Eu nunca tinha lido nada de Dioclécio Luz até ver o burburinho que ele causou no Twitter. Tudo porque este jornalista e pesquisador ficou famoso por lá depois que resolveu escrever para o site Observatório da Imprensa criticando a Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.
No artigo, ele afirma que as histórias da famosa turminha são violentas e nada educativas. Isto porque Mônica, a personagem principal, sofre com as agressões verbais do colegas — o tal do bullying — e resolve tudo na base da coelhada. Além disso, afirma que os personagens são rasos, estereotipados e ainda cai de cabeça na onda do politicamente correto ao afirmar que a gulosa Magali, por exemplo, tem obsessão por comida — um desvio que precisa ser tratado e é negligenciado.
Eu poderia escrever aqui por horas sobre as delícias da Turma da Mônica e poderia também entrar nesta guerra para defender as histórias em quadrinho. No entanto, outras pessoas já fizeram isto muito bem, como é o caso do Rob Gordon.
Cebolinha por Arthur, 4 anos de idade
O que me incomoda de fato no texto dele é o discurso politicamente correto. Esta neurose de achar que tudo deve ser educativo. De achar que tudo é exemplo e que toda história tem que ter uma moral. Não tem.
Parte desta visão vem do fato de que ainda consideramos a criança como um serzinho inocente, ingênuo, sem maldades. Errado. A criança é exatamente o que somos. É boa, má, ciumenta, alegre, estranha, amorosa, irritada e mil coisas mais. Com uma simples diferença: ela ainda não domina tão bem suas linguagens para expressar o que sente. Por isso, às vezes grita, morde, se joga no chão, chora, xinga o amigo e dá uma coelhada nele.
É para aprender a jogar neste mundo maluco que chamamos de vida real, que a fantasia é uma grande aliada no desenvolvimento da criança e, consequentemente, em sua educação.
Cooperação Criativa, o projeto mais bacana que já vi em arte-educação: respeito ao direito de imaginar
Gibi não precisa ser educativo, a música Atirei o pau no gato não precisa ser trocada por aquela versão careta e ecologicamente correta e as histórias precisam sim ter bruxa, Lobo Mau que come a Chapeuzinho e medo. Afinal, a criança precisa do mundo da fantasia, precisa testar suas emoções e ouvir histórias de uma menina que é todo dia chamada de dentuça, baixinha e gorducha.
Se fizermos com que todas as histórias e todas as músicas infantis tenham uma moral, privamos a criança de um mundo de outras histórias e músicas. Um mundo de cultura que sobreviveu anos e anos até chegar aqui. São anos de história, de cultura; anos que não precisam ser trocados por versões “menos cruéis”.
Nunca vi uma criança batendo em alguém porque viu no gibi. Nem ninguém parar de tomar banho porque o Cascão não toma ou falar errado porque se espelhou no Cebolinha. A criança é o Cascão, o Cebolinha, o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho. Ao mesmo tempo, pois testa todas as emoções: ela é todas estas tentativas.
As histórias têm que ter o objetivo de despertar a imaginação: uma criança acostumada com o mundo da fantasia é criativa e se interessará por outras tantas histórias — as contadas e, em pouco tempo, as lidas. E é esta a valiosa parte educativa desta história.
PS: Este texto todo tem como inspiração e embasamento teórico a obra de Ilan Brenman, excelente doutor em Educação e contador de histórias que estuda, justamente, o politicamente correto nas histórias infantis.
PS2: Cooperação Criativa é um projeto que mistura contação de história, circo e teatro para crianças de quatro a nove anos. Seu criador, Francisco Igliori Gonsales, doutorando em Psicologia, ator, circense e contador de histórias é um dos mais incríveis artistas-pesquisadores que já conheci. Seu projeto é um dos meus sonhos de trabalho. A equipe da Cooperação está no Galpão do Circo e o curso se chama Aventuras Acrobáticas. Vale a pena conhecer.
O mundo virtual em peso fala sobre o caso Geisy e UNIBAN. Blogueiros, twitteiros e afins dão seus pitacos no famoso vestido rosa, na sua dona, nos alunos e na universidade. Cansei de contar as vezes em que li Taliban, turba e nazismo em textos sobre o caso. Aliás, neste vídeo ótimo, o blogueiro Cardoso mostra o que Hitler acharia de ser comparado com a UNIBAN.
No último sábado, a UNIBAN expulsou a aluna do corpo discente. E ontem pela manhã, a decisão foi anunciada no Twitter da instituição. Na nota divulgada, a universidade cita que a aluna desrespeitou os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade da instituição.
