Sábado à noite, dois ingressos para um espetáculo qualquer no Sesc Vila Mariana. Um colega indicou exatamente esta peça: “Exercícios nº 2: formas breves”, mas como não o conheço muito e não sei do seu gosto, quase que desconsiderei. Só decidi dar uma chance quando o espetáculo praticamente tropeçou no meu caminho: ganhei dois convites.
Já no Sesc, esperei meu namorado chegar. No fim das contas, descobri que ele não chegaria a tempo e lá fui eu fazer uma coisa estranhíssima que amo: ir ao teatro sozinha. Nada mais assustador e empolgante do que se aventurar a entrar num teatro qualquer sem ninguém para te apoiar, para servir de testemunha. Experimente. Tudo pode acontecer numa peça de teatro, sempre leve isto em mente.
Confesso que comecei a assistir ao espetáculo com um pé atrás. Li um pouco sobre a peça: “fragmentos de livros”, “elenco diverso”, “universo contemporâneo”. Tudo isso daria uma bela sessão de um pouco de tudo formando um nada desinteressante, não é mesmo? Pois é, mas não é este o caso.
Atuações brilhantes. Não posso acreditar que alguns não são atores profissionais. Já vi tanta peça com gente “renomada” que não chega a fazer metade do que eles fizeram. Expressão corporal, elenco em perfeita sincronia e aquele chiadinho carioca a peça toda.
O figurino é preto. Não é uniforme, apenas preto, o que acentua o trabalho dos atores e, assim como o cenário, torna possível as diversas cenas. Aliás, sobre o cenário: impecável. Mesmo. Dos melhores que já vi. Das projeções aos fios e às roupas espalhadas pelo chão. Um tudo que vira nada e volta a ser tudo: as roupas viram terra, que viram chão, que viram roupas. Os fios são parte de um hospital, de uma fábrica, do cenário e chegam até a parecer um céu. Pode?
Um trabalho coletivo e lindo que mescla pesquisa, leitura, atuação, artes plásticas, expressão corporal e o que mais você conseguir imaginar. Aproveite para ver, afinal, uma das mensagens da peça é: “O homem se faz na linguagem que o faz”.
Exercícios nº 2: formas breves
Direção: Bia Lessa
Sesc Vila Mariana
Até o dia 13/12
Sextas e sábados às 21h
Domingos às 18h
por Isabella Ianelli em 6/12/2009 | arte e cultura | 4 comentários
Duas senhoras se encontram todas as quartas-feiras para um tradicional chá da tarde. Pode parecer inusitado, mas estas senhoras são Gabriela Ravanhani e eu.
Depois de algumas apresentações fechadas, chegou a hora de dar a cara a tapa em São Paulo.
Então, fica aqui o convite. Convite mesmo porque não é necessário pagar nada para entrar.
“Quarta-feira, sem falta, lá em casa”
Quando? Dias 22 e 23 de outubro (quinta e sexta)
Que horas? Às 20h30min
Preço? De graça!
Preciso de convite pra entrar? Não!
Preciso ir? Sim!
Onde? No teatro do Colégio João XXIII
Ahm? Rua José Zappi, 87
Mapa aqui.
Espero por vocês lá…
por Isabella Ianelli em 18/10/2009 | arte e cultura | 5 comentários
Eu sei, você não tem mais dez anos de idade e não vê desenhos animados desde Shrek – que te insistiram pra assistir. Mas Up, Altas Aventuras quase que não é um desenho animado. Quase que é vida real.
Dirigido por Pete Docter, Up foge do que costumamos ver em desenhos animados. Em primeiro lugar, esqueça aquele ritmo frenético de filmes que não querem perder a atenção dos pequerruchos. Importante, claro. Mas muito melhor é oferecer a crianças, adultos e idosos uma outra forma de narrativa. Ora calma, ora agitada. Cenas sem falas, nas entrelinhas. Tempo para a tristeza, tempo para o sofrimento. Simplesmente: tempo.
Os personagens centrais não são, digamos, mocinhos. Tudo bem que esta fórmula já foi repensada há um tempo nos desenhos. Mas cabe ressaltar: no centro da trama estão um senhor e um menino. Duas gerações separadas e agora unidas.
Carl, Russel e um GPS
Duas pontas da sociedade: criança e idoso tratados com respeito. Não são passivos, dependentes ou infantilizados. Mas também não são heróis disfarçados. O filme se preocupa em manter o idoso como idoso, a criança como criança e até o animal como animal (cena rara nessas áreas). O idoso apegado às suas coisas, sua casa, seu passado. A criança que dá chilique porque quer ir ao banheiro. O animal que não se mete no meio da briga para ajudar seu defensor porque, ora, é um animal.
E como todo bom desenho, Up toca no tema do amor. No amor romântico, sim, mas vai além: o amor nasce entre os protagonistas com a aventura. Uma nova amizade, um novo sentido para viver. Uma cena em especial representa o rompimento de Carl com seu passado. Sua nova missão.
Só pelos motivos citados, eu já assistiria ao filme mais umas três vezes. Mas tem mais: Up toca em um tema delicado para um filme infantil e em que poucos se arriscam a entrar, a morte. Sem religiosidade ou misticismo, as decepções e a morte são tratadas, simplesmente, como parte da vida.
