Sobre um fato cotidiano

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

(Construção, Chico Buarque)

Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.

Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.

Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.

Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.

A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?

Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.

Será?

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12 comentários

  1. Oi!

    Lindo seu blog e ótimo este texto! Cheguei aqui depois do tweet do @gustavogitti.
    Seu txt me fez pensar nas pessoas q eu amo e se foram e lembrei do meu vô. O Vô Hercílio se foi cedo demais para mim. Acho q sempre q somos loucos por alguém e essa pessoa se vai, a gente acha q é cedo, né?
    Concordo em partes com isso de morrer algo tb na gente. Mas, por outro lado, eu costumo dizer q meu vô se tornou imortal qdo partiu, pq nós da família não passamos um dia sem lembrar ou repetir uma piada dele. Contar ou aumentar uma das tantas histórias fantásticas que ele inventava. Ou cantar e rir das músicas engraçadíssimas que ele gostava.

    E cá estou eu, 15 anos depois lembrando dele novamente e, mais uma vez, imortalizando-o.

    Obrigada por me fazer lembrar do melhor vô que já existiu. :)
    E espero que a sua dor e dessa pessoa que perdeu o pai passem logo e fiquem só as boas lembranças.

    Beijo
    Dani
    @danimie

  2. É… Tudo no texto é verdade. A morte é cotidiana, você liga o noticiário e 80% das notícias é sobre morte. O foda é que quanto mais próxima de nós, a pessoa que morre, era, mais chocante fica. Meio que um TAPA na nossa cara para acordarmos e sermos sensatos com os fatos alheios.

    Se deixarmos para depois os planos que daria para ser feito hoje, para nossas vidas se tornarem melhor, de nada adiantará se morrermos… Estaremos mortos… Não importará mais.

    Tipica frase: “Ele tinha tantos planos para o futuro e agora morreu”… É, morreu… Os planos ficaram nos planos, agora não tem mais importância. Simples assim.

    Beijos, parabéns pelo Blog! ^^

  3. Linda!

    A morte é sempre um assunto sondado pois, apesar de cotidiano, é também eternamente desconhecida… Desconhecida em seu momento, desconhecida em suas consequências. Do medo da morte dos pais, passamos ao medo da morte dos filhos, cônjuge e, conforme vamos nos relacionando, estendemos o medo da morte aos amigos queridos.

    Muito cedo percebi quantas homenagens póstumas são prestadas. Nomes de ruas, nomes de teatro, nomes de ponte… Mesmo os discursos emocionados em velórios e as lágrimas desesperadas dos que não puderam expressar seu último sentimento.

    Desde então, dedico minha vida a dizer aos que amo a importância que têm na minha vida, o quanto os admiro e como conheço – e reconheço- suas virtudes e qualidades. Sinto a importância de fazê-lo em vida!

    Assim que me conheci por gente, temi a morte de meus pais. Hoje eu sei, que mesmo partindo prematuramente (não, eles ainda não partiram, mas certamente enxergarei sua partida como prematura…) eles levarão consigo tudo o que nutro por eles em meu coração. O digo em palavras, o digo em músicas, o digo em filmes e em gestos diários.

    E sei que, quando essa hora tão temida chegar, os terei vivos em mim por tanto quanto me tornaram, por tudo quanto me ensinaram e por esse relacionamento que, embora inexistente fisicamente, existe na história que ficou para trás de nós. E existirá para sempre no caráter que eles formaram, e que se estenderá pelas gerações futuras, quando meu filho aprender de mim o que aprendi deles, e meus netos de meu filho…

    “…And the thought crosses my mind
    If I never wake up in the morning
    Would she ever doubt the way I feel
    About her in my heart
    If tomorrow never comes
    Will she know how much I loved her
    Did I try in every way
    To show her every day
    That she’s my only one
    If my time on earth were through
    And she must face the world without me
    Is the love I gave her in the past
    Gonna be enough to last
    If tomorrow never comes…”

    Beijo grande!

  4. Amiga, a morte é cotidiana, mas como todo o cotidiano louco que a gente vive, nós só percebemos a realidade arrebatadora que a morte tem quando ela acontece com a gente. Perto da gente.
    Eu só não concordo com uma coisa que você disse: que quando alguém morre, morre tudo junto, as piadas, as risadas, os lugares. E vou te dizer porque. Perdi meu melhor amigo recentemente. De uma das formas mais trágicas que eu consigo pensar. Nossa amizade foi do colégio, desde criancinha, era meu irmãozinho. E, quando o colégio acabou, nosso contato diminuiu. Muito. Mais do que eu conseguiria me perdoar. E digo que não concordo com você, porque todo dia, todo dia, a primeira coisa que eu penso quando acordo são nos nossos lugares. Nas nossas risadas.
    Então, por isso que disse que não morre. Vive. Vive da forma mais dolorosa, diariamente te avisando que “oi, tô aqui. Eu existi e fui bom pra caralho pra você.” E ai você lembra, porrada no peito mesmo, que puf! Acabou.
    É a forma mais pura de se estar vivo. De se lembrar que está vivo – e ele não. É a forma mais bruta e tosca de se lembrar que está vivo, sendo que, antes, já estávamos acostumados a nos esquecer.

