Romero Britto não é arte?

 “Despido da segurança oferecida por um diploma ou por alguma forma de validação incontestável, o artista é forçado a se auto-afirmar artista, na esperança que outras pessoas concordem e também o vejam como artista, mas quanto mais se auto-afirma artista mais é hostilizado ou criticado pela vaidade e arrogância de se auto-declarar artista.”

Alex Castro, em A vaidade do artista

Quando ouvi Agnaldo Farias dizer que Romero Britto não é artista, e que não discutiria com quem achava o contrário, fiquei intrigada. Talvez pelo fato de ser ou não o pernambucano artista aos olhos do acadêmico da USP. Mas intrigada mesmo pelo pedantismo habitual da academia ali exposto na minha cara num festival de artes de grandes artistas e grande amadores.

“A new day”, 2001

Foi no Festival de Arte Serrinha, numa calorosa discussão sobre arte-educação, que caí silenciosamente naquela questão de: o que é arte? Quem é artista? E passei a olhar ao redor: num festival aberto ao público, o mais comum é que surjam muitas mediocridades disfarçadas de arte em ares superiores de “isso aqui surgiu de um insight que eu tive…”.

Pois esta mesma academia que critica Britto absolve um estudante que faz alguns rabiscos e trata como arte. Com meia dúzia de rococós nas palavras e um bom carão se faz arte para muita gente do ramo. Muitos cursos renomados não geram nem ao menos grandes sensos estéticos e acabam por trabalhar apenas com a vaidade, ensinando cada aluno a se expôr confortavelmente. Com o aval da arte.

“New Venus”, 2003

Se é merecedora do título de “arte”, se gera ou não reflexão a arte do artista, como avaliar? A corrente que prega que Britto não pode ser considerado um artista afirma que sua obra se assemelha a um produto de consumo, é imediatista, não provoca reflexão, não contesta a realidade. No entanto, vejo suas obras constantemente em projetos educacionais e lá um fim é encontrado, uma reflexão, enfim. Não serve?

Não escrevo para defender Romero Britto, não. Sua estética nem de perto figura entre as minhas prediletas. Só me intriga a represália a um consagrado ilustrador pelo simples fato dele se dizer artista.

“Round”, 2002.

Talvez se Romero Britto, por força do destino, acabasse por apenas vender suas pinturas no calçadão de uma praia qualquer em Recife, de chinelo e entre mercadorias pirateadas, talvez ele fosse perdoado. Tenho a impressão de que, sem fazer alarde, se a USP o encontrasse, seriam louvadas as linhas deste pobre vendedor do nordeste.

Mas ganhar dinheiro com estas pinturas coloridas, Romero? Francamente…

 

PS: Esta discussão continua neste texto aqui.  

Senso de comunidade

Nesta eleição eu fiquei embutida nos 3% de votos para prefeita que teve Soninha Francine porque, para além de suas propostas, eu acredito em sua visão da cidade: como comunidade.

São muitos os candidatos que prometem alargamento de avenidas, polícia na rua, médico no hospital – tudo absolutamente necessário. No entanto, poucos entendem São Paulo como uma cidade que precisa ser olhada.

Já caminhou pelo seu bairro hoje?

Moro na Mooca, um bairro que já foi mais olhado. Hoje pipocam prédios, condomínios, grandes construções. E as calçadas cada vez mais somem, murcham, se esvaziam. Carros aos montes disputam vagas na rua da Mooca, nos arredores da Paes de Barros e ao lado das fachadas dos imensos prédios com varanda gourmet que por aqui se amontoam.

Muitos moram, poucos andam. Poucos conhecem o sapateiro da rua ao lado, o marceneiro vizinho, o bar do Zé. E me incluo nisso. Há pouco passei a frequentar a feira, a andar pelas ruas. Mas ainda é pouco. Mal sei quem mora ao lado.

Dia desses a cachorra da minha irmã sumiu. E foi aí que o Marquinhos, meu cunhado, passou a conhecer o bairro como ninguém que aqui mora conhece. Até mesmo eu, do pouco que panfletei, descobri muito dos meus vizinhos, dos comerciantes da rua, dos horários dos estabelecimentos, das praças por aqui escondidas, dos cachorros de rua, dos cachorros com donos…

Parece que só acessamos este senso de comunidade quando algo trágico nos une. Antes disso não somos pessoas, não somos humanos, não merecemos olhares.

A cachorra sumiu, criamos empatia com a situação e então nos solidarizamos. Quebraram o vidro do carro num semáforo, ofereço água – é um ser humano dentro do veículo. Arrombaram o apartamento ao lado, olho para meus vizinhos como gente, entendo o drama deles.

Antes do vidro de mais uma pessoa quebrar no semáforo em frente ao nosso comércio, antes de mais um apartamento ser roubado, antes da primeira cachorra escapar de casa, poderíamos conhecer nossos vizinhos, nossa rua, saber o que é estranho por ali ou não.

A polícia e as câmeras de segurança, como forças autoritárias, como incríveis soluções, não funcionam tão bem quanto o olhar atento de quem conosco divide uma rua, um bairro, uma cidade, um planeta.

Poderíamos exaltar o convívio humano nas feiras, nas ruas, nas vilas, nos comércios de rua. Poderíamos preferir o comércio pequeno ao supermercado longe, ao shopping esterilizado, à necessidade de, para tudo, sempre sair com o carro.

Poderíamos cultivar este senso de comunidade, este olhar oferecido ao outro como nós gostaríamos de ser olhados. Como gente.

Da minha parte, me ofereço a conhecer melhor meu arredor a partir de hoje. E você?

