Posts com a tag "aluno"

Por museus didáticos e críticos educadores

Quando escrevi contestando o ódio dos entendedores de arte por Romero Britto, não quis eu validar ou não a obra do artista: quis questionar o papel dos críticos neste cenário. Pintor, ilustrador, escultor, artista: não há diploma que valide sua função. Então, cabe a ele se denominar. Artista, pois.

Desta história toda, de Romero Britto sendo odiado e massacrado nas escolas de arte, o que importa é menos ele e bem mais a postura de quem dele desdenha.

Por Zhou Fan

Nunca antes a cultura foi tão popular. Internet, fácil acesso, entradas gratuitas. Mas nossos museus ainda são técnicos. São lugares em que etiquetas se sobrepõem e bradam desinteressantes dados sobre a obra. Ano, técnica, fundo, período histórico. Tudo isso que pouco importa até mesmo ao artista. Porque se ele se debruçou ali para fazer uma obra para você, ele não pretendia te colocar na cabeça o ano em que aquilo foi produzido. Duvido também que ele quisesse estar numa galeria definido por alguma exatidão técnica que um curador estudado denominou. O artista quis e quer ser atemporal, ele quer te acessar, te emocionar, te dizer que entre ele e nós existe algo muito humano igual.

Aqui em São Paulo pipocam pessoas nas exposições tocantes. Não consegui ver Yayoi Kusama: o Tomie Ohtake ficou tomado por uma fila gigante de pessoas entusiasmadas para ver suas bolinhas. As exposições do MIS têm ares de grande evento, são horas na fila para que se consiga entrar, ver, sentir, experienciar.

Será que isso não nos diz alguma coisa? Estas pessoas que não frequentam as obras do acervo da Pinacoteca, que não vagueiam pelo MASP, que associam museu a silêncio e coisa chata estão frequentando exposições interativas. E isso não diz tanto sobre a cultura da selfie quanto diz sobre o tipo de museu, de exposição e de arte inacessível que por anos cultivamos.

Por André Dahmer

As pessoas amam os grandes olhos de Margaret D. H. Keane, as cores espalhafatosas de Romero Britto, a imensidão exata de Ron Mueck, a presença de Marina Abramovic por qual motivo, será? Porque nos explicaram o motivo da obra? Porque sabemos do ano em que foi criada, da técnica empregada? Ou porque somos gente? Ou porque a arte está servindo ao que realmente interessa: às pessoas e não aos catálogos dos museólogos?

Se seu ponto com Romero Britto e Keane é que o marketing é bem mais forte do que a obra, digo novamente que o problema é menos do marketing e mais da arte. Por que ridicularizar Romero Britto e não focar em difundir uma arte que se considere mais digna de elevar nossos espíritos? Por que ainda não criamos meios das pessoas comuns levarem a arte para a vida, para o cotidiano, para a sala de estar e para o jeito de lidar com os vizinhos?

O papel do artista, do educador e do crítico não é o de se posicionar num pedestal para zombar do público que, finalmente, se sente tocado. A tarefa necessária é o trabalho da formiguinha: é ser compreensivo em relação à dúvida e à ignorância e ter uma gentil estratégia pedagógica, como fez Herbert Read, famoso crítico de arte, ou como fazem Alain de Botton e John Armstrong, autores do livro “Arte como terapia”, de onde tirei estas citações e muitas das ideias deste texto:

“No fundo, a tarefa do crítico consiste em fazer as pessoas captarem o que há de genuinamente agradável e atraente ou, pelo contrário, de decepcionante e imaturo em algo. A crítica é o esforço de ser o mais claro possível sobre os fundamentos de nossos amores e ódios. Às vezes, parece que a crítica se preocupa apenas com a parte odiosa, apontando e ridicularizando o que é de baixa qualidade, mas essa posição negativa deveria ser sempre e apenas uma parte secundária do projeto mais importante de identificar o que merece admiração.”

“Toda verdadeira educação tem esta estrutura. O professor de jardim da infância não crê que as crianças sejam desprezíveis porque não sabem escrever ou porque se confundem com o número que vem depois do catorze.”

