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“Qui da Noi”, gastronomia no Festival de Arte Serrinha

Carlão é um cara difícil de definir. Muito astuto para sonhador. Idealista demais para apenas empresário.

Entre suas conquistas mundanas, seu Galpão Busca Vida, a pinga doce e leve de mesmo nome, o bar Rose Velt em São Paulo, o restaurante na beira da represa no interior, nenhuma pode ser considerada tão ou mais importante quanto sua capacidade em fazer e reunir amigos, sua vontade de estar com a família e de descobrir o mundo.

Empresário sonhador, devaneador que realiza. Foi com este cara que me debrucei na gastronomia italiana de Emilia Romagna e Marche por alguns dias durante o XI Festival de Arte Serrinha.

“Muitos irmãos” foi o tema do festival deste ano, que tem como maior preciosidade reunir para imersão pessoas abertas, interessantes e queridas. O que dá o enredo pouco importa, pois o que acontece é sempre a mesma coisa: bons encontros num lugar com muita gente boa. Cuidado por gente do bem.

E não foi diferente desta vez. Carlão abriu as portas do seu restaurante Cà de Mezz Amig, lá perto da represa de Bragança Paulista e nos acolheu com muitas histórias, vinhos, receitas e muita generosidade.

Foram dias de mão na massa, no molho, no ponto. E noites regadas com todas as gostosuras preparadas. Mais do que o ponto certo da piadina, a receita de strozzapreti, o segredo do ragu ou a forma do cappelletti, a lição ali foi a de um cara que não se deixa iludir. Que sabe que há muito por aí para ser descoberto. Muito para vivermos tão pouco.

Se a receita tem um ponto, um molho, uma dica, tudo serve apenas para a arte de prepará-la para pessoas queridas. Para reunir todas as suas preciosidades em volta de uma mesa. Para a arte do encontro.

Não ser escravizado pela receita, pelo dia, pela vida. Nem pelo capricho ou pela preguiça. Fazer o que tem de ser feito para viver bem, do que realmente nos apetece. De todas, esta é a maior receita que tirei deste cara com quem passei dias frios de julho aprendendo segredos gastronômicos ditos em alto e bom som.

Com Giorgio, novo amigo marchigiano…

E com os colegas e amigos: noites boas!

PS: Fotos minhas e das gentis colegas de turma que compartilharam dicas, receitas e imagens.

O teatro chora

Eu não queria ter de falar sobre a morte aqui de novo. Não queria porque eu não entendo. Porque eu recebo comentários que dizem mais do que meu texto, que escancaram a realidade ou que a disfarçam. Que sabem.

Mas por esta eu não esperava: morreu Alberto Guzik.

Conheci o Guzik quando conheci Os Satyros. Nos conhecemos pessoalmente, mas nunca trocamos mais do que duas palavras. Só nos víamos nos fins de espetáculos e eu me recolhia à minha insignificância. Só admirava Guzik.

Uma amiga minha zombava do modo romântico com que eu me referia a ele quando falávamos de teatro. Achava graça. Eu acredito nele, no seu teatro. Como ator, como autor, como crítico, como blogueiro.

Logo após conhecê-lo, passei a ler diariamente seu blog, linkado aqui ao lado. Os dias e as horas.

Eu gostava do nome do blog dele. Gostava de como ele o atualizava cuidadosamente todos os dias. E, muitas vezes, mais de uma vez por dia. Gostava especialmente dos seus tipos urbanos, quando ele descrevia, com detalhes, uma cena cotidiana observada por ele. Eu sempre achei que ele devia ser um ótimo observador. E era, tenho certeza.

Se eu, algum dia, já fui fiel comentarista em algum blog, certamente foi no dele. Mas não comentei tanto quanto li. Li muito. Acho que, desde que passei a acompanhar seu blog, li tudo.

Engraçado. Não éramos amigos. Quase que nem éramos conhecidos. Tinha a impressão de que, se nos cruzássemos, eu teria que me apresentar novamente. Mas conversávamos pela Internet. Muito. Eu comentava por lá, ele por aqui. Nos líamos. Ele chegou a me tratar por “Isa”. Achei graça. A internet aproxima as pessoas, parem de dizer o contrário, teóricos.

Já cheguei a mandar um email a ele oferecendo ajuda no projeto dos sonhos dele, do Ivam, da Cléo… Oferecendo meu sincero interesse em aprender com eles. Ele leu. E respondeu. E, atencioso, disse que ainda tínhamos muito o que conversar. Tempos depois, vi que ele levou minha proposta a sério. Citou meu nome num projeto. De certa forma, confiou em mim.

