Compre-compre-compre
Primeiras prateleiras. Escova de dente, absorvente, sabonete, fio dental, cotonete. Coisas que você só lembra de última hora. Na segunda, revistas semanais. Fofocas pra todos os gostos. Tratam de pessoas reais como se fossem personagens de novela e personagens de novela como se fossem pessoas reais. “Helena morre ao tentar salvar o filho”, “Dado é preso por frequentar o mesmo espaço que Luana”, “Ator global namora em praia carioca”, “Raj se emociona com gravidez de Maya”.
Se você passou por esta prateleira, a próxima é mais tentadora. Chocolates de todos os tipos, tamanhos, cores. Para todas as vontades. É a hora que eles querem que você pense: é disso que eu precisava! E, se você está de regime, eles também pensaram em você: na prateleira seguinte, barras de cereais. Muitas. Para você comprar sem sair da linha.
Agora, se você é do meu tipo e saiu ileso(a) às tentativas, a última prateleira é pra chutar o pau da barraca. Eles pensam (tudo oculto, mas pensam, eu tenho certeza): você não vai comprar nada, mas seu filho vai! Salgadinhos, doces coloridos, chocolates com brinquedos, brinquedos com chocolates… É a revolta do supermercado, o ápice das compras, o golpe baixo, a cartada final. Você não quer gastar, mas pelo seu filho, você vai.
PS: Recomendo o documentário “Criança, a alma do negócio”, de Estela Renner e Marcos Nisti. A publicidade infantil é covarde, assistam para entender o que está acontecendo com a nossa infância. O trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=rW-ii0Qh9JQOnde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?
Sabe que jamais o quis
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma se foi
por que me segue o esqueleto?
Livro das perguntas
Pablo Neruda
Mulé burra
Por que será que só lembrei deste site hoje, depois de tanto tempo…? Ió, ió…
Sobre músicas e incógnitas
Minhas músicas prediletas, geralmente, têm um certo mistério, algo indecifrável que eu vou descobrindo com o tempo e, assim, gostando cada vez mais da música. É quase que uma regra. Aliás, é uma regra porque tem exceções.
Assim é com
Abaçaiado, d’O Teatro Mágico; Panapaná, do Galdino; Toada Velha Cansada, do Cordel do Fogo Encantado.Sobre esta última, nunca entendi versos como
“toada velha cansada/atrás do fogo encantado/nesse terreiro sem cerca”. Encontrei um sentido (meu, totalmente subjetivo e independente da vontade de Lirinha): o som, chegando e invadindo com lembranças… O resto da música é uma linda declaração de amor.Depois, então: “eita mulher voadeira/misterioso pavão/o riso teu tem corisco/e o peito teu tem trovão/e os meus dois olhos bandeiras/fogueiras clarão”. Voadeira, segundo o Houaiss é um regionalismo (do Norte e do Centro-Oeste do Brasil) que significa “barco veloz e com motor de popa”. Voadeira aqui adquiriu um novo sentido: ela escapa dele, ele não a decifra, ela voa. Pode ser? Misterioso pavão: o pavão é tão bonito que encanta e leva muitos mistérios naquelas penas todas: tantas cores, tantos tons… Que tal? O riso teu tem corisco e o peito teu tem trovão: suspiros meus!
Precisa entender mais?
Piau
Amando e querendo bem,
Mandava tirar-lhe a vida:
Nem pra mim, nem pra ninguém.”

