TEDx Amazônia, minha experiência

Eu tinha a intenção de escrever longamente sobre o TEDx Amazônia, evento do qual participei e de onde voltei um tanto quanto inspirada.

Acontece é que basta passear pela Internet para encontrar relatos interessantíssimos de gente que doou tempo para descrever lindamente o evento, com detalhes e curiosidades.

Aí, então, decidi passar aqui para contar que voltei do hotel flutuante do Rio Negro inspirada por agora saber que há boas pessoas nesse mundo. E hoje eu posso escrever aqui algumas poucas palavras sobre este evento incrível, depois de estar devidamente descansada do calor de 42 graus de Manaus, das poucas quatro horas de sono diárias e da longa viagem.

O TEDx é um evento que reúne gente interessante e gente interessada. Resumindo tudo: alguns palestrantes com boas ideias, ouvintes das mais diversas áreas e gente que quer espalhar as boas ideias. E mudar o mundo também, de certa forma.

E foi em cima do Rio Negro, que passa pela maior seca de todos os tempos, que passamos os dias ouvindo e discutindo sobre qualidade de vida para todas as espécies. Eram biólogos, educadores, músicos, dançarinos, economistas e gente que faz muito mais do que sua função é capaz de descrever.

Isso tudo já foi o Rio Negro

Em meio a tantas palestras e intervalos breves, o tempo de tirar fotos foi insuficiente. Havia ainda mais beleza na região e tudo ia muito além do que as fotos conseguiam captar, como o pôr-do-sol do Park Hotel, a vista do transfer fluvial que nos levava ao Amazon Jungle Palace e o prenúncio do fim do mundo, quando o tempo fechou assim que nos despedimos do evento.

Foi pouco tempo, mas foi intenso. Tanto que pretendo organizar melhor as ideias e buscar mais dos palestrantes que mais me tocaram. O tempo de mais de uma semana para parar para escrever sobre, foi necessário para entender tudo o que passou, o que aconteceu e o que tocou. Larrosa, neste texto incrível, já diz que:

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

Se experiência é o que o filósofo afirma, deixo aqui o relato de alguém que, em apenas um final de semana, viveu uma.

O que foi o SWU?

É claro que um evento gigante dá problemas e é claro que tem gente chata e mimada que exagera nas reclamações, mas o que acompanhamos na tentativa de festival sustentável SWU passa do limite.

Fomos no dia 10, comprovamos vários problemas e decidimos reunir boa parte do que encontramos em uma lista de críticas, mensagens no Twitter, relatos em blogs e algumas sugestões (já que dizem que haverá outra edição).

Talvez o que intensifique a revolta seja a insistência da organização em chamar esse evento comercial de “movimento social” e a falta de diálogo com as pessoas que pagaram e estão insatisfeitas, reclamando como podem Internet afora.

O bom é que deu para assistir ao Fórum pelo site oficial e a alguns shows pelo site da Oi e na TV (Multishow e Globo). Ponto positivo.

Se não pagamos para entrar, ficamos na tal da pista premium e ainda assim ficamos insatisfeitos, só conseguimos imaginar a dor de cabeça de quem pagou e se sentiu um otário no meio daquele parque de publicidade.

Eles queriam ser Woodstock. Mas também queriam levar um troquinho...

Principais problemas e sugestões

1. Pista premium, camping premium, praça de alimentação premium, vários locais de acesso restrito… Isso não faz sentido algum, principalmente em algo que é chamado de “movimento social”. Não custa nada abrir tudo, cobrar apenas um tipo de ingresso e criar um ambiente de igualdade. Essa cultura do VIP, um dos pilares do SWU, é curiosamente uma das maiores causas de nossa situação precária – ambiental e humana.

2. Preços humilhantes. Além do ingresso caro, a água custava 4 reais, um refrigerante 5 reais, uma minipizza (do tamanho de um pedaço de pizza), fria e crua, saia por 8 reais e um hambúrguer maravilhoso como esse da foto abaixo tirou 12 reais do bolso de muita gente.

Hambúrguer saboroso de... adivinha? Bacon! (via Twitpic - @zerrenner)

Nada, nada justifica isso, principalmente em um evento com patrocínio e Lei Rouanet bancando 6 milhões. Se vão nos encher de comerciais em todos os cantos (até nos telões, logo após o último acorde de cada show), cobrem barato.

