Arte-educação e formação de professores

Eis que no longínquo ano passado, após ter esperneado por aqui, concluí a pós-graduação em arte-educação que fazia. “Linguagens da Arte”, do Centro Universitário Maria Antonia da Universidade de São Paulo, coordenado por Rosa Iavelberg e pelo orientador do trabalho aqui apresentado, Marcos Garcia Neira.

Apresentação da monografia, sob o efeito de Floral

Sou agora, pois, especialista em arte-educação, pós-graduada pela maior universidade pública brasileira. E o que isso significa?

Foi ao longo do curso, percebendo que nem o mesmo sabia exatamente onde ia dar, que vi que não significa nada. Tive muito jogo teatral com a excelente autora Ingrid Koudela. Tive danças livres pelo espaço com Uxa Xavier. Tive aulas estritamente práticas e de cunho recreativo com os músicos da Escola de Comunicação e Artes da USP Pedro Paulo Salles e Fábio Cintra. Mas não tive teoria. Nada de livros, nada de leituras, nada de discussão, nada de arte-educação. O legal mesmo era dançar, rolar, fazer exercício teatral e depois relatar o que você sentiu.


Aula prática de dança: interessante se a teoria não parasse por aí

E eu, muito cética com a vida, não sou lá de acreditar que a riqueza mora ao redor do meu umbigo. Acredito que tenho de ler quem entende (ou já entendeu) para saber das coisas. Acredito que preciso de um tutor, de um professor, de alguém competente na área que me oriente. Porque, sim, o currículo do curso é bem pensado. As referências bibliográficas são enormes e têm qualidade. Mas um curso de pós-graduação deve oferecer um mergulho na área. É necessário alguém para te levar mais fundo.

Por isso, para extravasar esta minha raiva desta educação equivocada, decidi fazer o trabalho final com foco na formação de arte-educadores. Olhando de dentro do curso, coloquei o que encontrei pela bibliografia acerca do tema.


Trabalho em grupo, oficina de Stop Motion

Algumas perguntas me motivaram ao longo desta pesquisa. Como formar o arte-educador? O que é necessário? Teoria, prática pedagógica, experiência artística? E mais: que curso é este, “Linguagens da Arte”? Qual seu objetivo? Seria sua razão outra que eu não estaria vendo?

“Ao longo dos semestres, pude perceber que as reflexões não ofereciam oportunidades de práticas autônomas. Se não tenho formação em teatro, música, dança ou artes visuais, se não tenho grande conhecimento sobre o tema, como poderei lecioná-lo autonomamente, sendo criadora da minha prática? Algumas vivências, jogos teatrais, danças, corais e desenhos podem embasar minha prática por si só? Ou são apenas receitas prontas para serem apresentadas em sala de aula? Podem fazer-me arte-educadora por mais que eu não saiba se canto no tom certo, quais são as referências no ensino de teatro, quais os métodos utilizados em dança e como desenvolver o desenho da criança quando ela diz que não sabe desenhar?”

Defendi a monografia em novembro de 2011, num auditório do CEUMA-USP, para uma pequena plateia. A monografia foi bem vista. Apontei algumas questões que acho que devem ser aprofundadas, mas as gentis Lucia Lombardi e Eliana Pougy, da banca examinadora, elogiaram o trabalho e o trajeto escolhido para a contação desta história.

E como esta dolorosa produção para ser útil deve ser espalhada, divido aqui com vocês minha monografia:

Um olhar sobre o curso Linguagens da Arte: experiência, teoria e prática na formação do arte-educador

É só clicar e surgirá o pdf. Espero críticas, comentários, sugestões. Afinal, se diz Snyders que “o saber é uma luta pelo saber”, travemos logo esta batalha.

Apenas um jovem: João Felipe Scarpelini

“Prezados senhores, meu nome é João Felipe, tenho treze anos e quero mudar o mundo. Você pode me ajudar?”

Foi em novembro do ano passado, num auditório flutuante de um Rio Negro quase seco, que ouvi a história de João Felipe Scarpelini. Na iminência de um país (e de um planeta) em sufoco, precisando ser mudado.

Não sou emotiva o suficiente para chorar em palestras. Mas a dele foi a que mais me tocou em todo o TEDxAmazonia. Ele queria mudar o mundo. Ele só tinha treze anos.

Foi aquela frase do início o email que ele enviou para mais de cem instituições. Grandes, pequenas, todas com o discurso da importância do jovem. Alguma tinha que retorná-lo.

De fato, retornaram: cinco. Algumas sugerindo que ele colaborasse com dinheiro, outras dizendo que ele ainda era muito jovem para isso.

Eu tenho a mesma idade que ele. De certo modo, tivemos as mesmas inquietações. Mas para João Felipe foi diferente. Aquilo bateu nele. Ele sentiu que precisava agir. Ele sabia que podia.

Passou a organizar debates na escola em que estudava: chamava jovens que estavam mudando o mundo para contarem de suas experiências. Fomentava a ideia de que era possível.

Ele foi o aluno que toda escola quer ter: engajado, participativo, envolvido, protagonista de um projeto, de uma história. Ou deveria querer.

