Posts de Isabella Ianelli

Entre recantos e desvãos: Ilha de Boipeba

Nestas férias, viajei para a Bahia, disposta a encontrar o mais hospitaleiro de todos os povos.

Fomos para a Ilha de Boipeba, um lugar com ares e mares caribenhos: linda vista, turismo que começa a gerar lucros e uma população muito pobre.

Perto de Morro de São Paulo e recém-descoberta pelos turistas, a ilha ainda é um vilarejo sem grandes emoções. Praias desertas, clima agradável e água-de-coco e moqueca a preço de banana é o que dá para encontrar por lá.

São os próprios nativos que oferecem passeios pela ilha. Quer ir de barco até o outro lado do rio? Quinze reais. Quer que eu leve suas malas? Dez reais. Passear em volta da ilha? Sessenta reais.

Assim, eles nos exploram à medida em que exploramos a ilha deles. E exageram: tanto que chegaram a nos cobrar quinhentos reais descaradamente quando tentávamos negociar por um precinho bacana para irmos de lancha até uma praia a menos de quinze minutos de onde estávamos.

Com uma relação estreita de clientelismo, servidão e inferioridade, o convívio entre nativos e turistas acaba não sendo dos mais simpáticos. Somos tratados como se não quiséssemos papo, como se fossemos ruins, como se estivéssemos atrapalhando a vida deles. O que, de fato, não deixa de ser verdade.

Depois de alguns dias por ali tentando uma prosa, é fácil tornar seu passeio de integração algo puramente turístico. Desconfiados, fechados e desacostumados das pessoas que por ali passam no verão, me acostumei a não vê-los.

Até que. Até que conheci Marquinhos.

Tudo bem que já tínhamos encontrado gente legal por lá. A Dona Antonieta do acarajé, o tiozinho do mercado e. E só. E é por isso que, no início, não demos muita bola para Marquinhos, nosso guia no passeio de canoa pelo mangue.

Eu nunca vou saber se um passeio de mangue é, de verdade, bacana. Porque quem era bacana ali era Marquinhos. Que nos ensinou a diferença entre mangue branco, vermelho e siriiba. Que me deu a maior descoberta biológica do ano: que existem ostras no mangue. Que não toma café da manhã (almoça, almoça e janta). Que come moqueca às oito horas da manhã (com feijão e farinha). Meu ídolo.

E foi de Marquinhos uma das cenas mais incríveis que a pessoa que aqui vos escreve já viu. Meu holy moment.

Sentados na canoa, sob a luz do pôr-do-sol, eu, Gustavo e Marina – que conhecemos por lá e que nos convenceu a fazer o passeio – ouvimos uma história de família, enquanto assistíamos a Marquinhos remar.

– Vou contar como meu avô comprou a primeira canoa dele.

E sorridente e orgulhoso contou com detalhes a história que ouve desde sempre. Com direito a pausas de emoção e até mesmo a um momento em que passou os dedos rentes aos olhos (digno de cinema), contou a história do dia em que um avião da Força Aérea Brasileira, indo de Ilhéus para Recife, caiu numa praia de Boipeba.

O avô e o tio de Marquinhos assistiram à queda. E foi de seu avô a ideia de chamar os moradores da ilha para ajudarem no resgate. Depois, nadou até o avião e encontrou uma senhora. Esperta, já estava despida das pesadas vestes que as mulheres pomposas daquele tempo usavam. Ele foi ajudá-la. Ela pediu que socorresse primeiro seus filhos.

Os moradores de Boipeba que participaram do resgate foram consagrados heróis. Chamados pela Aeronáutica para um evento, foram aplaudidos, receberam cumprimentos e a eterna gratidão da Força Aérea – que disponibilizou a eles seus aviões perpetuamente. E ganharam moedas de ouro. Daí, a canoa.

Mas a história não para por aqui.

Há poucos anos, uma senhora chegou na Ilha de Boipeba procurando pelo avô de Marquinhos. Ao encontrá-lo, contou que sua mãe pediu a ela que não deixasse de conhecer o homem que salvou sua vida antes mesmo do nascimento.

