Beatriz
Não gosta de cominho. Nem de coentro. Reconhece as iguarias já no cheiro do tempero do restaurante. Da calçada.
Não come a feijoada de um – porque nela há um dos dois. Nem o bife à rolê. É capaz de parar uma refeição no meio por causa do tempero. Mesmo que o colega de mesa garanta que não consegue sentir nada.
Alho e cebola, tudo bem. Cominho e coentro: nunca. Sofre pelo nordeste. O que, por lá, não leva esses temperos?
Chove pelo lustre da casa dela. Bem que pensou duas vezes antes de comprar um apartamento no último andar. Mas o preço estava bom e ela queria muito se mudar. Já não sabe se acredita no zelador ou na síndica. Talvez no zelador.
Agora, sempre que chove, pensa na casa dela. No dia que choveu estava lá, para acudir a casa num momento daquele. E olha que nem era para estar por lá. Devia estar viajando, decidiu chegar antes.
Chuva em São Paulo não é uma coisa boa. Lá no sul, tomou banho de chuva umas mil vezes. Aqui, a chuva é ácida, traz enchentes, água pelo lustre.
Não dormiu esta noite. Quer dizer, modo de dizer, né? Dormir dormiu sim, mas acordava de duas em duas horas, com cólica, tomava um remédio, deitava, esperava o sono voltar. Por isso está cansada a esta hora. Cansada.
Passou Jack nas unhas. Gostou do meu Arábia. Não gosta de passar esmalte ralo, não gosta: mancha. Riu do nome da cor de um esmalte: Inveja Boa. E isso existe? Devia ser branco, ao menos.
Beatriz na minha frente. Todas as personagens que já me confundiram naquela loira de olhos tão azuis, voz tão doce e presença tão delicada. Como Liz se encaixa ali? Não sei. Onde está Alaíde, de Vestido de Noiva? Procuro. E aquela que casa depois que cansa de tomar refrigerante? E a noiva do Ivam? Todas ali, escondidas dentro dela.
Será esta só mais uma personagem? Será esta parte, esta que eu vejo, sua Beatriz?

De louça, de éter, divina. Cléo de Páris.
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5 comentários


Sem dúvidas, seu melhor texto. Paguei um pau.
E vc mudou um pouco a descrição do blog, né?
Bjo.
Que lindo texto!
Me chama atenção a sutileza, a delicadeza, o carinho e as entrelinhas. Um 'quê' de crônica e declaração. Algo oculto e cuidadosamente revelado.Através dos olhos. Através da alma.
Parabéns!
só você pra me deixar feliz hoje. pra transformar as lágrimas de tristeza em lágrimas de felicidade. e fiquei pensando tanto em você depois que saiu naquela chuva! linda Isabella.
Acabou………nao tem mais presente.
O que foi, pai?