A principal dificuldade dele foi, justamente, com seus professores, que insistiam que ele deveria deixar a bagunça de lado e se focar no vestibular. No ensino formal. Tão sólido, tão careta. Tão cego, às vezes.

Foi isso que João Felipe fez, mas foi isso também que não durou: largou a faculdade de Relações Internacionais logo no início. E foi para a Inglaterra colocar a mão na massa: trabalhar numa organização, com jovens de diferentes lugares do mundo.

“Da noite pro dia eu deixei de ser o jovenzinho bonitinho que queria fazer alguma coisa e passei a ser tratado com um profissional especializado em juventude.”

Hoje, com 25 anos, ele é consultor em questões de juventude da ONU-HABITAT (Organização das Nações Unidas para Assentamentos Humanos). Trabalha ouvindo jovens, dando voz a eles e ajudando-os a conseguirem direitos, responsabilidades e os mesmos critérios que os adultos.

“A gente não quer tratamento especial, a gente quer ser igual.”

Depois de já ter passado por 42 países, em mais de 400 projetos, ele diz que não luta pelo protagonismo juvenil, mas sim pelo empoderamento do jovem. Busca igualdade no tratamento de jovens e adultos, trabalho conjunto. Não pensa em baixar critérios para trabalhar com eles: sabe que são (somos) capazes de muito mais.

“Somos três bilhões de jovens no mundo. Acho que fica claro que falar pro jovem que ele é muito novo para fazer a diferença, tinha que ser um crime.”

Num planeta pedindo socorro, com tantos problemas e tão pouco tempo que temos por aqui, ignorar o trabalho e as ideias de tanta gente querendo ajudar é triste. E foi o que fizemos com João Felipe quando ele queria fazer a diferença.

É espantoso o fato de João Felipe precisar sair do país para ser reconhecido aqui, para ser valorizado. Hoje o Brasil o vê como um especialista em juventude. Mas porque ele foi validado pelo mundo.

Uma tristeza que nosso sistema educacional ainda esteja tão engessado. Formamos (na verdade, nem bem formamos) para o ingresso na universidade. Como se este fosse o único caminho. Como se fosse a solução.

Ver João Felipe fazendo a diferença é um alívio, um sopro de esperança. Uma inspiração.

PS: E se você também se apaixonou pela história dele, sugiro que assista ao bate-papo que o pessoal do CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatvas) fez com ele no final do ano passado. Foi lá que tive a oportunidade de dar um abraço neste cara grandão e de bom coração que poderia ser meu colega de sala. E é meu novo ídolo.

Banalização da educação: da creche ao doutorado

Que a educação no Brasil não anda lá grandes coisas todo mundo sabe.

Não sei se é de hoje, de ontem ou um reflexo dos tempos. Há diversas teorias sobre e isso merece capítulos e capítulos de um livro que envolveria falta de estrutura nas escolas, desvalorização do trabalho docente, grande expansão do ensino sem o investimento necessário etc.

Foi lá em 2004 que eu comecei a cursar Pedagogia buscando entender esta e outras questões e é agora que eu venho demonstrar aqui uma partícula disso tudo. Afinal, se as escolas não conseguem ensinar, de todos os fatores apresentados aqui em cima, preciso contar um pouco do que ando vivenciando.

"Educação é a mais poderosa arma"

No início deste ano caiu no meu colo a pós-graduação dos sonhos: “Linguagens das Artes”. Além de ser oferecida pela USP e coordenada por Rosa Iavelberg (renomada professora da Faculdade de Educação da USP e intimamente ligada às artes), ainda encontrei o curso a tempo de me inscrever para a prova de seleção. Em cima da hora, mas a tempo.

Uma pós-graduação lato sensu na melhor universidade do país, com uma pessoa competente à frente e professores especialistas em arte e educação. O que poderia dar errado?

Nada. No entanto, até agora estou esperando pelo início do curso. De todos os módulos que tive durante este ano, posso dizer que aprendi alguma coisa com dois. Dois. Dois de mais de uma dezena.

E, ora, como eu poderia imaginar? O curso só tem indicações positivas. Professores de diversas faculdades da USP, muito experientes, plano bem estruturado, linguagens das artes contempladas no currículo. Na teoria, tudo parece correr bem. Na prática, a maioria dos professores tende a dar aulas em forma de oficina (que, sem a teoria, fica vazia e tola) ou excessivamente teóricas e sem correlação com a prática e com a proposta do curso.

A situação é cômoda, confesso: as aulas são ruins, a grande maioria beira o embromation. Os professores alegam que são poucas aulas para um assunto tão vasto, que deste jeito não conseguem aprofundar o tema etc. E já que não conseguem aprofundar, praticamente nem nos iniciam. Nos tratam como crianças em oficinas destinadas a esse público, nos enchem de jogos teatrais, livres expressões de dança, de música… Certamente oficinas que fazem sentido e são esclarecedoras depois de um embasamento na teoria. Depois de leitura. Reflexão. Caminhos. Propostas.

