Então, é Natal

Por uma série de motivos, foi instituído o Natal. E por uma série de outros motivos, todos nós nos abraçamos e damos presentes e ganhamos tantos outros e saímos de qualquer loja ouvindo do atendente: “Boas festas”. Dezembro inteiro gira em torno de três diazinhos da última semana.

Você nunca viu a cara do cara que varre sua rua, mas em dezembro você o encontra. Dá “caixinha”. Compra uma dúzia de panetones e distribui por aí: frentista, cabeleireiro, dentista, cunhado, vizinho. Tanta gente que rondou sua vida por doze meses, hora de presentear com um pão doce com frutas cristalizadas. Por quê? Ora, porque é Natal.

Então vamos ao shopping. Não temos dinheiro, mas precisamos comprar. Precisamos de vestidos novos, presentes para os mais próximos. Quebramos a cabeça, enfrentamos filas nos estacionamentos. Enquanto nos esprememos, brigamos pela última peça daquela camisa que é “a cara” do seu pai. Gastamos uma pequena fortuna. E pagamos pelo estacionamento.

Hora de dizer: é tudo mentira. A gente não precisa de roupas novas. Sua família pode ficar sem ganhar presentes. Panetone não é sinônimo de Natal. No Brasil não neva. Papai Noel não existe. Seu espírito natalino vai durar o suficiente para você terminar o dia 25 em paz com sua família. Aliás, este “espírito natalino” foi inventado para te fazer pensar que a generosidade está diretamente atrelada ao número de presentes que você dá. Você não vai mais ver a cara do cara que varre sua rua. E vai continuar não gostando do seu vizinho.

Por fim: algumas pessoas não gostam de panetones.


Feliz Natal! Libere o anjinho que há na sua casa!

PS: Eu espero fortemente que minha mãe não leia este post. Mãe, se estiver lendo, saiba que tudo isso é besteira e que meu novo notebook será muito bem-vindo.

PS2: Eu pedi para o Papai Noel, ela que se prontificou a me dar.

PS3: Pai, eu não comprei uma camisa para você, foi para dar mais veracidade ao texto. Desculpe.

PS4: Eu não sei do que estou reclamando. Sempre ganho muitos presentes e não dou nenhum.

PS5: Acho que eu quis dizer que sou sim generosa… Viu, gente?

Falta de educação

O mundo virtual em peso fala sobre o caso Geisy e UNIBAN. Blogueiros, twitteiros e afins dão seus pitacos no famoso vestido rosa, na sua dona, nos alunos e na universidade. Cansei de contar as vezes em que li Taliban, turba e nazismo em textos sobre o caso. Aliás, neste vídeo ótimo, o blogueiro Cardoso mostra o que Hitler acharia de ser comparado com a UNIBAN.

No último sábado, a UNIBAN expulsou a aluna do corpo discente. E ontem pela manhã, a decisão foi anunciada no Twitter da instituição. Na nota divulgada, a universidade cita que a aluna desrespeitou os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade da instituição.

Aproveito a situação para lançar um olhar sobre o papel da universidade.

É fato que a moça foi desrespeitada pelos alunos, sendo “culpada” ou “inocente”. E depois foi hostilizada pela universidade, que só confirmou o quanto está alienada ao autorizar e praticamente validar a atitude de alunos moralistas e levados pela multidão.

Neste caso, o único papel que cabia à UNIBAN era se colocar à frente da discussão e ouvir alunos, professores e a vítima da situação. Sem moralismo. Ao agir de forma precipitada e preconceituosa, a universidade só demonstrou seu despreparo.

No livro 10 Novas Competências para Ensinar, o sociólogo suíço Philippe Perrenoud cita alguns itens essenciais para, justamente, educar. O item nove diz respeito a enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão, que, entre outras coisas, fala sobre: prevenir a violência na escola e fora dela, lutar contra os preconceitos e as discriminações sexuais, étnicas e sociais e desenvolver o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça.