Pois é: a senhora elegante do desastre de avião estava grávida.

Marquinhos rema de volta ao cais, enquanto penso em quantas histórias mais estão guardadas nas famílias daquela ilha que, até pouco tempo atrás, nem energia elétrica tinha. Mal tem saneamento básico.

Boipeba talvez não seja ilha para turistas. Talvez seja preciso passar mais tempo por lá para descobrir seus recantos, seus desvãos.

Nem todo mundo é Marquinhos. Mas toda ilha merecia ter um desses.

Banalização da educação: da creche ao doutorado

Que a educação no Brasil não anda lá grandes coisas todo mundo sabe.

Não sei se é de hoje, de ontem ou um reflexo dos tempos. Há diversas teorias sobre e isso merece capítulos e capítulos de um livro que envolveria falta de estrutura nas escolas, desvalorização do trabalho docente, grande expansão do ensino sem o investimento necessário etc.

Foi lá em 2004 que eu comecei a cursar Pedagogia buscando entender esta e outras questões e é agora que eu venho demonstrar aqui uma partícula disso tudo. Afinal, se as escolas não conseguem ensinar, de todos os fatores apresentados aqui em cima, preciso contar um pouco do que ando vivenciando.

"Educação é a mais poderosa arma"

No início deste ano caiu no meu colo a pós-graduação dos sonhos: “Linguagens das Artes”. Além de ser oferecida pela USP e coordenada por Rosa Iavelberg (renomada professora da Faculdade de Educação da USP e intimamente ligada às artes), ainda encontrei o curso a tempo de me inscrever para a prova de seleção. Em cima da hora, mas a tempo.

Uma pós-graduação lato sensu na melhor universidade do país, com uma pessoa competente à frente e professores especialistas em arte e educação. O que poderia dar errado?

Nada. No entanto, até agora estou esperando pelo início do curso. De todos os módulos que tive durante este ano, posso dizer que aprendi alguma coisa com dois. Dois. Dois de mais de uma dezena.

E, ora, como eu poderia imaginar? O curso só tem indicações positivas. Professores de diversas faculdades da USP, muito experientes, plano bem estruturado, linguagens das artes contempladas no currículo. Na teoria, tudo parece correr bem. Na prática, a maioria dos professores tende a dar aulas em forma de oficina (que, sem a teoria, fica vazia e tola) ou excessivamente teóricas e sem correlação com a prática e com a proposta do curso.

A situação é cômoda, confesso: as aulas são ruins, a grande maioria beira o embromation. Os professores alegam que são poucas aulas para um assunto tão vasto, que deste jeito não conseguem aprofundar o tema etc. E já que não conseguem aprofundar, praticamente nem nos iniciam. Nos tratam como crianças em oficinas destinadas a esse público, nos enchem de jogos teatrais, livres expressões de dança, de música… Certamente oficinas que fazem sentido e são esclarecedoras depois de um embasamento na teoria. Depois de leitura. Reflexão. Caminhos. Propostas.

O curso faz o que faculdades e cursos de extensão costumam fazer com profissionais da área de Humanas (especialmente com pedagogos e envolvidos na profissão tão desvalorizada de professor): misturam oficina com auto-ajuda, fingem entrar na formação cultural do professor e trabalhar muito profundamente, mas são tão rasos, tão subjetivos e tão superficiais que enganam, no máximo, Gabriel Chalita.

"Ei, você, venha fazer pós-graduação com a gente!"

“Linguagens das artes”, esta pós-graduação tão promissora, talvez nada mais seja do que um reflexo, em outras proporções, desta educação que, como eu dizia no início do texto, já não anda grandes coisas.

Parece não haver por lá falta de estrutura ou de investimento, tampouco desvalorização do docente. Talvez o maior problema deste curso seja a falta de comunicação entre alunos e professores, coordenadores e professores, coordenadores e alunos, teoria e prática, currículo e vivência.

