Pelo direito ao próprio corpo: aborto
Não faz muito tempo, escrevi por aqui sobre o mau atendimento médico. Citei o consultório de uma dermatologista e, para indicar que era escuro, escondido e com ares de coisa ilegal, escrevi que mais parecia uma clínica de aborto clandestina. Nos comentários, a @anarina me corrigiu dizendo que “clínica de aborto clandestina tem cara de consultório de alto padrão”.
Aí, lembrei que deveria ter escrito “clínica de aborto da periferia”. Porque, realmente, devem existir lugares muito bonitinhos para se abortar. Pesquisando sobre, descobri um documentário feito pela própria Ana Carolina sobre o aborto. O documentário se chama “Clandestinas, o Aborto no Brasil” e fala sobre esta questão esquecida e escondida da nossa realidade.
Lá vemos depoimentos de quem decidiu abortar (como, onde e por qual motivo), vemos a luta da Marcha Mundial das Mulheres, dados sobre a saúde pública, o depoimento de um médico e de pessoas conhecidas como Soninha Francine e Elke Maravilha.
Segundo o documentário, a lei que proíbe o aborto é dos anos 40 e hoje o permite em caso de estupro (ou de risco de vida). Mas já desde os anos 70, mulheres lutam pela descriminalização e pela legalização do aborto. Pelo direito da mulher ao seu próprio corpo. Afinal, se nós, mulheres, não lutarmos por isso, não são os homens que lutarão.
Mais do que entender que um filho é uma benção divina (para muitas pessoas deve ser assim mesmo), é preciso que entendamos que a mulher é dona de seu corpo. Ter um filho não pode ser considerado um castigo, um caminho sem volta: deve ser uma decisão consciente na vida de uma mulher.
E aí que a coisa fica muito bonita assim na teoria. Mas vai ter gente que vai dizer que, se o aborto for liberado, muitas mulheres vão abortar. Errado. Muitas mulheres já abortam. Algumas com Cytotec (que é encontrado facilmente no mercado negro), outras em clínicas clandestinas e, segundo uma pessoa da área, é fácil você que tem dinheiro pagar para seu ginecologista te internar no hospital mais caro da cidade dizendo que você teve um aborto espontâneo e que ele precisa fazer a curetagem.
Para a namorada do filho, dá-se um jeito. Mas permitir em lei, de jeito nenhum.
A frase acima é de Soninha Francine e reflete o moralismo da nossa sociedade. Interromper uma gravidez que não é desejada na sua família, ali ao seu lado, tudo bem. Dizer para todos o que aconteceu, não. E continuamos com o discurso pelo “direito à vida”. E a vida de quem vai parir? E a vida desta criança depois de nascer?
É incrível como passamos horas defendendo uma barriga grávida, mas não damos conta de cuidar das crianças do país. No documentário, Elke Maravilha também pergunta: por que não são defendidas tão ferrenhamente as vidas que já saíram do útero? Quantas crianças são abortadas com sete, oito, quinze anos de idade e nada é feito? Quantas são vítimas de maus-tratos? Quantas nascem sem expectativa, sem planejamento, sem base? E quantas mulheres encaram a gravidez como uma estrada sem volta, como se fosse fácil ter um filho, como se a maternidade fosse uma benção divina dada na hora errada, mas impossível de recusar?
E as garotas da periferia que engravidam, que se submetem a abortos em condições precárias, que morrem? Por que esta hipocrisia toda em torno da questão se as mulheres da classe alta também abortam – só que com cuidados redobrados?
É claro que não queríamos que o aborto fosse necessário. As imagens das campanhas contra o aborto nos pegam pela beleza: aqueles bebês lindos, com pais alegres, num campo verde. Seria lindo se assim fosse. Se todos tivesse condições financeiras, psicológicas e vontade de ter esses bebês. Na prática, sabemos que não é assim. Que a mulher sofre por um erro (ou por um acidente) e que a criança pode vir a sofrer sua vida toda.
Hoje é o Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto. Tempo de refletir a respeito. Se faria, se não faria, se deixaria a namorada ou a prima fazer não importa: o aborto já é feito. Os gastos com a saúde pública já são grandes por conta disso. Legalizar só traria um benefício às mulheres e um amparo a quem tem consciência de que ainda não chegou sua hora de ser mãe.