Agora se você já está achando Up, Altas Aventuras um desenho racional demais, não acredite em nada do que eu escrevi aqui em cima. Imagine um sonho, uma casa, balões e a cena que toda criança já quis viver na vida.
por Isabella Ianelli em 14/10/2009 | arte e cultura | 8 comentários
Quais são as regras da sedução? Existe uma fórmula para a conquista? Onde termina a lógica e brota o sentimento?
A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth) é uma dessas histórias que você já conhece. Abby Richter (Katherine Heigl) é produtora de um programa matutino: loira, linda, inteligente e alguém que acredita no amor. Na espera por um companheiro que complete os dez itens da sua criteriosa lista de exigências, ela encontra, na janela ao lado, um novo vizinho. Um primeiro encontro atrapalhado e a mocinha da trama já está apaixonada.
Enquanto isso, Abby descobre que o novo comentarista do seu programa é um conselheiro sentimental peculiar. E que, para vencer a espontaneidade estrondosa do galanteador no ar, colocará a conquista do seu futuro namorado em jogo.
Com dicas baseadas no pensamento masculino, o terrível Mike Alexander (Gerard Butler) mostra a ela como conquistar um homem. Aponta os erros na imagem, nas ações e apresenta soluções infalíveis. Nada que as mocinhas já não imaginem. Mas muito interessante quando apontado ferrenhamente. Ainda mais para a bela Katherine Heigl, que consegue ser linda até de ponta-cabeça. Mesmo.
E entre tantos passos e poses planejados, ligações perdidas, encontros marcados e desmarcados, ele mostra como seduzir. Teoria e prática. Como se o amor fosse resultado de uma conquista eficiente (e vai dizer que não?).
Sim, o amor pode acontecer depois de tudo isso. A conquista pode ter regras mais ou menos eficientes. Mas existe um jeito de racionalizar e se envolver? Ou, racionalizando a conquista, estamos sempre à parte destes seres mortais que se apaixonam por ligações, encontros e beijos? Como explicar quando nasce o amor por quem faz tudo errado? Como se apaixonam por caretas, sorrisos, vestidos, gostos, bilhetes, jeitos, vontades, mãos? Como se apaixonam por pessoas?
Por fim, a verdade nua e crua: qual é a graça de conquistar senão ser também conquistado?
Vai lá ver: o filme estreia nesta sexta-feira, dia 18 de setembro. O trailer legendado
aqui.
por Isabella Ianelli em 15/09/2009 | arte e cultura | 4 comentários
No chão, uma mulher. Jogada. Dopada com um comprimido para dormir, ela está enrolada em uma camisola, com a cabeça coberta por um tubo de crochê que a prende na parede.
No vídeo, uma dançarina de flamenco no palco, toda vestida de branco, se alfineta sem parar. O resultado, após poucos minutos, é um vestido branco, florido de sangue. Em sua face, nenhuma dor. A pose.
Outro vídeo: numa cadeira, uma mulher vestida de preto. Levanta a saia e com uma faca (e paciência) começa a se cortar. Ao fundo, notamos o pé de um homem, parado. Ela termina de escrever. A perna sangra. A palavra jorra: “perra”. Cachorra, em espanhol.
As obras são, respectivamente, de Laura Lima, Pilar Albarracín e Regina José Galindo. A exposição, intitulada Corpos Estranhos, está no MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) e é um convite para refletirmos um pouco sobre o corpo na sociedade contemporânea, suas marcas e nossas máscaras.
Toilette, de Albarracín
Repugnantes e dolorosas, as obras mostram diferentes situações em que a mulher é quase um objeto. Como vítima e como cúmplice. É a mulher que veste a camisa-de-força – ela é complacente de sua situação. É ela que mutila sua perna, observada por um homem. É ela que se dopa. É ela que se alfineta. É ela que… É?
Até onde dominam? Onde começam a se deixar dominar? O dominador precisa de um dominado. E o dominado?
É certo que não podemos generalizar os muitos casos de violência contra a mulher, afirmando que elas são cúmplices desta situação (porque, conscientemente, não são). Entretanto, cabe aqui parar para pensar que talvez estas atitudes sejam apenas reflexos de uma sociedade que ainda nos trata com desigualdade.
Em 2007, o relatório social da FUVEST perguntava aos candidatos sobre o grau de instrução de seus pais. A alternativa marcava para o pai, até a pós-graduação e para a mãe, até o ensino superior. Erro grave para uma das maiores instituições da América do Sul.
Aliás, hoje, a maioria dos estudantes da pós-graduação da Universidade de São Paulo é composta por mulheres. Talvez seja uma forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho, já que os homens continuam ganhando mais do que nós. O jeito é recorrer à especialização antes.
E entre alguns retrocessos e outras conquistas, estamos em tempos de lei Maria da Penha, que veio para nos mostrar que ainda falta muito. Se precisamos de uma lei especial para que homens violentos sejam punidos, é porque a situação é muito grave. É porque existem homens que, realmente, se sentem superiores à mera existência feminina. Mais uns oito mil anos para a humanidade evoluir a ponto de perceber que Darwin tinha razão e que todos nós viemos do macaco.
Onde? Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)
Até quando? 4 de outubro de 2009
Visita orientada? Sim (fui com a professora Maria Angela Serri Francoio, que foi muito simpática e me instigou a pensar no tema).
por Isabella Ianelli em 27/08/2009 | arte e cultura, cotidiano | 4 comentários