TEDx Amazônia, minha experiência
Eu tinha a intenção de escrever longamente sobre o TEDx Amazônia, evento do qual participei e de onde voltei um tanto quanto inspirada.
Acontece é que basta passear pela Internet para encontrar relatos interessantíssimos de gente que doou tempo para descrever lindamente o evento, com detalhes e curiosidades.
Aí, então, decidi passar aqui para contar que voltei do hotel flutuante do Rio Negro inspirada por agora saber que há boas pessoas nesse mundo. E hoje eu posso escrever aqui algumas poucas palavras sobre este evento incrível, depois de estar devidamente descansada do calor de 42 graus de Manaus, das poucas quatro horas de sono diárias e da longa viagem.
O TEDx é um evento que reúne gente interessante e gente interessada. Resumindo tudo: alguns palestrantes com boas ideias, ouvintes das mais diversas áreas e gente que quer espalhar as boas ideias. E mudar o mundo também, de certa forma.
E foi em cima do Rio Negro, que passa pela maior seca de todos os tempos, que passamos os dias ouvindo e discutindo sobre qualidade de vida para todas as espécies. Eram biólogos, educadores, músicos, dançarinos, economistas e gente que faz muito mais do que sua função é capaz de descrever.
Em meio a tantas palestras e intervalos breves, o tempo de tirar fotos foi insuficiente. Havia ainda mais beleza na região e tudo ia muito além do que as fotos conseguiam captar, como o pôr-do-sol do Park Hotel, a vista do transfer fluvial que nos levava ao Amazon Jungle Palace e o prenúncio do fim do mundo, quando o tempo fechou assim que nos despedimos do evento.
Foi pouco tempo, mas foi intenso. Tanto que pretendo organizar melhor as ideias e buscar mais dos palestrantes que mais me tocaram. O tempo de mais de uma semana para parar para escrever sobre, foi necessário para entender tudo o que passou, o que aconteceu e o que tocou. Larrosa, neste texto incrível, já diz que:
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.
Se experiência é o que o filósofo afirma, deixo aqui o relato de alguém que, em apenas um final de semana, viveu uma.
O que foi o SWU?
É claro que um evento gigante dá problemas e é claro que tem gente chata e mimada que exagera nas reclamações, mas o que acompanhamos na tentativa de festival sustentável SWU passa do limite.
Fomos no dia 10, comprovamos vários problemas e decidimos reunir boa parte do que encontramos em uma lista de críticas, mensagens no Twitter, relatos em blogs e algumas sugestões (já que dizem que haverá outra edição).
Talvez o que intensifique a revolta seja a insistência da organização em chamar esse evento comercial de “movimento social” e a falta de diálogo com as pessoas que pagaram e estão insatisfeitas, reclamando como podem Internet afora.
O bom é que deu para assistir ao Fórum pelo site oficial e a alguns shows pelo site da Oi e na TV (Multishow e Globo). Ponto positivo.
Se não pagamos para entrar, ficamos na tal da pista premium e ainda assim ficamos insatisfeitos, só conseguimos imaginar a dor de cabeça de quem pagou e se sentiu um otário no meio daquele parque de publicidade.
Principais problemas e sugestões
1. Pista premium, camping premium, praça de alimentação premium, vários locais de acesso restrito… Isso não faz sentido algum, principalmente em algo que é chamado de “movimento social”. Não custa nada abrir tudo, cobrar apenas um tipo de ingresso e criar um ambiente de igualdade. Essa cultura do VIP, um dos pilares do SWU, é curiosamente uma das maiores causas de nossa situação precária – ambiental e humana.
2. Preços humilhantes. Além do ingresso caro, a água custava 4 reais, um refrigerante 5 reais, uma minipizza (do tamanho de um pedaço de pizza), fria e crua, saia por 8 reais e um hambúrguer maravilhoso como esse da foto abaixo tirou 12 reais do bolso de muita gente.
Nada, nada justifica isso, principalmente em um evento com patrocínio e Lei Rouanet bancando 6 milhões. Se vão nos encher de comerciais em todos os cantos (até nos telões, logo após o último acorde de cada show), cobrem barato.