Frase adaptada de Gilberto Freyre, pichada nos muros da FEUSP

São apenas mais seis meses, uma monografia e eu posso me considerar uma arte-educadora sem nunca ter entrado em sala de aula numa discussão sobre conceito de arte. Sobre ONGs. Sobre atuação do arte-educador. Sem quase nunca ter tido discussões em cima de livros importantes, de autores de referência. Sem saber onde procurar para tratar de dança, de música, de teatro. Sem base para a prática. Para o fim social.

Entendo porque falamos tanto em avaliação em educação. Entendo porque tentamos seguir os passos do que deu certo, voltar a todo instante para pensar onde melhorar. Porque sem ligação, sem entendimento, sem coerência, tudo vira uma grande oficina sem propósito.

E talvez o grande problema disso tudo seja mesmo a falta de propósitos. Da creche ao doutorado. Pois a educação não anda grandes coisas na escola porque, anotem, a educação não anda grandes coisas para os educadores.

Susan Miller, a “profetisa dos astros”

Com ar simpático, de gente confiável e aparência boa, Susan é a nova mediadora entre os astros e as vidas de milhões de pessoas.

Se aqui no Brasil já tivemos Mãe Dinah acertando previsões, virando a vidente do ano (e depois a charlatona do século), Susan promete muito mais. Astróloga querida dos famosos e mundialmente reconhecida, Susan tem fama de acertar em cheio. Mal chegou ao Brasil, assinando a previsão dos signos de uma revista feminina, e já virou febre.

Com uma vida típica de mocinha de romance americano (quase que ela poderia ter saído de um livro da Danielle Steel, tamanhas tristezas e alegrias de sua vida), Susan teve uma doença rara na infância e muitos períodos ruins em decorrência de sua reabilitação. Estudou em casa e foi com sua mãe que aprendeu a ser astróloga.

Basta passar a ler um pouco mais sobre ela e suas previsões, para começar a acreditar que a posição dos astros interfere na sua vida. Eu sei, é um tema controverso, mas, acredite, são muitos os céticos que conferem mensalmente as dicas dela.

Camiseta da marca brasileira Q-Vizu

Mas, afinal, o que Susan tem de diferente dos outros?

Seu site, Astrology Zone, traz previsões mensais completas de cada signo. E não pense que a previsão imita aquelas de revistas e jornais. Susan confessa demorar sete horas em cada signo: são páginas e mais páginas com detalhes do que te espera no próximo mês. De dicas como “não viaje neste dia” até “quando for entregar seu currículo vitae, peça para que alguém o revise”.

Parece estranho e muito arriscado, mas Susan detalha seu mês todo. Tanto que tem muita gente triste neste mês de dezembro: suas previsões saíram e parece que não foram das melhores para alguns signos.

E, apesar de astróloga e quase vidente, Susan diz que já foi cética e nos propõe:

Leia-me por seis meses e veja o que acontece. Ou então leia no fim do mês a previsão que fiz para os dias que passaram e veja se acertei alguma coisa.

Convenhamos que é uma proposta arriscada e que eu gostei e topei.

E se você precisa de uma boa desculpa para acreditar em astrologia, é simples: basta lembrar que assim como nossas células são influenciadas pelo que comemos, talvez sejamos todos nós parte também das estrelas e dos astros todos. Eu sei, parece confuso, mas quem sabe sabemos bem menos do que pensamos saber?

O bom é que em dezembro, Susan Miller prometeu mundos e fundos para os nascidos sob o signo de Áries – o meu! Tirando um pequeno contratempo com um eclipse no dia 21 de dezembro (?), as expectativas de Susan são muito grandes.

Agora é só torcer para ela estar certa.

TEDx Amazônia, minha experiência

Eu tinha a intenção de escrever longamente sobre o TEDx Amazônia, evento do qual participei e de onde voltei um tanto quanto inspirada.

Acontece é que basta passear pela Internet para encontrar relatos interessantíssimos de gente que doou tempo para descrever lindamente o evento, com detalhes e curiosidades.

Aí, então, decidi passar aqui para contar que voltei do hotel flutuante do Rio Negro inspirada por agora saber que há boas pessoas nesse mundo. E hoje eu posso escrever aqui algumas poucas palavras sobre este evento incrível, depois de estar devidamente descansada do calor de 42 graus de Manaus, das poucas quatro horas de sono diárias e da longa viagem.

