Posts de Isabella Ianelli
Quando Nietzsche chorou
“- Um homem profundo precisa de amigos – começou ele, como se falasse mais para si do que para Breuer. – Se todo o resto falhar, sobrarão seus deuses. Mas eu não tenho amigos nem deuses. Eu, como você, tenho desejos e meu maior desejo é a amizade perfeita, uma amizade inter pares, entre iguais. Que palavras inebriantes, inter pares, palavras com tanto conforto e esperança para alguém como eu que sempre viveu só, que sempre procurou mas nunca encontrou sua outra metade. Às vezes, tenho me desabafado através de cartas para minha irmã, para amigos. Mas, quando encontro as pessoas face a face, sinto-me envergonhado e dou as costas. 
- Exatamente como está dando as costas para mim agora? – interrompeu Breuer.
- Sim – e Nietzsche quedou-se emudecido.

- Exatamente como está dando as costas para mim agora? – interrompeu Breuer.
- Sim – e Nietzsche quedou-se emudecido.
- Tem algo para desabafar agora, Friedrich?
Nietzsche, ainda espiando pela janela, acenou positivamente com a cabeça:
- Nas raras ocasiões em que não consegui agüentar a solidão e dei vazão a explosões públicas de lamento, odiei-me uma hora depois e me senti um estranho em relação a mim mesmo, como se tivesse perdido minha própria companhia. Também nunca permiti aos outros se desabafarem comigo… eu não estava disposto a assumir a dívida da reciprocidade. Evitei tudo isso… até o dia, é claro – voltou o rosto para Breuer – em que demos as mãos e concordamos com nosso estranho contrato. Você é a primeira pessoa com quem sempre mantive o rumo. E mesmo com você, de início, esperei traição.”
- Nas raras ocasiões em que não consegui agüentar a solidão e dei vazão a explosões públicas de lamento, odiei-me uma hora depois e me senti um estranho em relação a mim mesmo, como se tivesse perdido minha própria companhia. Também nunca permiti aos outros se desabafarem comigo… eu não estava disposto a assumir a dívida da reciprocidade. Evitei tudo isso… até o dia, é claro – voltou o rosto para Breuer – em que demos as mãos e concordamos com nosso estranho contrato. Você é a primeira pessoa com quem sempre mantive o rumo. E mesmo com você, de início, esperei traição.”
Irvin D. Yalom
Quando Nietzsche chorou
Para pensar…
PANAPANÁ
“IMANTAR OS MEUS ANSEIOS
DA DOR DAS ASAS NEGRAS
DA BORBOLETA, O ESPELHO
DE AMORES QUE EXPIRAM CEDO
A FOLHA, A CORREDEIRA LEVA
A ÁRVORE… NÃO CAIRÁ!”
Apenas um trecho de uma das lindas canções do Galdino… Profunda!
Segundo turno e flanelinha
Fui votar na Soninha no segundo turno. É, ela não está mais concorrendo, mas eu votei no 23. Já que vou anular, vou me expressar pela última vez (nessas eleições) votando em quem eu acho que me representaria no poder.
Muito bem. Fui votar de carro, já que mudei de casa e não transferi meu voto para uma zona eleitoral mais próxima da minha residência. Quando cheguei na escola em que voto, parei o carro na rua. Um homem magro, de camisa preta de mangas curtas observava o movimento da rua enquanto fumava um cigarro. No seu antebraço direito, uma tatuagem: “BRANCA”.
Estranhei o fato dele estar parado por lá, mas fui em direção à escola. Me chamou de alguma coisa que não lembro. “Linda”, “querida” ou algo do tipo. “Posso dar uma olhadinha…?”. Pensei em fechar a cara. Foi quase mais forte do que eu, mas lembrei do meu carro… Tão indefeso… Ali, parado na rua. Balancei a cabeça positivamente, muito mais por medo do que por consentimento.
Lembrei da minha “candidata”. Ela disse, certa vez, em seu blog, que não costuma dar dinheiro aos flanelinhas porque acha que carro não precisa de babá. Realmente! Mas em São Paulo isso é um pouco difícil de ser seguido. Os flanelinhas são tão incisivos, chegam como se fossem realmente os donos da rua e como se fosse óbvio pagar 10 reais para estacionar num local público.
Certa vez, fiquei muito irritada com um flanelinha que me abordou na porta de um museu. Ele tirou um bolo enorme de dinheiro do bolso. Só notas de 10 e 20 e começou a contar na minha frente. “Então, a gente tá pedindo uma colaboração…”. Fiquei muito nervosa, tirei o carro dali. Fui até uma base da polícia do outro lado da rua, a menos de 50 metros do local. Falei com o polícial, expliquei a situação. Sem olhar para o meu rosto ele disse: “É assim mesmo, a gente tira eles daí, no outro dia eles voltam…”. “Então não tem nada que eu possa fazer?”. “Você quer ir até a delegacia? Vai…”. Que enguiçado esse sistema…
Pois bem. Mas o flanelinha de hoje não era incisivo. Tímido, muito tímido, inseguro. Arrisco-me a dizer que era sua primeira vez no “ofício”. Depois que votei, fiquei com medo dele me abordar no carro. Mas não aconteceu. Tímido, ele ajudava uma outra pessoa a estacionar. Me viu, mas fingiu que não. Como eu fiz. Talvez estivesse precisando de um emprego. Talvez estivesse precisando de dinheiro. Talvez… E foi tentar.
Dia dos professores
O dia 15 de outubro era um dia comum no meu calendário até o ano passado. Minto: deve ter tido alguma importância até meus 10 anos de idade. Até a quarta série, todas as professoras que eu tive, neste dia, ganhavam muitos presentes, desembrulhavam um por um e agradeciam. Lembro desde a educação infantil dos presentes que escolhi para as minhas professoras.
Pois é. Agora estou do outro lado. Sou (ou estou? ou sempre serei?) professora: de um ano pro outro, passei de aluna para professora e fui eu quem recebeu muitos presentes hoje, ouviu muitas frases bonitas e muitos agradecimentos.
No meio de tanta coisa, parei para pensar: até o ano passado, era um dia comum… E, neste ano, hoje é o meu dia! Até o ano passado, eu só me ligava no dia 15 de outubro porque é o dia exato após seis meses do meu aniversário. Por exemplo: hoje eu faço 22 anos e meio!
Mas, então, pensei: como as mães lembram do dia do professor? E, refletindo um pouco sobre isso, podemos perceber a importância que um filho toma na vida de uma pessoa. E a importância que passa a ter quem faz o bem pra ele.
Estas crianças que estão todos os dias comigo têm apenas quatro anos. E assim que entram na escola, de repente, um dia que era banal para o pai e para a mãe se torna um dia digno de lembrança: o dia do(a) professor(a) do seu filho. Do seu serzinho de quatro anos que ainda está testando as relações deste mundo.
Então você compra um presente. Embrulha. Escreve um cartão. Pede pra criança assinar. Faz suspense, pede para a criança entregar o embrulho. Agradece, diz palavras bonitas. E eu leio coisas lindas. Coisas que me mostram quão intensamente entramos nas vidas alheias. E como isto tudo é recíproco. Como eu gosto destas crianças… Sinto amor, mesmo sem ter nenhum vínculo além do empregatício com elas.
Pois é. Aí é que a profissão falha: impossível separar o coração destes momentos negociáveis.

Gabriela, meu amor maior…