Não é de hoje que sabemos que o ensino está sucateado. Creches, escolas de educação infantil, fundamental e ensino médio, nos setores público ou privado. O caso UNIBAN veio para mostrar mais: o ensino superior, que deveria ser exemplo e sinônimo de credibilidade, reflexão, embasamento, pesquisa e ação também está despreparado.

A decisão já foi revogada – a reitoria deve ter visto a notícia repercutir e, cá entre nós, quem quer ser vilão nessa história? Ir contra os alunos, a UNIBAN não pode – afinal, quem pagará as mensalidades? Refletir sobre o caso, entender o motivo da perseguição a uma garota de pouca roupa, o motivo dos alunos terem abandonado as aulas e rever os próprios conceitos? Trabalhoso demais.

A UNIBAN completou o caso dizendo que “reafirma o seu compromisso com a responsabilidade social e a promoção dos valores que regem uma instituição de ensino superior”. Quem acredita?

Eu sugiro que a UNIBAN inteira se debruce, pelo menos, sobre a obra de Philipe Perrenoud.

Meu caso com a polícia

Eu já fui parada pela polícia nove vezes. Sete destas vezes foram em um ano e meio. Você pode afirmar que assim foi porque eu tirei as calotas do carro naquela época. Que o carro parecia carro de bandido, como diria minha mãe. Mas não. Já fui parada dirigindo o carro dela, o meu, o de um amigo.

Aliás, a primeira vez em que me pararam eu tinha acabado de tirar a permissão para dirigir. Fomos para uma balada linda em Bragança Paulista intitulada Porkaria’s – para você sentir o drama. Na volta, Tarcisinho (um amigo que não bate bem das ideias) estava bêbado e o carro foi para… Tcharam! Para mim!

E é claro que a polícia rodoviária nos parou naquele dia. O guarda pediu para eu abrir o porta-malas e eu só senti o bafo de pinga do Tarcisinho me dizendo: “Bella, é só apertar aqui que abre!”. É claro que eu fiz ele sair do carro e abrir o porta-malas. De pé, meio cambaleando, ele disse: “Seu guarda, essa é minha noiva… Ela tá dirigindo porque eu não tô muito bem…”. Como me disseram amigos depois, não sei o que foi pior: ser parada às 5 da manhã na estrada com a permissão para dirigir, um carro desconhecido e um amigo bêbado ou ter me passado por noiva desta figura:

Tarcisinho e eu num carnaval qualquer.

Este foi só um exemplo. Já fui cercada pela polícia (que me perguntou se eu tinha drogas no carro), já engatei um papo com um policial sobre uns alunos que eu tinha que assistiam a uma novela muito violenta, já fui parada porque denunciaram que eu não tinha habilitação (mas eu tinha, rá!) e na sétima vez já cheguei a perguntar: “Seu guarda, pelamordedeus, por que eu?”.

Acontece que se eu estiver passando de carro por uma blitz e um caminhão de cocaína estiver na minha frente e um carro com oito caras bêbados estiver atrás de mim, tenha a certeza de que eu serei a que verá o dedinho do guarda apontando para o acostamento. Por um lado, tudo bem, porque eu não bebo nunca. Por outro: caramba, policiais, vocês estão comendo bola!

Exceto na última quinta-feira, em que eu voltava para casa lá pelas onze da noite e fiquei parada na Av. Dr. Arnaldo. Suspeitei que o trânsito fosse por causa de algum jogo de futebol, mas não. Um policial parado em cada pista da avenida. Carro por carro, a pergunta:

- Boa noite. A senhora ingeriu alguma bebida com álcool hoje?

- Não.

- A senhora pode assoprar aqui?

Sim, eu fiz o teste do bafômetro! Sempre quis fazer o teste. Afinal, não beber nunca deve ter algum lado positivo, já que sempre passo de chata em todas festas e em todos bares para todas as pessoas.