  5. Parabéns pelo texto. Muito bonito e verídico.

    Por mais que a morte seja cotidiana, ela é também sempre uma novidade, sempre uma surpresa e um choque. Justamente porque enquanto temos a presença física das pessoas, tendemos a deixar as coisas para o dia seguinte, como você falou no texto. E acho que esse choque se torna mais intenso por isso também. Porque ficamos com aquele gosto amargo na boca em razão de ter postergado tanto o que estava na ponta da língua para ser dito, mas que não deu tempo e nunca mais haverá, e a “culpa” se torna maior e conseqüentemente a dor dessa perda.

  6. Bonito texto Isa.

    A pior parte, apesar de ser o melhor caminho, é a aceitação. Ainda to no processo.

    Beijos,
    Cu

  7. Isa, que texto lindo!

    Como diz aquela frase, “Pra morrer basta estar vivo!”, não é? Uma das únicas certezas na vida… Fiquei pensando no que você falou, de que não vivemos como pudesse acontecer hoje. E não, eu não vivo assim. Mas percebi que também não vivo como se tivesse “todo o resto da vida”, como se tivesse todo o tempo do mundo.
    Eu costumo dizer que eu vivo uma vida em cinco minutos! Não espero o dia em que tal coisa acontecer pra ser feliz, ou ser triste, ou encontrar alguém!

    A vida já me mostrou, por diferentes formas de morrer, que não dá pra esperar… nem pela morte, nem pela vida! A gente morre quando um relacionamento acaba, quando se afasta dos amigos pq já não existe mais valores em comum… você morre como filha quando se torna mãe, morre como irmã quando se torna tia, morre como namorada quando seu namorado não te olha mais com desejo… A gente morre todo dia. Cotidiano. Como se fosse…

    Um beijo!

  8. Kika Baldasseirine |

    Olá minha querida Isa…
    Apesar de te conhecer pouco (gostaria muito de ter te conhecido melhor!), lendo o que sai desta alma linda e deste coração sensível, passo a te respeitar e te admirar mais…eu sempre disse que sua beleza não é só exterior!
    Vc foi perfeita no seu texto e na citação da música do Chico. Obrigada!
    Beijos …ah e parabéns…estamos perto do seu aniverário!né?

  9. No man is an island,
    Entire of itself.
    Each is a piece of the continent,
    A part of the main.
    If a clod be washed away by the sea,
    Europe is the less.
    As well as if a promontory were.
    As well as if a manner of thine own
    Or of thine friend’s were.
    Each man’s death diminishes me,
    For I am involved in mankind.
    Therefore, send not to know
    For whom the bell tolls,
    It tolls for thee.

    John Donne

    • isabella eustaquio dos santos |

      Dani Marques | 24 de fevereiro de 2010 at 15:09
      Oi!

      Lindo seu blog e ótimo este texto! Cheguei aqui depois do tweet do @gustavogitti.
      Seu txt me fez pensar nas pessoas q eu amo e se foram e lembrei do meu vô. O Vô Hercílio se foi cedo demais para mim. Acho q sempre q somos loucos por alguém e essa pessoa se vai, a gente acha q é cedo, né?
      Concordo em partes com isso de morrer algo tb na gente. Mas, por outro lado, eu costumo dizer q meu vô se tornou imortal qdo partiu, pq nós da família não passamos um dia sem lembrar ou repetir uma piada dele. Contar ou aumentar uma das tantas histórias fantásticas que ele inventava. Ou cantar e rir das músicas engraçadíssimas que ele gostava.

      E cá estou eu, 15 anos depois lembrando dele novamente e, mais uma vez, imortalizando-o.

      Obrigada por me fazer lembrar do melhor vô que já existiu. :)
      E espero que a sua dor e dessa pessoa que perdeu o pai passem logo e fiquem só as boas lembranças.

      Beijo
      Dani
      Dani Marques | 24 de fevereiro de 2010 at 15:09
      Oi!

      Lindo seu blog e ótimo este texto! Cheguei aqui depois do tweet do @gustavogitti.
      Seu txt me fez pensar nas pessoas q eu amo e se foram e lembrei do meu vô. O Vô Hercílio se foi cedo demais para mim. Acho q sempre q somos loucos por alguém e essa pessoa se vai, a gente acha q é cedo, né?
      Concordo em partes com isso de morrer algo tb na gente. Mas, por outro lado, eu costumo dizer q meu vô se tornou imortal qdo partiu, pq nós da família não passamos um dia sem lembrar ou repetir uma piada dele. Contar ou aumentar uma das tantas histórias fantásticas que ele inventava. Ou cantar e rir das músicas engraçadíssimas que ele gostava.

      E cá estou eu, 15 anos depois lembrando dele novamente e, mais uma vez, imortalizando-o.

      Obrigada por me fazer lembrar do melhor vô que já existiu. :)
      E espero que a sua dor e dessa pessoa que perdeu o pai passem logo e fiquem só as boas lembranças.

      Beijo
      Dani
      @danimie

      @danimie

  10. Diferentemente da Construção do Chico, a vida não ternina sempre com a última palavra de cada verso proparoxítona, que faz da vida um ritmo desmarcado e aleatório, a contrario senso da bela música.

    Além de bela és inteligente e charmosa. Pena que mora em SP e eu no RJ…

  11. “Além de bela és inteligente e charmosa. Pena que mora em SP e eu no RJ…”

    Tsc, tsc…

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  1. Em Memória… | Miscelâneas - [...] Memória… Posted on fevereiro 25, 2010 by MarianaMSDias Li o texto da linda @isabellaianelli sobre a…

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