Banalização da educação: da creche ao doutorado

Que a educação no Brasil não anda lá grandes coisas todo mundo sabe.

Não sei se é de hoje, de ontem ou um reflexo dos tempos. Há diversas teorias sobre e isso merece capítulos e capítulos de um livro que envolveria falta de estrutura nas escolas, desvalorização do trabalho docente, grande expansão do ensino sem o investimento necessário etc.

Foi lá em 2004 que eu comecei a cursar Pedagogia buscando entender esta e outras questões e é agora que eu venho demonstrar aqui uma partícula disso tudo. Afinal, se as escolas não conseguem ensinar, de todos os fatores apresentados aqui em cima, preciso contar um pouco do que ando vivenciando.

"Educação é a mais poderosa arma"

No início deste ano caiu no meu colo a pós-graduação dos sonhos: “Linguagens das Artes”. Além de ser oferecida pela USP e coordenada por Rosa Iavelberg (renomada professora da Faculdade de Educação da USP e intimamente ligada às artes), ainda encontrei o curso a tempo de me inscrever para a prova de seleção. Em cima da hora, mas a tempo.

Uma pós-graduação lato sensu na melhor universidade do país, com uma pessoa competente à frente e professores especialistas em arte e educação. O que poderia dar errado?

Nada. No entanto, até agora estou esperando pelo início do curso. De todos os módulos que tive durante este ano, posso dizer que aprendi alguma coisa com dois. Dois. Dois de mais de uma dezena.

E, ora, como eu poderia imaginar? O curso só tem indicações positivas. Professores de diversas faculdades da USP, muito experientes, plano bem estruturado, linguagens das artes contempladas no currículo. Na teoria, tudo parece correr bem. Na prática, a maioria dos professores tende a dar aulas em forma de oficina (que, sem a teoria, fica vazia e tola) ou excessivamente teóricas e sem correlação com a prática e com a proposta do curso.

A situação é cômoda, confesso: as aulas são ruins, a grande maioria beira o embromation. Os professores alegam que são poucas aulas para um assunto tão vasto, que deste jeito não conseguem aprofundar o tema etc. E já que não conseguem aprofundar, praticamente nem nos iniciam. Nos tratam como crianças em oficinas destinadas a esse público, nos enchem de jogos teatrais, livres expressões de dança, de música… Certamente oficinas que fazem sentido e são esclarecedoras depois de um embasamento na teoria. Depois de leitura. Reflexão. Caminhos. Propostas.

O curso faz o que faculdades e cursos de extensão costumam fazer com profissionais da área de Humanas (especialmente com pedagogos e envolvidos na profissão tão desvalorizada de professor): misturam oficina com auto-ajuda, fingem entrar na formação cultural do professor e trabalhar muito profundamente, mas são tão rasos, tão subjetivos e tão superficiais que enganam, no máximo, Gabriel Chalita.

"Ei, você, venha fazer pós-graduação com a gente!"

“Linguagens das artes”, esta pós-graduação tão promissora, talvez nada mais seja do que um reflexo, em outras proporções, desta educação que, como eu dizia no início do texto, já não anda grandes coisas.

Parece não haver por lá falta de estrutura ou de investimento, tampouco desvalorização do docente. Talvez o maior problema deste curso seja a falta de comunicação entre alunos e professores, coordenadores e professores, coordenadores e alunos, teoria e prática, currículo e vivência.

Frase adaptada de Gilberto Freyre, pichada nos muros da FEUSP

São apenas mais seis meses, uma monografia e eu posso me considerar uma arte-educadora sem nunca ter entrado em sala de aula numa discussão sobre conceito de arte. Sobre ONGs. Sobre atuação do arte-educador. Sem quase nunca ter tido discussões em cima de livros importantes, de autores de referência. Sem saber onde procurar para tratar de dança, de música, de teatro. Sem base para a prática. Para o fim social.

Entendo porque falamos tanto em avaliação em educação. Entendo porque tentamos seguir os passos do que deu certo, voltar a todo instante para pensar onde melhorar. Porque sem ligação, sem entendimento, sem coerência, tudo vira uma grande oficina sem propósito.

E talvez o grande problema disso tudo seja mesmo a falta de propósitos. Da creche ao doutorado. Pois a educação não anda grandes coisas na escola porque, anotem, a educação não anda grandes coisas para os educadores.

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20 comentários

  1. Que triste essa situação. Obrigada por compartilhar, bj.

  2. Olá Isabella, parabéns pelo post.
    Também tive essa experiência. Cursei uma pós-graduação em uma universidade estadual (muito bem conceituada) e fiquei extremamente decepcionado com a qualidade do curso, dos professores e da instituição. Parece-me que a tão falada qualidade das universidades federais/estaduais não passa de uma grande ilusão.
    A dificuldade em ingressar em uma universidade dessas cria a falsa impressão de que isso se deve à qualidade do ensino, quando na verdade se deve à incompetência do governo em prover ensino a todos.

  3. Belo texto, infelizmente estou de acordo com as suas opiniões. No momento estou vivendo a mesma situação no meu curso de graduação.