O TEDx é um evento que reúne gente interessante e gente interessada. Resumindo tudo: alguns palestrantes com boas ideias, ouvintes das mais diversas áreas e gente que quer espalhar as boas ideias. E mudar o mundo também, de certa forma.

E foi em cima do Rio Negro, que passa pela maior seca de todos os tempos, que passamos os dias ouvindo e discutindo sobre qualidade de vida para todas as espécies. Eram biólogos, educadores, músicos, dançarinos, economistas e gente que faz muito mais do que sua função é capaz de descrever.

Isso tudo já foi o Rio Negro

Em meio a tantas palestras e intervalos breves, o tempo de tirar fotos foi insuficiente. Havia ainda mais beleza na região e tudo ia muito além do que as fotos conseguiam captar, como o pôr-do-sol do Park Hotel, a vista do transfer fluvial que nos levava ao Amazon Jungle Palace e o prenúncio do fim do mundo, quando o tempo fechou assim que nos despedimos do evento.

Foi pouco tempo, mas foi intenso. Tanto que pretendo organizar melhor as ideias e buscar mais dos palestrantes que mais me tocaram. O tempo de mais de uma semana para parar para escrever sobre, foi necessário para entender tudo o que passou, o que aconteceu e o que tocou. Larrosa, neste texto incrível, já diz que:

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

Se experiência é o que o filósofo afirma, deixo aqui o relato de alguém que, em apenas um final de semana, viveu uma.

O que foi o SWU?

É claro que um evento gigante dá problemas e é claro que tem gente chata e mimada que exagera nas reclamações, mas o que acompanhamos na tentativa de festival sustentável SWU passa do limite.

Fomos no dia 10, comprovamos vários problemas e decidimos reunir boa parte do que encontramos em uma lista de críticas, mensagens no Twitter, relatos em blogs e algumas sugestões (já que dizem que haverá outra edição).

Talvez o que intensifique a revolta seja a insistência da organização em chamar esse evento comercial de “movimento social” e a falta de diálogo com as pessoas que pagaram e estão insatisfeitas, reclamando como podem Internet afora.

O bom é que deu para assistir ao Fórum pelo site oficial e a alguns shows pelo site da Oi e na TV (Multishow e Globo). Ponto positivo.

Se não pagamos para entrar, ficamos na tal da pista premium e ainda assim ficamos insatisfeitos, só conseguimos imaginar a dor de cabeça de quem pagou e se sentiu um otário no meio daquele parque de publicidade.

Eles queriam ser Woodstock. Mas também queriam levar um troquinho...

Principais problemas e sugestões

1. Pista premium, camping premium, praça de alimentação premium, vários locais de acesso restrito… Isso não faz sentido algum, principalmente em algo que é chamado de “movimento social”. Não custa nada abrir tudo, cobrar apenas um tipo de ingresso e criar um ambiente de igualdade. Essa cultura do VIP, um dos pilares do SWU, é curiosamente uma das maiores causas de nossa situação precária – ambiental e humana.

2. Preços humilhantes. Além do ingresso caro, a água custava 4 reais, um refrigerante 5 reais, uma minipizza (do tamanho de um pedaço de pizza), fria e crua, saia por 8 reais e um hambúrguer maravilhoso como esse da foto abaixo tirou 12 reais do bolso de muita gente.

Hambúrguer saboroso de... adivinha? Bacon! (via Twitpic - @zerrenner)

Nada, nada justifica isso, principalmente em um evento com patrocínio e Lei Rouanet bancando 6 milhões. Se vão nos encher de comerciais em todos os cantos (até nos telões, logo após o último acorde de cada show), cobrem barato.

3. As comidas oferecidas eram incongruentes com a proposta do evento. Em vez de chamar empresas de fast-food como espetinhos Mimi, pizza, hambúrguer, cachorro-quente, crepe e afins, por que não movimentar a comunidade local com comida boa, caseira e barata? Grandes raves, como o Universo Paralello, fazem muito isso e dá certo.