Então, quando um professor universitário se abdica de discutir a arte de alguém que se autodenomina artista para ridicularizá-lo, diminuí-lo, ele simplesmente não está cumprindo a função de um crítico de arte. Quando um museu organiza uma exposição com base num dado exclusivamente técnico, não está dialogando com o público e está contribuindo para que se associe museu a coisa chata.

Por Margaret Keane

Para que um crítico seja também um educador do gosto da nossa cultura, ele precisa de menos sarcasmo, de menos ironia e de mais empatia. Assim como aos museus cabe a tarefa de serem lugares mais reais, significativos e acolhedores.

Podem não ser imortais os quadros de Margaret Keane e de Romero Britto, mas certamente são estes representantes de uma cultura que engatinha sozinha para se aproximar da arte.

O rito de um fim

Se antes era eu uma mera atriz amadora, termino 2014 com a bagagem de dois anos de profissionalização na área artística e um carimbo prestes a ser estampado em minha carteira de trabalho. Tenho agora o aval dos que dizem que sim, é certo, eu estudei e sou atriz.

Paola Bracho, “A Usurpadora”: porque bem antes de Almodóvar ou Woody Allen, a tevê mexicana já fazia meu coração bater mais forte

E se saio deste curso com bastantes decepções, saio também certa de que estes dois anos foram tempos bem legais.

Quando Roman Krznaric se debruça sobre a morte, em Sobre a Arte de Viver, ele traz algumas maneiras da gente conseguir resgatar uma forma mais saudável de lidar com ela. E uma destas maneiras é entender, simplesmente, que todos os momentos de nossas vidas sofrerão uma pequena morte. Apesar da gente se julgar imortal, é bom que se assuma logo: nada é eterno, tudo é impermanente.

E enquanto eu terminava as aulas no curso de atuação como quem termina um saquinho de pipoca mal temperado, antes que tudo se acabasse, antes que eu não ritualizasse meu fim, eu lembrei: eureka! Isto aqui não é eterno! Eu estou aqui. E eu vivi cada diazinho aqui.

É preciso fechar o ciclo para que outros venham. Concretizar o fim. É preciso sofrer a morte do que passou, se despedir de quem se foi, ritualizar o fim e celebrá-lo.

E entre tanta bioenergética, kundalini e exercícios tensos, muito tensos (este curso é tenso), eu me propus a usar como referência na aula, ali, no meio do exercício, o fim deste ciclo. Pois se termino o curso com desafetos, desentendidos e um bocado de cansaço, termino também sendo um alguém que eu não era, que eu não sabia existir.

Termino chorando quando ouço uma música horrível na hora certa, termino conectando alhos com bugalhos, termino artisticamente mais sensível, sensivelmente mais artista, mais criança, mais exploradora, com mais inteireza em meu ser. Eu ouvi na rádio que hoje é lua minguante, você tem noção disto? Eu também não, mas abri uma página no Google para pesquisar e já estou acreditando.

Estou mais presente.

Marina Abramovic, em performance registrada no documentário “The Artist Is Present”: presença é o único requisito para a arte

Se antes eu me gabava da minha racionalidade, hoje envergonho todos ao redor porque choro em qualquer situação artística que me toque. Filme lindo: sim. Performance bonita: sim. Malabarista dedicado no farol: também. Se antes achava útil e sinal de inteligência emocional não misturar emoção no meu cotidiano, hoje sou grata por ter conseguido fluir com estes sentimentos todos represados.

Sou hoje, ao final deste período dedicado, um alguém que aprendeu a fluir suas emoções. Um alguém olhando mais para dentro de seu processo criativo.

Que sirva de lápide deste momento passado: da represa ao rio, um adeus a quem eu fui, um rito para este fim.

Mentira e consequência

Das coisas que aprendi na vida, que a mentira tem perna curta não me marcou tanto quanto descobrir que ela tem consequência.

Eu tinha menos de uma década nesta terra. Era um tempo em que minhas pernas serviam embaixo da mesa de mármore da sala de estar. E era por lá mesmo que fazia a lição de casa: perna de índio, costas apoiadas no sofá, vez ou outra a tevê ligada.

Eu já odiava matemática. Imaginem então que haviam me ensinado divisão. O terror dos terrores para mim. Logo que fui apresentada à operação horripilante, uma calculadora caiu em minhas mãos e… O milagre se fez.