3. As comidas oferecidas eram incongruentes com a proposta do evento. Em vez de chamar empresas de fast-food como espetinhos Mimi, pizza, hambúrguer, cachorro-quente, crepe e afins, por que não movimentar a comunidade local com comida boa, caseira e barata? Grandes raves, como o Universo Paralello, fazem muito isso e dá certo.
Sustentabilidade envolve qualidade de vida e alimentação saudável. Um evento que preze por este movimento não pode se render e ter como patrocinadores empresas que produzem enlatados, industrializados, refrigerantes e que contribuem para a devastação florestal.
Além disso, apenas oferecer uma opção vegetariana não é a solução. Se é um evento também de reflexão, é necessário que seja dito, ao menos, que a indústria da carne é a que mais contribui para a insustentabilidade. Como parte da idealização do projeto, o correto seria a alimentação natural e vegetariana ser incentivada no evento.
4. Usaram copos e garrafas de plástico não reutilizáveis. Ou seja, muito lixo produzido por apenas uma só pessoa. Uma ideia seria dar uma caneca na entrada e distribuir água de graça em bebedouros gigantes. Se a Nestlé fizesse isso, certamente ganharia nosso respeito.
5. O SWU foi realmente inovador ao mostrar uma nova modalidade de greenwashing, envolvendo a produção de um festival de música e a apropriação do mote “Por um mundo melhor”. O resto é fácil: envolva grandes marcas e chame meio mundo de músicos para entreter o rebanho enquanto todos consomem lixo e liberam o máximo possível de dinheiro.
6. Sem nenhuma vergonha, uma parte do evento era destinada ao merchandising, o que soma para validar o evento como mais um de marketing verde. Afinal, qualquer um que se interesse por sustentabilidade sabe que a principal estratégia (melhor do que reutilizar e reciclar) é a de reduzir o consumo. Proposta inviabilizada pelos patrocinadores do evento e, no entanto, uma maneira da nossa tentativa de Woodstock brasileira aproveitar para lucrar um pouco mais.
Para forçar o consumo, as pessoas foram proibidas de entrar com água ou comida, o que gerou um lixo gigante já na entrada do evento.
7. O transporte e o estacionamento foram completamente mal organizados. Este talvez seja o principal foco das reclamações e das histórias de sofrimento (leia no Scream & Yell). Como se não bastasse, não havia bicicletário, o estacionamento para o mais sustentável dos veículos.
8. A formação da equipe de funcionários foi muito ruim. Falta de informação e desorganização em todas as falas. Tivemos um problema (pequeno, considerando o que lemos nos relatos) na hora de achar o estacionamento e a produção do evento foi clara ao dizer que não sabia. “Isso aqui tá uma zona, cara!”, sinceramente nos disse um cara com a camiseta do festival logo na entrada.
9. O tempo de todos os shows foi muito curto. Imagine um fã de O Teatro Mágico, por exemplo, que passou por muita confusão apenas para ouvir 6 músicas. “Ou cancela o show ou toca por 25 minutos”, foi o que Fernando Anitelli ouviu da organização do evento.
10. Bom, mas se o evento não foi sustentável, foi, pelo menos, um festival de música, não é mesmo? Mais ou menos assim, digamos: o som falhou em muitos shows, como Rage Against the Machine (caiu duas vezes e depois ficou baixo para quem não estava na área premium), Los Hermanos (som baixo), Regina Spektor (problema de retorno), Queens of the Stone Age (microfonia) e Yo La Tengo (som abafado e baixo).
Vaia do público.
Reclamações no Twitter
RT @rebiscoito: Vi tanta reclamação que algo me leva a crer que quem tá falando bem do #SWU ta ganhando uma boa grana.
RT @thenatinakajima: Patrocinadores (Coca-Cola, Heineken e Nestlé), vcs tão se queimando feio no #swu #swufail
RT @bqeg: O povo reclama do preço dos ingressos, do estacionamento, disso, daquilo, mas lota o evento. Vai entender.
RT @victorpotasso: #swufail Os ativistas q acreditaram no que esse evento prega com certeza devem estar morrendo de vergonha por terem contribuído c/ isso.
RT @ArturLA: #SWUFAIL comida cara. filas de horas para comprar. merchan caríssimo. Banheiros podres. Fazenda Moeda. Concordo. SWU foi um engodo.
