Susan Miller, a “profetisa dos astros”

Com ar simpático, de gente confiável e aparência boa, Susan é a nova mediadora entre os astros e as vidas de milhões de pessoas.
Se aqui no Brasil já tivemos Mãe Dinah acertando previsões, virando a vidente do ano (e depois a charlatona do século), Susan promete muito mais. Astróloga querida dos famosos e mundialmente reconhecida, Susan tem fama de acertar em cheio. Mal chegou ao Brasil, assinando a previsão dos signos de uma revista feminina, e já virou febre.
Com uma vida típica de mocinha de romance americano (quase que ela poderia ter saído de um livro da Danielle Steel, tamanhas tristezas e alegrias de sua vida), Susan teve uma doença rara na infância e muitos períodos ruins em decorrência de sua reabilitação. Estudou em casa e foi com sua mãe que aprendeu a ser astróloga.
Basta passar a ler um pouco mais sobre ela e suas previsões, para começar a acreditar que a posição dos astros interfere na sua vida. Eu sei, é um tema controverso, mas, acredite, são muitos os céticos que conferem mensalmente as dicas dela.
Mas, afinal, o que Susan tem de diferente dos outros?
Seu site, Astrology Zone, traz previsões mensais completas de cada signo. E não pense que a previsão imita aquelas de revistas e jornais. Susan confessa demorar sete horas em cada signo: são páginas e mais páginas com detalhes do que te espera no próximo mês. De dicas como “não viaje neste dia” até “quando for entregar seu currículo vitae, peça para que alguém o revise”.
Parece estranho e muito arriscado, mas Susan detalha seu mês todo. Tanto que tem muita gente triste neste mês de dezembro: suas previsões saíram e parece que não foram das melhores para alguns signos.
E, apesar de astróloga e quase vidente, Susan diz que já foi cética e nos propõe:
Leia-me por seis meses e veja o que acontece. Ou então leia no fim do mês a previsão que fiz para os dias que passaram e veja se acertei alguma coisa.
Convenhamos que é uma proposta arriscada e que eu gostei e topei.
E se você precisa de uma boa desculpa para acreditar em astrologia, é simples: basta lembrar que assim como nossas células são influenciadas pelo que comemos, talvez sejamos todos nós parte também das estrelas e dos astros todos. Eu sei, parece confuso, mas quem sabe sabemos bem menos do que pensamos saber?
O bom é que em dezembro, Susan Miller prometeu mundos e fundos para os nascidos sob o signo de Áries – o meu! Tirando um pequeno contratempo com um eclipse no dia 21 de dezembro (?), as expectativas de Susan são muito grandes.
Agora é só torcer para ela estar certa.
TEDx Amazônia, minha experiência
Eu tinha a intenção de escrever longamente sobre o TEDx Amazônia, evento do qual participei e de onde voltei um tanto quanto inspirada.
Acontece é que basta passear pela Internet para encontrar relatos interessantíssimos de gente que doou tempo para descrever lindamente o evento, com detalhes e curiosidades.
Aí, então, decidi passar aqui para contar que voltei do hotel flutuante do Rio Negro inspirada por agora saber que há boas pessoas nesse mundo. E hoje eu posso escrever aqui algumas poucas palavras sobre este evento incrível, depois de estar devidamente descansada do calor de 42 graus de Manaus, das poucas quatro horas de sono diárias e da longa viagem.
O TEDx é um evento que reúne gente interessante e gente interessada. Resumindo tudo: alguns palestrantes com boas ideias, ouvintes das mais diversas áreas e gente que quer espalhar as boas ideias. E mudar o mundo também, de certa forma.
E foi em cima do Rio Negro, que passa pela maior seca de todos os tempos, que passamos os dias ouvindo e discutindo sobre qualidade de vida para todas as espécies. Eram biólogos, educadores, músicos, dançarinos, economistas e gente que faz muito mais do que sua função é capaz de descrever.
Em meio a tantas palestras e intervalos breves, o tempo de tirar fotos foi insuficiente. Havia ainda mais beleza na região e tudo ia muito além do que as fotos conseguiam captar, como o pôr-do-sol do Park Hotel, a vista do transfer fluvial que nos levava ao Amazon Jungle Palace e o prenúncio do fim do mundo, quando o tempo fechou assim que nos despedimos do evento.
