“Alice”, de Tim Burton

Desde abril do ano passado espero por este dia. O dia de ver Alice.

Nem tanto pela história, mas mais por conta do meu caso com Tim Burton. Adoro seus filmes e ver uma história tão sem nexo (como Alice foi na minha infância) nas mãos dele era a oportunidade perfeita de me ver perdida novamente. Só que, desta vez, num lugar mais sombrio, mágico e… E mais Tim Burton!

Apesar das críticas ferrenhas, fui esperançosa de ver na tela mais do diretor e menos da loirinha protagonista.

O filme começa devagar e demora para começar a nos prender. A culpa não é do diretor. Ele precisava dar uma satisfação, afinal Alice é a continuação daquela história que lemos na infância. Pois é, Alice cresceu e leva um tempo até esta história engatar e até o País das Maravilhas começar a fazer algum sentido.

Quanto às críticas negativas que li a respeito da atuação de Mia Oompa-Loompas Wasikowska, a moçoila que protagoniza a história, confesso que achei todas injustas. Comecei com um pé atrás com aquela cara lavada, aquele loiro homogeneamente espalhado em sua pele, alma, cabelo e coração. No entanto, não demora muito para sentirmos que ela é perfeitamente Alice e que não haveria outra para ocupar seu lugar.

Confesso que no início pensei em Scarlett Johansson para assumir o papel. Mas aí lembrei que meu namorado não se concentraria no filme etc e tal. E desconsiderei a possibilidade. Tim Burton acertou sim na protagonista.

Scarlett como Cinderella. Quem sabe um dia, ahm?

No filme, Anne Hathaway vive a Rainha Branca e, apesar de eu adorar a atriz, acredito que este tenha sido seu pior trabalho. Não sei se é muito fácil brilhar como a mocinha da trama. Coisa chata esse papel. Tirando uma ou duas cenas, sua personagem não muda no tom da fala, nas expressões e é até um estereótipo estranho: fica com as mãos levantadas o tempo todo, numa pose de mocinha muito esquisita. Nem merece uma foto por aqui.

Apesar de Johnny Depp estar muito bem como o Chapeleiro Maluco, o grande destaque vai para Helena Bonham Carter, a baixinha cabeçuda da foto acima, esposa de Tim Burton e a alma de qualquer filme dele. A Rainha Vermelha é a essência da trama e, vez ou outra, consideramos a ideia de torcer apenas por ela. Ela é o que há de Tim no filme. Malvada, excluída, esquisita, estranha, sombria… Frágil.

Resumindo, Alice é um filme de figurino impecável, cenário e efeitos lindos e algumas atuações brilhantes. Mas… Sim, eu esperava por algo mais. Eu queria mais de Tim Burton nos cenários, nos diálogos, mais magia no País das Maravilhas e menos sensatez por lá. Mas eu também fui cheia de expectativas. E mesmo não sendo tão obscuro quanto eu pensava que seria, Tim Burton é Tim Burton e por isso eu recomendo. Qualquer obra dele merece ser apreciada.

Quanto custa esta escola?

Um dos passos mais importantes na história dos pais – e do que eles querem para o futuro de seus filhos – é a escolha da escola. Já pensou em que colégio vai colocar seus filhos? No mesmo em que você estudou? Num mais perto da sua casa? No mais caro da cidade?

Tendo filhos ou não, isso certamente já passou pela sua cabeça: em que lugar eu confio a ponto de querer dividir uma parte da minha vida? Considerando a escola pública brasileira – o que se fala dela na mídia, o que se sabe observando de perto uma – todos nós pensamos em pagar um colégio para nossos futuros, presentes, inevitáveis ou ilusórios pimpolhos. Certo?

Sim, pagando teremos garantia de excelência – é o que passamos a vida inteira acreditando. Afinal, se o colégio te cobra mensalidades, você passa a ser mais do que o pai de um estudante de lá. Agora você é cliente. E pode reclamar se o banheiro estiver sujo, se o professor tiver faltado, se o diretor não te ouvir e, às vezes, até mesmo se seu filho for mal na prova.