RT @brunoscalzo: Toda a mídia fala de pequenos probleminhas no festival… lobby do caralho. Vamo falar a real, o que aconteceu NÃO PODE acontecer…#swufail
RT @PelicanoSuicida: Galera do #SWUFail, quem aí vai exigir dinheiro de volta? Eu vou…quem for também, fale comigo…ou não, sei lá.
RT @PelicanoSuicida: E enquanto as pessoas lesadas pensarem “Ah, mas o Brasil é assim mesmo”…o país vai continuar assim…mesmo. #SWUFail
RT @brunafernanda: O evento que se diz pró sustentabilidade fez todo mundo jogar os alimentos, cigarros, desodorantes, bebidas no lixo #swu SWUfail.
RT @anarosarp Caraca, a revolta ao #SWUfail tá mais organizada q eles, adorei! RT @marciaceschini @swuvaitomarnocu #swu #swufail
RT @itsous SWU devia mudar o nome pra FWU. Fail with you. Fuck with you. Fila with you. Firula with you. Frio with you. #SWUfail
RT @samucapessoa: Devia ter um telao na entrada do @swubrasil ja q a gente fica a maior parte do tempo aki. #swufail
RT @CortaOnda: RATM e DMB foram a redenção de um evento com muitas falhas. #SWUfail
RT @ricardocatarina: Ingresso: 400 R$, Coca Cola : 5 R$ , Pipoca 10 R$ , assistir o SWU de graça pela internet, ñ tem preço #SWUfail
RT @flaviadurante: Só vou acreditar que o @Eduardo_Fischer se preocupa com sustentabilidade quando a agência dele abrir mão da @monsantoco
RT @oestagiario: No Fórum do #SWU faltou um ppt com o título “Eduardo Fischer: Um visionário”. Mais uma confirmação da distância que quero dessa turminha.
RT romani83: Entrevistei um organizador do SWU pro @zonapunk antes do festival. A promessa era de que a experiência superasse os shows. Foi, mas pra pior.
RT @swuvaitomarnocu: No camping não podia nem fazer comida, que sentido faz um evento sustentável que incita as pessoas a consumirem mais embalagens?
RT @lini: o @swubrasil foi tão bom que até quem foi pago pra falar bem tá falando mal.
Discussão no Facebook
“Screw With You. Eu já adotei o novo nome.”
“E aí, organizadores? Cadê o pedido de desculpas?”
Notícias e relatos
- “SWU: e a sustentabilidade?” | Lidi Faria
- “SWU: cenário de festa ou de caos?” | Scream & Yell
- “SWU: música, sustentabilidade e dia perdido” | Sustenta News
- “SWU: o evento mais mal produzido…” | Bira David
- “Organização do SWU rebate reclamações” | G1
- “Irritado com a demora, público joga comida na polícia“ | G1
- “Fãs do Yo La Tengo sofrem com som baixo no Palco Ar” | G1
- “O país dos VIPs” | Denis Russo Burgierman
- “A imprensa contra a imprensa” | Rockinpress
- “Sem lenço, sem documento” | Pedro Alexandre Sanches
- “Sobre o SWU” | Gabi Veiga
- “Sobre a confusão na primeira noite” | Guto Sousa
- “Público reclama da infraestrutura dos campings do SWU” | Rolling Stone
- “SWU ou Woodstock FAIL” | Papolog
- “SWU: a insustentável leveza de “A Fazenda”” | Telhado de Vidro
- “SWU expõe as contradições de quem vê sustentabilidade como oportunidade de marketing“ | Revista Sustentabilidade
- “Como transformar uma linda noite em trauma ou o caos do SWU” | Move That Jukebox!
