… quando tiver um bebê.
- Colocar um adesivo no carro do tipo: “Cuidado, bebê a bordo” (e variantes piores: “Princesa Genoveva a bordo!”, “Vitória Régia e Carlos Damião no carro” etc).
Você acha mesmo que eu vou imaginar uma ultrapassagem, mas retomar meu juízo, pensando: “Pô. Vou fazer isso não. O Pedro Guilherme tá no carro.”. Sério, desista. Nem vou lembrar do seu filho na hora de meter a mão na buzina. Toma que o filho é teu.
- Dar de mamar na frente da galera.
Mamãe, não é porque você pariu que seus seios viraram outras coisas que não… seios. Continuam seios, entende? Tenho um misto de repugnância e curiosidade com as mamães que não se importam e levantam (ou abaixam) a blusa na frente da galera, em nome do filhinho. Seguem um instinto natural (?) mostrando uma coisa que até poucos meses atrás escondiam com veemência. Sim, ele tem que se alimentar, mas não precisa ser no meio da muvuca.
- Insistir que ele, aos quatro meses, é uma sumidade de inteligência.
E ressaltar como o pediatra, a diretora da creche e o vizinho do segundo andar ficaram impressionados com tanta esperteza. Terminar com um: “Você também não acha?”.
por Isabella Ianelli em 11/08/2009 | cotidiano | 4 comentários
Despertador programado para tocar às nove da manhã em Vargem. Casa dos avós, interior, cidade pacata. Longe da loucura da cidade grande. Da maldade alheia. Não? Não.
Seis horas da manhã, acordo com a campainha tocando. Muitas e muitas vezes. Saí na janela para ver o que queriam. Vargem, que é pacata até mesmo às duas da tarde, às seis da manhã ainda dorme. Não entendia o que o homem queria. Ele gritava e gesticulava, mas eu não conseguia decifrar o que ele dizia. Quando decidi pegar o interfone, vi meu avô por lá, foi mais rápido.
Colocaram fogo no cedrinho da casa dos meus avós.
Antes de continuar, esta é uma cerca viva igualzinha: de cedrinho
Sim, o sistema de “cerca viva” não é dos mais seguros, já que o cedrinho envelhece, fica com galhinhos secos e qualquer fogo se alastra. Mas, em tantos anos, nunca houve um incêndio por lá. Até o último ano. Porque desde o último ano, já colocaram fogo no cedrinho três vezes.
Nas outras vezes, colocaram em horário comercial. Desta vez, aproveitaram a rua vazia, o sono dos moradores e… Riscaram um fósforo por lá.
Não, não há a possibilidade de ter ocorrido um acidente. Uma bituca de cigarro não faz tamanho estrago nas condições da manhã de hoje: fria, resultado de uma noite de sereno e com as plantas úmidas. Fora que eu, claro, investiguei o local e não achei resquício de cigarro ou qualquer outra coisa que pudesse ter causado um incidente.
Pois é. Não é só na cidade grande que se trapaceia. E não é só com motivos que fazem isso. Tem gente que faz por pura maldade mesmo. Mas também tem gente bondosa. A vizinha da frente, com quem não temos contato nenhum, viu as chamas da janela do quarto dela e foi lá, de pijama, apagar o fogo, antes mesmo de meu avô, a mangueira e eu chegarmos até o local.
Tem quem faça maldade gratuita. Mas também tem quem faça o bem sem olhar a quem.
por Isabella Ianelli em 3/08/2009 | cotidiano | 3 comentários
Desde os quinze anos eu brinco de teatro. Começou de leve, aos catorze anos, no colégio de freiras em que estudei, do qual guardo muitas boas lembranças. No último ano, a professora de Educação Artística propôs que montássemos uma peça, numa atividade extra-curricular. E lá fui eu. Nenhuma grande montagem, nenhum personagem relevante. Éramos todos figurantes. O teor? Ah, sim: alguma coisa religiosa (era a condição imposta pelas freirinhas). E eu bem que gostava, viu? Era uma espécie de musical mal entendido , mal interpretado e mal cantado, mas eu me esbaldava na música da cena dois: “Misericórdia, Senhor, Misericórdia! Misericóoooooordia!”. Tenho um gosto estranho por músicas de igreja até hoje.
