Quais são as regras da sedução? Existe uma fórmula para a conquista? Onde termina a lógica e brota o sentimento?
A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth) é uma dessas histórias que você já conhece. Abby Richter (Katherine Heigl) é produtora de um programa matutino: loira, linda, inteligente e alguém que acredita no amor. Na espera por um companheiro que complete os dez itens da sua criteriosa lista de exigências, ela encontra, na janela ao lado, um novo vizinho. Um primeiro encontro atrapalhado e a mocinha da trama já está apaixonada.
Enquanto isso, Abby descobre que o novo comentarista do seu programa é um conselheiro sentimental peculiar. E que, para vencer a espontaneidade estrondosa do galanteador no ar, colocará a conquista do seu futuro namorado em jogo.
Com dicas baseadas no pensamento masculino, o terrível Mike Alexander (Gerard Butler) mostra a ela como conquistar um homem. Aponta os erros na imagem, nas ações e apresenta soluções infalíveis. Nada que as mocinhas já não imaginem. Mas muito interessante quando apontado ferrenhamente. Ainda mais para a bela Katherine Heigl, que consegue ser linda até de ponta-cabeça. Mesmo.
E entre tantos passos e poses planejados, ligações perdidas, encontros marcados e desmarcados, ele mostra como seduzir. Teoria e prática. Como se o amor fosse resultado de uma conquista eficiente (e vai dizer que não?).
Sim, o amor pode acontecer depois de tudo isso. A conquista pode ter regras mais ou menos eficientes. Mas existe um jeito de racionalizar e se envolver? Ou, racionalizando a conquista, estamos sempre à parte destes seres mortais que se apaixonam por ligações, encontros e beijos? Como explicar quando nasce o amor por quem faz tudo errado? Como se apaixonam por caretas, sorrisos, vestidos, gostos, bilhetes, jeitos, vontades, mãos? Como se apaixonam por pessoas?
Por fim, a verdade nua e crua: qual é a graça de conquistar senão ser também conquistado?
Vai lá ver: o filme estreia nesta sexta-feira, dia 18 de setembro. O trailer legendado
aqui.
Por Isabella Ianelli em 15/09/2009 | arte e cultura | 4 comentários
Fui aproveitar o dia quente e a baixa umidade relativa do ar para fazer o que os especialistas não recomendariam: caminhar na praça.
Depois, morrendo de sede, fome e numa crise de abstinência de chocolate, parei no único local da Mooca em que podemos comer a qualquer hora. Sim, aquela padaria cujo nome não vou mencionar porque, de fato, não merece propaganda nem no meu blog xinfrim. Bem, mas é o que temos, não?
Lá fui eu pedir um suco de melancia e um sanduíche de pão integral com queijo cottage. Tudo pra fazer valer a caminhada. Eis que ali estou quando um tipo urbano (parafraseando Alberto Guzik) me chamou a atenção.
Mãe e filha. Recém-saídas do maior estereótipo possível de peruas da classe média paulistana. Daqueles tipos que, se você vê numa peça de teatro, tira sarro e depois comenta como o autor foi clichê. Pois é.
A filha sai para zanzar pela padaria quando a mãe diz para o atendente do balcão: “Eu quero um chai.”. Ahm? Ouvi bem? O que ela quer? O atendente responde: “É pra já! Ô Zé, vê aí um chai.”.
Ok. Se você é uma pessoa que transita por outras culturas, já sabe o que é um chai. Agora, se você faz parte da massa da população brasileira, você aprendeu o que é chai há alguns meses, quando a novela Caminho das Índias invadiu sua casa com um monte de palavras estranhas inseridas num contexto novelesco.
E desde quando as padarias passaram a ter o tal do chai? Por onde andei esse tempo todo?
E foi ali, saboreando o queijo cottage, mas de olho no chai alheio, que percebi que, realmente, não temos ideia da influência das novelas globais na vida do brasileiro.
Quanto tempo mais dura essa moda? A novela acabou ontem. Teve reconciliação, bebê à vista, Juliana Paes e Rodrigo Lombardi como o casal ideal. Até a menina que nem dez anos deve ter jurou amor eterno a um menininho tão pirralho quanto ela. Já não basta esse amor romântico sendo difundido aos quatro cantos? Agora estão invadindo as padarias também? Baguan Keliê!
