Ela disse adeus
Eu disse adeus. Foi difícil (e quem disse que não seria?), mas depois que dei o primeiro passo, tudo fluiu naturalmente. Não havia mais motivos para continuar por lá. Exceto estas bochechas aqui do lado e outras gostosuras com cerca de cinco anos de idade.
Disse adeus assim como cheguei: discretamente. Com ajuda e coragem (em tempos de crise), decidi: vou procurar por algo que me faça mais feliz. Vou me encontrar nos próximos meses.
É claro que vou morrer de saudade de gente tipo… Tipo esta pessoa: Dudu. Meu Dudu. Como pode? Tenho quatro meses de laço com ele. Quase diário, já que ele falta muito (mas é claro, se fosse meu filho, também não ia sair de casa para mostrar as “minhas” bochechas ao mundo!).
Neste tempo nos conhecemos, ele ficou na dele (calado, observando), depois me testou e de novo, mais, de novo. De calado e observador, passou a falar e perguntar. Aos poucos. Quando notei, ele estava chorando porque queria que eu o atendesse. Eu e mais ninguém. Nem sabia meu nome ainda. Descobriu. “Ijabeella”, ele diz, articulando bem a boca e levando a língua até o lábio superior ao pronunciar o som do “L”.
Então eu (re)descobri o que significa ser fonte de confiança de uma criança. Ter um laço com ela que não passa pela aprovação dos pais (que nem conheço) ou dos parentes e que é alheia à vida da criança. Às vezes penso, se encontro ele (que ainda é tão pequeno, tem menos do que três anos) fora da escola, ele me reconhece? Digo, reconhece a mesma fonte de confiança que tem quando estamos juntos, na escola? Acho que não. Mas não me importa.
Não existe criança mais expressiva, bochechuda, danada e gostosa. Experiência própria. Por isso foi difícil olhar para ele e dizer tchau. Ele não sabe nem entenderia. E daqui a alguns meses talvez nem se lembre mais de mim. Mas no momento em que percebi que era a última vez, chorei. Ali, bem no meio do lanche do Maternal. E ele entendeu, se assustou até, então, tive que me conter. Por isso, não contei para mais nenhum deles. Não consegui. Tudo o que me sobrou de coragem na hora de partir, me faltou para a despedida.
Chorei.
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6 comentários


Que lindo!!! que vontade de morder essas bochechas…rsrs
E lindo o seu texto, super sensível…
bjo!!!
Você é inesquecível ! Claro que ele vai ter vc na lembrança ! Eu tenho minha professora do pré até hoje: Celeste!
Que aperto no coração ! Mas vai ser melhor assim ! Boa sorte na nova caminhada ! Sabe que torço por você !
Bjo
Não sei se você será lembrada (eu cá, pouco me lembro das minhas professoras de infância), mas acho que não importa, não é mesmo? É como a dúvida sobre o reconhecimento em você da força e proteção em um ambiente que não o da sala de aula. Isto é secundário. Importa, sim, o momento, a grandeza daquele segundo de olhares confidenciados cristalizados na tua alma. Já é o teu tesouro. Espólio justo, honrado e bonito.
Buscar ser feliz é dificil, mas acredito que deva ser possivel. Tempos atrás, enrolei minhas certezas em um lençol e segui viagem pelas trilhas várias seguindo em rumo similar. Caminhei bastante e cheguei em alguns pontos que queria. Se disser que encontrei a felicidade, minto. Em seu lugar vi algumas farpas, tantos pregos tortos e muita sujeira pra ser limpa. Hoje eu como lavagem junto a monstros (que descubro os nomes e me afeiçoo) e deixo pêlos e garras crescerem fertilizados por uma lama escura. Ao invés da felicidade, encontrei desafios. Não é ruim. De minha parte, acho até melhor, pois percebi que são infinitos.
Ela disse adeus, e chorou,
já sem nenhum sinal de amor.
Ela se vestiu, e se olhou;
sem luxo, mas se perfumou.
Lágrimas por ninguém,
só porque, é triste o fim.
Outro amor se acabou.
Ele quis lhe pedir pra ficar;
de nada ia adiantar.
Quis lhe prometer melhorar,
e quem iria acreditar?
Ela não precisa mais de você,
sempre o último a saber.
Que bonito!!! tem coisas que nao tem preço. Acredito que esta sua experiencia valeu!
E que venham coisas boas por aí.
Isa, me agarro na esperança de que eles se lembrem… PRECISO q eles se lembrem pois entendo exatamente o q vc escreveu… nós nos envolvemos, nos doamos, nos apaixonamos, nos entregamos e uma hora acaba! Pode ser q seja no final do ano ou antes dele (como no seu caso), mas eh inevitavel q acabe. E fica a dúvida, será que algum dia conhecerei crianças tao incriveis como estas? E vc acredita q nao… Mas no ano seguinte vc conhece cças tão deliciosas qto, e percebe q as coisas vao continuar dando certo, e q ser professora pode ser sofrido, mas vale a pena!
E a “maxima” ta valendo: “a gente ganha pouco, mas se diverte” rs…