Imaginação ou educação?

Ela é um símbolo. Milhares de crianças lêem a Mônica. E o que estão aprendendo?

1) as coisas se resolvem na porrada;

2) a regra é olho por olho, dente por dente;

3) o bulling deve ser praticado;

3) a inteligência ou a sensibilidade não devem ser usados para resolver conflitos.

(Dioclécio Luz, “Violência na Turma da Mônica)

Eu nunca tinha lido nada de Dioclécio Luz até ver o burburinho que ele causou no Twitter. Tudo porque este jornalista e pesquisador ficou famoso por lá depois que resolveu escrever para o site Observatório da Imprensa criticando a Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.

No artigo, ele afirma que as histórias da famosa turminha são violentas e nada educativas. Isto porque Mônica, a personagem principal, sofre com as agressões verbais do colegas —  o tal do bullying — e resolve tudo na base da coelhada. Além disso, afirma que os personagens são rasos, estereotipados e ainda cai de cabeça na onda do politicamente correto ao afirmar que a gulosa Magali, por exemplo, tem obsessão por comida — um desvio que precisa ser tratado e é negligenciado.

Eu poderia escrever aqui por horas sobre as delícias da Turma da Mônica e poderia também entrar nesta guerra para defender as histórias em quadrinho. No entanto, outras pessoas já fizeram isto muito bem, como é o caso do Rob Gordon.

Cebolinha por Arthur, 4 anos de idade

O que me incomoda de fato no texto dele é o discurso politicamente correto. Esta neurose de achar que tudo deve ser educativo. De achar que tudo é exemplo e que toda história tem que ter uma moral. Não tem.

Parte desta visão vem do fato de que ainda consideramos a criança como um serzinho inocente, ingênuo, sem maldades. Errado. A criança é exatamente o que somos. É boa, má, ciumenta, alegre, estranha, amorosa,  irritada e mil coisas mais. Com uma simples diferença: ela ainda não domina tão bem suas linguagens para expressar o que sente. Por isso, às vezes grita, morde, se joga no chão, chora, xinga o amigo e dá uma coelhada nele.

É para aprender a jogar neste mundo maluco que chamamos de vida real, que a fantasia é uma grande aliada no desenvolvimento da criança e, consequentemente, em sua educação.

Cooperação Criativa, o projeto mais bacana que já vi em arte-educação: respeito ao direito de imaginar

Gibi não precisa ser educativo, a música Atirei o pau no gato não precisa ser trocada por aquela versão careta e ecologicamente correta e as histórias precisam sim ter bruxa, Lobo Mau que come a Chapeuzinho e medo. Afinal, a criança precisa do mundo da fantasia, precisa testar suas emoções e ouvir histórias de uma menina que é todo dia chamada de dentuça, baixinha e gorducha.

Se fizermos com que todas as histórias e todas as músicas infantis tenham uma moral, privamos a criança de um mundo de outras histórias e músicas. Um mundo de cultura que sobreviveu anos e anos até chegar aqui. São anos de história, de cultura; anos que não precisam ser trocados por versões “menos cruéis”.

Nunca vi uma criança batendo em alguém porque viu no gibi. Nem ninguém parar de tomar banho porque o Cascão não toma ou falar errado porque se espelhou no Cebolinha. A criança é o Cascão, o Cebolinha, o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho. Ao mesmo tempo, pois testa todas as emoções: ela é todas estas tentativas.

As histórias têm que ter o objetivo de despertar a imaginação: uma criança acostumada com o mundo da fantasia é criativa e se interessará por outras tantas histórias — as contadas e, em pouco tempo, as lidas. E é esta a valiosa parte educativa desta história.

PS: Este texto todo tem como inspiração e embasamento teórico a obra de Ilan Brenman, excelente doutor em Educação e contador de histórias que estuda, justamente, o politicamente correto nas histórias infantis.

PS2: Cooperação Criativa é um projeto que mistura contação de história, circo e teatro para crianças de quatro a nove anos. Seu criador, Francisco Igliori Gonsales, doutorando em Psicologia, ator, circense e contador de histórias é um dos mais incríveis artistas-pesquisadores que já conheci. Seu projeto é um dos meus sonhos de trabalho. A equipe da Cooperação está no Galpão do Circo e o curso se chama Aventuras Acrobáticas. Vale a pena conhecer.

Related Posts with Thumbnails

Compartilhe...

 

Receba o próximo texto


12 comentários

  1. “A criança é o Cascão, o Cebolinha, o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho. Ao mesmo tempo, pois testa todas as emoções: ela é todas estas tentativas.”

    Lindo isso.

  2. Olá Isabella!
    Parabéns pelo texto, lindo!
    Cheguei a este blog através do seu comentário no post do Rob.
    Acho que você expressou muito bem, quando disse que as crianças devem testar todas as emoções.
    Eu acredito que jornalistas e escritores medíocres, se quiserem realmente chamar a atenção (pois acho que foi isso que ele quiz fazer) e melhorar o “mundo” das crianças, para fazerem deles bons cidadãos, deveriam ao invés de questionar a Turma da Mônica, teriam que questionar o governo, fiscalizar investimentos de educação, acompanhar casos de crianças abandonadas pelos pais e outros.
    Só que colocar a mão na massa é muito difícil… é bem mais prático criticar um personagem, uma história, uma ficção.