Por Isabella Ianelli em 12/09/2009 | cotidiano | 2 comentários
- Pernilongo zanzando pelas minhas pernas enquanto eu dirijo.
- Gente lerda dirigindo em qualquer faixa que não seja a faixa da extrema direita.
- Espertinhos que não dão seta, furam fila, andam sem cinto de segurança, com o vidro aberto e o braço pendurado pra fora.
- Quem insiste em encaixar a frente do som da maneira errada.
- Quem entra no carro com copinho de café, lata de refrigerante, mapa do local, folheto de propaganda e NÃO retira seu lixo quando sai.
- Trânsito parado e alguém no banco do passageiro dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Trânsito bom e alguém no banco do passageiro dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Qualquer situação e alguém em qualquer lugar dizendo: “Não vai dar tempo!”.
- Batida de carro que me envolva. Qualquer tipo.
- Qualquer pessoa que grite: “Esterça, esterça, esterça!”.
- Flanelinhas. Todos.
- Caminhões. Todos.
- Estacionamentos que cobram mais do que eu vou gastar durante a semana toda.
- Rádio SulAmérica Trânsito dizendo que seu caminho está ótimo, quando ele NÃO está.
Por Isabella Ianelli em 11/09/2009 | cotidiano | 1 comentário
No chão, uma mulher. Jogada. Dopada com um comprimido para dormir, ela está enrolada em uma camisola, com a cabeça coberta por um tubo de crochê que a prende na parede.
No vídeo, uma dançarina de flamenco no palco, toda vestida de branco, se alfineta sem parar. O resultado, após poucos minutos, é um vestido branco, florido de sangue. Em sua face, nenhuma dor. A pose.
Outro vídeo: numa cadeira, uma mulher vestida de preto. Levanta a saia e com uma faca (e paciência) começa a se cortar. Ao fundo, notamos o pé de um homem, parado. Ela termina de escrever. A perna sangra. A palavra jorra: “perra”. Cachorra, em espanhol.
As obras são, respectivamente, de Laura Lima, Pilar Albarracín e Regina José Galindo. A exposição, intitulada Corpos Estranhos, está no MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo) e é um convite para refletirmos um pouco sobre o corpo na sociedade contemporânea, suas marcas e nossas máscaras.
Toilette, de Albarracín
Repugnantes e dolorosas, as obras mostram diferentes situações em que a mulher é quase um objeto. Como vítima e como cúmplice. É a mulher que veste a camisa-de-força – ela é complacente de sua situação. É ela que mutila sua perna, observada por um homem. É ela que se dopa. É ela que se alfineta. É ela que… É?
Até onde dominam? Onde começam a se deixar dominar? O dominador precisa de um dominado. E o dominado?
É certo que não podemos generalizar os muitos casos de violência contra a mulher, afirmando que elas são cúmplices desta situação (porque, conscientemente, não são). Entretanto, cabe aqui parar para pensar que talvez estas atitudes sejam apenas reflexos de uma sociedade que ainda nos trata com desigualdade.
Em 2007, o relatório social da FUVEST perguntava aos candidatos sobre o grau de instrução de seus pais. A alternativa marcava para o pai, até a pós-graduação e para a mãe, até o ensino superior. Erro grave para uma das maiores instituições da América do Sul.
Aliás, hoje, a maioria dos estudantes da pós-graduação da Universidade de São Paulo é composta por mulheres. Talvez seja uma forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho, já que os homens continuam ganhando mais do que nós. O jeito é recorrer à especialização antes.
E entre alguns retrocessos e outras conquistas, estamos em tempos de lei Maria da Penha, que veio para nos mostrar que ainda falta muito. Se precisamos de uma lei especial para que homens violentos sejam punidos, é porque a situação é muito grave. É porque existem homens que, realmente, se sentem superiores à mera existência feminina. Mais uns oito mil anos para a humanidade evoluir a ponto de perceber que Darwin tinha razão e que todos nós viemos do macaco.
Onde? Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP)
Até quando? 4 de outubro de 2009
Visita orientada? Sim (fui com a professora Maria Angela Serri Francoio, que foi muito simpática e me instigou a pensar no tema).
Por Isabella Ianelli em 27/08/2009 | arte e cultura, cotidiano | 4 comentários