Alimentação saudável: você sabe o que é?
Desde pequena tenho tendência aos vegetais. Nunca fui de recusar comida e experimentava de tudo: de jiló a queijo gorgonzola. Não sei se posso citar algo que não comia naquela época.
Ah, sim: galinha. Não comia frango porque eu brincava dentro do galinheiro do meu avô, muito feliz. Era a dona da fábrica de ovos de lá e amava muito minhas funcionárias – apesar de temer quando o gerente (o galo) se estressava com minhas peripécias e batia as asas enquanto o galinheiro todo se unia num complô para me rodear e me intimidar. Nossos policias deveriam aprender com a sabedoria milenar das galinhas.
Sim, naquela época parei de comer galinha. Poderia dizer poeticamente que foi porque eu era muito ligada às bichinhas, mas apesar de gostar muito delas, a ponto de dar nome a cada uma: não. Eu parei de comer galinhas porque vi uma comendo uma barata. Poderia ter ido até lá e dito: tira isso da boca, menina, mas não. Fiquei quieta, com nojo e saí correndo, antes mesmo de perceber que o inseto em questão era um besouro (o que certamente aliviaria minha tensão). Avisei a casa inteira que eu nunca mais comeria galinha. E nunca mais.
Aí, então, muitos anos se passaram, era uma sexta-feira do ano de 2007, eu estava em casa sem fazer nada quando decidi (pois é!) pesquisar sobre o vegetarianismo. Um documentário, algumas pesquisas acadêmicas e meia dúzia de sites mais tarde, eu já estava convencida a nunca mais colocar qualquer bichinho na boca. E assim foi tranquilamente até eu ler o livro do Dr. Carlos Braghini Junior.
O Braghini é um cara que convence de cara. Seu livro é bonito, bem editado e o convite à leitura, na contracapa, é tentador. Apesar do título “Ecologia celular” não ser um grande atrativo para quem tem como referência de ecologia as aulas chatas de Ciências da sétima série e tem a palavra celular diretamente relacionada à mitocôndria (que, aliás, não faço a menor ideia do que se trata), o livro é para leigos e te ganha já na introdução.
Calmo e convicto, página por página ele te leva a conhecer um universo de alimentação saudável que nenhum Globo Repórter, que nenhuma revista e até que nenhum nutricionista já te contou. Confesso que demorei mais do que o usual para terminar o livro. Mas é que, entre tantas informações, a gente prefere deixar para depois, continuar comendo industrializados, chocolate e bebendo refrigerante (o grande vilão da minha vida).
E se até aqui você entendeu que o livro trata de alimentação, reitero: o livro fala sobre medicina. Não sobre essa que nos acostumamos em consultórios, prontos-socorros, crises de rinite e antibióticos. A medicina que Braghini explica é muito mais inteligente: corrige hábitos alimentares para não fazer adoecer. Muito mais simples, não?
No meio de tudo isso, o livro quebra mitos. Um deles: o da soja.
Você sempre achou a soja um alimento saudável, não é mesmo? Não é nisso que te fizeram acreditar? Você passa por uma loja de produtos naturais, vai a qualquer restaurante do tipo e vê uma infinidade de produtos e alimentos que têm como base a soja. Pois saiba que não é bem assim.
A soja, além de também ser consumida através de alimentos altamente processados (proteína texturizada, leite, suco etc – tudo horrível para nossa saúde), contém substâncias que causam doenças na tiróide e predispõem à coagulação do sangue e ao derrame cerebral. Não é à toa que este grãozinho é consumido há séculos, mas sempre na forma fermentada (como no missô e no shoyo) – já que esta é a única maneira segura de consumi-lo, de neutralizar sua ação.
E não é só isso: a soja não previne o câncer e a osteoporose, nem reduz a menopausa, como é dito por aí. E apesar de conter certos nutrientes e vitaminas, também contém antinutrientes, que inibem a absorção de minerais e de proteínas e um certo tipo isoflavona (a genisteína) que bloqueia a função da tiróide. Ou seja: fomos (e continuamos sendo) enganados por mais esta indústria. A soja é uma grande ação de marketing.
