O teatro chora

Eu não queria ter de falar sobre a morte aqui de novo. Não queria porque eu não entendo. Porque eu recebo comentários que dizem mais do que meu texto, que escancaram a realidade ou que a disfarçam. Que sabem.

Mas por esta eu não esperava: morreu Alberto Guzik.

Conheci o Guzik quando conheci Os Satyros. Nos conhecemos pessoalmente, mas nunca trocamos mais do que duas palavras. Só nos víamos nos fins de espetáculos e eu me recolhia à minha insignificância. Só admirava Guzik.

Uma amiga minha zombava do modo romântico com que eu me referia a ele quando falávamos de teatro. Achava graça. Eu acredito nele, no seu teatro. Como ator, como autor, como crítico, como blogueiro.

Logo após conhecê-lo, passei a ler diariamente seu blog, linkado aqui ao lado. Os dias e as horas.

Eu gostava do nome do blog dele. Gostava de como ele o atualizava cuidadosamente todos os dias. E, muitas vezes, mais de uma vez por dia. Gostava especialmente dos seus tipos urbanos, quando ele descrevia, com detalhes, uma cena cotidiana observada por ele. Eu sempre achei que ele devia ser um ótimo observador. E era, tenho certeza.

Se eu, algum dia, já fui fiel comentarista em algum blog, certamente foi no dele. Mas não comentei tanto quanto li. Li muito. Acho que, desde que passei a acompanhar seu blog, li tudo.

Engraçado. Não éramos amigos. Quase que nem éramos conhecidos. Tinha a impressão de que, se nos cruzássemos, eu teria que me apresentar novamente. Mas conversávamos pela Internet. Muito. Eu comentava por lá, ele por aqui. Nos líamos. Ele chegou a me tratar por “Isa”. Achei graça. A internet aproxima as pessoas, parem de dizer o contrário, teóricos.

Já cheguei a mandar um email a ele oferecendo ajuda no projeto dos sonhos dele, do Ivam, da Cléo… Oferecendo meu sincero interesse em aprender com eles. Ele leu. E respondeu. E, atencioso, disse que ainda tínhamos muito o que conversar. Tempos depois, vi que ele levou minha proposta a sério. Citou meu nome num projeto. De certa forma, confiou em mim.

E, sempre discreto, um dia anunciou que ficaria um tempo fora da Internet. Delicadamente, como costumava fazer nos meios virtuais. Disse algumas semanas. E eu esperei. Por força de hábito – e por não imaginar que o caso era tão mais grave – eu continuei a entrar no blog dele na esperança de vê-lo de volta, escrevendo da cama do hospital, esperando receber alta ou simplesmente já em casa, contando detalhes do que viveu.

A notícia me deixou muito triste. Há mais de quatro meses ele sofria na cama de um hospital. Parece que muitas foram as complicações… Ele lutou muito. Sofreu, é verdade. Podemos dizer que agora a angústia passou.

Mas me dói pensar nisso porque eu lia suas palavras. Eu via quantos planos, projetos, sonhos. Assisti a todas suas últimas peças. Ele parecia não parar nunca. Trabalhava, listava seus afazeres, contava as novidades no blog. E lia, citava, lia… Ainda tinha muita coisa pela frente.

Esperamos que as pessoas cumpram sua missão pela Terra para, depois então, partirem. Assim queremos, mas não é sempre assim que acontece, infelizmente. Guzik fez tanto que queríamos que ele ficasse por aqui um pouco mais.

E ontem o mundo dos blogs teatrais sofreu e gritou sua dor. Fernanda D’Umbra, Sérgio Roveri, Cléo de Páris. Além destes, uma linda homenagem no site da SP Escola de Teatro.

Mas é do blog do Ivam Cabral o post que não me saiu da cabeça:

15/02/2010

Alberto

Acordei bem cedo hoje. Quis acompanhar o Alberto ao hospital. Às 7h. lá estava na Fernando de Albuquerque para apanhá-lo. Incrível sua disposição. Desde que soube que precisaria passar por uma cirurgia, há um mês mais ou menos, Alberto se encheu de serenidade. Ontem à noite confessou-me que em nenhum momento ficara triste. “Nunca recebi tanto amor”, confidenciou-me. E hoje, quando nos despedimos ele sorrindo me disse: “se acontecer alguma coisa, saiba que foi um enorme prazer”.

Alberto Guzik, digo o mesmo: para mim, foi um enorme prazer.

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7 comentários

  1. Linda homenagem!!

    Ainda bem que você não se conteve e escreveu…

  2. Buenas. Devo admitir, que entendo de teatro muito pouco ou quase nada. Mas sei quem era o Guzik. E da sua importância para São Paulo.
    Lindo texto. Sensível sem ser piegas. Direto sem perder a poesia. Uma homenagem à altura.

  3. … é… eu achei que eu estava forte… mas eu li e chorei! Lindo guzik, lindo texto! Guzik veio e fez a parte dele com muito respeito, e a vida é assim mesmo… devemos respeitar.

    Ahhh, sem comentarios o post do ivam…

  4. Linda,

    Não há o que entender… Resta nos conformarmos e confortarmos.

    Beijo

  5. Lembro bem quando você me disse que ele estava no hospital. E lembro da única peça que vi dele. E com você.

    Lembro bem da sua conexão e acho que essa conexão já vale uma vida. Ele ficaria muito feliz em saber exatamente o que despertou em você e em outras pessoas que não eram tão próximas, mas eram.

    Beijo.

  6. Bella,
    Mais do que um pedaço de bolo, camafeu, agua de coco e chocolate quente…Foi bom passar momentos aqui com vc!

  7. Isabella,
    lindo o seu texto, a sua admiração, o seu amor. Sei como é admirar de longe, sentir de longe e de repente ser “próxima”. Assim como você tenho admiração pelos que fazem o PDH e é por isso que descobri os seus textos e tenho passado por aqui, também! Parabéns pelas palavras, pelos sentimentos, pelos pensamentos…geram energia e, certamente, toda admiração ele sentirá, onde que que ele esteja.

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