3. As comidas oferecidas eram incongruentes com a proposta do evento. Em vez de chamar empresas de fast-food como espetinhos Mimi, pizza, hambúrguer, cachorro-quente, crepe e afins, por que não movimentar a comunidade local com comida boa, caseira e barata? Grandes raves, como o Universo Paralello, fazem muito isso e dá certo.

Sustentabilidade envolve qualidade de vida e alimentação saudável. Um evento que preze por este movimento não pode se render e ter como patrocinadores empresas que produzem enlatados, industrializados, refrigerantes e que contribuem para a devastação florestal.

Além disso, apenas oferecer uma opção vegetariana não é a solução. Se é um evento também de reflexão, é necessário que seja dito, ao menos, que a indústria da carne é a que mais contribui para a insustentabilidade. Como parte da idealização do projeto, o correto seria a alimentação natural e vegetariana ser incentivada no evento.

4. Usaram copos e garrafas de plástico não reutilizáveis. Ou seja, muito lixo produzido por apenas uma só pessoa. Uma ideia seria dar uma caneca na entrada e distribuir água de graça em bebedouros gigantes. Se a Nestlé fizesse isso, certamente ganharia nosso respeito.

Merchan, para os íntimos (via Flickr - In Press/SWU)

5. O SWU foi realmente inovador ao mostrar uma nova modalidade de greenwashing, envolvendo a produção de um festival de música e a apropriação do mote “Por um mundo melhor”. O resto é fácil: envolva grandes marcas e chame meio mundo de músicos para entreter o rebanho enquanto todos consomem lixo e liberam o máximo possível de dinheiro.

6. Sem nenhuma vergonha, uma parte do evento era destinada ao merchandising, o que soma para validar o evento como mais um de marketing verde. Afinal, qualquer um que se interesse por sustentabilidade sabe que a principal estratégia (melhor do que reutilizar e reciclar) é a de reduzir o consumo. Proposta inviabilizada pelos patrocinadores do evento e, no entanto, uma maneira da nossa tentativa de Woodstock brasileira aproveitar para lucrar um pouco mais.

Para forçar o consumo, as pessoas foram proibidas de entrar com água ou comida, o que gerou um lixo gigante já na entrada do evento.

7. O transporte e o estacionamento foram completamente mal organizados. Este talvez seja o principal foco das reclamações e das histórias de sofrimento (leia no Scream & Yell). Como se não bastasse, não havia bicicletário, o estacionamento para o mais sustentável dos veículos.

8. A formação da equipe de funcionários foi muito ruim. Falta de informação e desorganização em todas as falas. Tivemos um problema (pequeno, considerando o que lemos nos relatos) na hora de achar o estacionamento e a produção do evento foi clara ao dizer que não sabia. “Isso aqui tá uma zona, cara!”, sinceramente nos disse um cara com a camiseta do festival logo na entrada.

9. O tempo de todos os shows foi muito curto. Imagine um fã de O Teatro Mágico, por exemplo, que passou por muita confusão apenas para ouvir 6 músicas. “Ou cancela o show ou toca por 25 minutos”, foi o que Fernando Anitelli ouviu da organização do evento.

10. Bom, mas se o evento não foi sustentável, foi, pelo menos, um festival de música, não é mesmo? Mais ou menos assim, digamos: o som falhou em muitos shows, como Rage Against the Machine (caiu duas vezes e depois ficou baixo para quem não estava na área premium), Los Hermanos (som baixo), Regina Spektor (problema de retorno), Queens of the Stone Age (microfonia) e Yo La Tengo (som abafado e baixo).


Vaia do público.

Reclamações no Twitter

RT @rebiscoito: Vi tanta reclamação que algo me leva a crer que quem tá falando bem do #SWU ta ganhando uma boa grana.

RT @thenatinakajima: Patrocinadores (Coca-Cola, Heineken e Nestlé), vcs tão se queimando feio no #swu #swufail

RT @bqeg: O povo reclama do preço dos ingressos, do estacionamento, disso, daquilo, mas lota o evento. Vai entender.

RT @victorpotasso: #swufail Os ativistas q acreditaram no que esse evento prega com certeza devem estar morrendo de vergonha por terem contribuído c/ isso.

RT @ArturLA: #SWUFAIL comida cara. filas de horas para comprar. merchan caríssimo. Banheiros podres. Fazenda Moeda. Concordo. SWU foi um engodo.