No entanto, basta passear por algumas escolas particulares para ver que a qualidade do ensino não está diretamente associada ao preço da mensalidade. Na educação, esse clientelismo não funciona. Nem deveria funcionar, afinal, educação não se compra, é um processo. E não se adquire com a mesma lógica com que compramos sapatos.

Pensando sobre isso, dia desses encontrei o blog de uma mãe, jornalista, esclarecida, bem sucedida e questionadora que optou por colocar seus dois filhos numa escola pública. Não, a escolha não aconteceu por falta de dinheiro. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ela já morou, seus filhos estudaram nas ditas “melhores” escolas, dividindo espaço com filhos de estrelas da televisão brasileira, artistas e gente cult.

Acontece que principalmente por não concordar com a proposta pedagógica destas escolas (e por ainda ter que arcar com suas mensalidades caras), ela saiu em busca de outras. E visitou uma pública. Ao ver a abertura do diretor, a acessibilidade dos professores e a vontade de progredir da escola, não teve dúvidas: matriculou seus filhos lá.

A localização desta escola pública, numa área nobre da cidade, conta muito, claro. E no blog ela conta tudo com detalhes. E ainda fala sobre a transição dos filhos, as dificuldades da escola, os problemas do relacionamento entre as crianças e sobre a coragem que teve que ter para manter sua escolha.

Embutido nos discursos que ela narra dos parentes e amigos desesperados pela escolha dela, vemos muito o preconceito que temos com a escola pública. E, mais do que isso, como acreditamos que qualquer escola particular é melhor do que uma pública. A relação não é tão simples assim. O preço que se paga não garante nada. Ou garante que façam tudo um pouco mais escondido.

O fato desta mãe confiar a educação de seus filhos a uma escola pública – e ainda escrever sobre – é muito bom. Como ela mesma cita, é importante que a classe média entre em serviços públicos e cobre por um atendimento decente. É o início de um novo pensamento. Afinal, a escola pública não é de graça.

Todo mundo amarela uma hora?

Desde 2004, sou fã confessa do grupo O Teatro Mágico. Assim: foi paixão à primeira vista. Conheci o grupo pela Internet e passei um bom tempo sendo fã à distância. Um dia, tomei coragem e fui assistir a uma apresentação. Foi o início de um longo trajeto como fã de carteirinha. Do tipo que chega bem antes da apresentação e só vai embora bem depois.

O grupo, que é liderado pelo querido Fernando Anitelli, conseguiu levar para os palcos uma mistura de diversas manifestações artísticas. No entanto, mais inusitada do que a proposta de reunir tanta gente diferente com o mesmo objetivo, é a bandeira da arte independente levantada com fé por Anitelli e sua trupe.

Músicas para baixar na Internet, contato direto e frequente com os fãs e um jeito acolhedor de lembrar do nome, da família, da última vez que viu e essas coisas que mostram que a mesma pessoa que estava em cima do palco, está ali, sem maquiagem ou pose, conversando com você. De igual para igual. Parece óbvio, básico, normal e até mesmo necessário para uma real admiração, mas qualquer um sabe que não é bem assim na prática das outras bandas.

Por este e por outros motivos, O Teatro Mágico ganhou destaque como mais do que uma banda: um ideal. Assim, todo mundo que conhece o grupo acaba (de uma maneira ou de outra) chegando ao debate da arte independente, da música para baixar, da liberdade do artista, da necessidade do contato direto com o público, da desmistificação do ídolo etc e tal. E quem entra em contato com o universo do grupo, chega também aos projetos paralelos dos artistas que estão n’O Teatro Mágico mas que carregam, além desta, outras bandeiras, como é o caso da “boneca do tecido”.

Gabriela Veiga, circense, bióloga, vegetariana convicta e idealizadora do projeto Hábitos e Habitat

Acontece que, na semana passada, O Teatro Mágico apareceu na novela das oito. Sim, na novela da Globo. Sim, O Teatro Mágico. E como eu vi um mar de manifestações surgindo e um Fernando Anitelli oscilando no Twitter entre explicações pacientes aos fãs e o bloqueio dos mais irritadinhos, pensei que eu tenho onde interferir nesta história.

