No elevador
Dia desses, trabalhei até mais tarde. Eu e minha colega colocamos em ordem tudo o que não conseguíamos organizar há tempos. Era um tal de colocar caixa acima, caixa abaixo, separar uma coisa, organizar outra etc e tal.
Lá pelas oito e meia da noite, já era de se esperar que tanto eu quanto ela não estávamos as mais belas criaturas deste mundo, não é mesmo? Pois bem, famintas e acabadas, juntamos nossas trouxinhas e nos despedimos de nossa sala. Rumo ao elevador, a filha dela de três anos de idade (que estava com a gente) iniciou um pequeno escândalo.
Um show particular que estava até mesmo engraçado para nós duas: aquele pequeno ser gritava porque não queria ir embora. Sim, a criança estava caindo de sono e continuava insistindo: quero ficar aqui, quero chocolate, quero brincar. Nós três ali, em frente ao elevador, no fundo sabíamos que o que ela queria mesmo era dormir. Mas criança é uma coisa tão engraçada – quase tanto quanto mulher: nunca diz exatamente o que quer. Nem sequer sabe, acredito.
Enquanto eu via a criança se contorcendo nos braços da minha colega, pensei em quantas vezes passamos por isso. Tarefa rotineira para a gente: lidar com birra de criança. No entanto, aquela era uma birra diferente, era muito mais poderosa. Afinal, o pequeno ser ali sabia com quem estava lidando: sua mãe, no ambiente de trabalho e em frente a uma colega.
Muito bem, o elevador chegou e o que mais pode acontecer num dia destes, não é? Quem mais está no prédio a esta hora? Nossa coordenadora já tinha ido embora, assim como nossa diretora. Ninguém mais no andar e era de se esperar que ninguém mais também no elevador, certo?
Errado. Quando você está descabelada, com olheiras, faminta e com uma criança ao seu lado que intercala birras para a mãe e para você, Murphy faz questão de oferecer ao universo duas opções: mande até lá o único sujeito altamente interessante do pedaço ou…
Ou mande imediatamente o chefe dela. Sim, não era minha coordenadora ou minha diretora: quem estava no elevador era o chefe da minha chefe, o diretor, o big boss, o mais mais mais, que eu só vi algumas vezes na vida e que ainda nem sabe meu nome.
Sim, no único dia do ano em que meu crachá já estava na bolsa, bato o olho no crachá dele e confirmo: “É ele!”. Claro que é ele, Isabella! E logo depois concluo: “Se ele está com o crachá até agora, quem soy yo para estar com o meu na bolsa?”.
Sorrimos, “Boa noite!” e ele, muito simpático e atencioso, tentou brincar com a birra dela. Mas é claro que ela, como boa criança que é, demonstrou mais insatisfação ainda, ignorando as palavras dele e não deixando espaço para a mãe completar: “Ela está cansada…”.
Nunca dois andares demoraram tanto para passar. Nunca uma criança gritou tanto neste breve intervalo. Chegamos na garagem e nos despedimos dele. Fechamos a porta do elevador e minha amiga colocou a filha no chão e simulou um carinhoso chute em seu pequeno traseiro.
E saímos morrendo de rir, com a missão de levar a lição para casa: dentro daquele elevador, a hierarquia estacionou. Por alguns segundos, a criança foi mais importante que o diretor e ele entendeu o direito dela. E quem disse que não entenderia?
Inteligência, bom senso e carisma para lidar com estas situações. Os dois estavam à vontade. Quem sobrou patinando no sabão por lá fomos só eu e minha colega. Patéticas.
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5 comentários



Mas hein Isabella?! Cada uma que vc se mete..!!
Adorei a lição tirada disso tudo…! Boa sacada!
beijo grande!
Ah, elevador sempre nos coloca em frias, né? Toda vez que eu resolvo usar o elevador do meu prédio (geralmente subo e desço pelas escadas), eu sempre morro de vergonha! Sempre tem um vizinho novo bonitão que eu dou de cara… E eu com os meus trapos de ficar em casa, cabelo pra cima e havaianas! E claro, com o saco de lixo na mão!
Beijos! Adorei a história!
Bem, se depois dessa ele não sabe seu nome (porque seu crachá estava na bolsa, tinha que estar!) quais são suas chances dele saber um dia? rsss
Mas a verdade mesmo é que, no elevador, todos tem a mesma altura: da criança ao Diretor!
Beijos
Trungpa Rinpoche diz que nao devemos nos preocupar com credenciais.
Por que estou dizendo isso? Pra voce ir meditar e aprender a nao ligar pra crachas? Pra dizer q o importante e olhar para os cartoes q seu namorado lhe deixou?
Ou pra mostrar que eu li seu post mesmo estando aqui (no pais em que acento e coisa estranha) olhando a distancia pra vida e pensando o que vale a pena continuar e o que e melhor terminar? :-)
Beijo.
adorei! até coloquei uma frase no twitter… beijos pra você, linda