Sim, era uma mágica. Imaginem que bastava digitar lá “250”, seguido do botão que sinalizava a divisão “÷”, seguido de por quanto se queria dividir “5” e a resposta surgia, majestosa: “50”. Era uma maravilha, o mais alto nível de tecnologia já alcançado pelo homem, na minha humilde opinião. Nem Super Nintendo me parecia tão comovente quanto aquele pequeno pedaço de plástico inteligente.

Porém, eu já sabia que não era uma coisa correta fazer uso da mesma nas lições de casa. Certa vez meu pai me deixou com a tarefa de terminar a lição. Deixou também uma calculadora para que eu mesma conferisse o resultado. Quando voltou, eu tinha apenas a resposta. O processo era uma incógnita. Não demorei muito tempo na mentira, ele havia me pegado.

Passei, então, a ficar sem a calculadora. Era triste, mas era a realidade, deveria ser enfrentada e para brincar, primeiro era necessário terminar os afazeres. Meu pai proferia como um mantra seu lema: “Primeiro a obrigação, depois a diversão”, sempre se referindo (nesta ordem) à lição de casa e ao Super Nintendo.

Voltemos, então, à sala de estar. Minhas pernas esmagadas embaixo da mesa de centro, uma bolota de tarefas de matemática sobre divisão e meu real convencimento de que não havia motivos para entender o processo se aquela pequena máquina cheia de números era capaz de me dar os resultados.

Não tinha calculadora por perto, mas sabia que no meu quarto tinha uma. Enquanto meu pai preparava o jantar, apareci na cozinha, dizendo: “Vou ao banheiro”, como se alguém que realmente vai ao banheiro anunciasse isto assim.

Trouxe a calculadora escondida, mas não tive tempo de levá-la até a lição de casa: o jantar estava pronto. Como boa menina educada, na pia da cozinha lavei minhas mãos para o jantar, quando ouvi uma voz bradar:

“Você não lavou as mãos?”

Claro que eu não tinha lavado as mãos.

“Mas você foi ao banheiro e não lavou as mãos?”

Isto foi uma afronta à minha higiene. Sim, eu estava lavando as mãos agora, não lavei antes porque não fui ao banheiro, era uma mentirinha – queria dizer, mas desdizer a mentira é algo que exige paciência e certo jogo de cintura. Eu tinha só oito anos.

O sermão durou por volta de meia hora, o jantar inteiro, enquanto eu pensava porque raios não fui mais ágil na mentira ou não contei logo a verdade. A bronca teria sido mais amena.

Do episódio, sobrou a percepção de que se minto, devo saber arcar com as consequências. E lavar as mãos antes.

Arte-educação e formação de professores

Eis que no longínquo ano passado, após ter esperneado por aqui, concluí a pós-graduação em arte-educação que fazia. “Linguagens da Arte”, do Centro Universitário Maria Antonia da Universidade de São Paulo, coordenado por Rosa Iavelberg e pelo orientador do trabalho aqui apresentado, Marcos Garcia Neira.

Apresentação da monografia, sob o efeito de Floral

Sou agora, pois, especialista em arte-educação, pós-graduada pela maior universidade pública brasileira. E o que isso significa?

Foi ao longo do curso, percebendo que nem o mesmo sabia exatamente onde ia dar, que vi que não significa nada. Tive muito jogo teatral com a excelente autora Ingrid Koudela. Tive danças livres pelo espaço com Uxa Xavier. Tive aulas estritamente práticas e de cunho recreativo com os músicos da Escola de Comunicação e Artes da USP Pedro Paulo Salles e Fábio Cintra. Mas não tive teoria. Nada de livros, nada de leituras, nada de discussão, nada de arte-educação. O legal mesmo era dançar, rolar, fazer exercício teatral e depois relatar o que você sentiu.


Aula prática de dança: interessante se a teoria não parasse por aí

E eu, muito cética com a vida, não sou lá de acreditar que a riqueza mora ao redor do meu umbigo. Acredito que tenho de ler quem entende (ou já entendeu) para saber das coisas. Acredito que preciso de um tutor, de um professor, de alguém competente na área que me oriente. Porque, sim, o currículo do curso é bem pensado. As referências bibliográficas são enormes e têm qualidade. Mas um curso de pós-graduação deve oferecer um mergulho na área. É necessário alguém para te levar mais fundo.

