Posts de Isabella Ianelli
Sobre um fato cotidiano
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego(Construção, Chico Buarque)
Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.
Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.
Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.
Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.
A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?
Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.
A salvação da menina má
Quem assiste à novela das oito certamente conhece. Ela começou como uma mera criança prodígio, dessas que as novelas das seis, sete e oito têm aos montes na esperança de que alguma emplaque. Filha de Dora (Giovanna Antonelli), Rafaela, vivida por Klara Castanho, é o capeta em forma de gente. Uma versão moderna, antenada e interesseira de Chucky, o brinquedo assassino.
Rafaela apareceu em Búzios (um dos cenários da novela) com a mãe a tiracolo. Ou vice-versa. Uma menina um tanto quanto sincera e engraçadinha. Nada fora do comum para sua idade. Acontece que ela foi se meter no Leblon com a mãe e agora está querendo espalhar pelos quatro cantos a infidelidade de Helena (Taís Araújo), a mocinha da trama.
Se faz tempo que você não liga a televisão, está pensando que… Mocinha até certo ponto, não é mesmo? Porque, afinal, estamos no Brasil. E que mocinha que se preste nesta sociedade moralista é infiel?
Pois é. O autor de Viver a Vida tentou de tudo. Taís Araújo não convenceu o público como modelo famosa, nem como mulher de empresário galã (José Mayer), nem como pessoa simpática, nem como habitante do planeta Terra. Talvez o erro tenha sido do autor ao contextualizar a personagem, talvez da própria atriz ao interpretar.
Acontece que há algum tempo as novelas estão transformando suas mocinhas em pessoas reais para atraírem o público. Mocinhas do estilo antigo, daquelas que apenas sofrem e esperam pelo príncipe encantado não fazem mais a cabeça do espectador. Mocinha também tem que ser gente.
Taís Araújo começou bem gente e não emplacou. Pareceu arrogante. Aí, a solução foi fazer dela uma coitada. Foi traída, levou um tapa da ex-mulher do marido, se sentiu culpada por um acidente, tentou salvar seu casamento, perdeu o bebê que esperava etc e tal.
Aí, adivinhou? Sim, caiu no protótipo anterior. Boazinha demais. Arrogante e humilhada. O público odeia essas duas características.
A solução encontrada para o romance que não convenceu foi mostrar que Helena é tão gente como a gente, que sofre com o marido e que também vai buscar a felicidade. Tudo bem contido, né? Uns beijinhos no Thiago Lacerda e não se fala mais nisso – só se paquera.
Aí é que entra a menina má. Ela presenciou os beijos, vive de favor na casa da protagonista e agora lança olhares ameaçadores o dia inteiro sobre ela. O público vê o sofrimento de Helena (casamento falindo, romance surgindo e chantagem dentro da própria casa) e ela consegue parecer mais gente e menos personagem de novela. Agora, seu sofrimento é embasado e sua irritação com a menina é legítima.
Temos, pois, uma vilã à altura. A menina má que caiu no gosto do povo e, o melhor, que conseguiu salvar a imagem da mocinha. Uma ótima solução para o caso.
Mau atendimento médico
Eu tenho um bom histórico de maus atendimentos. No entanto, tenho uma experiência um tanto quanto diferente da da maioria da população. Eu não sou mal atendida em restaurantes e lojas: meu negócio são os consultórios médicos.
Quando tenho que ir ao médico, pego a lista do convênio, seleciono os endereços mais interessantes e vou jogando no Google médico por médico. Ganha pontos quem tem: 1) publicações científicas; 2) artigos publicados em revistas e 3) um site decente.
Apesar de tanta cautela, já me dei muito mal. Isto porque a grande maioria dos médicos conveniados não têm vida online, o que dificulta muito a minha pesquisa. Porque, afinal, pode ser que ele seja um médico péssimo e desatualizado ou apenas um senhorzinho simpático com toda sua vida acadêmica nas estantes da universidade e muito conhecimento na cachola.
Meu critério para definir se um médico é bom ou não é muito simples e muito difícil de ser alcançado: ele tem que estar disposto a solucionar meu problema. (Ponto para Dr. House!) Isto pode parecer óbvio, mas acredite que não é. Além disso, também é interessante que ele se entenda como médico e não como mecânico. Sabe aquele tipo que vê problema em tudo, praticamente quer trocar seu motor por um mais novinho? Então.
Certa vez resolvi ir a uma dermatologista aqui pertinho de casa. Joguei no Google e ela tinha alguns depoimentos em revistas femininas. Ponto para ela, lá fui eu.
Cheguei num consultório lotado de representantes de laboratórios (aliás, este é o grande mal dos dermatologistas e o que sempre me deixa com um pé atrás). Sentei, ela me perguntou qual era o meu problema e eu expliquei que queria que ela me receitasse um protetor solar diário e um creme para passar à noite.