Muito bem. Foi nesta “peça” que eu aprendi que não se deseja boa sorte antes do espetáculo. Se diz MERDA. E não se agradece. Mas, como éramos de um colégio de freiras e a professora era doida mas nem tanto, ela nos dizia: “Ême!”. Ême. E era ÊME pra tudo quanto é lado. Bom pras freirinhas que não sabiam o significado, bom pros alunos que se deliciavam e bom pra professora que fez sua parte. Com uma espécie de transposição didática, digamos – mas fez.
Como neste colégio não tinha ensino médio, mudei de escola. Ah, mas qual não foi minha alegria ao descobrir (na verdade, eu já sabia, tô floreando só) que o grupo de teatro deste colégio era sensacional? Para quem se contentava em decorar meia dúzia de frases para dizer num salão caidinho, eu estava na Broadway brasileira. Palco italiano, coxia, cortina, camarim e o melhor: um diretor sisudo.
Penamos (eu e Gabi, minha companheira teatral desde os primórdios) para conseguir entrar no grupo. Na primeira semana de aula, chegou a ficha de inscrição dos cursos extra-curriculares oferecidos e, por engano, o teatro não estava lá. Gabriela e eu fomos até a sala do diretor do teatro, Eduardo Hajjar. Na sala dele, uma reação exacerbada da Gabi enquanto eu sorria, apavorada, querendo dizer: “Deixa a gente entrar?”. Deixou, claro.
E desde 2001 estou lá pelos palcos. De sisudo, o diretor passou a ser amigo. E hoje fazemos teatro de brincadeirinha como se a gente fosse gente grande. A gente, digo, eu e Gabi – porque o diretor é dos grandes. Escolhemos o texto, pesquisamos, dividimos personagens, buscamos por exercícios, sacrificamos manhãs, tardes, noites, nos maquiamos, emprestamos nossas casas para os cenários e nossas almas para as peças.
Tudo isso para contar que, nesta semana, especialmente, voltei a criar borboletas no estômago. Minha estreia será sexta-feira, numa cidade do interior. E é nessas horas que dá pra ver que faço teatro amador mesmo. Com medo de errar, cheia de inseguranças nas mãos, nos gestos, nos tipos. Mas vou. Com amor.
“Quarta-feira, sem falta, lá em casa”
Texto: Mario Brasini
Direção: Eduardo Hajjar
Maquiagem: Natália Tomaz Vianna
Elenco: Gabriela Ravanhani e Isabella Ianelli
Quando? Dia 31 de julho, às 21 horas
Onde? Em Bragança Paulista: NAPA – Núcleo de Apoio ao Professor e ao Aluno (Rua São Bento, Vila Aparecida)
Quanto? De graça
por Isabella Ianelli em 28/07/2009 | arte e cultura, cotidiano, educação | 10 comentários
Sou do tipo que passa um bom tempo dirigindo e que sempre é a condutora do carro. Por isso, quando ando de ônibus acho tudo divertido. Alto, lento, bruto e o melhor: é uma delícia poder abaixar a cabeça para enxergar o prédio, torcer o pescoço para ver melhor alguma coisa que passou, focar em pessoas, casas, árvores. De ônibus; no carro raramente consigo esta leveza.
Sim, porque entre dar a direção a alguém ou tomar as rédeas do carro, eu prefiro a segunda opção. Sou do tipo que, como co-pilota, fica brecando num freio invisível, tem tiques nervosos nos pés (afundando, constantemente, o esquerdo numa embreagem imaginária), diz ais, uis e grita: “Cuidado, ele brecou!”. Insuportável, eu sei. Mas é sem querer.
Aliás, quando comecei a dirigir, minha maior decepção foi notar que eu não mais poderia observar o mundo ao meu redor. Tinha que focar toda minha atenção em um complexo sistema de ruas, retrovisores, marchas, pedais, semáforos, motos, placas. Uma coisa. A adaptação foi difícil.

Não repita isto, Isabella. Foque.
Além de querer observar o mundo e não poder, eu ainda tinha que saber o caminho para chegar ao meu destino. Óbvio, não? Mas tudo isso, junto, é muito complicado. E se você está acostumado a ser sempre o co-piloto, prepare-se: na hora em que assumir o volante, você não vai saber pra onde ir.
