Fui aproveitar o dia quente e a baixa umidade relativa do ar para fazer o que os especialistas não recomendariam: caminhar na praça.
Depois, morrendo de sede, fome e numa crise de abstinência de chocolate, parei no único local da Mooca em que podemos comer a qualquer hora. Sim, aquela padaria cujo nome não vou mencionar porque, de fato, não merece propaganda nem no meu blog xinfrim. Bem, mas é o que temos, não?
Lá fui eu pedir um suco de melancia e um sanduíche de pão integral com queijo cottage. Tudo pra fazer valer a caminhada. Eis que ali estou quando um tipo urbano (parafraseando Alberto Guzik) me chamou a atenção.
Mãe e filha. Recém-saídas do maior estereótipo possível de peruas da classe média paulistana. Daqueles tipos que, se você vê numa peça de teatro, tira sarro e depois comenta como o autor foi clichê. Pois é.
A filha sai para zanzar pela padaria quando a mãe diz para o atendente do balcão: “Eu quero um chai.”. Ahm? Ouvi bem? O que ela quer? O atendente responde: “É pra já! Ô Zé, vê aí um chai.”.
Ok. Se você é uma pessoa que transita por outras culturas, já sabe o que é um chai. Agora, se você faz parte da massa da população brasileira, você aprendeu o que é chai há alguns meses, quando a novela Caminho das Índias invadiu sua casa com um monte de palavras estranhas inseridas num contexto novelesco.
E desde quando as padarias passaram a ter o tal do chai? Por onde andei esse tempo todo?
E foi ali, saboreando o queijo cottage, mas de olho no chai alheio, que percebi que, realmente, não temos ideia da influência das novelas globais na vida do brasileiro.
Quanto tempo mais dura essa moda? A novela acabou ontem. Teve reconciliação, bebê à vista, Juliana Paes e Rodrigo Lombardi como o casal ideal. Até a menina que nem dez anos deve ter jurou amor eterno a um menininho tão pirralho quanto ela. Já não basta esse amor romântico sendo difundido aos quatro cantos? Agora estão invadindo as padarias também? Baguan Keliê!
por Isabella Ianelli em 12/09/2009 | cotidiano | 2 comentários
- Pernilongo zanzando pelas minhas pernas enquanto eu dirijo.
- Gente lerda dirigindo em qualquer faixa que não seja a faixa da extrema direita.
- Espertinhos que não dão seta, furam fila, andam sem cinto de segurança, com o vidro aberto e o braço pendurado pra fora.
- Quem insiste em encaixar a frente do som da maneira errada.
- Quem entra no carro com copinho de café, lata de refrigerante, mapa do local, folheto de propaganda e NÃO retira seu lixo quando sai.
- Trânsito parado e alguém no banco do passageiro dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Trânsito bom e alguém no banco do passageiro dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Qualquer situação e alguém em qualquer lugar dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Batida de carro que me envolva. Qualquer tipo.
- Qualquer pessoa que grite: “Esterça, esterça, esterça!”.
- Flanelinhas. Todos.
- Caminhões. Todos.
- Estacionamentos que cobram mais do que eu vou gastar durante a semana toda.
- Rádio SulAmérica Trânsito dizendo que seu caminho está ótimo, quando ele NÃO está.
por Isabella Ianelli em 11/09/2009 | cotidiano | 1 comentário
No chão, uma mulher. Jogada. Dopada com um comprimido para dormir, ela está enrolada em uma camisola, com a cabeça coberta por um tubo de crochê que a prende na parede.
No vídeo, uma dançarina de flamenco no palco, toda vestida de branco, se alfineta sem parar. O resultado, após poucos minutos, é um vestido branco, florido de sangue. Em sua face, nenhuma dor. A pose.
Outro vídeo: numa cadeira, uma mulher vestida de preto. Levanta a saia e com uma faca (e paciência) começa a se cortar. Ao fundo, notamos o pé de um homem, parado. Ela termina de escrever. A perna sangra. A palavra jorra: “perra”. Cachorra, em espanhol.