  4. Pois é, passei por coisa semelhante tanto na minha graduação (em uma faculdade estadual recheada de professores picaretas) quanto na minha especialização (que não chegou a terminar por falta de alunos).

    Acredito que hoje em dia, por todos terem relativa facilidade em cursar uma faculdade – ou mesmo especialização, mestrado, etc) – os cursos prezam pela nivelação (infelizmente, por baixo, pois grande parte dos alunos não teria condições de acompanhar um curso de média complexidade) e muito se perde no caminho.

    Muito ainda deve ser discutido, pois a solução não é simples – demanda tempo, dinheiro e boa vontade de muita gente.

  5. Oi Isa,

    Eu me interesso bastante por educação, por já ter trabalhado com isso e por ter vivenciado duas realidades distintas: uma numa faculdade de renome, particular, onde o corpo docente tinha incentivos bem desenhados e que funcionavam, levando realmente à qualidade do ensino e outra, numa faculdade estadual, onde os professores eram bem remunerados mas não tinham incentivo nenhum para sair da comodidade da posição que ocupavam.
    Posso dizer que não é falta de tempo que leva a desmotivação em aprofundar temas, como vc disse que foi usado como desculpa esfarrapada para o seu curso não levar adiante a proposta inicial. Não é difícil usar métodos diferentes para abordar assuntos de forma mais profunda. Universidades de fora do Brasil usam discussões de caso e preparação prévia de conteúdo e usam o tempo em sala para discutir conteúdo previamente preparado pelos alunos, por exemplo. Demanda dos alunos tempo fora de sala e não se fecha no que acontece só a uma sala fechada.
    Acho que o problema reside na falta de motivação, não só pelos salários baixos. Educadores se tornam ensimesmados quando não são cobrados a publicar, pesquisar, melhorar a qualidade do trabalho deles! Quando nada de bom acontece àqueles que se esforçam e nada de ruim acontece àqueles que não se esforçam, ficam todos na mesma vala!
    Ótimo texto! Concordo com vc em todos os pontos apontados e adoro quando leio aqui textos que nos fazem refletir sobre a realidade da educação no Brasil.
    Um beijo grande!

  6. Como ouvi da Chauí uma vez, a graduação virou o que era o colegial e a pós virou o que era a graduação.

    Pra mim o curso de Pedagogia e todas as pós da área deveriam ser destruídas e criadas DO ZERO com uma única condição: ninguém do conselho acadêmico pode ser pedagogo. Vale filósofo, vale engenheiro, vale poeta, só não vale gente formada em Pedagogia. ;-)

    Concorda, gata?

    Beijo.

    • Claro que não.

      E eu vou trabalhar com o quê?

      PS: Tem muito charlatão e charlatona nessa área, é verdade, como em todas. Mas precisa sim ter pedagogos para reconstruir a educaçã. Os excelentes, é claro.

  7. Isabela,

    Que maravilhoso seu texto. Infelizmente para um triste relato. Sua conclusão foi genial “a educação não anda grandes coisas para os educadores”. Somos soldados numa batalha enorme, presos a coisas maiores que nossa vontade de poder mudar algo no mundo. Mas vejamos de modo positivo: Chegamos ao fim da Educação como existe hoje. Nossas indagações são o futuro de algo novo, que vai valer todas nossas frustrações de hoje.

    Abraços

  8. “De todos os módulos que tive durante este ano, posso dizer que aprendi alguma coisa com dois. Dois. Dois de mais de uma dezena.”. Sei que você estava fazendo uma crítica, mas quais foram esses dois? Quem eram os professores? O que esses módulos tiveram de diferente?

    • Ulisses, foi uma crítica embasada: foram realmente só dois os módulos relevantes deste curso.

      Um dos professores é Marcos Neira, professor da Faculdade de Educação (com quem eu já tinha tido aulas na USP e em quem eu não apostava muito). Em seis aulas ele conseguiu falar de corpo e cultura e nos chamar a atenção para o assunto. Muita leitura, discussão, aulas completamente teóricas e excelentes (o que prova que não condeno o foco na teoria ou na prática).

      O outro professor ótimo que tivemos foi Alan Jupiter, de mídias digitais. Conseguiu dar um apanhada na chegada das mídias, nas ideias, nas concepções de um jeito leve e curioso. No final, nos ensinou muito com uma oficina de stop motion.