- “SWU começa muito mal com você e eu nem sei por onde começar” | Vida Ordinária
- “Insustentável” | Vida Perra
- “SWU: por que eu gostei” | Megacombo
- “Total.Con cresce com movimento SWU” | Propmark
- “O SWU captou 6 milhões de reais em incentivos fiscais via Lei Rouanet” | Veja
- “Diálogo real acontecido no evento” | Meia dúzia de 3 ou 4
- “O mais longo (e insustentável) dos dias” | Igor Santos
- “SWU: a far$a da $u$tentabilidade” | As bicicletas
- “Não! Nós não teremos um Woodstock” | 10porhora
- “Sua vida vale menos que uma garrafa PET” | Tira do sério
- “SWU: o festival que eu fui” | Rodrigo Zannin
- “Notas sobre o lixo (do SWU)” | Maira Begalli
- “O SWU foi ótimo e coerente” | Átila Iamarino (imperdível, o mais genial de todos)
Isso é só uma parte do que aconteceu na Internet enquanto o evento rolava. A hashtag #SWUFail, no Twitter, trouxe informações que a organização do festival escondia. Enquanto pessoas reclamavam do evento e pediam por ajuda, o perfil do festival no Twitter fingia não ler o que estava se passando. Fomos tratados como gado pessoalmente e virtualmente.
A repercussão negativa nas redes sociais só não foi maior porque a organização do evento comprou boa parte dos blogueiros influentes com ingressos, credenciais, regalias e privilégios. Chamando-os de insiders e pedindo explicitamente para enviar as críticas por email, nunca abrindo aos seus leitores, a organização conseguiu manter calada muita gente que meteria a boca no trombone.
Como nem tudo pode ser controlado na Internet, o evento nem precisou terminar para que o perfil @swuvaitomarnocu fosse criado no Twitter para fazer justiça com as próprias mãos e tentar fazer com que Eduardo Fischer veja o que estava além da área premium.
Ao reunir todas essas críticas, nossa motivação é deixar bem claro para a organização e para os patrocinadores que isso não é correto e não deve nem tentar ser repetido.
E para nós, público, é essencial saber nos organizar para não mais aceitarmos algo assim, não comprarmos ingressos, rejeitarmos o modelo premium, desconfiarmos de um “movimento social” proposto por uma holding de publicidade, deixarmos falir um festival mal organizado antes que ele capture 50 mil pessoas que vão seguir suas ordens, aceitar suas condições, repetir um discurso raso do que é sustentabilidade, pagar 100 reais no estacionamento e depois sofrer, acordar e reclamar para ninguém ouvir.
por Isabella Ianelli e Gustavo Gitti.
Festival de 67: minha música vencedora
Devia ser mais uma tarde comum na minha vida. Entrei na sala e vi minha irmã ouvindo uma música esquisita e parando de tempos em tempos para transcrevê-la. Parei para ouvir e, de fato, não é que a canção era curiosa?
Eu tinha onze anos e a música não fazia sentido nenhum para nenhuma de nós duas. Paramos para rir. “Sem lenço, sem documento”? “O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas”? “Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores”? Mais risos, um ponto de interrogação. A gente pouco entendia, mas muito gostava de tentar decifrar aquele enigma.
A música estava em uma dessas coleções de CDs promocionais de farmácia (do tipo: nas compras acima de cinquenta reais, pague mais dez e leve um CD!). Catalogado como MPB, trazia ainda Elis Regina cantando Fascinação, uma música que também descobri de maneira peculiar na infância: era o tema de abertura de uma novela do SBT que eu amava. Pois é.
Elis, Gil, Gal, Bosco, Elba: nenhum tinha vez. Alegria, Alegria era fascinante para nós, letra e melodia: a única que tocava naquelas caixas de som enormes da sala de estar. As duas obcecadas pela obra do cara dos caracóis no cabelo. Por que sem lenço, sem documento? Casamento, escola, Coca-cola? Por que Alegria, Alegria?
A música ficou em quarto lugar no festival de 67. Mas, para mim, é a melhor de Caetano, embora ele não ache e sugira até sentir um certo incômodo por isso. Se eu estivesse naquela plateia em 67, certamente faria parte do coro que gritava “Primeira!” para a canção dele e gastaria o resto das cordas vocais no ápice da música: “Eu vou… Por que não?”.
Para entender o bom da música brasileira, para sentir e morrer de inveja daquele tempo, é preciso ver este documentário: Uma Noite em 67. Foi lá, nesta noite que não vivi, que percebi que apesar de ser suspeita para falar da obra de Chico Buarque (de gostar de tudo, de me derreter de amores – inclusive por Roda Viva), apesar de achar Ponteio ótima e saber da importância de Domingo no Parque… Apesar de tudo, aquele era o ano de Alegria, Alegria. A grande vencedora, para mim.