Eu pegava o carro e tinha que fazer a rota ainda na garagem. E era difícil. Pensava, pensava. Mesmo que fosse um caminho conhecido, um lugar para onde eu sempre ia. Não adianta: como co-pilota eu focava em outras coisas. Cores de casas, bancas de jornal, nuvens, árvores, conhecidos, desconhecidos, tudo era uma divertida distração. Tive que mudar o foco.
E, com o tempo, você vai pegando a manha de ser pilota. Você aprende que, naquela avenida, a pista da esquerda anda mais (não, isso não é tão comum quanto vão te ensinar nas aulas práticas). Mas, quando chega num determinado local, é melhor pegar a pista da direta porque na esquerda sempre tem um carro lerdo dando seta pra entrar na outra rua (existem muitos lerdos no mundo, você vai aprender). Depois, hora de voltar pra pista da esquerda porque tem um ponto de ônibus (e eles raramente encostam, gostam mesmo é de parar no meio da rua). Pronto: chego dois minutos e trinta e oito segundo mais cedo e toda sorridente. Sou malandra.
Devido a este complexo sistema de códigos, às vezes meu GPS biológico falha e é por isso que eu paro em algum cruzamento da Avenida Paulista e me pergunto: “E agora? Direita ou esquerda? Tô no lado dos Jardins? Ou do Centro?”. Simplesmente não sei, tenho que recomeçar todo um raciocínio enquanto o co-piloto tira sarro, diz pra eu pensar mais, fala que não acredita que eu não sei.
Esperem pegar o carro.
por Isabella Ianelli em 19/07/2009 | cotidiano | 7 comentários
Se tem uma coisa que muito me irrita em educação (e que me faz querer enfiar a cabeça no primeiro buraco que vejo quando penso que estudei tanto isso) é a reutilização de sucata para tudo. Praticamente toda professora tem o cantinho da sucata em sua sala. Cento e trinta garrafas de plástico, mil e duzentas tampinhas de refrigerante, oitenta caixas de lenço etc. Confesso que algumas destas coisas, como garrafas cortadas ao meio, são bem úteis na hora de, por exemplo, separar tintas, lápis, borrachas e fazer alguma coisa pontual. Agora, não me venham com aquele monte de trabalho com sucata. Vou explicar o motivo.
Como todos, tenho cá também minhas teorias. E uma delas é a teoria da sucata. Sucata, na minha humilde opinião, serve para ser reciclada. Óbvio, vamos cooperar com o planeta, minha gente, isso aí, vamos lá. Acontece que as(os) pedagogas(os) e as(os) nem tanto assim pegaram o bonde andando e entenderam que é pra fazer tudo de sucata. Todos os trabalhos ganham um brilhozinho especial para pais, professores e desentendidos quando utilizam, de qualquer forma, a palavra sucata. E aí? Sim, esse bando de nem tanto assim, faz aquela cara pra você de que fazer trabalho com sucata é Ó-TI-MO e você TEM que fazer. Aham.
O que acontece na prática é que um trabalho super legal que poderia ter sentido para as crianças, como um jogo da memória de tal coisa, acaba ganhando ares de ecologicamente correto só porque uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) ficou três dias embrulhando caixas de lenço com papel kraft.
Tudo o que poderia ter sido construído com as crianças, uma coisa muito mais simples e muito mais elaborada intelectualmente, acaba virando um trabalho burocrático, alienante e braçal de uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) que gastou uma montanha de papel kraft para embrulhar as caixas. Ecológico, não?


Sim, eles gostaram do resultado. Mas será que gostaram das caixas de lenço embrulhadas ou do jogo da memória?
A mensagem que temos que passar para pais, alunos, pedagogos, pedagogas e nem tanto assim é: reciclar. Utilizar sucata sensatamente. Vamos fazer com que uma garrafa de refrigerante continue sendo uma garrafa de refrigerante e não vire uma pantufa horrorosa e desconfortável que a criança (por conforto e bom senso) nunca vai usar. E que vai direto para a lixeira (comum!).
PS: É claro que tem gente que faz trabalhos lindos e interessantíssimos com sucata. E é claro que tem gente fazendo coisa muito legal na educação infantil… Com sucata! Mas recomendo cuidado com os exageros e com as máscaras…
por Isabella Ianelli em 7/07/2009 | cotidiano, educação | 5 comentários