Festival de 67: minha música vencedora

Devia ser mais uma tarde comum na minha vida. Entrei na sala e vi minha irmã ouvindo uma música esquisita e parando de tempos em tempos para transcrevê-la. Parei para ouvir e, de fato, não é que a canção era curiosa?

Eu tinha onze anos e a música não fazia sentido nenhum para nenhuma de nós duas. Paramos para rir. “Sem lenço, sem documento”? “O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas”? “Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores”? Mais risos, um ponto de interrogação. A gente pouco entendia, mas muito gostava de tentar decifrar aquele enigma.

A música estava em uma dessas coleções de CDs promocionais de farmácia (do tipo: nas compras acima de cinquenta reais, pague mais dez e leve um CD!). Catalogado como MPB, trazia ainda Elis Regina cantando Fascinação, uma música que também descobri de maneira peculiar na infância: era o tema de abertura de uma novela do SBT que eu amava. Pois é.

Elis, Gil, Gal, Bosco, Elba: nenhum tinha vez. Alegria, Alegria era fascinante para nós, letra e melodia: a única que tocava naquelas caixas de som enormes da sala de estar. As duas obcecadas pela obra do cara dos caracóis no cabelo. Por que sem lenço, sem documento? Casamento, escola, Coca-cola? Por que Alegria, Alegria?

Eu quero seguir vivendo, amor...

A música ficou em quarto lugar no festival de 67. Mas, para mim, é a melhor de Caetano, embora ele não ache e sugira até sentir um certo incômodo por isso. Se eu estivesse naquela plateia em 67, certamente faria parte do coro que gritava “Primeira!” para a canção dele e gastaria o resto das cordas vocais no ápice da música: “Eu vou… Por que não?”.

Para entender o bom da música brasileira, para sentir e morrer de inveja daquele tempo, é preciso ver este documentário: Uma Noite em 67. Foi lá, nesta noite que não vivi, que percebi que apesar de ser suspeita para falar da obra de Chico Buarque (de gostar de tudo, de me derreter de amores – inclusive por Roda Viva), apesar de achar Ponteio ótima e saber da importância de Domingo no Parque… Apesar de tudo, aquele era o ano de Alegria, Alegria. A grande vencedora, para mim.

Sim, é preciso ver este documentário. Para não saber para quem torcer, para se deslumbrar a cada novo artista, para desmistificar o ídolo. Para ver Chico Buarque sem saber o que dizer, Gilberto Gil menino, Caetano Veloso inocente e já sem papas na língua e Roberto Carlos sendo levado por uma repórter pentelha. Para ver o que nunca mais vimos.

Para morrer de raiva por saber que hoje temos a Internet, o Youtube, bandas se tornando independentes, mas antes tínhamos músicas incríveis passando na televisão. Festivais sendo transmitidos, compositores novos, cantores excelentes, poesia nas letras, arte nas melodias e batalhas quase que sangrentas pelo primeiro lugar.

Para morrer de amores pela música brasileira, que nunca é tarde. Se você ainda não começou a se desmilinguir por ela com um CD promocional qualquer, aproveite e comece agora com este documentário.

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12 comentários

  1. É também a minha preferida do festival, se bem que “Ponteio” é excelente.

    Faltou você falar do significado da música do Caetano (da banda, do jornal…). Tenho certeza que você tem algum leitor tão leigo quanto eu. ;-)

  2. 1967. Um ano tão longe da minha realidade (taaaaao longe, rssss) quanto da sua!

    Tempos muito diferentes de agora, onde não só a música era cheia de vida, mas a vida era cheia de amarras. A música era a voz dos que não podiam falar!

    Mas quem de nós, em vários momentos da vida, não desejou uma viola pra cantar e recitar o mar de sentimentos que nos invadia a alma?

    Isso tudo emociona até hoje, Isa, porque é inundado de sentimento, de revolta, de amores. Emociona e é tão rico porque é verdadeiro!

    O que é verdadeiro nos inunda e nos conduz, por isso é impossível se conter, conter o balançar do corpo, a emoção e o quase delírio. É verdade na música, é verdade no amor!

    Ah, e convenhamos, Chico é Chico, né? O resto, bem, o resto é tudo isso aí! ;o)

    Beijos

  3. Alegria, Alegria é a minha música favorita deste festival, mas também adoro Domingo no Parque e Roda Viva.

    Este filme é essencial!

  4. Em 1967 eu tinha 7 para 8 anos. Não me lembro do Festival deste ano, mas em 1968 já tenho lembrança de assistir ao vivo e em preto-e-branco. Este evento me marcou, pois meu pai comprou um conjunto com 3 LP’s (o que hoje chamam de vinil) com todas as músicas do festival. Estes discos me acompanharam durante décadas e hoje estão sob a guarda de meu sobrinho que mora em SP (Luis Carlos). Este documentário deve ser o máximo, mas devo assisti-lo somente em DVD, uma vez que Luisa ainda não tem idade para ir ao cinema (e eu ainda não consigo deixar minhas mulheres em casa).