      Num meio onde as pessoas não sabiam criar um blog no blogspot, ele nos fez aprender na marra. Foi ótimo para iniciar o pessoal tão fora desse meio tão importante de se conhecer…

  9. E eu que achava que só a minha área de formação original é que andava tão problemática. A Relação entre pedagogia, propaganda, marketing é tão intima e devastadora em nossa sociedade que dá até medo!
    Só para exemplificar isso, basta ver quando se tem escolas que optam por ter clientes em vez de alunos, ou se vive em uma sociedade onde a “pedagogia do consumo” é o que é dá para começar a entender uma parte, bem pequena talvez, mas importante, dessa mixórdia que é a educação no Brasil. Quanto ao embromation vc não sabia que é parte de todos os currículos em todos os níveis escolares? Ah Isabel! Rsrsrsrs… ;oP

    • Só para constar que faltou um a em Isabel(a), mas tá bom eu tenho chamado uma Rosangela de Rose, tudo em casa nem Isa? :O/

  10. Oi, Isabella

    Assim eu fico muito em dúvida quanto aos projetos que ando fazendo para a minha vida. Eu estou fazendo Pedagogia, mas descobri que quero mesmo é ser professora de Educação Artística, trabalhar nos projetos de Tempo Integral, trabalhar com música dentro das aulas, mais vendo vc falar assim não sei mais se quero encarar a Faculdade de Artes, ou até mesmo a pós, aliás vc sabe me dizer, se sendo formada em Pedagogia com Pós em artes eu posso dar aula de Educação Artística ???

    Valeu pelas informações.

  11. Gostei, cara Isabella! Não sou contra dinâmicas de grupo, oficinas, questões de sensibização, mas vejo que, de maneira mais forte e incisiva, desde o início dos anos 1990, as “facilitações” nos cursos, ou seja, a besteira, o “embromation” é uma constante. Nesse assunto que você cita, a educação se cruzando com as artes, haveria/há muito a se ver, a se fazer, desde que os responsáveis quisessem/queiram. òtimo quando você, uma jovem, mostra-se antenada com a crítica nesse ponto! Tudo de bom pra você. Teu blog é dez!

  12. Interessante conhecer essa visão pelo lado do educador (ou da futura educadora, não sei), ainda mais porque é uma sensação que eu tive durante muito tempo na universidade e tenho receio de ter agora na pós, que é a de estar num processo de “tiodaeducaçãofisiquização” do ensino de Humanas. Não se aprofunda a teoria, não se cria relações lógicas no processo prático e tudo vira um amontoado de horas “brincando” no campinho.

  13. Apesar de não ser da área de Educação diretamente, percebo que realmente há um problema na educação brasileira, tão enraizado, tão grande que me dá a impressão de que, realmente, devemos reduzir a educação infantil a zero por alguns anos para que nesse tempo possamos formar bons professores, capazes de incitar reflexões, discussões, de passar “coisas boas da vida”…em recente discussão com o ex-reitor da UFBA (sou ex-estudante desta universidade) o mesmo apontava as melhorias advindas do processo de Universidade Nova, mas a pergunta maior é: os docentes estão cientes das mudanças que esse novo modelo traz?!Eles estão preparados para mudar comletamente a forma que ensinaram, muito diferente da forma que aprenderam?!Não culpo os professores, de forma alguma, pela decadência da educação brasileira…mas que eles são parte fundamental deste processo, isso são. Acho a pedagogia uma linda profissão, quando “vivida em sua plenitude”. Mas me entristece que as “boas” universidades tragam graduações e pós-graduações tamanhamente despreparadas e desfalcadas de conteúdo. E tenha certeza, essa área não é a única.:/

  14. Cleiton Soares Dias |

    Que tipo de educação queremos e teremos? Hoje em dia ter curso superior virou moda, uma moda sem conhecimento, sem pesquisa, de referenciais… O curso de Pedagogia deixou de ser sério, em qualquer esquina vc encontra curso de pedagogica de fim de semana, fim de mês. E a qualidade, onde fica?

  15. Postando de novo…

    Não sabia que já tinha acabado o curso… estou fazendo FEUSP, como você fez…

    1- aquela frase pichada, genial! Sempre me pergunto por que temos que ensinar. “Ora, porque os alunos precisam aprender”, diriam os diretores de qualquer escola. Nem os professores sabem porque ensinam. Chego no:

    2- com certeza os educadores estão totalmente perdidos. Esse curso é muito perdido (imagine os das muitas faculdades espalhadas por aí), acho que, porque não se dicute, pelo menos no começo da cada matéria, qual é o fim da educação para o professor que nos dará aula. Educação, para nós, graduandos, pode ser tudo! Então vai ser qualquer coisa… E vamos continuar reproduzindo o mesmo sistema que antes…

    é… e mudar não é fácil! Por onde começar? Pela escola, pela faculdade, pela política, pelo fim das desigualdades?

  16. Última frase devidamente anotada.

  17. Ótimo texto!!
    Infelizmente minha pós em Ensino de Língua Portuguesa foi do mesmo jeito: poucos dos módulos foram significativos e relacionavam a teoria com a prática em sala de aula, e não empurravam os conteúdos com a barriga. Diferente da Pedagogia e da Alfabetização, senti que não havia tanta comunicação entre os professores.
    Muitos cursos de Pedagogia seguem essa mesma linha.. E daí recém formado chega finalmente à sala de aula, percebe que não era tão lindo como ouvia na sua graduação e culpa a teoria, ou então aplica as receitas que aprendeu sem ao menos considerar as necessidades de sua turma.

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  1. Arte-educação e formação de professores | Isabellices - [...] que no longínquo ano passado, após ter esperneado por aqui, concluí a pós-graduação em arte-educação que fazia. “Linguagens da ...

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