Aproveito a situação para lançar um olhar sobre o papel da universidade.
É fato que a moça foi desrespeitada pelos alunos, sendo “culpada” ou “inocente”. E depois foi hostilizada pela universidade, que só confirmou o quanto está alienada ao autorizar e praticamente validar a atitude de alunos moralistas e levados pela multidão.
Neste caso, o único papel que cabia à UNIBAN era se colocar à frente da discussão e ouvir alunos, professores e a vítima da situação. Sem moralismo. Ao agir de forma precipitada e preconceituosa, a universidade só demonstrou seu despreparo.
No livro 10 Novas Competências para Ensinar, o sociólogo suíço Philippe Perrenoud cita alguns itens essenciais para, justamente, educar. O item nove diz respeito a enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão, que, entre outras coisas, fala sobre: prevenir a violência na escola e fora dela, lutar contra os preconceitos e as discriminações sexuais, étnicas e sociais e desenvolver o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça.
Não é de hoje que sabemos que o ensino está sucateado. Creches, escolas de educação infantil, fundamental e ensino médio, nos setores público ou privado. O caso UNIBAN veio para mostrar mais: o ensino superior, que deveria ser exemplo e sinônimo de credibilidade, reflexão, embasamento, pesquisa e ação também está despreparado.
A decisão já foi revogada – a reitoria deve ter visto a notícia repercutir e, cá entre nós, quem quer ser vilão nessa história? Ir contra os alunos, a UNIBAN não pode – afinal, quem pagará as mensalidades? Refletir sobre o caso, entender o motivo da perseguição a uma garota de pouca roupa, o motivo dos alunos terem abandonado as aulas e rever os próprios conceitos? Trabalhoso demais.
A UNIBAN completou o caso dizendo que “reafirma o seu compromisso com a responsabilidade social e a promoção dos valores que regem uma instituição de ensino superior”. Quem acredita?
Eu sugiro que a UNIBAN inteira se debruce, pelo menos, sobre a obra de Philipe Perrenoud.
Quando você para de conviver diariamente com crianças, passa a ter menos coisas engraçadas para contar. Mas de uma história eu não me esqueço.
No ano passado, dei aula para crianças de quatro anos de idade. Metade do ano fui estagiotária professora auxiliar e na outra metade peguei a bomba assumi a sala.
Todos os dias, as crianças chegavam na sala de aula e tiravam da mala a agenda, o copo (com a escova de dente dentro) e penduravam a lancheira.
Em um dia frio, um dos meus alunos, Arthur, chegou todo encapotado e com um gorro na cabeça. Arrumou seus pertences e, no meio da brincadeira com os amigos, tirou o gorro e o colocou na mesa, ao lado do seu copo com sua escova de dente.
Arthur e o Bidu de massinha
Caro leitor, aqui faço uma pausa para um comentário: se você nunca viveu um dia na educação infantil, não sabe o que é administrar uma sala com 17 crianças de quatro anos de idade. Não imagina o que é rezar diariamente para uma convivência pacífica. Para ninguém chutar, morder, bater, arranhar e para ninguém retrucar. E também nunca se viu pedindo aos céus para que todos consigam controlar seus esfincteres até a chegada ao banheiro. Se você tem filhos, sabe do que estou falando. Agora multiplique por 17. Tranque numa sala. E jogue uma louca dentro. Por isso e por otras cositasmás eu passei o ano passado inteiro descabelada.
Pois bem, tudo isto para dizer que, muitas vezes, no calor da coisa, esquecemos que são crianças. E que sempre têm uma visão peculiar. E que são criativas, inocentes e obedientes até. Teoricamente, nós, pedagogos, estudamos para (entre muitas outras coisas) aprender a lidar com as peculiaridades do ensino. Mas é que com dois pendurados no lustre, três correndo ao seu redor, um com febre, uma puxando o cabelo da outra e cinco formando uma quadrilha de tráfico de batom da Xuxa, fica realmente muito difícil. Você esquece até que é gente.
Então, ali estava eu, jogada no meio da muvuca, quando a professora que trabalhava comigo, ao sair da sala, viu o gorro do Arthur ao lado do copo da escova de dente dele. Apontando para a mesa, disse: “Arthur, coloca na cabeça ou guarda na mochila!”. Saiu da sala e eu fiquei por lá, tentando administrar a galera.
Depois de alguns minutos, olho para o lado e vejo o Arthur segurando o copo (com a escova de dente dentro) em cima da cabeça.
- Arthur, o que foi?