Foi pouco tempo, mas foi intenso. Tanto que pretendo organizar melhor as ideias e buscar mais dos palestrantes que mais me tocaram. O tempo de mais de uma semana para parar para escrever sobre, foi necessário para entender tudo o que passou, o que aconteceu e o que tocou. Larrosa, neste texto incrível, já diz que:
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.
Se experiência é o que o filósofo afirma, deixo aqui o relato de alguém que, em apenas um final de semana, viveu uma.
O que foi o SWU?
É claro que um evento gigante dá problemas e é claro que tem gente chata e mimada que exagera nas reclamações, mas o que acompanhamos na tentativa de festival sustentável SWU passa do limite.
Fomos no dia 10, comprovamos vários problemas e decidimos reunir boa parte do que encontramos em uma lista de críticas, mensagens no Twitter, relatos em blogs e algumas sugestões (já que dizem que haverá outra edição).
Talvez o que intensifique a revolta seja a insistência da organização em chamar esse evento comercial de “movimento social” e a falta de diálogo com as pessoas que pagaram e estão insatisfeitas, reclamando como podem Internet afora.
O bom é que deu para assistir ao Fórum pelo site oficial e a alguns shows pelo site da Oi e na TV (Multishow e Globo). Ponto positivo.
Se não pagamos para entrar, ficamos na tal da pista premium e ainda assim ficamos insatisfeitos, só conseguimos imaginar a dor de cabeça de quem pagou e se sentiu um otário no meio daquele parque de publicidade.
Principais problemas e sugestões
1. Pista premium, camping premium, praça de alimentação premium, vários locais de acesso restrito… Isso não faz sentido algum, principalmente em algo que é chamado de “movimento social”. Não custa nada abrir tudo, cobrar apenas um tipo de ingresso e criar um ambiente de igualdade. Essa cultura do VIP, um dos pilares do SWU, é curiosamente uma das maiores causas de nossa situação precária – ambiental e humana.
2. Preços humilhantes. Além do ingresso caro, a água custava 4 reais, um refrigerante 5 reais, uma minipizza (do tamanho de um pedaço de pizza), fria e crua, saia por 8 reais e um hambúrguer maravilhoso como esse da foto abaixo tirou 12 reais do bolso de muita gente.
Nada, nada justifica isso, principalmente em um evento com patrocínio e Lei Rouanet bancando 6 milhões. Se vão nos encher de comerciais em todos os cantos (até nos telões, logo após o último acorde de cada show), cobrem barato.
3. As comidas oferecidas eram incongruentes com a proposta do evento. Em vez de chamar empresas de fast-food como espetinhos Mimi, pizza, hambúrguer, cachorro-quente, crepe e afins, por que não movimentar a comunidade local com comida boa, caseira e barata? Grandes raves, como o Universo Paralello, fazem muito isso e dá certo.
Sustentabilidade envolve qualidade de vida e alimentação saudável. Um evento que preze por este movimento não pode se render e ter como patrocinadores empresas que produzem enlatados, industrializados, refrigerantes e que contribuem para a devastação florestal.
Além disso, apenas oferecer uma opção vegetariana não é a solução. Se é um evento também de reflexão, é necessário que seja dito, ao menos, que a indústria da carne é a que mais contribui para a insustentabilidade. Como parte da idealização do projeto, o correto seria a alimentação natural e vegetariana ser incentivada no evento.
4. Usaram copos e garrafas de plástico não reutilizáveis. Ou seja, muito lixo produzido por apenas uma só pessoa. Uma ideia seria dar uma caneca na entrada e distribuir água de graça em bebedouros gigantes. Se a Nestlé fizesse isso, certamente ganharia nosso respeito.
5. O SWU foi realmente inovador ao mostrar uma nova modalidade de greenwashing, envolvendo a produção de um festival de música e a apropriação do mote “Por um mundo melhor”. O resto é fácil: envolva grandes marcas e chame meio mundo de músicos para entreter o rebanho enquanto todos consomem lixo e liberam o máximo possível de dinheiro.
6. Sem nenhuma vergonha, uma parte do evento era destinada ao merchandising, o que soma para validar o evento como mais um de marketing verde. Afinal, qualquer um que se interesse por sustentabilidade sabe que a principal estratégia (melhor do que reutilizar e reciclar) é a de reduzir o consumo. Proposta inviabilizada pelos patrocinadores do evento e, no entanto, uma maneira da nossa tentativa de Woodstock brasileira aproveitar para lucrar um pouco mais.
