Sobre cães, vacas e homens

Um cachorro apareceu na rua da casa de uma amiga. Como ele é de uma raça dita perigosa, não pode ficar por lá. O Centro de Controle de Zoonoses (a Carrocinha, diga-se de passagem) foi chamado e minha amiga, para proteger o cão, assumiu a responsabilidade por ele. Tem que encontrar um dono para ele o mais rápido possível e, enquanto não encontra, o mantém em sua clínica. Todos os dias vai lá e eles se fazem companhia. No fim da tarde, o tranca na clínica, com dor no coração, diz boa noite e se vai.


O fato é: ela chorou conversando comigo dia desses. Chorou porque o cão é fofo, lindo, meigo, quer um dono, quer ser feliz, não merece ser levado pela Carrocinha, não merece ter sua vida interrompida. Certo, concordo. Uma iniciativa do governo de castrar os cães que já estão por aí abandonados talvez melhore a situação. Talvez a carrocinha possa, um dia, com planejamento e vontade, deixar de existir.


É ruim ver um cão abandonado. Mas, posso parecer ridícula aqui, como muitos acharão: por que chorar por um cão desconhecido e não pela vaca no prato do almoço? Qual a diferença entre este cão abandonado e o porco que espera no corredor de sua morte? Ou os bezerros que são torturados e abatidos friamente? E os outros tantos animais?


O cão ao menos está seguro, protegido, vacinado, à procura de uma casa. Já estes outros animais estão nas prateleiras do supermercado, ao molho madeira. Choram por uns. E os outros? Por que não choram pelos outros?

Amam cachorros, gatos, papagaios, coelhos, cavalos. Não suportam ver um bichinho dormir fora de casa. Odeiam presenciar um sofrimento na rua. Mas não ligam para a crueldade dos abatedouros. Não dispensam um churrasco. Acham radical parar de comer carne. Não querem assistir ao vídeo
A Carne É Fraca porque não suportam ver “o sofrimento dos bichinhos”. Não suportam ver, suportam comer. “É a lei da natureza, a cadeia alimentar”, afirmam, convictos.


E ainda existem os que apelam e, na tentativa de aproximar o vegetarianismo à futilidade, nos fazem parecer tolos, perguntando: “Mas e as criancinhas da África que passam fome?”. Ok. Algo tem que ser feito. Na África, no sertão nordestino e até mais perto, nos semáforos de São Paulo… E no nosso prato. Na nossa consciência.


Basta pesquisar um pouco sobre as diversas explorações animais para achar a Carrocinha fichinha. Para até entender mais a África. Basta um tempo lendo sobre o problema do consumo da carne no mundo para perceber como somos incoerentes. Somos, sim, todos. Somos frutos de uma herança cultural que utiliza animais como produtos. Está na capa do produto: uma ave sorrindo, a vaquinha gordinha, lambendo os beiços.


Então tomamos leite. Somos amamentados por vacas que são induzidas a estarem sempre prenhas para que a produção aumente. Comemos uns, nos vestimos de outros. Com alguns brincamos e, por estes, nos permitimos sentir afeto. Ninguém mata o próprio cão para o churrasco do domingo. Por este, você chora.


É só abrir os olhos. Somos todos iguais, habitantes do mesmo planeta. Com a diferença de que nós podemos fazer escolhas. Agora, se você não quer admitir nossas semelhanças com eles todos, admita, ao menos: eles são todos iguais.



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2 comentários

  1. Adoro um churrasco !!!!! huuummmmmm
    Quem sabe daqui a 20 gerações o homem comece a ser vegetariano ? Até lá já voltei joaninha !

  2. Larissa Lemos |

    Isabella, achei seu blog no perfil da Gabi Veiga! Adorei as coisas que escreve, li todos os posts!! Precisamos de mais pessoas como você!
    Gostei mais ainda desse último post, é bom esclarecer, mesmo que o mínimo, o que está por trás da nossa comida! Se quiser dá uma passadinha no meu blog… não é tão trabalhado, afinal ando mt sem tempo (!), mas é de coração, rs!
    Um beijo grande e parabéns por ser quem é! Larissa.

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