Quanto custa esta escola?
Um dos passos mais importantes na história dos pais – e do que eles querem para o futuro de seus filhos – é a escolha da escola. Já pensou em que colégio vai colocar seus filhos? No mesmo em que você estudou? Num mais perto da sua casa? No mais caro da cidade?
Tendo filhos ou não, isso certamente já passou pela sua cabeça: em que lugar eu confio a ponto de querer dividir uma parte da minha vida? Considerando a escola pública brasileira – o que se fala dela na mídia, o que se sabe observando de perto uma – todos nós pensamos em pagar um colégio para nossos futuros, presentes, inevitáveis ou ilusórios pimpolhos. Certo?
Sim, pagando teremos garantia de excelência – é o que passamos a vida inteira acreditando. Afinal, se o colégio te cobra mensalidades, você passa a ser mais do que o pai de um estudante de lá. Agora você é cliente. E pode reclamar se o banheiro estiver sujo, se o professor tiver faltado, se o diretor não te ouvir e, às vezes, até mesmo se seu filho for mal na prova.
No entanto, basta passear por algumas escolas particulares para ver que a qualidade do ensino não está diretamente associada ao preço da mensalidade. Na educação, esse clientelismo não funciona. Nem deveria funcionar, afinal, educação não se compra, é um processo. E não se adquire com a mesma lógica com que compramos sapatos.
Pensando sobre isso, dia desses encontrei o blog de uma mãe, jornalista, esclarecida, bem sucedida e questionadora que optou por colocar seus dois filhos numa escola pública. Não, a escolha não aconteceu por falta de dinheiro. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ela já morou, seus filhos estudaram nas ditas “melhores” escolas, dividindo espaço com filhos de estrelas da televisão brasileira, artistas e gente cult.
Acontece que principalmente por não concordar com a proposta pedagógica destas escolas (e por ainda ter que arcar com suas mensalidades caras), ela saiu em busca de outras. E visitou uma pública. Ao ver a abertura do diretor, a acessibilidade dos professores e a vontade de progredir da escola, não teve dúvidas: matriculou seus filhos lá.
A localização desta escola pública, numa área nobre da cidade, conta muito, claro. E no blog ela conta tudo com detalhes. E ainda fala sobre a transição dos filhos, as dificuldades da escola, os problemas do relacionamento entre as crianças e sobre a coragem que teve que ter para manter sua escolha.
Embutido nos discursos que ela narra dos parentes e amigos desesperados pela escolha dela, vemos muito o preconceito que temos com a escola pública. E, mais do que isso, como acreditamos que qualquer escola particular é melhor do que uma pública. A relação não é tão simples assim. O preço que se paga não garante nada. Ou garante que façam tudo um pouco mais escondido.
O fato desta mãe confiar a educação de seus filhos a uma escola pública – e ainda escrever sobre – é muito bom. Como ela mesma cita, é importante que a classe média entre em serviços públicos e cobre por um atendimento decente. É o início de um novo pensamento. Afinal, a escola pública não é de graça.
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6 comentários



Oi Isabella
Aqui é o Fabrício… passei algumas vezes por aqui há algum tempo e voltei agora por conta de uma tuitada sua.
Gostei muito do blog que vocë indicou e sobretudo da crítica que você fez, em termos de clientelismo e dos problemas que as escolas particulares têm.
Pessoalmente, tô bem longe de ter filhos e de me preocupar com escolas por enquanto. Mas esse caminho de reocupação dos espaços públicos tem muito a ver com uma ideia minha de descobrir hospitais públicos, retornar â universidade pública, enfim, fazer uso de tudo a que tenho direito e, em alguma medida, fomentar esse uso compartilhado.
Bem, é isso aí, o texto foi útil.
Abraço
Fabrício
Oi Isa,
Ainda não tenho filhos mas educação sempre foi um assunto que me interessou muito e não tenho opinião formada e inflexível sobre. Abrange tanta coisa, tantos fatores e acho que é muito difícil generalizar, seja lá qual generalização seja essa.
Acho difícil dizer que é errado que escola pública só é ruim pq “é de graça” e que a classe média deveria entrar mais para se cobrar. Mas também não acho que qualquer escola particular é melhor que escola pública pq é paga.