Sim, é preciso ver este documentário. Para não saber para quem torcer, para se deslumbrar a cada novo artista, para desmistificar o ídolo. Para ver Chico Buarque sem saber o que dizer, Gilberto Gil menino, Caetano Veloso inocente e já sem papas na língua e Roberto Carlos sendo levado por uma repórter pentelha. Para ver o que nunca mais vimos.
Para morrer de raiva por saber que hoje temos a Internet, o Youtube, bandas se tornando independentes, mas antes tínhamos músicas incríveis passando na televisão. Festivais sendo transmitidos, compositores novos, cantores excelentes, poesia nas letras, arte nas melodias e batalhas quase que sangrentas pelo primeiro lugar.
Para morrer de amores pela música brasileira, que nunca é tarde. Se você ainda não começou a se desmilinguir por ela com um CD promocional qualquer, aproveite e comece agora com este documentário.
O teatro chora
Eu não queria ter de falar sobre a morte aqui de novo. Não queria porque eu não entendo. Porque eu recebo comentários que dizem mais do que meu texto, que escancaram a realidade ou que a disfarçam. Que sabem.
Mas por esta eu não esperava: morreu Alberto Guzik.
Conheci o Guzik quando conheci Os Satyros. Nos conhecemos pessoalmente, mas nunca trocamos mais do que duas palavras. Só nos víamos nos fins de espetáculos e eu me recolhia à minha insignificância. Só admirava Guzik.
Uma amiga minha zombava do modo romântico com que eu me referia a ele quando falávamos de teatro. Achava graça. Eu acredito nele, no seu teatro. Como ator, como autor, como crítico, como blogueiro.
Logo após conhecê-lo, passei a ler diariamente seu blog, linkado aqui ao lado. Os dias e as horas.
Eu gostava do nome do blog dele. Gostava de como ele o atualizava cuidadosamente todos os dias. E, muitas vezes, mais de uma vez por dia. Gostava especialmente dos seus tipos urbanos, quando ele descrevia, com detalhes, uma cena cotidiana observada por ele. Eu sempre achei que ele devia ser um ótimo observador. E era, tenho certeza.
Se eu, algum dia, já fui fiel comentarista em algum blog, certamente foi no dele. Mas não comentei tanto quanto li. Li muito. Acho que, desde que passei a acompanhar seu blog, li tudo.
Engraçado. Não éramos amigos. Quase que nem éramos conhecidos. Tinha a impressão de que, se nos cruzássemos, eu teria que me apresentar novamente. Mas conversávamos pela Internet. Muito. Eu comentava por lá, ele por aqui. Nos líamos. Ele chegou a me tratar por “Isa”. Achei graça. A internet aproxima as pessoas, parem de dizer o contrário, teóricos.
Já cheguei a mandar um email a ele oferecendo ajuda no projeto dos sonhos dele, do Ivam, da Cléo… Oferecendo meu sincero interesse em aprender com eles. Ele leu. E respondeu. E, atencioso, disse que ainda tínhamos muito o que conversar. Tempos depois, vi que ele levou minha proposta a sério. Citou meu nome num projeto. De certa forma, confiou em mim.
E, sempre discreto, um dia anunciou que ficaria um tempo fora da Internet. Delicadamente, como costumava fazer nos meios virtuais. Disse algumas semanas. E eu esperei. Por força de hábito – e por não imaginar que o caso era tão mais grave – eu continuei a entrar no blog dele na esperança de vê-lo de volta, escrevendo da cama do hospital, esperando receber alta ou simplesmente já em casa, contando detalhes do que viveu.
A notícia me deixou muito triste. Há mais de quatro meses ele sofria na cama de um hospital. Parece que muitas foram as complicações… Ele lutou muito. Sofreu, é verdade. Podemos dizer que agora a angústia passou.
Mas me dói pensar nisso porque eu lia suas palavras. Eu via quantos planos, projetos, sonhos. Assisti a todas suas últimas peças. Ele parecia não parar nunca. Trabalhava, listava seus afazeres, contava as novidades no blog. E lia, citava, lia… Ainda tinha muita coisa pela frente.
