Ovo surpresa

Eu quebrei um ovo. E o que vi logo em seguida não foi o comum: clara e gema. Vi um pintinho. Parece absurdo, mas sim: era o feto de um pintinho. Um feto que, quando te pega despreparada, te faz repensar o fato de você comer óvulos de galinha e até mesmo a questão do aborto feito em nós, seres humanas.

Eu estava fazendo um brigadeirão e acabei fazendo um aborto. Na verdade, na geladeira há dias, é quase certo que o projeto de galo ou de galinha que eu despejei num copo (como parte da minha política de segurança para não estragar a receita toda) já estava, digamos assim… Inviabilizado.

Já passava das onze horas da noite, eu tinha jantado há pouco e, ao ver uma lata de leite condensado no armário, bem ao lado de uma caixinha de creme de leite, não tive dúvidas e botei a Amélia para funcionar. Em alguns segundos, já tinha apanhado estes ingredientes mais o achocolatado e… Sim, os ovos.

Foi o segundo. Eu quebrei e vi o feto. Queria ter fotografado, para dividir a cena aqui. Mentira, não dividiria. Não era um embrião, já estava consideravelmente formado e era do tamanho de uma gema. Eu queria era ter filmado meu rosto no momento exato da quebra do ovo e da surpresa para entender a reação que tive, porque foi muito cruel. Contraí todos os músculos da face ao mesmo tempo – tenho quase certeza. Não tive tempo de ponderar em qual lixo jogar o ser ali em formação. Ou devia ter enterrado o pobre?

A explicação para o caso vem para te deixar com menos receio de se meter com ovos na cozinha. Os ovos da minha casa vêm todos da casa do meu avô, no interior. E apesar de ter brincado boa parte da minha infância dentro do galinheiro dele, eu não entendo nada deste sistema complexo instaurado por Seu Chiquinho, Dona Ina e todos os criadores de galinha deste mundo. Algumas galinhas (escolhidas pelo meu avô) chocam seus ovos. Das que não chocam, os ovos são retirados dos ninhos. Diariamente.

Eu não consigo entender muito bem como meu avô faz o controle de fecundação do galinheiro. Aliás, eu imagino que ele não o faça. Tem como controlar galos e galinhas o dia todo? Não, né? Logo, deduzo que comemos, sim, alguns ovos fecundados. Porém, que não foram chocados.

Enfim, o episódio aconteceu porque meu avô está passando uns dias aqui em São Paulo e seu galinheiro está sendo tratado por outra pessoa que, provavelmente, não tem a mesma familiaridade com as galinhas e seus ninhos. Certamente a pessoa foi pegar os ovos para mandá-los pra cá e pegou também os que estavam sendo chocados.

Ok, eu achei um. A moça que trabalha aqui em casa me contou que achou três – coitada. Mas meu avô disse que nove ovos estavam sendo chocados. Logo, ainda temos cinco surpresinhas na geladeira da minha casa. Alguém se habilita?

Enquanto os ovos desta leva não se acabam, ando procurando poesia em ovos para não me traumatizar, já que, em receitas, não consigo nem pensar. Andei frequentando o Flickr alheio e vi muita coisa boa por lá. Tem fotógrafo que ama ovo, corre lá: busque por “egg” e dê uma olhadinha na arte alheia enquanto tira esta história da cabeça.

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5 comentários

  1. Acho que esse é seu melhor texto. Em alguns momentos, lembrei de Miranda July.

    Admiro muito essa capacidade de falar sobre um único fato cotidiano, um detalhe, um segundo.

    Eu, que sempre falo em anos, décadas, vidas, séculos. ;-)

  2. Ahh.. que triste… coitado do pintinho que não pôde nascer =(

    beijos!

    obs: desculpe o comentários pobre, rs!

  3. Ai que dó.. ainda bem que isso nunca aconteceu comigo..

    Beijos Isa, adoro seus textos..estou sempre por aqui!

  4. Bella li mais uma vez esse texto…muito bom !!!!

  5. Muito bom …….Muito bom mesmo, mais uma vez seu texto esta otimo. Mas fala a verdade era barata e não besouro.

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