Para forçar o consumo, as pessoas foram proibidas de entrar com água ou comida, o que gerou um lixo gigante já na entrada do evento.
7. O transporte e o estacionamento foram completamente mal organizados. Este talvez seja o principal foco das reclamações e das histórias de sofrimento (leia no Scream & Yell). Como se não bastasse, não havia bicicletário, o estacionamento para o mais sustentável dos veículos.
8. A formação da equipe de funcionários foi muito ruim. Falta de informação e desorganização em todas as falas. Tivemos um problema (pequeno, considerando o que lemos nos relatos) na hora de achar o estacionamento e a produção do evento foi clara ao dizer que não sabia. “Isso aqui tá uma zona, cara!”, sinceramente nos disse um cara com a camiseta do festival logo na entrada.
9. O tempo de todos os shows foi muito curto. Imagine um fã de O Teatro Mágico, por exemplo, que passou por muita confusão apenas para ouvir 6 músicas. “Ou cancela o show ou toca por 25 minutos”, foi o que Fernando Anitelli ouviu da organização do evento.
10. Bom, mas se o evento não foi sustentável, foi, pelo menos, um festival de música, não é mesmo? Mais ou menos assim, digamos: o som falhou em muitos shows, como Rage Against the Machine (caiu duas vezes e depois ficou baixo para quem não estava na área premium), Los Hermanos (som baixo), Regina Spektor (problema de retorno), Queens of the Stone Age (microfonia) e Yo La Tengo (som abafado e baixo).
Vaia do público.
Reclamações no Twitter
RT @rebiscoito: Vi tanta reclamação que algo me leva a crer que quem tá falando bem do #SWU ta ganhando uma boa grana.
RT @thenatinakajima: Patrocinadores (Coca-Cola, Heineken e Nestlé), vcs tão se queimando feio no #swu #swufail
RT @bqeg: O povo reclama do preço dos ingressos, do estacionamento, disso, daquilo, mas lota o evento. Vai entender.
RT @victorpotasso: #swufail Os ativistas q acreditaram no que esse evento prega com certeza devem estar morrendo de vergonha por terem contribuído c/ isso.
RT @ArturLA: #SWUFAIL comida cara. filas de horas para comprar. merchan caríssimo. Banheiros podres. Fazenda Moeda. Concordo. SWU foi um engodo.
RT @brunoscalzo: Toda a mídia fala de pequenos probleminhas no festival… lobby do caralho. Vamo falar a real, o que aconteceu NÃO PODE acontecer…#swufail
RT @PelicanoSuicida: Galera do #SWUFail, quem aí vai exigir dinheiro de volta? Eu vou…quem for também, fale comigo…ou não, sei lá.
RT @PelicanoSuicida: E enquanto as pessoas lesadas pensarem “Ah, mas o Brasil é assim mesmo”…o país vai continuar assim…mesmo. #SWUFail
RT @brunafernanda: O evento que se diz pró sustentabilidade fez todo mundo jogar os alimentos, cigarros, desodorantes, bebidas no lixo #swu SWUfail.
RT @anarosarp Caraca, a revolta ao #SWUfail tá mais organizada q eles, adorei! RT @marciaceschini @swuvaitomarnocu #swu #swufail
RT @itsous SWU devia mudar o nome pra FWU. Fail with you. Fuck with you. Fila with you. Firula with you. Frio with you. #SWUfail
RT @samucapessoa: Devia ter um telao na entrada do @swubrasil ja q a gente fica a maior parte do tempo aki. #swufail
RT @CortaOnda: RATM e DMB foram a redenção de um evento com muitas falhas. #SWUfail
RT @ricardocatarina: Ingresso: 400 R$, Coca Cola : 5 R$ , Pipoca 10 R$ , assistir o SWU de graça pela internet, ñ tem preço #SWUfail
RT @flaviadurante: Só vou acreditar que o @Eduardo_Fischer se preocupa com sustentabilidade quando a agência dele abrir mão da @monsantoco
RT @oestagiario: No Fórum do #SWU faltou um ppt com o título “Eduardo Fischer: Um visionário”. Mais uma confirmação da distância que quero dessa turminha.
RT romani83: Entrevistei um organizador do SWU pro @zonapunk antes do festival. A promessa era de que a experiência superasse os shows. Foi, mas pra pior.
RT @swuvaitomarnocu: No camping não podia nem fazer comida, que sentido faz um evento sustentável que incita as pessoas a consumirem mais embalagens?