Por isso, para extravasar esta minha raiva desta educação equivocada, decidi fazer o trabalho final com foco na formação de arte-educadores. Olhando de dentro do curso, coloquei o que encontrei pela bibliografia acerca do tema.


Trabalho em grupo, oficina de Stop Motion

Algumas perguntas me motivaram ao longo desta pesquisa. Como formar o arte-educador? O que é necessário? Teoria, prática pedagógica, experiência artística? E mais: que curso é este, “Linguagens da Arte”? Qual seu objetivo? Seria sua razão outra que eu não estaria vendo?

“Ao longo dos semestres, pude perceber que as reflexões não ofereciam oportunidades de práticas autônomas. Se não tenho formação em teatro, música, dança ou artes visuais, se não tenho grande conhecimento sobre o tema, como poderei lecioná-lo autonomamente, sendo criadora da minha prática? Algumas vivências, jogos teatrais, danças, corais e desenhos podem embasar minha prática por si só? Ou são apenas receitas prontas para serem apresentadas em sala de aula? Podem fazer-me arte-educadora por mais que eu não saiba se canto no tom certo, quais são as referências no ensino de teatro, quais os métodos utilizados em dança e como desenvolver o desenho da criança quando ela diz que não sabe desenhar?”

Defendi a monografia em novembro de 2011, num auditório do CEUMA-USP, para uma pequena plateia. A monografia foi bem vista. Apontei algumas questões que acho que devem ser aprofundadas, mas as gentis Lucia Lombardi e Eliana Pougy, da banca examinadora, elogiaram o trabalho e o trajeto escolhido para a contação desta história.

E como esta dolorosa produção para ser útil deve ser espalhada, divido aqui com vocês minha monografia:

Um olhar sobre o curso Linguagens da Arte: experiência, teoria e prática na formação do arte-educador

É só clicar e surgirá o pdf. Espero críticas, comentários, sugestões. Afinal, se diz Snyders que “o saber é uma luta pelo saber”, travemos logo esta batalha.

O trágico da existência estudantil

Ando ocupada com os afazeres da minha monografia. Não que eu esteja muito atarefada. Ou estou? De fato, estou, mas escrevi muito pouco ainda. O que acontece é que quando não estou escrevendo para a monografia, penso que deveria estar escrevendo para a monografia, aí não consigo escrever nada, porque, ora, se for para escrever, Isabella, que seja para a monografia.

Não que eu esteja estagnada. Até me surpreendi com o quanto consegui evoluir dia desses. Depois de ler umas mil páginas, consegui elaborar um raciocínio: primeiro falo disso, depois disso, depois daquilo. Vocês sabem, esta é a maior dificuldade: reconhecer que há algo a escrever sobre o tema – as pessoas escrevem muito, escrevem difícil, já escreveram tudo!

Outro ponto é conseguir se liberar do certo e do errado. Estou aqui escrevendo o que acho que Snyders quis dizer da felicidade na universidade, o que entendi que Schön falou sobre o que é ser um professor reflexivo, o que compreendi do que Iavelberg disse da importância de simular a prática na formação do arte-educador.

Meu medo é estabelecer verdades, verdades, verdades e de repente pensar que… Não era nada disso. Ela quis dizer justamente o contrário, Snyders foi irônico quando disse aquilo e Schön, ahhh, Schön é um bocó (vai me dizer que você não sabia?).

Pelo direito de estamparmos esta frase nos nossos trabalhos acadêmicos

É claro que é mentira: Schön não é considerado um bocó (muito pelo contrário, me parece, hein?), Iavelberg quis dizer aquilo mesmo e Snyders não foi irônico nada. Eu acho.

Aliás, é de Snyders a melhor definição desta angústia estudantil que nos assola. Este sentimento que nos atordoa, este não saber se conseguiremos chegar ao saber, se um dia estaremos perto de contribuir minimamente como contribuíram os grandes pensadores que admiramos. Esta incerteza do sentido dos estudos, este limbo entre me achar com uma pretensa sabedoria e me resignar como medíocre.

Essas dúvidas todas que nos afligem, são parte desta angústia, do que Georges Snyders chama de o trágico da existência estudantil.

Ou você ainda acha que terá tempo de ler todos os livros que queria?