E poder assoprar e ver o aparelhinho denunciar 0.0 é tão gratificante para alguém como eu, que sempre volto para casa com sono e a maquiagem borrada. Parecendo uma bêbada.

Três minutos no banho

Dia desses, o presidente venezuelano Hugo Chávez deu a seguinte declaração:

“Algumas pessoas cantam no chuveiro, ficam meia hora no banho. Não, meninos, três minutos é mais do que suficiente. Eu contei, três minutos, e não cheiro mal.”

A Venezuela passa por graves problemas no abastecimento de água e luz e Hugo Chávez (famoso por falar demais a ponto de levar um ¿Por qué no te callas?) se pronunciou. Aí, meio mundo fez piadinha porque, cá entre nós, três minutos de banho, presidente? Vá com seu socialismo pra lá, que fedido! Não é não?

Favor ensaboar as axilas.

Não! Segundo dados do Instituto Akatu, um banho de ducha de 10 minutos gasta, em média, 160 litros de água. Isso sem contar a energia elétrica consumida pelo chuveiro e a potência das duchas – algumas conseguem gastar muitos mais litros de água por minuto! Aí, meu amigo, 10 minutinhos desperdiçados ensaboando as pernocas equivalem a bem menos água no planeta. E convenhamos que 10 minutos é o tempo inicial do banho de muita gente que conheço.

Mas eu sei. Você não consegue. Você é muito alto, gordo, forte, lerdo, cabeludo e estressado e precisa de todos estes minutos para dar conta do corpitcho e desestressar. Pois bem. Eu não sou das mais altas, gordas, fortes, lerdas e estressadas mas sou cabeluda e afirmo que banho pode ser rápido sim senhor.

Hugo Chávez tem razão: eu também já contei e tomo banho sem problemas em três minutos. Geralmente, gasto até cinco minutos. E, quando lavo a juba, lá se vão uns oito. Mas se você quer mais incentivos para parar de se ensaboar, lembre-se: sabonete resseca a pele. Desligue o chuveiro e teste a acústica do banheiro cantando Sandy e Junior enquanto passa um hidratante.

Agora se você está preocupado com a água, o planeta e a conta do fim do mês, mas não consegue se controlar, compre um Eco Showerdrop e se desespere assistindo à desgraça durante o banho.

Eco Showerdrop

Este aparelhinho vai te conscientizar minuto a minuto informando o tempo no banho, a água gasta e ainda pode ser programado para te alertar quando chegar a hora de fechar o chuveiro.

Sem desculpas agora, hein?

O caso da sexta-feira

Depois de uma semana de quatro horas de sono por noite, idas e vindas Uspianas, leituras, notebook quebrado e grandes olheiras, decidi gastar minha sexta-feira com uma oficina de ciranda, na USP. Isso. Oficina de ciranda, você leu bem. Quem no mundo vai numa coisa dessas? Prazer, Isabella.

Às cinco e meia da manhã estou de pé, pronta para o combate trânsito, chego às sete e pouco, capuccino, broa de milho e corro para a sala de aula.

É claro que, nerd pontual que sou, passei os oficineiros e cheguei antes na sala. Oito e meia eles chegam. Só eu. Mais duas gatas pingadas.

Após a resolução de inúmeros problemas e a chegada dos alunos, a oficina começou (em dicas da Usp, esqueci de uma valiosa da Feusp: a vida só começa por lá à partir das nove da manhã, acredite).

O projeto é muito legal. A criadora contou sobre. Musicalmente, teatralmente, enfim, artisticamente falando, eles são muito ruins. Muito. Mas a parte social que eles desenvolvem é, sem dúvidas, muito bacana.

O problema de quem faz trabalho legal com crianças, é que eles querem reproduzir o que fazem com elas com os adultos. Sim, comigozinha. Que tive que entrar em 156 tipos diferentes de ciranda e ver três montagens toscas de teatro improvisado.