Pois bem, ela não olhou minha pele e mandou a pérola: “Para o seu caso, são tantas sessões de peeling”. Oi? Como assim, amiga? Aqui da cadeira você já viu minha pele? Já percebeu que sou alérgica a um tipo de ácido? Então, ela me disse para buscar (no Google?) o nome do ácido que me deu alergia e retornar ao consultório. Estava me mandando embora sem protetor ou creme. Ela queria mesmo é que eu enchesse o bolsinho dela por fora do convênio. Coitadinha.
E não foi só isso: já caí nas garras de um endocrinologista desatualizado e ruim, nas de duas ginecologistas estúpidas, bem como de mais uma dermatologista com cara de açougueira e um consultório que mais parecia uma clínica clandestina de aborto.
Depois de tanta experiência na área, concluí que minha pesquisa pelo Google, em geral, não é um bom critério de seleção. O que realmente ainda funciona é alguma referência pessoal interessante do médico. Como nem sempre temos, cabe ressaltar que a classe médica ainda não se rendeu à internet. Nem os pacientes reclamões.
Primeira isabellice
Eu não precisava de um blog novo. Não mesmo. Estava feliz com meu blogspot, com o nome que dei a ele, com as coisas que eu consegui mexer na raça no html e até com o fato de ser um bloguezinho.
Acontece que ele chegou aos poucos. Primeiro, criticou a fonte que eu usava. Depois, passou a reclamar das cores. Quando me dei conta, falou mal do nome do meu blog. Isabella vira notícia: vocês veem algum problema nele? Nem eu!
Depois de criticar a fonte, o formato, as cores e o nome, passou a agir de um modo diferente: começou a elogiar loucamente qualquer mera produção textual minha. Não perdia a chance de elevar qualquer texto meu. Desconfio que ele nem mesmo lia – mas elogiava.
O ápice aconteceu quando escrevi o primeiro (e único) texto do ano de 2010. Me ligou sugerindo o nome (que já estávamos namorando – eu, ele e o nome – há algum tempo), se prontificou a fazer o blog e a comprar o domínio. Relutei algum tempo – para mostrar que sou difícil – porém, diante de tantas facilidades, cedi.
Aí, nasceu este blog aqui com o nome de isabellices, que já era uma categoria do blog passado e é algo comum na minha vida desde meus quinze anos de idade, quando, na aula de inglês, um amigo irritado comigo gritou: “Stop doing isabellices!”. Acatei o pedido, parei de fazer e passei a escrever isabellices.
Quanto à aparência disto aqui, adoro cinza, amei este rosa e fui eu que fiz todos os rococós aqui do lado, assim como as flechinhas e as bolinhas. Ainda faltam alguns outros rococós e acertos, mas, para tanto, vou precisar pressionar mais um pouco o fazedor deste blog.
O legal é que consegui separar o blog em três principais categorias: arte e cultura, cotidiano e educação. Além disso, agora tenho um local para escrever um pouco sobre mim. Gostei. Fora o contato ali em cima, que é coisa de gente muito importante. Rá!
É isso. Bem-vindos. Espero que palpitem!
Beatriz
Não gosta de cominho. Nem de coentro. Reconhece as iguarias já no cheiro do tempero do restaurante. Da calçada.
Não come a feijoada de um – porque nela há um dos dois. Nem o bife à rolê. É capaz de parar uma refeição no meio por causa do tempero. Mesmo que o colega de mesa garanta que não consegue sentir nada.
Alho e cebola, tudo bem. Cominho e coentro: nunca. Sofre pelo nordeste. O que, por lá, não leva esses temperos?
Chove pelo lustre da casa dela. Bem que pensou duas vezes antes de comprar um apartamento no último andar. Mas o preço estava bom e ela queria muito se mudar. Já não sabe se acredita no zelador ou na síndica. Talvez no zelador.
Agora, sempre que chove, pensa na casa dela. No dia que choveu estava lá, para acudir a casa num momento daquele. E olha que nem era para estar por lá. Devia estar viajando, decidiu chegar antes.
Chuva em São Paulo não é uma coisa boa. Lá no sul, tomou banho de chuva umas mil vezes. Aqui, a chuva é ácida, traz enchentes, água pelo lustre.
Não dormiu esta noite. Quer dizer, modo de dizer, né? Dormir dormiu sim, mas acordava de duas em duas horas, com cólica, tomava um remédio, deitava, esperava o sono voltar. Por isso está cansada a esta hora. Cansada.
Passou Jack nas unhas. Gostou do meu Arábia. Não gosta de passar esmalte ralo, não gosta: mancha. Riu do nome da cor de um esmalte: Inveja Boa. E isso existe? Devia ser branco, ao menos.
Beatriz na minha frente. Todas as personagens que já me confundiram naquela loira de olhos tão azuis, voz tão doce e presença tão delicada. Como Liz se encaixa ali? Não sei. Onde está Alaíde, de Vestido de Noiva? Procuro. E aquela que casa depois que cansa de tomar refrigerante? E a noiva do Ivam? Todas ali, escondidas dentro dela.
Será esta só mais uma personagem? Será esta parte, esta que eu vejo, sua Beatriz?

De louça, de éter, divina. Cléo de Páris.





