Charlotte York, Carrie Bradshaw, Miranda Hobbes e Samantha Jones
Do seriado Sex and the city, as pessoas sempre acham que sou a Carrie. Todo mundo com quem converso logo me encaixa na escritora. E eu odeio, claro. Odeio a Carrie. Não que eu a odeie realmente, pois o seriado, praticamente, passa em torno da vida dela. Mas ela não é a pessoa com quem eu gostaria de ser identificada.
Por que não? Fator um: ela fuma. Eu nunca me identifico com fumantes. Não acho chique, charmoso, elegante, nada disso. Acho nojento, vulgar, medroso, fedido, corrói o pulmão, a saúde y otras cositas más. Não consigo me imaginar na Carrie porque não me vejo fumando. Nunca. Nem por brincadeirinha. Odeio de verdade.
Mas não para por aí. Não gosto da Carrie porque ela é mulherzinha demais. Faz poses, caras e bocas de mulher independente, mas na hora H corre atrás do Mr. Big. Convenhamos, este cara é um pateta. Durante todo o seriado deixa a Carrie, a abandona, casa com outra, Carrie vira sua amante. É, os dois são uns patetas. E no filme, quando decidem casar, ele a larga na igreja por medinho. Medinho, Mr. Big? E o pior: ficam juntos no final! Ah, faça-me um favor…
Tudo bem, Isabella. Se você não gosta da Carrie porque ela fuma, é metidinha e mulherzinha, deve gostar da Miranda que é advogada, independente, correta, certo? Errado. Acho a Miranda muito chata. Acho o caso/amigo/namorado/pai do filho/marido dela, o Steve, outro chato, sonso, estranho. Falta sal, pimenta, tempero e tudo mais nesses dois. Pensando bem, eles combinam. É, combinam. Entre eles, me deixem aqui.
Se você achou confuso até aqui, não sabe da pior. As duas mais normais eu dispenso. Agora, Charlotte e Samantha são minhas prediletas. Se você conhece o seriado, já entendeu o tamanho da loucura. Do contrário, aguarde. Explico.
Charlotte é a boa moça. Romântica, iludida, meiga e delicada passa as muitas temporadas procurando por seu príncipe encantado. Encontra-o num médico rico, educado e bem-sucedido. Quando casam, percebe que o marido tem um “probleminha”: eles não conseguem ter relações sexuais. Ele não consegue e recusa qualquer tratamento. Aí, então, a graça: eles se separam por causa da última coisa que poderia afastá-los. Afinal, Charlotte aguentaria qualquer coisa pelo príncipe, mas percebe que não se vive só de aparências.
Já Samantha é o oposto de Charlotte. Independente, bem-sucedida, sedutora, segura e libertina. Dispensa comentários. Não se prende a relacionamento algum, adora o jogo da conquista e dá aquele sorrisinho sarcástico que, em qualquer outra, eu odiaria.
Se eu gostasse da Carrie e da Miranda, da Charlotte e da Carrie, da Miranda e da Samantha, a gente até podia tentar uma intersecção. Mas não: eu gosto das duas mais diferentes, da impossível junção de Charlotte e Samantha. Complicado.
Enfim, escrevi tudo isso para dizer: I am not a Carrie. Não mesmo. Não assim. Devo ter um tantinho dos cachos dela mais uma certa burrice. Um pouco do cinismo da Miranda. Algum figurino da Charlotte. Aquele sorrisinho da Samantha. Devo ter, sei que devo ter. Mas não tenho uma camiseta certa para comprar.
NOT
por Isabella Ianelli em 26/06/2009 | arte e cultura | 2 comentários
“Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo…”
Toda vez que ouço esta música, me sinto transportada para o Rio de Janeiro. Mais especificamente: para o bairro do Leblon, dentro de uma novela do Manoel Carlos, Laços de Família. A novela que me fez fã (por pouco tempo, juro!) da Vera Fischer como atriz.
Eu tinha catorze anos e assisti à novela desde o primeiro capítulo. Aquela coisa mpb, bossa nova, livraria, praia, vida calma, voz da Bebel na abertura, poesia recitada,
Gianecchini... Essa coisa toda me consumia.