E, sempre discreto, um dia anunciou que ficaria um tempo fora da Internet. Delicadamente, como costumava fazer nos meios virtuais. Disse algumas semanas. E eu esperei. Por força de hábito – e por não imaginar que o caso era tão mais grave – eu continuei a entrar no blog dele na esperança de vê-lo de volta, escrevendo da cama do hospital, esperando receber alta ou simplesmente já em casa, contando detalhes do que viveu.

A notícia me deixou muito triste. Há mais de quatro meses ele sofria na cama de um hospital. Parece que muitas foram as complicações… Ele lutou muito. Sofreu, é verdade. Podemos dizer que agora a angústia passou.

Mas me dói pensar nisso porque eu lia suas palavras. Eu via quantos planos, projetos, sonhos. Assisti a todas suas últimas peças. Ele parecia não parar nunca. Trabalhava, listava seus afazeres, contava as novidades no blog. E lia, citava, lia… Ainda tinha muita coisa pela frente.

Esperamos que as pessoas cumpram sua missão pela Terra para, depois então, partirem. Assim queremos, mas não é sempre assim que acontece, infelizmente. Guzik fez tanto que queríamos que ele ficasse por aqui um pouco mais.

E ontem o mundo dos blogs teatrais sofreu e gritou sua dor. Fernanda D’Umbra, Sérgio Roveri, Cléo de Páris. Além destes, uma linda homenagem no site da SP Escola de Teatro.

Mas é do blog do Ivam Cabral o post que não me saiu da cabeça:

15/02/2010

Alberto

Acordei bem cedo hoje. Quis acompanhar o Alberto ao hospital. Às 7h. lá estava na Fernando de Albuquerque para apanhá-lo. Incrível sua disposição. Desde que soube que precisaria passar por uma cirurgia, há um mês mais ou menos, Alberto se encheu de serenidade. Ontem à noite confessou-me que em nenhum momento ficara triste. “Nunca recebi tanto amor”, confidenciou-me. E hoje, quando nos despedimos ele sorrindo me disse: “se acontecer alguma coisa, saiba que foi um enorme prazer”.

Alberto Guzik, digo o mesmo: para mim, foi um enorme prazer.

A arte de bisbilhotar

Estava eu me preparando para o início de mais uma aula no curso em que estou fazendo.

Aliás, começo de curso é um desespero, não é? Você ainda não achou sua turma, teme ter sentado ao lado daquelas pessoas estranhas e passar a fazer parte da turma delas etc e tal. No entanto, eu não tenho medo de não pertencer a turma nenhuma. Prefiro chegar e ler ao invés de tentar resumir minha vida em quinze palavras para a colega da mesa do lado.

Além da leitura, tenho um hobby muito interessante e que me rende boas gargalhadas internas: gosto, adoro, amo prestar atenção nas conversas alheias. Assim, deste jeito que você também faz: faço cara de paisagem, foco o olhar no livro à minha frente, viro páginas. Sou tão boa atriz que, vez ou outra, paro, olho para frente e suspiro, enquanto murmuro algo incompreensível fingindo me referir à minha leitura.

Tenho técnicas porque, realmente, o resultado de se empenhar para ouvir a conversa que acontece ao lado sempre rende boas lições. Mas é preciso ter persistência, um ouvido apurado e a capacidade de transmitir o diálogo com fidelidade aos seus futuros ouvintes — sim, às vezes, reconto a história ouvida, o que torna a coisa ainda mais interessante.

Eu daqui a alguns anos...

Muito bem, eu estava sentada na primeira fileira, quando ouvi uma destas tentativas incessantes de amizade na fileira de trás. Eram três mulheres que tentavam resumir suas vidas (e parecer interessadas nas vidas alheias) e que, a cada quatro frases, tinham que repetir: “Qual seu nome mesmo?”.

Até aí, tudo bem, eu não me intrometeria por pouco nessa história, não é mesmo? O papo passou de aula para professor, depois para professor que tem “voz de travesseiro” e chegou à experiência de uma das três do grupo. Ela contou sobre um professor que teve na ECA (plim!, fez um sino dentro de mim), muito velhinho (plim, plim!), que era ótimo, mas que às vezes tinha “umas piadinhas de velho” (?).

O ponto é, caro amigo leitor que gosta de forçar amizade no começo do curso: ela nem conseguiu elaborar uma argumentação. Colocou o pobre do professor ali, no meio da conversa, só para registrar na cabeça das colegas um acontecimento: ela fez ECA.

Eu já estava atenta às características do professor que fazia “umas piadinhas de velho”, quando ela continuou a descrevê-lo:

— Ele tem uma biblioteca particular e empresta livros pros alunos! — Nada de novo, pensei, afinal, qualquer professor da USP tem uma biblioteca particular e facilmente empresta seus livros aos mais interessados.

— Ah, eu sei quem é! Ele morreu e doou seus livros pra USP, não é esse?