- A professora disse pra eu colocar na cabeça ou guardar na mochila, mas eu ainda não escovei os dentes…
- O gorro, Arthur!
- Ah…
E ele fez a cara que eu mais queria ter registrado na minha vida. Uma mistura de “entendi” com “envergonhei”. Arthur um menino tão carinhoso e tão esperto, me mostrou que, realmente, é tão simples e tão complexa essa terra de gigantes.
Depois de uma semana de quatro horas de sono por noite, idas e vindas Uspianas, leituras, notebook quebrado e grandes olheiras, decidi gastar minha sexta-feira com uma oficina de ciranda, na USP. Isso. Oficina de ciranda, você leu bem. Quem no mundo vai numa coisa dessas? Prazer, Isabella.
Às cinco e meia da manhã estou de pé, pronta para o combate trânsito, chego às sete e pouco, capuccino, broa de milho e corro para a sala de aula.
É claro que, nerd pontual que sou, passei os oficineiros e cheguei antes na sala. Oito e meia eles chegam. Só eu. Mais duas gatas pingadas.
Após a resolução de inúmeros problemas e a chegada dos alunos, a oficina começou (em dicas da Usp, esqueci de uma valiosa da Feusp: a vida só começa por lá à partir das nove da manhã, acredite).
O projeto é muito legal. A criadora contou sobre. Musicalmente, teatralmente, enfim, artisticamente falando, eles são muito ruins. Muito. Mas a parte social que eles desenvolvem é, sem dúvidas, muito bacana.
O problema de quem faz trabalho legal com crianças, é que eles querem reproduzir o que fazem com elas com os adultos. Sim, comigozinha. Que tive que entrar em 156 tipos diferentes de ciranda e ver três montagens toscas de teatro improvisado.
O que valeu da oficina foi ver um trecho de um dvd que contava sobre o trabalho do projeto. Depois que assisti, pensei: “Ah bom, é isso que vcs fazem? Trabalho social! Era só explicar!”.
Enfim. Depois do almoço, mais um percurso de oficina. Tudo bem, né? – pensei. Nada bem quando vi que eles queriam me colocar em mais 140 cirandas. Tipo, gente: ok, já entendi que é maravilhoso ensinar cirandas, que as crianças amam. Já sei disso.
Além disso, muito me estressou o fato da criadora desmerecer o estudo acadêmico. Claro que não assim, diretamente. Mas, enfim. Me estressou. Fora aquele bando de professora pela sala exaltando o trabalho dos oficineiros. E achando que relatório de prestação de contas para o governo é a mesma coisa que pesquisa, estudo, reflexão e dissertação de mestrado. Aham.
Enquanto os oficineiros convidavam todos para uma nova ciranda, eu olhava os dez reais de texto que eu havia acabado de pegar no xerox. Dez reais. Dez. Reais. Tudo para ser lido, devorado, entendido e gerador de um novo texto até quarta-feira.
Num impulso, peguei minhas trouxas e me mandei de mansinho, enquanto todo mundo formava mais uma roda. Aliviada, fui para a sala de estudos fazer alguma coisa útil ler meus textos em paz.
Uma hora depois, o senhor que estava sentado na mesa ao lado, chega na minha mesa com um caderno nas mãos e diz:
- Vo’ê ‘abe corri’ir portu’ês?
Lembrei do Rob Gordon imediatamente. Jurei pra mim mesma nunca mais rir de um causo dele.
- Oi?
Repetiu. E eu, por alguma obra do destino, consegui entender a questão. Pensando que ele queria saber a grafia correta de exceção, gorjeta, vernissagem, concessão, ingenuamente respondi:
- Sim. Por quê?
- Vo’ê corri’e daqui até aqui? – apontou para duas folhas de um caderno com letra de criança de doze anos.
- Mas o que você quer saber?
- Por ‘avor! Eu ‘ô ‘heio de traba’o pra entre’ar ho’e!
Não me contive, comecei a rir impiedosamente. Como uma figura desse tipo pode dar aula em algum lugar do mundo e eu estar desempregada? Devo ser muito estranha mesmo, pensei. Foi quando ele deu a cartada de mestre. Fanho safado:
- Vo’ê é árabe?
- Não!
- Vo’ê é linda!
Ri mais um pouco e tentei compreender o árabe na história. Ele roubou meu raciocíno quando começou a me cobrar a correção voluntária. Só faltava esfregar o caderno no meu nariz árabe, como se fosse uma obrigação minha fazer o trabalho dele.
