A teoria da sucata
Como todos, tenho cá também minhas teorias. E uma delas é a teoria da sucata. Sucata, na minha humilde opinião, serve para ser reciclada. Óbvio, vamos cooperar com o planeta, minha gente, isso aí, vamos lá. Acontece que as(os) pedagogas(os) e as(os) nem tanto assim pegaram o bonde andando e entenderam que é pra fazer tudo de sucata. Todos os trabalhos ganham um brilhozinho especial para pais, professores e desentendidos quando utilizam, de qualquer forma, a palavra sucata. E aí? Sim, esse bando de nem tanto assim, faz aquela cara pra você de que fazer trabalho com sucata é Ó-TI-MO e você TEM que fazer. Aham.


Leandro de Lajonquière
Quem não teve aula com este senhor não sabe o que é se apaixonar por alguém. Sim, por este mesmo: o da foto. E por quê? Por que se apaixonar por ele, justo ele? Grisalho, magro, com um forte sotaque arrentíno e um mistério ainda não decifrado: ou você passa a amá-lo e sonhar com olhares, casamento, filhos e uma casa com horta ou o odeia. Simples assim.A aula dele é toda teórica. Toda. Ele começa às 14 horas e passa das 16 só falando. Nas minhas duas primeiras aulas, aquele sotaque forte soava como música aos meus ouvidos e eu só conseguia ligar as palavras e denominá-las sons, nada além. Tive que me disciplinar.
Para passar na sua matéria, você não pode faltar nas duas provas. E tem que tirar uma boa nota, claro. Mas, ele afirma, convicto, que tudo o que precisamos para tirar dez é ler o que ele indica. Todos leem. Ninguém é louco de fazer uma prova dele sem ter lido e devorado todos os livros e textos sugeridos.
Há quem não goste dele porque ele não é dos mais simpáticos, atenciosos e, digamos, humanos. Não, ele não sabe seu nome. Nem se importa. Ele é do tipo que não decoraria. Cruzei diversas vezes com ele pelo corredor da faculdade. Algumas vezes não fui notada. Em outras, fui cumprimentada com um “Hola, linda!”. Na primeira vez quase morri, claro, e achei que meus olhares estavam sendo correspondidos, casamento, filhos, casa com horta… Mas depois percebi que é a maneira dele dizer: “Estou te cumprimentando porque sei que você foi minha aluna e gostava das minhas aulas, mas nem imagino seu nome e o que você faz além de sentar na primeira fileira e tirar algo entre nove e dez.”.
A sala lotada, o amor ou o ódio, a capacidade de calar sessenta pessoas por mais de duas horas, o jeito, às vezes, rude, direto e até grosseiro só provam que para aprender psicanálise é preciso ler Freud, mas ter Leandro para explicar é sensacional.
Ela disse adeus
Eu disse adeus. Foi difícil (e quem disse que não seria?), mas depois que dei o primeiro passo, tudo fluiu naturalmente. Não havia mais motivos para continuar por lá. Exceto estas bochechas aqui do lado e outras gostosuras com cerca de cinco anos de idade.
Disse adeus assim como cheguei: discretamente. Com ajuda e coragem (em tempos de crise), decidi: vou procurar por algo que me faça mais feliz. Vou me encontrar nos próximos meses.
É claro que vou morrer de saudade de gente tipo… Tipo esta pessoa: Dudu. Meu Dudu. Como pode? Tenho quatro meses de laço com ele. Quase diário, já que ele falta muito (mas é claro, se fosse meu filho, também não ia sair de casa para mostrar as “minhas” bochechas ao mundo!).
Neste tempo nos conhecemos, ele ficou na dele (calado, observando), depois me testou e de novo, mais, de novo. De calado e observador, passou a falar e perguntar. Aos poucos. Quando notei, ele estava chorando porque queria que eu o atendesse. Eu e mais ninguém. Nem sabia meu nome ainda. Descobriu. “Ijabeella”, ele diz, articulando bem a boca e levando a língua até o lábio superior ao pronunciar o som do “L”.
Então eu (re)descobri o que significa ser fonte de confiança de uma criança. Ter um laço com ela que não passa pela aprovação dos pais (que nem conheço) ou dos parentes e que é alheia à vida da criança. Às vezes penso, se encontro ele (que ainda é tão pequeno, tem menos do que três anos) fora da escola, ele me reconhece? Digo, reconhece a mesma fonte de confiança que tem quando estamos juntos, na escola? Acho que não. Mas não me importa.
Não existe criança mais expressiva, bochechuda, danada e gostosa. Experiência própria. Por isso foi difícil olhar para ele e dizer tchau. Ele não sabe nem entenderia. E daqui a alguns meses talvez nem se lembre mais de mim. Mas no momento em que percebi que era a última vez, chorei. Ali, bem no meio do lanche do Maternal. E ele entendeu, se assustou até, então, tive que me conter. Por isso, não contei para mais nenhum deles. Não consegui. Tudo o que me sobrou de coragem na hora de partir, me faltou para a despedida.
Chorei.
Boa pergunta
- Quem penteou seu cabelo?
- A mamãe. E o seu?
- A sua mamãe também.
- Não foi!!!
- Foi sim!
- Não!!! Foi… Isabella, você tem mamãe?
- Tenho.
- Como ela chama?
- Cristina.
- Foi a sua mamãe.
- Não foi.
- Então… [Pausa. Tensão.] Por que a sua mãe não penteia seu cabelo?

Gigi e a descabelada
Rei Arthur
Um casal encantado