Sustentabilidade envolve qualidade de vida e alimentação saudável. Um evento que preze por este movimento não pode se render e ter como patrocinadores empresas que produzem enlatados, industrializados, refrigerantes e que contribuem para a devastação florestal.

Além disso, apenas oferecer uma opção vegetariana não é a solução. Se é um evento também de reflexão, é necessário que seja dito, ao menos, que a indústria da carne é a que mais contribui para a insustentabilidade. Como parte da idealização do projeto, o correto seria a alimentação natural e vegetariana ser incentivada no evento.

4. Usaram copos e garrafas de plástico não reutilizáveis. Ou seja, muito lixo produzido por apenas uma só pessoa. Uma ideia seria dar uma caneca na entrada e distribuir água de graça em bebedouros gigantes. Se a Nestlé fizesse isso, certamente ganharia nosso respeito.

Merchan, para os íntimos (via Flickr - In Press/SWU)

5. O SWU foi realmente inovador ao mostrar uma nova modalidade de greenwashing, envolvendo a produção de um festival de música e a apropriação do mote “Por um mundo melhor”. O resto é fácil: envolva grandes marcas e chame meio mundo de músicos para entreter o rebanho enquanto todos consomem lixo e liberam o máximo possível de dinheiro.

6. Sem nenhuma vergonha, uma parte do evento era destinada ao merchandising, o que soma para validar o evento como mais um de marketing verde. Afinal, qualquer um que se interesse por sustentabilidade sabe que a principal estratégia (melhor do que reutilizar e reciclar) é a de reduzir o consumo. Proposta inviabilizada pelos patrocinadores do evento e, no entanto, uma maneira da nossa tentativa de Woodstock brasileira aproveitar para lucrar um pouco mais.

Para forçar o consumo, as pessoas foram proibidas de entrar com água ou comida, o que gerou um lixo gigante já na entrada do evento.

7. O transporte e o estacionamento foram completamente mal organizados. Este talvez seja o principal foco das reclamações e das histórias de sofrimento (leia no Scream & Yell). Como se não bastasse, não havia bicicletário, o estacionamento para o mais sustentável dos veículos.

8. A formação da equipe de funcionários foi muito ruim. Falta de informação e desorganização em todas as falas. Tivemos um problema (pequeno, considerando o que lemos nos relatos) na hora de achar o estacionamento e a produção do evento foi clara ao dizer que não sabia. “Isso aqui tá uma zona, cara!”, sinceramente nos disse um cara com a camiseta do festival logo na entrada.

9. O tempo de todos os shows foi muito curto. Imagine um fã de O Teatro Mágico, por exemplo, que passou por muita confusão apenas para ouvir 6 músicas. “Ou cancela o show ou toca por 25 minutos”, foi o que Fernando Anitelli ouviu da organização do evento.

10. Bom, mas se o evento não foi sustentável, foi, pelo menos, um festival de música, não é mesmo? Mais ou menos assim, digamos: o som falhou em muitos shows, como Rage Against the Machine (caiu duas vezes e depois ficou baixo para quem não estava na área premium), Los Hermanos (som baixo), Regina Spektor (problema de retorno), Queens of the Stone Age (microfonia) e Yo La Tengo (som abafado e baixo).


Vaia do público.

Reclamações no Twitter

RT @rebiscoito: Vi tanta reclamação que algo me leva a crer que quem tá falando bem do #SWU ta ganhando uma boa grana.

RT @thenatinakajima: Patrocinadores (Coca-Cola, Heineken e Nestlé), vcs tão se queimando feio no #swu #swufail

RT @bqeg: O povo reclama do preço dos ingressos, do estacionamento, disso, daquilo, mas lota o evento. Vai entender.

RT @victorpotasso: #swufail Os ativistas q acreditaram no que esse evento prega com certeza devem estar morrendo de vergonha por terem contribuído c/ isso.

RT @ArturLA: #SWUFAIL comida cara. filas de horas para comprar. merchan caríssimo. Banheiros podres. Fazenda Moeda. Concordo. SWU foi um engodo.