Lembro pouco do que fiz naqueles meses. Vivi para a novela, tenho a impressão. Comprei a piranha que a personagem da Carolina Dieckmann (que eu odiava, por sinal) usava no cabelo. Já que não conseguia ter os cabelos louros e lisos dela, recorri à outra personagem (bem feinha, por sinal, coitada), que tinha os cabelos enrolados e empastados de creme. Eu fazia igual. Pelo menos alguém daquela novela eu tinha que ser.
É, não vai pensando que é fácil ter cabelo enrolado. A pior parte está aí, aos catorze anos. Até então meus cabelos eram lisos e, de repente, eles resolveram se rebelar.
Como assiiiim, não façam isso comigo, pelamordedeus, não agora que tá passando essa novela em que todo mundo que é bonitinho tem cabelo liso – implorei. Nada. O jeito era assumir. Passava creme, muito creme, quanto mais, melhor. Não dava certo. Também, enquanto a juba o cabelo tentava secar do monte de creme, eu passava as mãos, os dedos, mais creme, enfim, tudo o que uma pessoa com cabelo enrolado jamais deve fazer. Fica a dica para as mocinhas. E para os mocinhos também. Nada de mexer no cabelo ruim da namorada se quiser vê-la bonita. E nada de ver novelas se você está passando por uma fase de transição.
Voltando, eu queria mesmo era ser a Vera Fischer. Bonitona, bem-sucedida, loira, linda, numa vida meio bossa nova e
rock´n roll mpb, a concretização da personagem principal de qualquer livro da Danielle Stell. Isso sim é que é mulé: conquistou o meninão da trama e ainda o cedeu para sua filhota chata.

Linda até sangrando, Veroca! Por isso que eu nem reparava na interpretação…
E, então, toda vez que ouço essa música, lembro deste universo todo. O Leblon em que eu nunca estive, mas sou íntima, meus catorze anos, os dilemas da novela, meu cabelo empastado de creme, o Gianecchini cantando apaixonado e de braços abertos na sua mansão: “Quero a vida sempre assim, com você perto de mim, até o apagar da velha chama…”. Quem aguenta?
PS: Preciso escrever a parte mais bonita da música. Sério, não vou conseguir dormir sem isso: “E eu que era triste, descrente desse mundo, ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor…”. Ai.
por Isabella Ianelli em 17/06/2009 | arte e cultura, cotidiano | 1 comentário
No mural “Quem tem alma se expressa”, foto de Vinny Campos
Os worksaraus do Galdino sempre me fazem bem. O primeiro foi libertador. Foi lá que meu ano começou. Workshop sobre fotografia, depois história da música. Jantar, clima amigo, risadas, piadas, pocket show. Minha música. Depois de tudo isso e de conversar por, sei lá, mil horas com o anfitrião, começou meu 2009. E começou de verdade porque, na mesma semana, comecei a me abrir e a me sentir e a encontrar. Me encontrar. Em mim e em outras coisas e pessoa(s). Enfim.
O segundo worksarau (na foto) foi mais bagunçado. Também, tendo eu como co-produtora, vegetarianismo em pauta, mural “Quem tem alma se expressa”, minha apresentação com Galdino do texto “A Feira da Escassez” e mais de setenta pessoas zanzando pelo casarão de Embu das Artes, podia ser diferente?
Neste sábado aconteceu o terceiro worksarau. Ou melhor, worksarau versão 2.5, como Galdino preferiu denominar. Mais íntimo, mais acolhedor e no mesmo clima do primeiro: amigos, risadas, novas amizades.
Primeiro, um sarau com poesias selecionadas de Fernando Pessoa. Li esta: linda. Foi sem querer e virou minha predileta da noite. Pausa para um lanche e retornamos no salão da casa, para um workshop sobre Taketina, com Gustavo Gitti. Incrível! Todos lá, embasbacados com a técnica, o método, a coisa. O fluir da música, do ritmo, das vocalizações, das pulsações e dessa energia toda no corpo. Não sei explicar, mas se informem. Taketina é uma delícia!