O curso faz o que faculdades e cursos de extensão costumam fazer com profissionais da área de Humanas (especialmente com pedagogos e envolvidos na profissão tão desvalorizada de professor): misturam oficina com auto-ajuda, fingem entrar na formação cultural do professor e trabalhar muito profundamente, mas são tão rasos, tão subjetivos e tão superficiais que enganam, no máximo, Gabriel Chalita.

"Ei, você, venha fazer pós-graduação com a gente!"

“Linguagens das artes”, esta pós-graduação tão promissora, talvez nada mais seja do que um reflexo, em outras proporções, desta educação que, como eu dizia no início do texto, já não anda grandes coisas.

Parece não haver por lá falta de estrutura ou de investimento, tampouco desvalorização do docente. Talvez o maior problema deste curso seja a falta de comunicação entre alunos e professores, coordenadores e professores, coordenadores e alunos, teoria e prática, currículo e vivência.

Frase adaptada de Gilberto Freyre, pichada nos muros da FEUSP

São apenas mais seis meses, uma monografia e eu posso me considerar uma arte-educadora sem nunca ter entrado em sala de aula numa discussão sobre conceito de arte. Sobre ONGs. Sobre atuação do arte-educador. Sem quase nunca ter tido discussões em cima de livros importantes, de autores de referência. Sem saber onde procurar para tratar de dança, de música, de teatro. Sem base para a prática. Para o fim social.

Entendo porque falamos tanto em avaliação em educação. Entendo porque tentamos seguir os passos do que deu certo, voltar a todo instante para pensar onde melhorar. Porque sem ligação, sem entendimento, sem coerência, tudo vira uma grande oficina sem propósito.

E talvez o grande problema disso tudo seja mesmo a falta de propósitos. Da creche ao doutorado. Pois a educação não anda grandes coisas na escola porque, anotem, a educação não anda grandes coisas para os educadores.

A escola nova ainda é velha

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.

Ouvi o poema novamente ontem, na  peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?

O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.

No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.

O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.

Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…

A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?

Happy birthday, teacher. E zíper na boca.

Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.

Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.

Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.

É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.

Quanto custa esta escola?

Um dos passos mais importantes na história dos pais – e do que eles querem para o futuro de seus filhos – é a escolha da escola. Já pensou em que colégio vai colocar seus filhos? No mesmo em que você estudou? Num mais perto da sua casa? No mais caro da cidade?

Tendo filhos ou não, isso certamente já passou pela sua cabeça: em que lugar eu confio a ponto de querer dividir uma parte da minha vida? Considerando a escola pública brasileira – o que se fala dela na mídia, o que se sabe observando de perto uma – todos nós pensamos em pagar um colégio para nossos futuros, presentes, inevitáveis ou ilusórios pimpolhos. Certo?

Sim, pagando teremos garantia de excelência – é o que passamos a vida inteira acreditando. Afinal, se o colégio te cobra mensalidades, você passa a ser mais do que o pai de um estudante de lá. Agora você é cliente. E pode reclamar se o banheiro estiver sujo, se o professor tiver faltado, se o diretor não te ouvir e, às vezes, até mesmo se seu filho for mal na prova.

No entanto, basta passear por algumas escolas particulares para ver que a qualidade do ensino não está diretamente associada ao preço da mensalidade. Na educação, esse clientelismo não funciona. Nem deveria funcionar, afinal, educação não se compra, é um processo. E não se adquire com a mesma lógica com que compramos sapatos.

Pensando sobre isso, dia desses encontrei o blog de uma mãe, jornalista, esclarecida, bem sucedida e questionadora que optou por colocar seus dois filhos numa escola pública. Não, a escolha não aconteceu por falta de dinheiro. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ela já morou, seus filhos estudaram nas ditas “melhores” escolas, dividindo espaço com filhos de estrelas da televisão brasileira, artistas e gente cult.

Acontece que principalmente por não concordar com a proposta pedagógica destas escolas (e por ainda ter que arcar com suas mensalidades caras), ela saiu em busca de outras. E visitou uma pública. Ao ver a abertura do diretor, a acessibilidade dos professores e a vontade de progredir da escola, não teve dúvidas: matriculou seus filhos lá.

A localização desta escola pública, numa área nobre da cidade, conta muito, claro. E no blog ela conta tudo com detalhes. E ainda fala sobre a transição dos filhos, as dificuldades da escola, os problemas do relacionamento entre as crianças e sobre a coragem que teve que ter para manter sua escolha.

Embutido nos discursos que ela narra dos parentes e amigos desesperados pela escolha dela, vemos muito o preconceito que temos com a escola pública. E, mais do que isso, como acreditamos que qualquer escola particular é melhor do que uma pública. A relação não é tão simples assim. O preço que se paga não garante nada. Ou garante que façam tudo um pouco mais escondido.

O fato desta mãe confiar a educação de seus filhos a uma escola pública – e ainda escrever sobre – é muito bom. Como ela mesma cita, é importante que a classe média entre em serviços públicos e cobre por um atendimento decente. É o início de um novo pensamento. Afinal, a escola pública não é de graça.

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