Criticar por criticar
Se tem uma coisa que eu não suporto são críticas descabidas. Ontem eu fui assistir ao ensaio aberto de uma peça de teatro amadora. O grupo tem muitos amadores que estão lá por opção e dedicação e alguns profissionais convidados.
O fato é que, após a apresentação, iniciou-se um debate. Entre alguns exagerados elogios, surgiram críticas apontadas pela platéia. Dois serezinhos que estavam se achando os últimos biscoitos do pacote, porque estão terminando o curso de teatro na Anhembi Morumbi, reclamaram que faltava muito nas interpretações de alguns personagens. “Apontem”, pediu o diretor. Eles apontaram para uma senhora e para um menino, este recém-chegado no grupo, em sua primeira experiência em teatro.
Isto é justo? Apontar na frente de todos as falhas de cada um é justo? É claro que aquela senhora sabe que está devendo em sua interpretação. Isto é um processo, é um trabalho do diretor (que optou por fazer teatro amador e, por isto, deve dar um amparo maior ao grupo) e dela. Ela não está à vontade em cena, sabe disso (claro que sabe!) e eu não acho legal uma pessoa X dizer o que falta a ela como se ela fosse profissional e seu erro fosse apenas um desvio no caminho. Não é. É um processo que ela tem que passar: construção, entendimento etc.
O caso do menino é ainda pior: como apontar o erro de alguém que não teve nenhum contato com o palco? Que não teve orientações do diretor, que pegou um texto, leu, decorou e entrou no palco interpretando seu papel e lidando com a peça do jeito que dava?
Depois de todos estes momentos de apontação (que inclui um sujeito piscininha* da primeira fileira, também metido a profissional e entendedor), o diretor, como se não bastasse, em um de seus monólogos, se exaltou ao afirmar que escola de teatro acaba com o ator. Sim, com todas estas intenções, ele disse que ator é vida e blá, blá, blá e escola de teatro só poda a criação do ator.
Bem, por um lado, quem nasce com um “dom” para a coisa, com certeza, pode se aprimorar nas escolas, com a base teórica que é fundamental para qualquer área em que você queira se aprofundar. Por outro, um cara ruim, com dicção ruim, movimentação inadequada e ruim mesmo, no teatro, pode até melhorar… Mas acho que dificilmente vai ser um grande ator, uma revelação.
Em suma: escola de teatro não forma atores maravilhosos por si só. Mas atores maravilhosos com certeza, um dia, sentirão a necessidade de uma base teórica que os oriente. Não deve ser descoberta minha, com certeza. Mas o diretor foi tão pedante e agressivo ao colocar estas palavras que, certamente, ofendeu a todos os profissionais que lá estavam. De teatro ou não. * Piscininha é um termo que surgiu durante as minhas aulas da faculdade. Quando uma pessoa comentava alguma coisa de um modo muito superficial e posando de “o último biscoito do pacote”, minhas amigas a chamavam de “piscininha”: uma pessoa rasa, superficial, que não consegue levar um assunto a fundo, apenas repete frases de impacto. Geralmente, uma piscininha inunda as aulas com comentários sobre sua vida pessoal que não dizem respeito a ninguém. Qualquer dia desses, darei alguns exemplos esclarecedores. Aguardem.
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1 comentário


“piscininha” deveria entrar para o dicionario… eh uma expressão maravilhosa!!! hehehe