O que valeu da oficina foi ver um trecho de um dvd que contava sobre o trabalho do projeto. Depois que assisti, pensei: “Ah bom, é isso que vcs fazem? Trabalho social! Era só explicar!”.

Enfim. Depois do almoço, mais um percurso de oficina. Tudo bem, né? – pensei. Nada bem quando vi que eles queriam me colocar em mais 140 cirandas. Tipo, gente: ok, já entendi que é maravilhoso ensinar cirandas, que as crianças amam. Já sei disso.

Além disso, muito me estressou o fato da criadora desmerecer o estudo acadêmico. Claro que não assim, diretamente. Mas, enfim. Me estressou. Fora aquele bando de professora pela sala exaltando o trabalho dos oficineiros. E achando que relatório de prestação de contas para o governo é a mesma coisa que pesquisa, estudo, reflexão e dissertação de mestrado. Aham.

Enquanto os oficineiros convidavam todos para uma nova ciranda, eu olhava os dez reais de texto que eu havia acabado de pegar no xerox. Dez reais. Dez. Reais. Tudo para ser lido, devorado, entendido e gerador de um novo texto até quarta-feira.

Num impulso, peguei minhas trouxas e me mandei de mansinho, enquanto todo mundo formava mais uma roda. Aliviada, fui para a sala de estudos fazer alguma coisa útil ler meus textos em paz.

Uma hora depois, o senhor que estava sentado na mesa ao lado, chega na minha mesa com um caderno nas mãos e diz:

- Vo’ê ‘abe corri’ir portu’ês?

Lembrei do Rob Gordon imediatamente. Jurei pra mim mesma nunca mais rir de um causo dele.

- Oi?

Repetiu. E eu, por alguma obra do destino, consegui entender a questão. Pensando que ele queria saber a grafia correta de exceção, gorjeta, vernissagem, concessão, ingenuamente respondi:

- Sim. Por quê?

- Vo’ê corri’e daqui até aqui? – apontou para duas folhas de um caderno com letra de criança de doze anos.

- Mas o que você quer saber?

- Por ‘avor! Eu ‘ô ‘heio de traba’o pra entre’ar ho’e!

Não me contive, comecei a rir impiedosamente. Como uma figura desse tipo pode dar aula em algum lugar do mundo e eu estar desempregada? Devo ser muito estranha mesmo, pensei. Foi quando ele deu a cartada de mestre. Fanho safado:

- Vo’ê é árabe?

- Não!

- Vo’ê é linda!

Ri mais um pouco e tentei compreender o árabe na história. Ele roubou meu raciocíno quando começou a me cobrar a correção voluntária. Só faltava esfregar o caderno no meu nariz árabe, como se fosse uma obrigação minha fazer o trabalho dele.

Disse que não obrigada apontei para os meus textos, mas ele insistiu:

- ‘e cada um da ‘ala de e’tudos corri’ir um caderno, eu con’igo termina’ todo o trabalho.

Você não, né, meu bem? Nós. Encarnei meu melhor personagem de estudante ferrada e contei uma coisa mais triste ainda: daqui a pouco começa minha aula, tenho que ler todos estes textos.

A figura ficou um tanto quanto chocada. Folheou meus texto (fiquei com medo, confesso) e disse que eu seria diretora de escola. Pensou melhor e concluiu que o rock era o meu destino. Gostei mais.

Melhorei minha cara de cadela cão sem dono e ele passou pra próxima vítima: a menina da mesa ao lado.

Juntei novamente minhas trouxas e saí de fininho. Não antes de levar uma bronca do senhor fanho preguiçoso e safado:

- Ei! Vo’ê não di’se que ia e’tudar?

Ui, e agora? Disse que minha aula já ia começar. Ele caiu:

- Ah! Me pa’sa seu telefone, então…

Cara burro, que aula na USP começa às 17:30h? Meu telefone? Respondi que não. Já era demais. Meu dia já havia superado as expectativas. Tchau.
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