Na cabeça ou na mochila
Quando você para de conviver diariamente com crianças, passa a ter menos coisas engraçadas para contar. Mas de uma história eu não me esqueço.
No ano passado, dei aula para crianças de quatro anos de idade. Metade do ano fui estagiotária professora auxiliar e na outra metade peguei a bomba assumi a sala.
Todos os dias, as crianças chegavam na sala de aula e tiravam da mala a agenda, o copo (com a escova de dente dentro) e penduravam a lancheira.
Em um dia frio, um dos meus alunos, Arthur, chegou todo encapotado e com um gorro na cabeça. Arrumou seus pertences e, no meio da brincadeira com os amigos, tirou o gorro e o colocou na mesa, ao lado do seu copo com sua escova de dente.

Arthur e o Bidu de massinha
Caro leitor, aqui faço uma pausa para um comentário: se você nunca viveu um dia na educação infantil, não sabe o que é administrar uma sala com 17 crianças de quatro anos de idade. Não imagina o que é rezar diariamente para uma convivência pacífica. Para ninguém chutar, morder, bater, arranhar e para ninguém retrucar. E também nunca se viu pedindo aos céus para que todos consigam controlar seus esfincteres até a chegada ao banheiro. Se você tem filhos, sabe do que estou falando. Agora multiplique por 17. Tranque numa sala. E jogue uma louca dentro. Por isso e por otras cositas más eu passei o ano passado inteiro descabelada.
Pois bem, tudo isto para dizer que, muitas vezes, no calor da coisa, esquecemos que são crianças. E que sempre têm uma visão peculiar. E que são criativas, inocentes e obedientes até. Teoricamente, nós, pedagogos, estudamos para (entre muitas outras coisas) aprender a lidar com as peculiaridades do ensino. Mas é que com dois pendurados no lustre, três correndo ao seu redor, um com febre, uma puxando o cabelo da outra e cinco formando uma quadrilha de tráfico de batom da Xuxa, fica realmente muito difícil. Você esquece até que é gente.
Então, ali estava eu, jogada no meio da muvuca, quando a professora que trabalhava comigo, ao sair da sala, viu o gorro do Arthur ao lado do copo da escova de dente dele. Apontando para a mesa, disse: “Arthur, coloca na cabeça ou guarda na mochila!”. Saiu da sala e eu fiquei por lá, tentando administrar a galera.
Depois de alguns minutos, olho para o lado e vejo o Arthur segurando o copo (com a escova de dente dentro) em cima da cabeça.

- Arthur, o que foi?
- A professora disse pra eu colocar na cabeça ou guardar na mochila, mas eu ainda não escovei os dentes…
- O gorro, Arthur!
- Ah…
E ele fez a cara que eu mais queria ter registrado na minha vida. Uma mistura de “entendi” com “envergonhei”. Arthur um menino tão carinhoso e tão esperto, me mostrou que, realmente, é tão simples e tão complexa essa terra de gigantes.
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2 comentários


hahahaha
Ri alto aqui.
Você já tinha me contado, mas você escrevendo é uma coisa. ;-)
Eles são demais né, e realmente é loucura trabalhar no meio deles. Eu estou com 12 de 1 a 2 anos.
Você falou tudo.. hahaha e que bonitinho o Arthur.
Beijo Isaa..