RT @lini: o @swubrasil foi tão bom que até quem foi pago pra falar bem tá falando mal.
Discussão no Facebook
“Screw With You. Eu já adotei o novo nome.”
“E aí, organizadores? Cadê o pedido de desculpas?”
Notícias e relatos
- “SWU: e a sustentabilidade?” | Lidi Faria
- “SWU: cenário de festa ou de caos?” | Scream & Yell
- “SWU: música, sustentabilidade e dia perdido” | Sustenta News
- “SWU: o evento mais mal produzido…” | Bira David
- “Organização do SWU rebate reclamações” | G1
- “Irritado com a demora, público joga comida na polícia“ | G1
- “Fãs do Yo La Tengo sofrem com som baixo no Palco Ar” | G1
- “O país dos VIPs” | Denis Russo Burgierman
- “A imprensa contra a imprensa” | Rockinpress
- “Sem lenço, sem documento” | Pedro Alexandre Sanches
- “Sobre o SWU” | Gabi Veiga
- “Sobre a confusão na primeira noite” | Guto Sousa
- “Público reclama da infraestrutura dos campings do SWU” | Rolling Stone
- “SWU ou Woodstock FAIL” | Papolog
- “SWU: a insustentável leveza de “A Fazenda”” | Telhado de Vidro
- “SWU expõe as contradições de quem vê sustentabilidade como oportunidade de marketing“ | Revista Sustentabilidade
- “Como transformar uma linda noite em trauma ou o caos do SWU” | Move That Jukebox!
- “SWU começa muito mal com você e eu nem sei por onde começar” | Vida Ordinária
- “Insustentável” | Vida Perra
- “SWU: por que eu gostei” | Megacombo
- “Total.Con cresce com movimento SWU” | Propmark
- “O SWU captou 6 milhões de reais em incentivos fiscais via Lei Rouanet” | Veja
- “Diálogo real acontecido no evento” | Meia dúzia de 3 ou 4
- “O mais longo (e insustentável) dos dias” | Igor Santos
- “SWU: a far$a da $u$tentabilidade” | As bicicletas
- “Não! Nós não teremos um Woodstock” | 10porhora
- “Sua vida vale menos que uma garrafa PET” | Tira do sério
- “SWU: o festival que eu fui” | Rodrigo Zannin
- “Notas sobre o lixo (do SWU)” | Maira Begalli
- “O SWU foi ótimo e coerente” | Átila Iamarino (imperdível, o mais genial de todos)
Isso é só uma parte do que aconteceu na Internet enquanto o evento rolava. A hashtag #SWUFail, no Twitter, trouxe informações que a organização do festival escondia. Enquanto pessoas reclamavam do evento e pediam por ajuda, o perfil do festival no Twitter fingia não ler o que estava se passando. Fomos tratados como gado pessoalmente e virtualmente.
A repercussão negativa nas redes sociais só não foi maior porque a organização do evento comprou boa parte dos blogueiros influentes com ingressos, credenciais, regalias e privilégios. Chamando-os de insiders e pedindo explicitamente para enviar as críticas por email, nunca abrindo aos seus leitores, a organização conseguiu manter calada muita gente que meteria a boca no trombone.
Como nem tudo pode ser controlado na Internet, o evento nem precisou terminar para que o perfil @swuvaitomarnocu fosse criado no Twitter para fazer justiça com as próprias mãos e tentar fazer com que Eduardo Fischer veja o que estava além da área premium.
Ao reunir todas essas críticas, nossa motivação é deixar bem claro para a organização e para os patrocinadores que isso não é correto e não deve nem tentar ser repetido.
E para nós, público, é essencial saber nos organizar para não mais aceitarmos algo assim, não comprarmos ingressos, rejeitarmos o modelo premium, desconfiarmos de um “movimento social” proposto por uma holding de publicidade, deixarmos falir um festival mal organizado antes que ele capture 50 mil pessoas que vão seguir suas ordens, aceitar suas condições, repetir um discurso raso do que é sustentabilidade, pagar 100 reais no estacionamento e depois sofrer, acordar e reclamar para ninguém ouvir.
por Isabella Ianelli e Gustavo Gitti.
A escola nova ainda é velha
Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.
Ouvi o poema novamente ontem, na peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?
O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.
No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.
O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.
Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…
A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?
Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.
Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.
Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.
É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.