É claro que eu não esperava menos. Aguardei ansiosamente pelo burburinho e pelas perguntas assustadas do tipo: “O Teatro Mágico se vendeu?”. Os fãs seguem mais do que uma banda e a indignação sobre a aparição na novela da Globo era esperada. E é legítima. Explico.

Há anos, os fãs frequentam os shows da trupe e, em determinado momento, ouvem um pequeno discurso exaltado do líder do projeto, falando sobre a dificuldade da divulgação do grupo, da falta de acesso à chamada “grande mídia”, do jabá pago pelas grandes gravadoras. Entre outras coisas, Anitelli não deixa de citar a alienação da televisão, como é o caso da música Xanéu no. 5 (crítica evidente ao canal no qual apareceram).

E quando falamos de novela, falamos de algo que é assistido por uma grande parte da população e que, acima de tudo, é um veículo ótimo de manutenção dos valores em voga e criação de moda. Sim, basta a mocinha (ou a vilã) usar um determinado esmalte para que este vire febre. Cintura baixa, cintura alta, preto, cinza, rosa. Tudo é ditado, essencialmente, ali. A moda do povo, o que vai vender, o que vai acontecer, o que vai tentar virar febre nos próximos nove meses.

Por isso, acho mais do que saudável que os fãs coloquem Sr. Anitelli e companhia na parede perguntando: “E aí? Qual é a de vocês?”. Primeiro, porque é a prova de que estes fãs, de alguma maneira, entenderam o recado dado nos shows. E depois porque Anitelli, que é um cara muito inteligente e coerente, interessado em arte, cultura e disposto a meter a mão na massa para que algo, de fato, ocorra neste país, tem lá suas explicações para a aparição na novela: a audiência é incrível, pela novela o grupo chegou a pessoas que não têm acesso à Internet, a trupe foi convidada etc e tal.

No entanto, acredito que o que o povo do Twitter não conseguiu dizer em 140 caracteres é: a luta de vocês foi para isso? Sim, sem dúvidas a novela deu um destaque ótimo ao grupo, mas até que ponto isto vale a pena? Durante alguns minutos na telinha da Globo, a trupe foi só mais um adereço do teatro montado pelo autor, pelo diretor e pela produção. Quem assistiu não viu O Teatro Mágico (a não ser quem conhece), mas viu, sim, um grupo de circo, com algumas músicas fazendo a reinauguração do “Restaurante do Garcia”.

Não condeno o grupo por aparecer na Globo. Não acho que ninguém ali se vendeu. Também não acredito que: “Ou é o trono ou é o inferno”, como dizia uma música que eles costumavam cantar e que um trecho está como título deste texto. Sim, a história teve pontos altos. Só não posso achar que este é um marco na história d’O Teatro Mágico. Marco, para mim, foram os shows da Virada Cultural, com milhares de pessoas cantando. Marco foram os aniversários da trupe, com outros milhares declamando poemas em uníssono, marco foram os CDs vendidos, marco é a febre do boca-a-boca.

Não posso acreditar que só teremos um outro grande marco quando, um dia, convidarem o grupo para um novo capítulo de novela. Isso, para mim, foi uma mera consequência, um reconhecimento tardio, um ponto numa história de outras tantas conquistas mais interessantes.

A arte de bisbilhotar

Estava eu me preparando para o início de mais uma aula no curso em que estou fazendo.

Aliás, começo de curso é um desespero, não é? Você ainda não achou sua turma, teme ter sentado ao lado daquelas pessoas estranhas e passar a fazer parte da turma delas etc e tal. No entanto, eu não tenho medo de não pertencer a turma nenhuma. Prefiro chegar e ler ao invés de tentar resumir minha vida em quinze palavras para a colega da mesa do lado.

Além da leitura, tenho um hobby muito interessante e que me rende boas gargalhadas internas: gosto, adoro, amo prestar atenção nas conversas alheias. Assim, deste jeito que você também faz: faço cara de paisagem, foco o olhar no livro à minha frente, viro páginas. Sou tão boa atriz que, vez ou outra, paro, olho para frente e suspiro, enquanto murmuro algo incompreensível fingindo me referir à minha leitura.