Esperamos que as pessoas cumpram sua missão pela Terra para, depois então, partirem. Assim queremos, mas não é sempre assim que acontece, infelizmente. Guzik fez tanto que queríamos que ele ficasse por aqui um pouco mais.
E ontem o mundo dos blogs teatrais sofreu e gritou sua dor. Fernanda D’Umbra, Sérgio Roveri, Cléo de Páris. Além destes, uma linda homenagem no site da SP Escola de Teatro.
Mas é do blog do Ivam Cabral o post que não me saiu da cabeça:
15/02/2010
Alberto
Acordei bem cedo hoje. Quis acompanhar o Alberto ao hospital. Às 7h. lá estava na Fernando de Albuquerque para apanhá-lo. Incrível sua disposição. Desde que soube que precisaria passar por uma cirurgia, há um mês mais ou menos, Alberto se encheu de serenidade. Ontem à noite confessou-me que em nenhum momento ficara triste. “Nunca recebi tanto amor”, confidenciou-me. E hoje, quando nos despedimos ele sorrindo me disse: “se acontecer alguma coisa, saiba que foi um enorme prazer”.
Alberto Guzik, digo o mesmo: para mim, foi um enorme prazer.
“Alice”, de Tim Burton
Desde abril do ano passado espero por este dia. O dia de ver Alice.
Nem tanto pela história, mas mais por conta do meu caso com Tim Burton. Adoro seus filmes e ver uma história tão sem nexo (como Alice foi na minha infância) nas mãos dele era a oportunidade perfeita de me ver perdida novamente. Só que, desta vez, num lugar mais sombrio, mágico e… E mais Tim Burton!
Apesar das críticas ferrenhas, fui esperançosa de ver na tela mais do diretor e menos da loirinha protagonista.
O filme começa devagar e demora para começar a nos prender. A culpa não é do diretor. Ele precisava dar uma satisfação, afinal Alice é a continuação daquela história que lemos na infância. Pois é, Alice cresceu e leva um tempo até esta história engatar e até o País das Maravilhas começar a fazer algum sentido.
Quanto às críticas negativas que li a respeito da atuação de Mia Oompa-Loompas Wasikowska, a moçoila que protagoniza a história, confesso que achei todas injustas. Comecei com um pé atrás com aquela cara lavada, aquele loiro homogeneamente espalhado em sua pele, alma, cabelo e coração. No entanto, não demora muito para sentirmos que ela é perfeitamente Alice e que não haveria outra para ocupar seu lugar.
Confesso que no início pensei em Scarlett Johansson para assumir o papel. Mas aí lembrei que meu namorado não se concentraria no filme etc e tal. E desconsiderei a possibilidade. Tim Burton acertou sim na protagonista.
No filme, Anne Hathaway vive a Rainha Branca e, apesar de eu adorar a atriz, acredito que este tenha sido seu pior trabalho. Não sei se é muito fácil brilhar como a mocinha da trama. Coisa chata esse papel. Tirando uma ou duas cenas, sua personagem não muda no tom da fala, nas expressões e é até um estereótipo estranho: fica com as mãos levantadas o tempo todo, numa pose de mocinha muito esquisita. Nem merece uma foto por aqui.
Apesar de Johnny Depp estar muito bem como o Chapeleiro Maluco, o grande destaque vai para Helena Bonham Carter, a baixinha cabeçuda da foto acima, esposa de Tim Burton e a alma de qualquer filme dele. A Rainha Vermelha é a essência da trama e, vez ou outra, consideramos a ideia de torcer apenas por ela. Ela é o que há de Tim no filme. Malvada, excluída, esquisita, estranha, sombria… Frágil.
Resumindo, Alice é um filme de figurino impecável, cenário e efeitos lindos e algumas atuações brilhantes. Mas… Sim, eu esperava por algo mais. Eu queria mais de Tim Burton nos cenários, nos diálogos, mais magia no País das Maravilhas e menos sensatez por lá. Mas eu também fui cheia de expectativas. E mesmo não sendo tão obscuro quanto eu pensava que seria, Tim Burton é Tim Burton e por isso eu recomendo. Qualquer obra dele merece ser apreciada.