RT @brunoscalzo: Toda a mídia fala de pequenos probleminhas no festival… lobby do caralho. Vamo falar a real, o que aconteceu NÃO PODE acontecer…#swufail

RT @PelicanoSuicida: Galera do #SWUFail, quem aí vai exigir dinheiro de volta? Eu vou…quem for também, fale comigo…ou não, sei lá.

RT @PelicanoSuicida: E enquanto as pessoas lesadas pensarem “Ah, mas o Brasil é assim mesmo”…o país vai continuar assim…mesmo. #SWUFail

RT @brunafernanda: O evento que se diz pró sustentabilidade fez todo mundo jogar os alimentos, cigarros, desodorantes, bebidas no lixo #swu SWUfail.

RT @anarosarp Caraca, a revolta ao #SWUfail tá mais organizada q eles, adorei! RT @marciaceschini @swuvaitomarnocu #swu #swufail

RT @itsous SWU devia mudar o nome pra FWU. Fail with you. Fuck with you. Fila with you. Firula with you. Frio with you. #SWUfail

RT @samucapessoa: Devia ter um telao na entrada do @swubrasil ja q a gente fica a maior parte do tempo aki. #swufail

RT @CortaOnda: RATM e DMB foram a redenção de um evento com muitas falhas. #SWUfail

RT @ricardocatarina: Ingresso: 400 R$, Coca Cola : 5 R$ , Pipoca 10 R$ , assistir o SWU de graça pela internet, ñ tem preço #SWUfail

RT @flaviadurante: Só vou acreditar que o @Eduardo_Fischer se preocupa com sustentabilidade quando a agência dele abrir mão da @monsantoco

RT @oestagiario:  No Fórum do #SWU faltou um ppt com o título “Eduardo Fischer: Um visionário”. Mais uma confirmação da distância que quero dessa turminha.

RT romani83: Entrevistei um organizador do SWU pro @zonapunk antes do festival. A promessa era de que a experiência superasse os shows. Foi, mas pra pior.

RT @swuvaitomarnocu: No camping não podia nem fazer comida, que sentido faz um evento sustentável que incita as pessoas a consumirem mais embalagens?

RT @lini: o @swubrasil foi tão bom que até quem foi pago pra falar bem tá falando mal.

Discussão no Facebook

Screw With You. Eu já adotei o novo nome.”

“E aí, organizadores? Cadê o pedido de desculpas?”

Notícias e relatos

Isso é só uma parte do que aconteceu na Internet enquanto o evento rolava. A hashtag #SWUFail, no Twitter, trouxe informações que a organização do festival escondia. Enquanto pessoas reclamavam do evento e pediam por ajuda, o perfil do festival no Twitter fingia não ler o que estava se passando. Fomos tratados como gado pessoalmente e virtualmente.

A repercussão negativa nas redes sociais só não foi maior porque a organização do evento comprou boa parte dos blogueiros influentes com ingressos, credenciais, regalias e privilégios. Chamando-os de insiders e pedindo explicitamente para enviar as críticas por email, nunca abrindo aos seus leitores, a organização conseguiu manter calada muita gente que meteria a boca no trombone.

Como nem tudo pode ser controlado na Internet, o evento nem precisou terminar para que o perfil @swuvaitomarnocu fosse criado no Twitter para fazer justiça com as próprias mãos e tentar fazer com que Eduardo Fischer veja o que estava além da área premium.

Ao reunir todas essas críticas, nossa motivação é deixar bem claro para a organização e para os patrocinadores que isso não é correto e não deve nem tentar ser repetido.

E para nós, público, é essencial saber nos organizar para não mais aceitarmos algo assim, não comprarmos ingressos, rejeitarmos o modelo premium, desconfiarmos de um “movimento social” proposto por uma holding de publicidade, deixarmos falir um festival mal organizado antes que ele capture 50 mil pessoas que vão seguir suas ordens, aceitar suas condições, repetir um discurso raso do que é sustentabilidade, pagar 100 reais no estacionamento e depois sofrer, acordar e reclamar para ninguém ouvir.

por Isabella Ianelli e Gustavo Gitti.

A escola nova ainda é velha

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.

Ouvi o poema novamente ontem, na  peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?

O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.

No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.

O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.

Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…

A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?

Happy birthday, teacher. E zíper na boca.

Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.

Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.

Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.

É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.