PS: A Polenta continua desaparecida. Se souber de algo, entre em contato, por favor.

“Qui da Noi”, gastronomia no Festival de Arte Serrinha

Carlão é um cara difícil de definir. Muito astuto para sonhador. Idealista demais para apenas empresário.

Entre suas conquistas mundanas, seu Galpão Busca Vida, a pinga doce e leve de mesmo nome, o bar Rose Velt em São Paulo, o restaurante na beira da represa no interior, nenhuma pode ser considerada tão ou mais importante quanto sua capacidade em fazer e reunir amigos, sua vontade de estar com a família e de descobrir o mundo.

Empresário sonhador, devaneador que realiza. Foi com este cara que me debrucei na gastronomia italiana de Emilia Romagna e Marche por alguns dias durante o XI Festival de Arte Serrinha.

“Muitos irmãos” foi o tema do festival deste ano, que tem como maior preciosidade reunir para imersão pessoas abertas, interessantes e queridas. O que dá o enredo pouco importa, pois o que acontece é sempre a mesma coisa: bons encontros num lugar com muita gente boa. Cuidado por gente do bem.

E não foi diferente desta vez. Carlão abriu as portas do seu restaurante Cà de Mezz Amig, lá perto da represa de Bragança Paulista e nos acolheu com muitas histórias, vinhos, receitas e muita generosidade.

Foram dias de mão na massa, no molho, no ponto. E noites regadas com todas as gostosuras preparadas. Mais do que o ponto certo da piadina, a receita de strozzapreti, o segredo do ragu ou a forma do cappelletti, a lição ali foi a de um cara que não se deixa iludir. Que sabe que há muito por aí para ser descoberto. Muito para vivermos tão pouco.

Se a receita tem um ponto, um molho, uma dica, tudo serve apenas para a arte de prepará-la para pessoas queridas. Para reunir todas as suas preciosidades em volta de uma mesa. Para a arte do encontro.

Não ser escravizado pela receita, pelo dia, pela vida. Nem pelo capricho ou pela preguiça. Fazer o que tem de ser feito para viver bem, do que realmente nos apetece. De todas, esta é a maior receita que tirei deste cara com quem passei dias frios de julho aprendendo segredos gastronômicos ditos em alto e bom som.

Com Giorgio, novo amigo marchigiano…

E com os colegas e amigos: noites boas!

PS: Fotos minhas e das gentis colegas de turma que compartilharam dicas, receitas e imagens.

Mentira e consequência

Das coisas que aprendi na vida, que a mentira tem perna curta não me marcou tanto quanto descobrir que ela tem consequência.

Eu tinha menos de uma década nesta terra. Era um tempo em que minhas pernas serviam embaixo da mesa de mármore da sala de estar. E era por lá mesmo que fazia a lição de casa: perna de índio, costas apoiadas no sofá, vez ou outra a tevê ligada.

Eu já odiava matemática. Imaginem então que haviam me ensinado divisão. O terror dos terrores para mim. Logo que fui apresentada à operação horripilante, uma calculadora caiu em minhas mãos e… O milagre se fez.

Sim, era uma mágica. Imaginem que bastava digitar lá “250”, seguido do botão que sinalizava a divisão “÷”, seguido de por quanto se queria dividir “5” e a resposta surgia, majestosa: “50”. Era uma maravilha, o mais alto nível de tecnologia já alcançado pelo homem, na minha humilde opinião. Nem Super Nintendo me parecia tão comovente quanto aquele pequeno pedaço de plástico inteligente.

Porém, eu já sabia que não era uma coisa correta fazer uso da mesma nas lições de casa. Certa vez meu pai me deixou com a tarefa de terminar a lição. Deixou também uma calculadora para que eu mesma conferisse o resultado. Quando voltou, eu tinha apenas a resposta. O processo era uma incógnita. Não demorei muito tempo na mentira, ele havia me pegado.

Passei, então, a ficar sem a calculadora. Era triste, mas era a realidade, deveria ser enfrentada e para brincar, primeiro era necessário terminar os afazeres. Meu pai proferia como um mantra seu lema: “Primeiro a obrigação, depois a diversão”, sempre se referindo (nesta ordem) à lição de casa e ao Super Nintendo.

Voltemos, então, à sala de estar. Minhas pernas esmagadas embaixo da mesa de centro, uma bolota de tarefas de matemática sobre divisão e meu real convencimento de que não havia motivos para entender o processo se aquela pequena máquina cheia de números era capaz de me dar os resultados.

Não tinha calculadora por perto, mas sabia que no meu quarto tinha uma. Enquanto meu pai preparava o jantar, apareci na cozinha, dizendo: “Vou ao banheiro”, como se alguém que realmente vai ao banheiro anunciasse isto assim.

Trouxe a calculadora escondida, mas não tive tempo de levá-la até a lição de casa: o jantar estava pronto. Como boa menina educada, na pia da cozinha lavei minhas mãos para o jantar, quando ouvi uma voz bradar:

“Você não lavou as mãos?”

Claro que eu não tinha lavado as mãos.

“Mas você foi ao banheiro e não lavou as mãos?”

Isto foi uma afronta à minha higiene. Sim, eu estava lavando as mãos agora, não lavei antes porque não fui ao banheiro, era uma mentirinha – queria dizer, mas desdizer a mentira é algo que exige paciência e certo jogo de cintura. Eu tinha só oito anos.

O sermão durou por volta de meia hora, o jantar inteiro, enquanto eu pensava porque raios não fui mais ágil na mentira ou não contei logo a verdade. A bronca teria sido mais amena.

Do episódio, sobrou a percepção de que se minto, devo saber arcar com as consequências. E lavar as mãos antes.

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