Disse que não obrigada apontei para os meus textos, mas ele insistiu:
- ‘e cada um da ‘ala de e’tudos corri’ir um caderno, eu con’igo termina’ todo o trabalho.
Você não, né, meu bem? Nós. Encarnei meu melhor personagem de estudante ferrada e contei uma coisa mais triste ainda: daqui a pouco começa minha aula, tenho que ler todos estes textos.
A figura ficou um tanto quanto chocada. Folheou meus texto (fiquei com medo, confesso) e disse que eu seria diretora de escola. Pensou melhor e concluiu que o rock era o meu destino. Gostei mais.
Melhorei minha cara de cadela cão sem dono e ele passou pra próxima vítima: a menina da mesa ao lado.
Juntei novamente minhas trouxas e saí de fininho. Não antes de levar uma bronca do senhor fanho preguiçoso e safado:
- Ei! Vo’ê não di’se que ia e’tudar?
Ui, e agora? Disse que minha aula já ia começar. Ele caiu:
- Ah! Me pa’sa seu telefone, então…
Cara burro, que aula na USP começa às 17:30h? Meu telefone? Respondi que não. Já era demais. Meu dia já havia superado as expectativas. Tchau.
Desde os quinze anos eu brinco de teatro. Começou de leve, aos catorze anos, no colégio de freiras em que estudei, do qual guardo muitas boas lembranças. No último ano, a professora de Educação Artística propôs que montássemos uma peça, numa atividade extra-curricular. E lá fui eu. Nenhuma grande montagem, nenhum personagem relevante. Éramos todos figurantes. O teor? Ah, sim: alguma coisa religiosa (era a condição imposta pelas freirinhas). E eu bem que gostava, viu? Era uma espécie de musical mal entendido , mal interpretado e mal cantado, mas eu me esbaldava na música da cena dois: “Misericórdia, Senhor, Misericórdia! Misericóoooooordia!”. Tenho um gosto estranho por músicas de igreja até hoje.
Muito bem. Foi nesta “peça” que eu aprendi que não se deseja boa sorte antes do espetáculo. Se diz MERDA. E não se agradece. Mas, como éramos de um colégio de freiras e a professora era doida mas nem tanto, ela nos dizia: “Ême!”. Ême. E era ÊME pra tudo quanto é lado. Bom pras freirinhas que não sabiam o significado, bom pros alunos que se deliciavam e bom pra professora que fez sua parte. Com uma espécie de transposição didática, digamos – mas fez.
Como neste colégio não tinha ensino médio, mudei de escola. Ah, mas qual não foi minha alegria ao descobrir (na verdade, eu já sabia, tô floreando só) que o grupo de teatro deste colégio era sensacional? Para quem se contentava em decorar meia dúzia de frases para dizer num salão caidinho, eu estava na Broadway brasileira. Palco italiano, coxia, cortina, camarim e o melhor: um diretor sisudo.
Penamos (eu e Gabi, minha companheira teatral desde os primórdios) para conseguir entrar no grupo. Na primeira semana de aula, chegou a ficha de inscrição dos cursos extra-curriculares oferecidos e, por engano, o teatro não estava lá. Gabriela e eu fomos até a sala do diretor do teatro, Eduardo Hajjar. Na sala dele, uma reação exacerbada da Gabi enquanto eu sorria, apavorada, querendo dizer: “Deixa a gente entrar?”. Deixou, claro.
E desde 2001 estou lá pelos palcos. De sisudo, o diretor passou a ser amigo. E hoje fazemos teatro de brincadeirinha como se a gente fosse gente grande. A gente, digo, eu e Gabi – porque o diretor é dos grandes. Escolhemos o texto, pesquisamos, dividimos personagens, buscamos por exercícios, sacrificamos manhãs, tardes, noites, nos maquiamos, emprestamos nossas casas para os cenários e nossas almas para as peças.
Tudo isso para contar que, nesta semana, especialmente, voltei a criar borboletas no estômago. Minha estreia será sexta-feira, numa cidade do interior. E é nessas horas que dá pra ver que faço teatro amador mesmo. Com medo de errar, cheia de inseguranças nas mãos, nos gestos, nos tipos. Mas vou. Com amor.
“Quarta-feira, sem falta, lá em casa”
Texto: Mario Brasini
Direção: Eduardo Hajjar
Maquiagem: Natália Tomaz Vianna
Elenco: Gabriela Ravanhani e Isabella Ianelli
Quando? Dia 31 de julho, às 21 horas
Onde? Em Bragança Paulista: NAPA – Núcleo de Apoio ao Professor e ao Aluno (Rua São Bento, Vila Aparecida)