RT @brunoscalzo: Toda a mídia fala de pequenos probleminhas no festival… lobby do caralho. Vamo falar a real, o que aconteceu NÃO PODE acontecer…#swufail

RT @PelicanoSuicida: Galera do #SWUFail, quem aí vai exigir dinheiro de volta? Eu vou…quem for também, fale comigo…ou não, sei lá.

RT @PelicanoSuicida: E enquanto as pessoas lesadas pensarem “Ah, mas o Brasil é assim mesmo”…o país vai continuar assim…mesmo. #SWUFail

RT @brunafernanda: O evento que se diz pró sustentabilidade fez todo mundo jogar os alimentos, cigarros, desodorantes, bebidas no lixo #swu SWUfail.

RT @anarosarp Caraca, a revolta ao #SWUfail tá mais organizada q eles, adorei! RT @marciaceschini @swuvaitomarnocu #swu #swufail

RT @itsous SWU devia mudar o nome pra FWU. Fail with you. Fuck with you. Fila with you. Firula with you. Frio with you. #SWUfail

RT @samucapessoa: Devia ter um telao na entrada do @swubrasil ja q a gente fica a maior parte do tempo aki. #swufail

RT @CortaOnda: RATM e DMB foram a redenção de um evento com muitas falhas. #SWUfail

RT @ricardocatarina: Ingresso: 400 R$, Coca Cola : 5 R$ , Pipoca 10 R$ , assistir o SWU de graça pela internet, ñ tem preço #SWUfail

RT @flaviadurante: Só vou acreditar que o @Eduardo_Fischer se preocupa com sustentabilidade quando a agência dele abrir mão da @monsantoco

RT @oestagiario:  No Fórum do #SWU faltou um ppt com o título “Eduardo Fischer: Um visionário”. Mais uma confirmação da distância que quero dessa turminha.

RT romani83: Entrevistei um organizador do SWU pro @zonapunk antes do festival. A promessa era de que a experiência superasse os shows. Foi, mas pra pior.

RT @swuvaitomarnocu: No camping não podia nem fazer comida, que sentido faz um evento sustentável que incita as pessoas a consumirem mais embalagens?

RT @lini: o @swubrasil foi tão bom que até quem foi pago pra falar bem tá falando mal.

Discussão no Facebook

Screw With You. Eu já adotei o novo nome.”

“E aí, organizadores? Cadê o pedido de desculpas?”

Notícias e relatos

Isso é só uma parte do que aconteceu na Internet enquanto o evento rolava. A hashtag #SWUFail, no Twitter, trouxe informações que a organização do festival escondia. Enquanto pessoas reclamavam do evento e pediam por ajuda, o perfil do festival no Twitter fingia não ler o que estava se passando. Fomos tratados como gado pessoalmente e virtualmente.

A repercussão negativa nas redes sociais só não foi maior porque a organização do evento comprou boa parte dos blogueiros influentes com ingressos, credenciais, regalias e privilégios. Chamando-os de insiders e pedindo explicitamente para enviar as críticas por email, nunca abrindo aos seus leitores, a organização conseguiu manter calada muita gente que meteria a boca no trombone.

Como nem tudo pode ser controlado na Internet, o evento nem precisou terminar para que o perfil @swuvaitomarnocu fosse criado no Twitter para fazer justiça com as próprias mãos e tentar fazer com que Eduardo Fischer veja o que estava além da área premium.

Ao reunir todas essas críticas, nossa motivação é deixar bem claro para a organização e para os patrocinadores que isso não é correto e não deve nem tentar ser repetido.

E para nós, público, é essencial saber nos organizar para não mais aceitarmos algo assim, não comprarmos ingressos, rejeitarmos o modelo premium, desconfiarmos de um “movimento social” proposto por uma holding de publicidade, deixarmos falir um festival mal organizado antes que ele capture 50 mil pessoas que vão seguir suas ordens, aceitar suas condições, repetir um discurso raso do que é sustentabilidade, pagar 100 reais no estacionamento e depois sofrer, acordar e reclamar para ninguém ouvir.

por Isabella Ianelli e Gustavo Gitti.

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