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Senso de comunidade

Nesta eleição eu fiquei embutida nos 3% de votos para prefeita que teve Soninha Francine porque, para além de suas propostas, eu acredito em sua visão da cidade: como comunidade.

São muitos os candidatos que prometem alargamento de avenidas, polícia na rua, médico no hospital – tudo absolutamente necessário. No entanto, poucos entendem São Paulo como uma cidade que precisa ser olhada.

Já caminhou pelo seu bairro hoje?

Moro na Mooca, um bairro que já foi mais olhado. Hoje pipocam prédios, condomínios, grandes construções. E as calçadas cada vez mais somem, murcham, se esvaziam. Carros aos montes disputam vagas na rua da Mooca, nos arredores da Paes de Barros e ao lado das fachadas dos imensos prédios com varanda gourmet que por aqui se amontoam.

Muitos moram, poucos andam. Poucos conhecem o sapateiro da rua ao lado, o marceneiro vizinho, o bar do Zé. E me incluo nisso. Há pouco passei a frequentar a feira, a andar pelas ruas. Mas ainda é pouco. Mal sei quem mora ao lado.

Dia desses a cachorra da minha irmã sumiu. E foi aí que o Marquinhos, meu cunhado, passou a conhecer o bairro como ninguém que aqui mora conhece. Até mesmo eu, do pouco que panfletei, descobri muito dos meus vizinhos, dos comerciantes da rua, dos horários dos estabelecimentos, das praças por aqui escondidas, dos cachorros de rua, dos cachorros com donos…

Parece que só acessamos este senso de comunidade quando algo trágico nos une. Antes disso não somos pessoas, não somos humanos, não merecemos olhares.

A cachorra sumiu, criamos empatia com a situação e então nos solidarizamos. Quebraram o vidro do carro num semáforo, ofereço água – é um ser humano dentro do veículo. Arrombaram o apartamento ao lado, olho para meus vizinhos como gente, entendo o drama deles.

Antes do vidro de mais uma pessoa quebrar no semáforo em frente ao nosso comércio, antes de mais um apartamento ser roubado, antes da primeira cachorra escapar de casa, poderíamos conhecer nossos vizinhos, nossa rua, saber o que é estranho por ali ou não.

A polícia e as câmeras de segurança, como forças autoritárias, como incríveis soluções, não funcionam tão bem quanto o olhar atento de quem conosco divide uma rua, um bairro, uma cidade, um planeta.

Poderíamos exaltar o convívio humano nas feiras, nas ruas, nas vilas, nos comércios de rua. Poderíamos preferir o comércio pequeno ao supermercado longe, ao shopping esterilizado, à necessidade de, para tudo, sempre sair com o carro.

Poderíamos cultivar este senso de comunidade, este olhar oferecido ao outro como nós gostaríamos de ser olhados. Como gente.

Da minha parte, me ofereço a conhecer melhor meu arredor a partir de hoje. E você?

PS: A Polenta continua desaparecida. Se souber de algo, entre em contato, por favor.