As obras são, respectivamente, de Laura Lima, Pilar Albarracín e Regina José Galindo. A exposição, intitulada Corpos Estranhos, está no MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) e é um convite para refletirmos um pouco sobre o corpo na sociedade contemporânea, suas marcas e nossas máscaras.
Toilette, de Albarracín
Repugnantes e dolorosas, as obras mostram diferentes situações em que a mulher é quase um objeto. Como vítima e como cúmplice. É a mulher que veste a camisa-de-força – ela é complacente de sua situação. É ela que mutila sua perna, observada por um homem. É ela que se dopa. É ela que se alfineta. É ela que… É?
Até onde dominam? Onde começam a se deixar dominar? O dominador precisa de um dominado. E o dominado?
É certo que não podemos generalizar os muitos casos de violência contra a mulher, afirmando que elas são cúmplices desta situação (porque, conscientemente, não são). Entretanto, cabe aqui parar para pensar que talvez estas atitudes sejam apenas reflexos de uma sociedade que ainda nos trata com desigualdade.
Em 2007, o relatório social da FUVEST perguntava aos candidatos sobre o grau de instrução de seus pais. A alternativa marcava para o pai, até a pós-graduação e para a mãe, até o ensino superior. Erro grave para uma das maiores instituições da América do Sul.
Aliás, hoje, a maioria dos estudantes da pós-graduação da Universidade de São Paulo é composta por mulheres. Talvez seja uma forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho, já que os homens continuam ganhando mais do que nós. O jeito é recorrer à especialização antes.
E entre alguns retrocessos e outras conquistas, estamos em tempos de lei Maria da Penha, que veio para nos mostrar que ainda falta muito. Se precisamos de uma lei especial para que homens violentos sejam punidos, é porque a situação é muito grave. É porque existem homens que, realmente, se sentem superiores à mera existência feminina. Mais uns oito mil anos para a humanidade evoluir a ponto de perceber que Darwin tinha razão e que todos nós viemos do macaco.
Onde? Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)
Até quando? 4 de outubro de 2009
Visita orientada? Sim (fui com a professora Maria Angela Serri Francoio, que foi muito simpática e me instigou a pensar no tema).
por Isabella Ianelli em 27/08/2009 | arte e cultura, cotidiano | 4 comentários
Finalmente voltei a frequentar a Cidade Universitária. E reparei que muita coisa continua igual por lá. Por isso, elaborei uma pequena lista de dicas aleatórias e preciosas para você que passa por lá.
1) Se quiser almoçar bem, vá ao Sweden, ao lado da FEA. Você vai pagar um pouco mais caro (algo em torno de R$30,00 o quilo), mas vai comer saladas deliciosinhas, ter boas opções e vai almoçar com um público mais cara de shopping center do que de universidade pública. Aproveite e sente nas mesinhas de fora. Leve uns amigos para conversar enquanto estiver na fila. Ou vá sozinha e, enquanto tempera a salada, seja paquerada por um cara que parece o Raj.
2) Combine com uma turma e faça uma visita monitorada ao MAC. Vale a pena. Fique de olho no Paço das Artes, coisas maravilhosas acontecem por lá. Se tem estômago, vá ao Museu do Crime. Se o que tem é paciência, vá ao MAE.
3) Cuidado em dias chuvosos. Dizem as línguas mais cautelosas, que é em dias assim que os criminosos atuam por lá. Como os guardas ficam nas cabines ou fazendo rondas de carro (já que chove e ninguém quer se molhar), fica mais fácil roubar sem ser incomodado. Por isso, pare o carro em lugares mais movimentados.
4) Não perca, por nada, a feira de livros que acontece anualmente na FFLCH. Por mais que você não queira comprar livros, vá. Os preços são absurdamente baratos. Há alguns anos, achei um lançamento por menos da metade do preço. Livro da Gloria Kalil, badaladíssimo! Comprei dois: um pra mim, outro pra tia Sônia.
Glorinha informa: não é chic[érrimo] informar que o presente da sua tia custou uma bagatela.
5) Frequente os sites das faculdades. Cursos de extensão, idiomas, palestras, encontros e coisas muito interessantes não são amplamente divulgadas. Na verdade, algumas até são, mas devido ao tamanho da Cidade Universitária e à distância entre uma faculdade e outra, confiar no boca-a-boca não é o meio mais eficaz de se informar de tudo o que acontece e te agrada.