Mas se você ainda não confia nas palavras do Braghini, sugiro uma rápida pesquisa no Google sobre o assunto. Fiquei comovida com minha ignorância a respeito.
Como não como carne, minha alimentação nestes últimos anos foi baseada na soja. Resultado: não tenho outro substituto protéico à altura e revejo meus conceitos alimentares. Ou seja: de dieta de criança feliz que come de tudo, para a de que para de comer galinha porque ela come o que bem entende, para a de vegetariana pela saúde, para a de quem não sabe mais nada sobre alimentação!
No livro, muitas outras questões que nunca vieram à tona mesmo para mim, consumidora voraz de tudo relacionado à saúde: a ineficiência do leite pasteurizado, o horror do açúcar, a indústria dos grãos, os males dos agrotóxicos, as toxinas dos industrializados… E no final, um planejamento nutricional passo a passo para quem decide sair da teoria e começar a praticar. É, ele dá as coordenadas.
Enfim, Braghini fez tudo direitinho para te deixar de cabelo em pé, pensando que a galinha tinha razão: comer baratas (ou besouros) é sair no lucro.
Festival de 67: minha música vencedora
Devia ser mais uma tarde comum na minha vida. Entrei na sala e vi minha irmã ouvindo uma música esquisita e parando de tempos em tempos para transcrevê-la. Parei para ouvir e, de fato, não é que a canção era curiosa?
Eu tinha onze anos e a música não fazia sentido nenhum para nenhuma de nós duas. Paramos para rir. “Sem lenço, sem documento”? “O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas”? “Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores”? Mais risos, um ponto de interrogação. A gente pouco entendia, mas muito gostava de tentar decifrar aquele enigma.
A música estava em uma dessas coleções de CDs promocionais de farmácia (do tipo: nas compras acima de cinquenta reais, pague mais dez e leve um CD!). Catalogado como MPB, trazia ainda Elis Regina cantando Fascinação, uma música que também descobri de maneira peculiar na infância: era o tema de abertura de uma novela do SBT que eu amava. Pois é.
Elis, Gil, Gal, Bosco, Elba: nenhum tinha vez. Alegria, Alegria era fascinante para nós, letra e melodia: a única que tocava naquelas caixas de som enormes da sala de estar. As duas obcecadas pela obra do cara dos caracóis no cabelo. Por que sem lenço, sem documento? Casamento, escola, Coca-cola? Por que Alegria, Alegria?
A música ficou em quarto lugar no festival de 67. Mas, para mim, é a melhor de Caetano, embora ele não ache e sugira até sentir um certo incômodo por isso. Se eu estivesse naquela plateia em 67, certamente faria parte do coro que gritava “Primeira!” para a canção dele e gastaria o resto das cordas vocais no ápice da música: “Eu vou… Por que não?”.
Para entender o bom da música brasileira, para sentir e morrer de inveja daquele tempo, é preciso ver este documentário: Uma Noite em 67. Foi lá, nesta noite que não vivi, que percebi que apesar de ser suspeita para falar da obra de Chico Buarque (de gostar de tudo, de me derreter de amores – inclusive por Roda Viva), apesar de achar Ponteio ótima e saber da importância de Domingo no Parque… Apesar de tudo, aquele era o ano de Alegria, Alegria. A grande vencedora, para mim.
Sim, é preciso ver este documentário. Para não saber para quem torcer, para se deslumbrar a cada novo artista, para desmistificar o ídolo. Para ver Chico Buarque sem saber o que dizer, Gilberto Gil menino, Caetano Veloso inocente e já sem papas na língua e Roberto Carlos sendo levado por uma repórter pentelha. Para ver o que nunca mais vimos.
Para morrer de raiva por saber que hoje temos a Internet, o Youtube, bandas se tornando independentes, mas antes tínhamos músicas incríveis passando na televisão. Festivais sendo transmitidos, compositores novos, cantores excelentes, poesia nas letras, arte nas melodias e batalhas quase que sangrentas pelo primeiro lugar.
Para morrer de amores pela música brasileira, que nunca é tarde. Se você ainda não começou a se desmilinguir por ela com um CD promocional qualquer, aproveite e comece agora com este documentário.