    Ah, minha música favorita é Roda Viva.

  5. Aumentou minha vontade de assistir o documentário. Também adoro “Alegria, alegria” desde criança. Me lembro dela da época que passava a série “Anos Rebeldes” na TV. “Roda Vida”, do Chico também tem lugar especial. O gosto pela MPB vem da mami que ouvia sempre quando eu era criança.

  6. Primeiro queria comentar sobre o seu texto. Sim, antes os músicos se esforçavam mais para escrever uma música de verdade, com significados que vão além do papel ou do ritmo. A música, em sua grande maioria, é composta de som e letra, atualmente com a falta de festivais ou mesmo como você disse com a facilidade em divulgar e promover uma música, muitos cantores esquecem que a letra tem tanta importância quanto o ritmo apesar de mais trabalhosa.

    Segundo é que fui indicada a dar uma passada no seu blog pra falar da minha música preferida no Festival de 67! A minha música preferida chama-se Roda Viva! Gosto de MPB, também sou da linha de pensamento “o chico é incrível” ou uma chicolatra como o perfil mais popular dele no tt. Sobre essa música em especial e mais algumas outras que foram escritas para peça “Roda Viva” não sei muito o que falar, já que esse foi um livro censurado e que o chico não quis republicar. =/

    Por curiosidade vou acrescentar aqui que foi depois desse Festival que Caetano e Chico foram estimulados pela imprensa a lançar um álbum juntos, chamado “Chico e Caetano” lançado em 1972. Não sei se isso vai aparecer no filme, mas está escrito no livro “Chico Buarque” de Wagner Homem.

  7. Oi! sou a Tati do curso de Arte! Adorei seu post… um amigo meu “deu de presente do dia dos pais” a ida (somente pai e filho!) ao documentário, e gostaram muito! E eu também tenho só paixões pelo Chico.

  8. Pois é, agora tenta imaginar realizar um festival de música em 2010…

    Quanto ao Chico, eu tenho uma teoria. O lance dele é mesmo escrever, mas como escritor não come ninguém, ele teve que botar um violão debaixo do braço e arranjar os versos dele. A MPB agradece ;)

  9. Pois é, esses tempos que não voltam mais dão saudade até em quem não viveu (como eu por exemplo). Eu adoro Roda Viva e várias outras do Chico, mas Ele em si me dá sono…as letras e idéias são ótimas e tudo mais (quem sou eu pra criticar), mas cantando e falando o Chico é chatinho. Prefiro ler e ouvir em outras vozes, passam mais vivacidade. Mas ele consegue passar nas letras muito mais do que tá escrito…perfeito.

    “Tem dias que a gente se sente
    Como quem partiu ou morreu
    A gente estancou de repente
    Ou foi o mundo então que cresceu…

    A gente quer ter voz ativa
    No nosso destino mandar
    Mas eis que chega a roda viva
    E carrega o destino prá lá …”

  10. Acesse o blog “As Mulheres de Augusto” pra saber mais sobre o criador do FIC – Festival Internacional da Canção! :)

  11. e “eu e a brisa” que nem se classificou neste festival?

  12. Isabella enfim assisti ao documentário. Vi ontem, mas tenho um problema, como ouvi de diversas pessoas e através da imprensa que o documentário era fabuloso ao término dele senti como nada de novo houvesse sido dito. Fiquei impressionado, como nesses tempos de politicamente correto, onde não se pode fumar em lugar fechado (e estou de acordo), naquele festival podemos ver o repórter fumando na cara do entrevistado, enquanto este responde as perguntas.

    Achei interessante o ponto de vista de Gil, Caetano e Chico quanto as saudades daqueles tempos.Disseram que nem pensam muito nisso.

    A dicotomia musica brasileira e guitarra elétrica, porra passeata pra não ter guitarra, mostra o quanto eram politizados e …. burros.

    Fui a favor da reação de Sergio Ricardo, eu faria o mesmo.
    Gil imprestável no quarto de hotel horas antes, no Festival não parecia. Fiquei pensando no Paulinho Carvalho dando banho no Gil,que cena, não?

    Mas o importante mesmo, as músicas, sinceramente não consigo achar uma melhor com a outra, desde a defendida por Roberto Carlos (acho que é MAria alguam coisa) até Ponteio, passando por Alegria, Alegria, Roda Viva e Domingo no Parque, todas são Fabulosas.

    Pra finalizar, não lembro quando escutei Alegria, Alegria pela primeira vez, certamente em alguma série da globo, tipo Anos Dourados, eu acho, o que me faz pensar que ela já nasceu comigo.

    abs.

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