Neste exato momento, posso afirmar que já imaginava qual desfecho a conversa teria. Sim, porque quem morreu e doou sua biblioteca pessoal para a USP e tornou este fato uma grande notícia no ano passado, foi o bibliófilo José Mindlin, que era velhinho e que, por sinal, nunca foi professor da universidade.

Tirei o cabelo das orelhas, me aconcheguei na cadeira e continuei mais concentrada do que nunca em minha árdua tarefa de bisbilhoteira. Foi quando veio a resposta da ECAna:

— Nossa, não acredito! O CLÓVIS GARCIA MORREU?

Internamente, eu ri. Minha alma se contorcia por dentro. Em respeito ao Clóvis Garcia, grande personalidade teatral (que não, não morreu, nem doou seus livros), me contive e esperei o engano ser explicado:

— Morreu, morreu sim! Não sei o nome, só sei que era bem velhinho e tinha uma biblioteca particular…

— Deve ser ele…

— Ele tinha coisas do tipo… Machado de Assis manuscrito…

— Ai, olha, pode ser, viu? Porque ele contava cada história… De vezes que saiu pra conversar e beber com Nelson Rodrigues!

Muito bem, a partir deste momento, nossa ECAna passou a se referir ao Clóvis Garcia no passado. Começou a contar como ele era um ótimo professor. Tudo sofrido, lamentado, afinal, ele morreu ali, na conversa dela. E o plim, plim, plim! do sino que ressoava dentro de mim passou a fazer BLEN, BLEN, BLEN!

Eu tinha que interferir naquela história, tinha que dizer que o Clóvis Garcia está vivinho da Silva, que quem doou os livros foi um grande empresário, tinha que perguntar se elas não liam jornal, tinha que dizer que o Clóvis Garcia foi jurado na apresentação de uma peça de teatro que eu fiz e tinha que contar que ele disse que o autor da peça não merecia meu talento — desculpa aí, Miguel Falabella!

Eu tinha, eu bem que poderia. Porém, a arte de bisbilhotar requer discrição. Requer fidelidade ao seu papel: não assumir nunca que estava futricando e, principalmente, não envolver pesquisador com pesquisados. Se você se envolve, não tem post para escrever.

Eu poderia ter feito um parenteses e ter deixado as garotas da fileira de trás mais informadas. Poderia, sim. Mas, como sou antissocial, não fiz. Como sou bisbilhoteira nata, não fiz. Como gosto de ver o circo pegar fogo, não fiz.

Deixei as três lamentando a morte de alguém que está vivinho da Silva.

Sobre um fato cotidiano

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

(Construção, Chico Buarque)

Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.

Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.

Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.

Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.

A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?

Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.

Será?

Beatriz

Não gosta de cominho. Nem de coentro. Reconhece as iguarias já no cheiro do tempero do restaurante. Da calçada.

Não come a feijoada de um – porque nela há um dos dois. Nem o bife à rolê. É capaz de parar uma refeição no meio por causa do tempero. Mesmo que o colega de mesa garanta que não consegue sentir nada.

Alho e cebola, tudo bem. Cominho e coentro: nunca. Sofre pelo nordeste. O que, por lá, não leva esses temperos?

Chove pelo lustre da casa dela. Bem que pensou duas vezes antes de comprar um apartamento no último andar. Mas o preço estava bom e ela queria muito se mudar. Já não sabe se acredita no zelador ou na síndica. Talvez no zelador.

Agora, sempre que chove, pensa na casa dela. No dia que choveu estava lá, para acudir a casa num momento daquele. E olha que nem era para estar por lá. Devia estar viajando, decidiu chegar antes.

Chuva em São Paulo não é uma coisa boa. Lá no sul, tomou banho de chuva umas mil vezes. Aqui, a chuva é ácida, traz enchentes, água pelo lustre.

Não dormiu esta noite. Quer dizer, modo de dizer, né? Dormir dormiu sim, mas acordava de duas em duas horas, com cólica, tomava um remédio, deitava, esperava o sono voltar. Por isso está cansada a esta hora. Cansada.

Passou Jack nas unhas. Gostou do meu Arábia. Não gosta de passar esmalte ralo, não gosta: mancha. Riu do nome da cor de um esmalte: Inveja Boa. E isso existe? Devia ser branco, ao menos.

Beatriz na minha frente. Todas as personagens que já me confundiram naquela loira de olhos tão azuis, voz tão doce e presença tão delicada. Como Liz se encaixa ali? Não sei. Onde está Alaíde, de Vestido de Noiva? Procuro. E aquela que casa depois que cansa de tomar refrigerante? E a noiva do Ivam? Todas ali, escondidas dentro dela.

Será esta só mais uma personagem? Será esta parte, esta que eu vejo, sua Beatriz?

De louça, de éter, divina. Cléo de Páris.

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