Panis et circenses – o fracasso da Festa Vivo On
Segunda-feira, meia-noite. Se eu não estivesse de férias, provavelmente já estaria de pijama debaixo das cobertas. Mas não: eu estava de salto alto no lançamento do incrível novo serviço da Vivo. Na festa da Vivo On.
Aconteceu assim: na semana passada, a Vivo fechou três baladas na região central de São Paulo (Sonique, Exquisito e Kabul) para receber alguns convidados especiais para que fosse apresentada a maravilhosidade da coisa toda do novo serviço misterioso da empresa. É claro que dentre estes formadores de opinião, estava toda a blogosfera paulistana e mais metade de todas as tribos da semi-elite da cidade, na faixa dos vinte e trinta anos de idade.
Sim, era muita gente e (não) eu não sei de onde todo aquele povo saiu em plena segunda-feira. E é claro que eu, que não sou formadora de opinião, não tenho tribo definida e male má vou levando este blog, não fui convidada. Mas, sim, meu influente editor particular (e namorado nas horas vagas) foi convidado cinquenta vezes e lá fomos nós: ele, de gente importante, eu de acompanhante.
Ao chegar na região, bastava confirmar seu nome na lista e receber uma pulseira laranja VIP e fantástica que dava acesso irrestrito às três baladas do evento. Lindo, não?
Lindo, lindo, não. Lindo seria se a balada fosse na calçada. Explico: tentamos entrar na Sonique. Ao ver que a fila estava E-NOR-ME e não andava, ligamos para um amigo que estava lá dentro, que confirmou que a casa não estava lotada.
Ahá. E quem não conhece estes truques de produção de evento chinfrim? Isto provavelmente já deve ter sido comprovado por algum estudo de universidade gringa: é só ver uma fila grande que qualquer ser humano já se interessa mais pela coisa. Quanto mais gente, mais atenção de todo mundo.
Como não tínhamos o que fazer (nem o que perder), fomos atrás de respostas para nossas indagações sobre a fila enorme, as portas fechadas e a balada vazia. Depois de sermos destratados e ignorados por um segurança e por um cara que tinha um crachá enorme escrito “Produção”, um outro muito amedrontado e agressivo (a muito custo) nos apresentou à pessoa mais fantástica que eu já vi em toda minha vida: a incrível Fabiana.
Toda mansinha, ela chegou para resolver nossos problemas: “Em cinco minutos eu coloco vocês dois lá dentro, tá? Só não coloco agora porque o pessoal da fila vai me matar…”. Respiramos fundo e meu paciente namorado explicou que não queríamos passar na frente de todo mundo, estávamos (ahm, ahm) cobrindo o evento e só queríamos saber o motivo da fila. Ela explicou que a casa estava lotada e toda aquela ladainha. Após ser confrontada com os fatos reais, ela passou a não mais ser nossa amiga.
“Tudo bem!”, disse meu parceiro de confusão. “Então você coloca a gente lá dentro agora pra confirmar isso?”. E a resposta da incrível produtora Fabiana foi… Adivinham qual? “Não! Não coloco porque você duvidou de mim!”. Ah, poxa vida. Magoamos a Fabi. Desculpa, Fabi, a gente não sabia que você ia levar pro lado pessoal.
O engraçado é ver um evento tão grande, com tanta desorganização. Realmente, os convidados foram muitos, a comunicação da produção do evento não estava rolando e deu para perceber que o que eles queriam mesmo é aquele bafafá todo rolando nas redes sociais para dar uma certa divulgação no novo serviço da Vivo que é o… O… Ahm…
Agora vem a outra parte engraçada da história: em meio a tanto alvoroço, meio mundo movimentado, entradas VIP e bebidas de graça, eis que a empresa esqueceu, simplesmente, de apresentar seu novo serviço. Me senti na Roma Antiga, na política do pão e circo. Com a diferença de que substituíram o pão por qualquer bebida alcoólica e o circo por música alta tocada por subcelebridades que sabem brincar de DJ. A alienação foi a mesma e o resultado que eles queriam, talvez tenham mediocremente alcançado: um monte de gente twittando diretamente da festa, mostrando que tanto faz o fim. Festa de graça, segunda-feira. Pão, circo. Está bom demais.
É, parece que ainda somos muito parecidos com os macacos.