6) Se é aluno regularmente matriculado na USP, conheça o CEPEUSP. Se não é, chore por não poder fazer yoga, fitness ou alongamento pelo preço de R$5,00 semestrais.
Estou chorando também, caro leitor.
7) Andar de ônibus é o meio mais eficaz de fazer amizade com alguém da USP. Na verdade, é o segundo meio. O primeiro é entrar no mesmo seminário que a pessoa (levando em conta, claro, que existem grandes possibilidades disto virar briga). Se você for de ônibus, vez ou outra aposente o fone de ouvido e o texto da próxima aula e encontrará pessoas estranhíssimas. Tipo:
- Alguém que te vê com umas partituras do coral que você começou há dois meses, engata um super papo sobre música e te adiciona no orkut;
- O cara que fazia teatro com você, foi rei e seu pai numa peça e é a pessoa de quem você não consegue lembrar o nome, apesar de ele insistir em te chamar pelo seu de dois em dois minutos;
- Um cara que dá aula de filosofia e marketing (ahm?) para amigos seus em outra faculdade e sabe mais de astrologia do que qualquer revista de começo de ano;
- E mais todas as pessoas da sua sala. Amizade simples que começará no: “Onde você mora?” e terminará com uma carona diária em alguns anos.
Gostou? Tem mais dicas sobre a USP? Manda pra cá que eu estou precisando!
por Isabella Ianelli em 22/08/2009 | cotidiano | 9 comentários
Eis que eu estava, na semana passada, olhando os acessos das pessoas a este humilde blog, quando noto um endereço de entrada estranho. Aliás, antes fosse estranho. Tremendamente conhecido: webmail.nomedaempresa. A empresa em que meu pai trabalha.
A pessoa passou vinte e sete minutos futricando por aqui. Que coisa, não, gente? Alguém que trabalha com meu pai e utiliza o e-mail da empresa recebeu o endereço do meu blog por e-mail e passou um tempo lendo meus escritos ou… Ou… Ou…
Obrigada pela interpretação, Raul.
Sim, meu pai leu este blog. Mas, calma, tudo bem. Ele gostou. Entrou no dia seguinte e passou mais sete minutos por aqui. Comentou na hora do jantar que adorou, que eu escrevo bem e indicou a leitura para o meu primo, que respondeu prontamente: “Ah, eu já dei uma olhadinha. A tia me mandou também”. Ah, claro, como não? Minha mãe passou este blog para toda a lista de contatos dela.
Se você achou isso engraçado, é porque não conhece o caso da eleição para a escolha da Miss Usp. Minha mãe só não comprou o jurado porque não tinha. Era uma votação virtual. Então, ela mobilizou a família toda, os amigos, os conhecidos. E deve ter pedido aos inimigos também. Foi uma grande eleição, do tipo: 100 votos para Isabella e 3 para a concorrente.
Eu fui Miss Usp Outubro de 2005. E, por isso, fui reconhecida na Festa de San Gennaro.
Caros leitores, o Sarney só continua no Senado porque minha mãe ainda não decidiu se mobilizar. Se ela entrasse no twitter e levasse a campanha #forasarney tão a sério quanto levou a da Miss Usp, faria Marcos Mion, Junior Lima e companhia morrerem de inveja. E convenceria fácil o Ashton Kutcher.
Que meus pais são cidadãos virtuais não é uma má notícia. Agora, há poucos dias da descoberta do meu blog, a grande questão, a pergunta que não quer calar, o cerne deste post é: sobreviverá minha criatividade às visitas diárias de pais e convidados?
Sim, pois já ouvi uma piadinha em casa que podou minha capacidade criativa. Ao ver que Ágatha Christie e Bombom Cherry Brand não tinham água em seus respectivos potes e transferindo a culpa para mim, meu pai disse, em tom de deboche: “Por que você não escreve no seu blog assim: ‘Sabe, hoje eu descobri que minhas cadelinhas não são virtuais, elas bebem água…’?”.
Aguardem pelos próximos capítulos.
por Isabella Ianelli em 18/08/2009 | cotidiano | 3 comentários