamos) para o ingresso na universidade. Como se este fosse o único caminho. Como se fosse a solução.
Ver João Felipe fazendo a diferença é um alívio, um sopro de esperança. Uma inspiração.
PS: E se você também se apaixonou pela história dele, sugiro que assista ao bate-papo que o pessoal do CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatvas) fez com ele no final do ano passado. Foi lá que tive a oportunidade de dar um abraço neste cara grandão e de bom coração que poderia ser meu colega de sala. E é meu novo ídolo.
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6 comentários
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- Como abrir espaço para Joões, apesar da escola? - [...] são especiais, diferentes dos nossos meninos na escola? A professora Isabella, ao falar sobre João, disse que seria o ...


Precisamos de mais e mais gente escrevendo sobre pessoas assim.
Melhor ainda que a palestra no TED (curta, claro) foi o bate-papo no CEBB. Um verdadeiro prazer conhecer o João Felipe.
Ah, gata, acho que você poderia incorporar o vídeo do TEDxAmazônia no post.
Beijo.
Oi, Isabella, já tinha visto o bate papo no CEBB. Acho mesmo que ele é o aluno que as escolas não queriam ter, não mesmo.
Acho que a escola mata todo dia um João (meu filho incluso nisso, e ele se chama João), um lugar árido, triste, frio…
Tenho pensado em: como abrir espaços para os “Joões”, apesar da escola hehe
Oi, Isa!
Olha só, estava pesquisando algumas coisa e acabei encontrando seu site. Logo de cara, encantei-me com a história do rapaz. Fantástica, inspiradora, mas de certo modo triste, afinal mesmo que o “Brazil Takes Off”, ainda continuamos com aquele deslumbramento pelo que vem de fora – mesmo que seja algo que saiu daqui.
Favoritei a página e pretendo voltar mais vezes.
Espero que ainda se lembre de mim!
Beijos,
Bella !!!!
Aqui estou novamente !!! Pra variar amei seu texto…
Saudades !
Beijos
Ju
Oi, pesquisando sobre ex-vegetarianas cheguei despretenciosamente no seu blog. E gostei dos textos, das fotos, dos temas e do seu interesse por arte, educação e cultura que também tenho. Voltarei outras vezes por aqui para explorar mais. Um abraço e parabéns pelo blog.
Cara Isabella,
Achei fantantica a materia sobre o jovem Felipe.
Gosto de gente assim…seria que sabe o que quer.
Um banho de cultura para muita gente.
Parabéns pelo seu trabalho.
Và em frente!!!!!
Ines
*** respondendo a pergunta, o tratamentamento é a chave. Todos tem direitos iguais , professor , aluno, aprendiz…a responsabilidade e o envolvimento também.Nada dá mais prazer do que se fazer aquilo que gosta!Deixe fazer…e o resto se faz.
bjs