  3. Oi. Lembrei daquele livro famoso na decada de 70/80: Pra ler o Pato Donald.

  4. este texto aliás, conseguiu traduzir ainda melhor o que penso sobre as histórias da Turma da Mônica… Caramba. Sedeixarem a Turma da Mônica com jeito de gibi do Senninha, podem desistir de vender gibis…

  5. Como sempre, primorosa!

    Sem contar que, ao permitir que a criança vivencie, através da fantasia, seu lado negro, estamos compondo a totalidade da sua personalidade. Somos todos bons e maus, generosos e egoístas.

    E vamos, de uma vez por todas, deixar claro que a educação, assim como a violência, tem sua origem no lar. Da mesma forma que ninguém torna-se ‘ruim’ por causa dos gibis, tampouco torna-se ‘bom’ por ler HQ.

    Bjs.

    ps: os gibis da Turma da Mônica acompanharam toda a minha infância e até hoje ocupam o criado mudo da minha mãe. Chico Bento é ótimo!

  6. Bom, Isabella, adorei o texto!
    Pra mim não tem nem o que discutir a respeito da validade de histórias 100% com moral, para crianças. É claro que devem existir algumas, mas não podem ser todas, simplesmente eliminar características que elas vão encontrar no mundo, até porque a criança talvez nem tenha o desenvolvimento necesário para diferenciar o que é ou não moralmente aceito!
    Foi como vc disse, as crianças são como nós, então privá-las do que elas vão enfrentar é, no mínimo, sem noção!
    Parabéns pelo texto!
    Um beijo e até mais!

    obs: agora sim!!!

  7. Cresci lendo a Turma da Mônica e nem por isso me tornei agressiva, injusta, troco as letras como o Cebolinha ou falo como o Chico Bento. A vida é diversa, as pessoas múltiplas e crianças não são santas – é realmente incoerente este discurso de que tudo deve ser educativo, embora tudo seja mesmo…cabe aos adultos explicar, conversar, participar, apontar o certo e o errado. De qualquer história, até das histórias em quadrinhos.
    Mas hoje em dia as escolas mudam até as músicas infantis e cantar “atirei o pau no gato” foi modificado, porque não é politicamente correto.

  8. “O que me incomoda de fato no texto dele é o discurso politicamente correto. Esta neurose de achar que tudo deve ser educativo. De achar que tudo é exemplo e que toda história tem que ter uma moral. Não tem.”

    Falou tudo. Isso me irrita demais, o politicamente correto, a minimização das diferenças. O mundo já teve momentos péssimos, em que era tudo preto ou branco. Infelizmente, pessoas como o Dioclécio acham que a saída é um enorme e entediante cinza, que mostra o mundo de uma forma que ele não é.

    E as crianças, sem poder de decisão, correm o risco de naufragar nisso. Triste demais.

  9. Juliana Leodoro |

    Isabella,

    Há quanto tempo… (Uns 3 anos, talvez, desde o Projeto Inclusão?)

    Descobri o link para seu blog nos comentários do Observatório da Imprensa. Que boa surpresa!

    Gostei muito das tuas análises, do tom dos textos… Está em minha lista de blogs preferidos!

    Abraços, Ju

  10. Olá, Isabella. Que lindo texto e que lindo site.
    Cheguei aqui por acaso e agora estou lendo suas postagens. Leveza e clareza para se expressar, delícia ler seus textos.
    Essa postagem em especial é muito interessante, nunca tinha pensado por esse prisma, eu que também estava indo por uma onda do ‘moral, educativo e valoroso’ caminho dos tijolos amarelos. Acontece que as experiências de vida são tão diferenciadas e hoje em dia parece que está todo mundo tão preocupado em educação, que a forma do educar pode ser prejudicada. Não generalizo, claro, falo do ambiente escolar, em que também estou inserida.
    Valer-se de histórias e o mundo da fantasia é uma delícia e há tanto o que se pode trabalhar, menos nos alunos e mais em nós, enquanto educadores. Somos nós quem aprendemos com eles, cada frase e situação nos chega, por vezes, como um pequeno tapinha na face: quantas vezes nos surpreendemos com nossa própria insignificância, não é mesmo?
    Grande beijo pra você e bons ventos nessa caminhada, ok?

  11. Tbem cresci lendo a turma da Mônica e não gosto de briga, as crianças estão vivendo coisas muito feias em casa, nas igrejas, nas ruas, é com isso q nós educadores devemos nos preocupar, Recebi por email uma história desta turminha sobre drogas q é execelente. S a gente olhar em tudo há positivo e negativo o q devemos trabalhar é isto.

  12. Muito boa sua explanação e concordo plenamente quanto ao fato de que tudo tem que ser “politicamente correto”, dane-se essa baboseira toda e viva a criatividade e a imaginação.

Deixe seu comentário