Em seguida, Galdino leu alguns textos que inspiraram suas músicas ou que foram inspirados nelas. Todos de autoria dele, todos interpretados muito bem por ele. Depois, o show: Galdino Octopus. Suas músicas e minhas prediletas (entre tantas): Panapaná e Cirandeiro.
O worksarau é uma grande necessidade minha. Não temos espaços para trocas assim. Estar por lá me faz lembrar de que, não só eu, mas todo mundo, todos nós: nós somos NADA! Você ouve Galdino tocando suas músicas e pensa que não há NADA mais sublime, você participa de uma roda, vê como funciona a Taketina e sente que te falta muito para entender. Você lê Fernando Pessoa, se apaixona, quer mais e sente como seu blog é insignificante. Seus escritos, suas tentativas todas.
Você vê através da lente de Vinny Campos e se pergunta por onde andaram seus olhos neste momento. E o mesmo serve para vida: onde você esteve que não percebeu tudo isto acontecendo ao seu redor? A voz da moça que cantou, o momento do fotógrafo, a dança da bailarina, a habilidade dele na Taketina. Lá a gente troca. O mais importante, o mais especial, o que mais me atrai. Trocar.
PS: O vídeo linkado em Cirandeiro eu fiz em novembro do ano passado, com meus alunos. Ensinei a música para eles no meio do ano, inventamos uma coreografia e eles amavam dançar e cantar esta música do Gadino. No final do semestre, tive que registrar a felicidade deles na roda, a disciplina, o entendimento e o girar do Arthur (o loirinho que se atrapalha na música mas continua, girando com a espontaneidade e a leveza que dançarinos levam anos para conseguir). Para vocês, a minha parte nesta troca.
por Isabella Ianelli em 1/06/2009 | arte e cultura | 3 comentários
Hoje fui assistir novamente à belíssima montagem d’Os Satyros, Liz. E, incrível, deu pane na iluminação! Na hora me arrependi de ter ido: não estou dando muita sorte para o grupo. Já relatei aqui que a energia falhou no dia em que fui ver a peça do Guzik, Monólogo da velha apresentadora, no Espaço dos Satyros Um.
Só que hoje o problema foi mais sério. Não foi um simples apagão e ninguém sabia o que tinha, de fato, ocorrido. Fora que não dava pra Liz continuar seu texto lá no palco (ou improvisar, como fez a velha), iluminada por um canhão e rezando para que a luz voltasse.
No fim, tudo deu certo. Ivam, querido Ivam, contou para a plateia do problema, disse que estavam procurando uma solução e encontraram. Ufa. Adorei rever a peça. Ivam ótimo, Penna arrasando e ainda ter o prazer de ver de pertinho a linda (lindíssima) e musa de voz, talento, nariz, cabelos loiros e olhos azuis, Cléo de Páris. Tão talentosa! E um encanto. Como pode ser tão doce?
Acabou que não dei um abracinho em nenhum deles. Mas voltei feliz porque gosto muito do que fazem.
por Isabella Ianelli em 23/05/2009 | arte e cultura | 3 comentários
Não é por nada não, mas criança é uma coisa. Aos onze anos de idade, eu escrevi este poeminha. Do nada. Ainda lembro, em Vargem, na casa dos meus avós, inspirada pela mesma árvore que estes dias sustentou meu tecido acrobático.
Dias depois, minha mãe achou o poema e o achou fantástico. Me denominou poeta por natureza. Eu não sou, mas criança é uma coisa mesmo. Eu não definiria tão bem. E ficou fofo, convenhamos. Ai…
“O que é o amor?
É uma pontinha de dor?
Ou uma felicidade no coração?
É quando você ouve uma canção
E depois quer fazer um sermão
E fica deixando suspiros pelos lados
Enquanto seu amado
Não quer saber de você
Será uma planta morta?
Ou uma porta?
Que abre e fecha sem parar…
Será uma mala?
Que quando abre a gente se entala
E quando fecha a gente se cala?
Ou uma semente?
Com paz, felicidade e igualdade
Que se espalha por todas as idades… ”
PS: Alguém só me explica a planta morta aí no meio. Certo, eu já sofria de amor.
por Isabella Ianelli em 22/05/2009 | arte e cultura | 3 comentários