Tenho técnicas porque, realmente, o resultado de se empenhar para ouvir a conversa que acontece ao lado sempre rende boas lições. Mas é preciso ter persistência, um ouvido apurado e a capacidade de transmitir o diálogo com fidelidade aos seus futuros ouvintes — sim, às vezes, reconto a história ouvida, o que torna a coisa ainda mais interessante.

Eu daqui a alguns anos...

Muito bem, eu estava sentada na primeira fileira, quando ouvi uma destas tentativas incessantes de amizade na fileira de trás. Eram três mulheres que tentavam resumir suas vidas (e parecer interessadas nas vidas alheias) e que, a cada quatro frases, tinham que repetir: “Qual seu nome mesmo?”.

Até aí, tudo bem, eu não me intrometeria por pouco nessa história, não é mesmo? O papo passou de aula para professor, depois para professor que tem “voz de travesseiro” e chegou à experiência de uma das três do grupo. Ela contou sobre um professor que teve na ECA (plim!, fez um sino dentro de mim), muito velhinho (plim, plim!), que era ótimo, mas que às vezes tinha “umas piadinhas de velho” (?).

O ponto é, caro amigo leitor que gosta de forçar amizade no começo do curso: ela nem conseguiu elaborar uma argumentação. Colocou o pobre do professor ali, no meio da conversa, só para registrar na cabeça das colegas um acontecimento: ela fez ECA.

Eu já estava atenta às características do professor que fazia “umas piadinhas de velho”, quando ela continuou a descrevê-lo:

— Ele tem uma biblioteca particular e empresta livros pros alunos! — Nada de novo, pensei, afinal, qualquer professor da USP tem uma biblioteca particular e facilmente empresta seus livros aos mais interessados.

— Ah, eu sei quem é! Ele morreu e doou seus livros pra USP, não é esse?

Neste exato momento, posso afirmar que já imaginava qual desfecho a conversa teria. Sim, porque quem morreu e doou sua biblioteca pessoal para a USP e tornou este fato uma grande notícia no ano passado, foi o bibliófilo José Mindlin, que era velhinho e que, por sinal, nunca foi professor da universidade.

Tirei o cabelo das orelhas, me aconcheguei na cadeira e continuei mais concentrada do que nunca em minha árdua tarefa de bisbilhoteira. Foi quando veio a resposta da ECAna:

— Nossa, não acredito! O CLÓVIS GARCIA MORREU?

Internamente, eu ri. Minha alma se contorcia por dentro. Em respeito ao Clóvis Garcia, grande personalidade teatral (que não, não morreu, nem doou seus livros), me contive e esperei o engano ser explicado:

— Morreu, morreu sim! Não sei o nome, só sei que era bem velhinho e tinha uma biblioteca particular…

— Deve ser ele…

— Ele tinha coisas do tipo… Machado de Assis manuscrito…

— Ai, olha, pode ser, viu? Porque ele contava cada história… De vezes que saiu pra conversar e beber com Nelson Rodrigues!

Muito bem, a partir deste momento, nossa ECAna passou a se referir ao Clóvis Garcia no passado. Começou a contar como ele era um ótimo professor. Tudo sofrido, lamentado, afinal, ele morreu ali, na conversa dela. E o plim, plim, plim! do sino que ressoava dentro de mim passou a fazer BLEN, BLEN, BLEN!

Eu tinha que interferir naquela história, tinha que dizer que o Clóvis Garcia está vivinho da Silva, que quem doou os livros foi um grande empresário, tinha que perguntar se elas não liam jornal, tinha que dizer que o Clóvis Garcia foi jurado na apresentação de uma peça de teatro que eu fiz e tinha que contar que ele disse que o autor da peça não merecia meu talento — desculpa aí, Miguel Falabella!

Eu tinha, eu bem que poderia. Porém, a arte de bisbilhotar requer discrição. Requer fidelidade ao seu papel: não assumir nunca que estava futricando e, principalmente, não envolver pesquisador com pesquisados. Se você se envolve, não tem post para escrever.

Eu poderia ter feito um parenteses e ter deixado as garotas da fileira de trás mais informadas. Poderia, sim. Mas, como sou antissocial, não fiz. Como sou bisbilhoteira nata, não fiz. Como gosto de ver o circo pegar fogo, não fiz.

Deixei as três lamentando a morte de alguém que está vivinho da Silva.

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