Posts de Isabella Ianelli
Então, é Natal
Por uma série de motivos, foi instituído o Natal. E por uma série de outros motivos, todos nós nos abraçamos e damos presentes e ganhamos tantos outros e saímos de qualquer loja ouvindo do atendente: “Boas festas”. Dezembro inteiro gira em torno de três diazinhos da última semana.
Você nunca viu a cara do cara que varre sua rua, mas em dezembro você o encontra. Dá “caixinha”. Compra uma dúzia de panetones e distribui por aí: frentista, cabeleireiro, dentista, cunhado, vizinho. Tanta gente que rondou sua vida por doze meses, hora de presentear com um pão doce com frutas cristalizadas. Por quê? Ora, porque é Natal.
Então vamos ao shopping. Não temos dinheiro, mas precisamos comprar. Precisamos de vestidos novos, presentes para os mais próximos. Quebramos a cabeça, enfrentamos filas nos estacionamentos. Enquanto nos esprememos, brigamos pela última peça daquela camisa que é “a cara” do seu pai. Gastamos uma pequena fortuna. E pagamos pelo estacionamento.
Hora de dizer: é tudo mentira. A gente não precisa de roupas novas. Sua família pode ficar sem ganhar presentes. Panetone não é sinônimo de Natal. No Brasil não neva. Papai Noel não existe. Seu espírito natalino vai durar o suficiente para você terminar o dia 25 em paz com sua família. Aliás, este “espírito natalino” foi inventado para te fazer pensar que a generosidade está diretamente atrelada ao número de presentes que você dá. Você não vai mais ver a cara do cara que varre sua rua. E vai continuar não gostando do seu vizinho.
Por fim: algumas pessoas não gostam de panetones.
Feliz Natal! Libere o anjinho que há na sua casa!
PS: Eu espero fortemente que minha mãe não leia este post. Mãe, se estiver lendo, saiba que tudo isso é besteira e que meu novo notebook será muito bem-vindo.
PS2: Eu pedi para o Papai Noel, ela que se prontificou a me dar.
PS3: Pai, eu não comprei uma camisa para você, foi para dar mais veracidade ao texto. Desculpe.
PS4: Eu não sei do que estou reclamando. Sempre ganho muitos presentes e não dou nenhum.
PS5: Acho que eu quis dizer que sou sim generosa… Viu, gente?
Exercícios nº 2: formas breves
Sábado à noite, dois ingressos para um espetáculo qualquer no Sesc Vila Mariana. Um colega indicou exatamente esta peça: “Exercícios nº 2: formas breves”, mas como não o conheço muito e não sei do seu gosto, quase que desconsiderei. Só decidi dar uma chance quando o espetáculo praticamente tropeçou no meu caminho: ganhei dois convites.
Já no Sesc, esperei meu namorado chegar. No fim das contas, descobri que ele não chegaria a tempo e lá fui eu fazer uma coisa estranhíssima que amo: ir ao teatro sozinha. Nada mais assustador e empolgante do que se aventurar a entrar num teatro qualquer sem ninguém para te apoiar, para servir de testemunha. Experimente. Tudo pode acontecer numa peça de teatro, sempre leve isto em mente.
Confesso que comecei a assistir ao espetáculo com um pé atrás. Li um pouco sobre a peça: “fragmentos de livros”, “elenco diverso”, “universo contemporâneo”. Tudo isso daria uma bela sessão de um pouco de tudo formando um nada desinteressante, não é mesmo? Pois é, mas não é este o caso.

Atuações brilhantes. Não posso acreditar que alguns não são atores profissionais. Já vi tanta peça com gente “renomada” que não chega a fazer metade do que eles fizeram. Expressão corporal, elenco em perfeita sincronia e aquele chiadinho carioca a peça toda.
O figurino é preto. Não é uniforme, apenas preto, o que acentua o trabalho dos atores e, assim como o cenário, torna possível as diversas cenas. Aliás, sobre o cenário: impecável. Mesmo. Dos melhores que já vi. Das projeções aos fios e às roupas espalhadas pelo chão. Um tudo que vira nada e volta a ser tudo: as roupas viram terra, que viram chão, que viram roupas. Os fios são parte de um hospital, de uma fábrica, do cenário e chegam até a parecer um céu. Pode?
Um trabalho coletivo e lindo que mescla pesquisa, leitura, atuação, artes plásticas, expressão corporal e o que mais você conseguir imaginar. Aproveite para ver, afinal, uma das mensagens da peça é: “O homem se faz na linguagem que o faz”.
Exercícios nº 2: formas breves
Direção: Bia Lessa
Sesc Vila Mariana
Até o dia 13/12
Sextas e sábados às 21h
Domingos às 18h
Falta de educação
O mundo virtual em peso fala sobre o caso Geisy e UNIBAN. Blogueiros, twitteiros e afins dão seus pitacos no famoso vestido rosa, na sua dona, nos alunos e na universidade. Cansei de contar as vezes em que li Taliban, turba e nazismo em textos sobre o caso. Aliás, neste vídeo ótimo, o blogueiro Cardoso mostra o que Hitler acharia de ser comparado com a UNIBAN.