Pelo direito ao próprio corpo: aborto

Não faz muito tempo, escrevi por aqui sobre o mau atendimento médico. Citei o consultório de uma dermatologista e, para indicar que era escuro, escondido e com ares de coisa ilegal, escrevi que mais parecia uma clínica de aborto clandestina. Nos comentários, a @anarina me corrigiu dizendo que “clínica de aborto clandestina tem cara de consultório de alto padrão”.

Aí, lembrei que deveria ter escrito “clínica de aborto da periferia”. Porque, realmente, devem existir lugares muito bonitinhos para se abortar. Pesquisando sobre, descobri um documentário feito pela própria Ana Carolina sobre o aborto. O documentário se chama “Clandestinas, o Aborto no Brasil” e fala sobre esta questão esquecida e escondida da nossa realidade.

Lá vemos depoimentos de quem decidiu abortar (como, onde e por qual motivo), vemos a luta da Marcha Mundial das Mulheres, dados sobre a saúde pública, o depoimento de um médico e de pessoas conhecidas como Soninha Francine e Elke Maravilha.

Segundo o documentário, a lei que proíbe o aborto é dos anos 40 e hoje o permite em caso de estupro (ou de risco de vida). Mas já desde os anos 70, mulheres lutam pela descriminalização e pela legalização do aborto. Pelo direito da mulher ao seu próprio corpo. Afinal, se nós, mulheres, não lutarmos por isso, não são os homens que lutarão.

Mais do que entender que um filho é uma benção divina (para muitas pessoas deve ser assim mesmo), é preciso que entendamos que a mulher é dona de seu corpo. Ter um filho não pode ser considerado um castigo, um caminho sem volta: deve ser uma decisão consciente na vida de uma mulher.

E aí que a coisa fica muito bonita assim na teoria. Mas vai ter gente que vai dizer que, se o aborto for liberado, muitas mulheres vão abortar. Errado. Muitas mulheres já abortam. Algumas com Cytotec (que é encontrado facilmente no mercado negro), outras em clínicas clandestinas e, segundo uma pessoa da área, é fácil você que tem dinheiro pagar para seu ginecologista te internar no hospital mais caro da cidade dizendo que você teve um aborto espontâneo e que ele precisa fazer a curetagem.

Para a namorada do filho, dá-se um jeito. Mas permitir em lei, de jeito nenhum.

A frase acima é de Soninha Francine e reflete o moralismo da nossa sociedade. Interromper uma gravidez que não é desejada na sua família, ali ao seu lado, tudo bem. Dizer para todos o que aconteceu, não. E continuamos com o discurso pelo “direito à vida”. E a vida de quem vai parir? E a vida desta criança depois de nascer?

É incrível como passamos horas defendendo uma barriga grávida, mas não damos conta de cuidar das crianças do país. No documentário, Elke Maravilha também pergunta: por que não são defendidas tão ferrenhamente as vidas que já saíram do útero? Quantas crianças são abortadas com sete, oito, quinze anos de idade e nada é feito? Quantas são vítimas de maus-tratos? Quantas nascem sem expectativa, sem planejamento, sem base? E quantas mulheres encaram a gravidez como uma estrada sem volta, como se fosse fácil ter um filho, como se a maternidade fosse uma benção divina dada na hora errada, mas impossível de recusar?

E as garotas da periferia que engravidam, que se submetem a abortos em condições precárias, que morrem? Por que esta hipocrisia toda em torno da questão se as mulheres da classe alta também abortam – só que com cuidados redobrados?

"Aborto é crime sangrento". É? Experimente ter filhos.

É claro que não queríamos que o aborto fosse necessário. As imagens das campanhas contra o aborto nos pegam pela beleza: aqueles bebês lindos, com pais alegres, num campo verde. Seria lindo se assim fosse. Se todos tivesse condições financeiras, psicológicas e vontade de ter esses bebês. Na prática, sabemos que não é assim. Que a mulher sofre por um erro (ou por um acidente) e que a criança pode vir a sofrer sua vida toda.

Hoje é o Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto. Tempo de refletir a respeito. Se faria, se não faria, se deixaria a namorada ou a prima fazer não importa: o aborto já é feito. Os gastos com a saúde pública já são grandes por conta disso. Legalizar só traria um benefício às mulheres e um amparo a quem tem consciência de que ainda não chegou sua hora de ser mãe.

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