Escola pública não é de graça mas os recursos são muito mal administrados pelo Governo. Na verdade, a única diferença está aí: como os recursos são administrados! Administradores públicos tem menos incentivos a administrar bem o dinheiro público do que os administradores privados, que geralmente precisam mostrar resultados, seja pro dono que quer ver o lucro, seja pro “cliente”, que comprou o serviço. Aí, entra outro aspecto difícil de ser discutido: educação é, em termos simplificados, um serviço! E tem conflito de interesse entre cliente e administrador. Muitos aspectos envolvidos pq os pais, ao mesmo tempo que querem que seus filhos aprendam, não querem que seus filhos repitam de ano e, muitas vezes, querem se meter mais do que devem naquilo que estão pagando pra ter…
Acho que deveríamos sim cobrar mais da administração pública. Mas talvez tenham meios mais efetivos e menos custosos de fazer isso do que matriculando os filhos numa escola só pq ela é pública. Mas também acredito que algumas escolas públicas são muito melhores que algumas escolas particulares e, neste caso, não faria diferença ter meus filhos em escola pública, já que ela funciona! A não ser pelo preço da mensalidade, é claro!
Gostei do texto! É um assunto que é bastante importante hoje em dia, com a qualidade de educação no Brasil no estado que ela está!
Um beijo,
Mari
Eu curto a ideia de um colégio desses bem famosos, como o Bandeirantes, mas cada vez mais penso nas escolas com turmas menores, com propostas alternativas, como a Politeia (educação democrática) ou a iniciante Caminho do Meio.
Mas você matou a pau: se continuarmos evitando o que é público (saúde, educação…), nunca conseguiremos o direito de exigir ou a vontade de produzir mudanças.
Se não nos apropriamos do que é público, se nossa sensação de “meu” se resume ao privado, ao que compramos, fica difícil querer que educação e saúde públicas melhorem.
Beijo.
Gostei da coragem da Vanessa. Vale muito o esforço de mostrar que público não é o que é de ninguém, e sim o que é de todos. E aí, temos a mesma coragem, energia e nobreza para lutarmos assim? Pode dar certo, se os pais acompanharem de perto, e os professores (os de verdade, que querem ensinar e aprender) também escolherem a escola pública.
Bem, o que eu tenho a dizer sobre a educação particular é o seguinte: o compromisso das escolas da rede particular NÃO é com os alunos, é com os pais (clientes). Se um aluno chega surrado na sala todos os dias, o professor vai lá no Conselho Tutelar denunciar os clientes? Nã-nã-ni-nã-não. Mesmo se o consciente professor for conversar com a diretoria, vai no máximo ouvir que deve lidar com o assunto internamente. Afinal, não quer perder os clientes. O caso mais recente agora, do menino da escola evangélica particular que foi baleado. Ora, os pais de outro menino já tinham encontrado uma bala no estojo do filho, que era da mesma turma. Mas abafa o caso, por favor, que a escola não quer perder clientes. E a pequena Isabela, será que o pai dela acordou um belo dia e decidiu jogar a filha pela janela? Com certeza não. A menina já devia sofrer agressões, mas a escola particular dela deve ter fingido que não viu, afinal, quantos burgueses não concordam que dar uns tapas no filho de vez em quando é saudável? Então, chega da hipocrisia da escola particular, que no fim das contas está pouco se lixando para as crianças. Os clientes, os pais, esses sim são os mais importantes, já que é por eles que a grana entra.
Bem, eu fico feliz que esta mãe tenha conseguido uma escola de qualidade. Eu vivo um drama… Tenho 2 filhos em escola pública e vejo que tem um ótimo material didatico, aulas de informatica e até passeios fora da sala de aula, indo a teatros e atividades culturais.
O problema é que meu filho que está no último ano do ginásio não sabe que o teatro nasceu na Grécia, discutiu comigo que aluminio não era metal e se interessa muito mais pela idade ou aparecia de personagens historicos do que por seus feitos. Minha filha está na quarta série e não sabe escrever e nem ler direito.
Eu nesta idade já lia revista e me arriscava lendo livros com 200, 300 páginas. Ela lê mal. Não tem um bom pensamento matematico. Enfim…
Sinto-me lesada porque tenho problemas de saúde e dependo de hospitais publicos. Me é prometido que a saúde e educação melhoraram mas sinto o mesmo drama pra cuidar de minha saúde. Sonho em poder pagar um hospital e uma escola particulares porque sinceramente não tenho visto luz no fim do túnel. Bom, é só um desabafo. Sei que tudo pode e deve melhorar. Agradeço por poder postar minha opinião.