No último sábado, a UNIBAN expulsou a aluna do corpo discente. E ontem pela manhã, a decisão foi anunciada no Twitter da instituição. Na nota divulgada, a universidade cita que a aluna desrespeitou os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade da instituição.
Aproveito a situação para lançar um olhar sobre o papel da universidade.
É fato que a moça foi desrespeitada pelos alunos, sendo “culpada” ou “inocente”. E depois foi hostilizada pela universidade, que só confirmou o quanto está alienada ao autorizar e praticamente validar a atitude de alunos moralistas e levados pela multidão.
Neste caso, o único papel que cabia à UNIBAN era se colocar à frente da discussão e ouvir alunos, professores e a vítima da situação. Sem moralismo. Ao agir de forma precipitada e preconceituosa, a universidade só demonstrou seu despreparo.
No livro 10 Novas Competências para Ensinar, o sociólogo suíço Philippe Perrenoud cita alguns itens essenciais para, justamente, educar. O item nove diz respeito a enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão, que, entre outras coisas, fala sobre: prevenir a violência na escola e fora dela, lutar contra os preconceitos e as discriminações sexuais, étnicas e sociais e desenvolver o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça.
Não é de hoje que sabemos que o ensino está sucateado. Creches, escolas de educação infantil, fundamental e ensino médio, nos setores público ou privado. O caso UNIBAN veio para mostrar mais: o ensino superior, que deveria ser exemplo e sinônimo de credibilidade, reflexão, embasamento, pesquisa e ação também está despreparado.
A decisão já foi revogada – a reitoria deve ter visto a notícia repercutir e, cá entre nós, quem quer ser vilão nessa história? Ir contra os alunos, a UNIBAN não pode – afinal, quem pagará as mensalidades? Refletir sobre o caso, entender o motivo da perseguição a uma garota de pouca roupa, o motivo dos alunos terem abandonado as aulas e rever os próprios conceitos? Trabalhoso demais.
A UNIBAN completou o caso dizendo que “reafirma o seu compromisso com a responsabilidade social e a promoção dos valores que regem uma instituição de ensino superior”. Quem acredita?
Eu sugiro que a UNIBAN inteira se debruce, pelo menos, sobre a obra de Philipe Perrenoud.
Meu caso com a polícia
Eu já fui parada pela polícia nove vezes. Sete destas vezes foram em um ano e meio. Você pode afirmar que assim foi porque eu tirei as calotas do carro naquela época. Que o carro parecia carro de bandido, como diria minha mãe. Mas não. Já fui parada dirigindo o carro dela, o meu, o de um amigo.
Aliás, a primeira vez em que me pararam eu tinha acabado de tirar a permissão para dirigir. Fomos para uma balada linda em Bragança Paulista intitulada Porkaria’s – para você sentir o drama. Na volta, Tarcisinho (um amigo que não bate bem das ideias) estava bêbado e o carro foi para… Tcharam! Para mim!
E é claro que a polícia rodoviária nos parou naquele dia. O guarda pediu para eu abrir o porta-malas e eu só senti o bafo de pinga do Tarcisinho me dizendo: “Bella, é só apertar aqui que abre!”. É claro que eu fiz ele sair do carro e abrir o porta-malas. De pé, meio cambaleando, ele disse: “Seu guarda, essa é minha noiva… Ela tá dirigindo porque eu não tô muito bem…”. Como me disseram amigos depois, não sei o que foi pior: ser parada às 5 da manhã na estrada com a permissão para dirigir, um carro desconhecido e um amigo bêbado ou ter me passado por noiva desta figura:
Tarcisinho e eu num carnaval qualquer.
Este foi só um exemplo. Já fui cercada pela polícia (que me perguntou se eu tinha drogas no carro), já engatei um papo com um policial sobre uns alunos que eu tinha que assistiam a uma novela muito violenta, já fui parada porque denunciaram que eu não tinha habilitação (mas eu tinha, rá!) e na sétima vez já cheguei a perguntar: “Seu guarda, pelamordedeus, por que eu?”.
Acontece que se eu estiver passando de carro por uma blitz e um caminhão de cocaína estiver na minha frente e um carro com oito caras bêbados estiver atrás de mim, tenha a certeza de que eu serei a que verá o dedinho do guarda apontando para o acostamento. Por um lado, tudo bem, porque eu não bebo nunca. Por outro: caramba, policiais, vocês estão comendo bola!
Exceto na última quinta-feira, em que eu voltava para casa lá pelas onze da noite e fiquei parada na Av. Dr. Arnaldo. Suspeitei que o trânsito fosse por causa de algum jogo de futebol, mas não. Um policial parado em cada pista da avenida. Carro por carro, a pergunta:
- Boa noite. A senhora ingeriu alguma bebida com álcool hoje?
- Não.
- A senhora pode assoprar aqui?
Sim, eu fiz o teste do bafômetro! Sempre quis fazer o teste. Afinal, não beber nunca deve ter algum lado positivo, já que sempre passo de chata em todas festas e em todos bares para todas as pessoas.
E poder assoprar e ver o aparelhinho denunciar 0.0 é tão gratificante para alguém como eu, que sempre volto para casa com sono e a maquiagem borrada. Parecendo uma bêbada.
Três minutos no banho


