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O rito de um fim

Se antes era eu uma mera atriz amadora, termino 2014 com a bagagem de dois anos de profissionalização na área artística e um carimbo prestes a ser estampado em minha carteira de trabalho. Tenho agora o aval dos que dizem que sim, é certo, eu estudei e sou atriz.

Paola Bracho, “A Usurpadora”: porque bem antes de Almodóvar ou Woody Allen, a tevê mexicana já fazia meu coração bater mais forte

E se saio deste curso com bastantes decepções, saio também certa de que estes dois anos foram tempos bem legais.

Quando Roman Krznaric se debruça sobre a morte, em Sobre a Arte de Viver, ele traz algumas maneiras da gente conseguir resgatar uma forma mais saudável de lidar com ela. E uma destas maneiras é entender, simplesmente, que todos os momentos de nossas vidas sofrerão uma pequena morte. Apesar da gente se julgar imortal, é bom que se assuma logo: nada é eterno, tudo é impermanente.

E enquanto eu terminava as aulas no curso de atuação como quem termina um saquinho de pipoca mal temperado, antes que tudo se acabasse, antes que eu não ritualizasse meu fim, eu lembrei: eureka! Isto aqui não é eterno! Eu estou aqui. E eu vivi cada diazinho aqui.

É preciso fechar o ciclo para que outros venham. Concretizar o fim. É preciso sofrer a morte do que passou, se despedir de quem se foi, ritualizar o fim e celebrá-lo.

E entre tanta bioenergética, kundalini e exercícios tensos, muito tensos (este curso é tenso), eu me propus a usar como referência na aula, ali, no meio do exercício, o fim deste ciclo. Pois se termino o curso com desafetos, desentendidos e um bocado de cansaço, termino também sendo um alguém que eu não era, que eu não sabia existir.

Termino chorando quando ouço uma música horrível na hora certa, termino conectando alhos com bugalhos, termino artisticamente mais sensível, sensivelmente mais artista, mais criança, mais exploradora, com mais inteireza em meu ser. Eu ouvi na rádio que hoje é lua minguante, você tem noção disto? Eu também não, mas abri uma página no Google para pesquisar e já estou acreditando.

Estou mais presente.

Marina Abramovic, em performance registrada no documentário “The Artist Is Present”: presença é o único requisito para a arte

Se antes eu me gabava da minha racionalidade, hoje envergonho todos ao redor porque choro em qualquer situação artística que me toque. Filme lindo: sim. Performance bonita: sim. Malabarista dedicado no farol: também. Se antes achava útil e sinal de inteligência emocional não misturar emoção no meu cotidiano, hoje sou grata por ter conseguido fluir com estes sentimentos todos represados.

Sou hoje, ao final deste período dedicado, um alguém que aprendeu a fluir suas emoções. Um alguém olhando mais para dentro de seu processo criativo.

Que sirva de lápide deste momento passado: da represa ao rio, um adeus a quem eu fui, um rito para este fim.

A arte do ator: não atuar

Existe algo de imensurável no trabalho artístico.

Do ator, é algo que brilha em Marília Pêra, quando inteira em Pixote: a lei do mais fraco. Alguma coisa de dentro dos olhos de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Algo que podem dizer que vem da aura de Cacá Carvalho em sua trilogia de Pirandello. Um indefinível nas coreografias de Pina Bausch. Algo de sublime. É um entre, um hiato, um espaço que não se mede, não se encontra, não se agarra — mas que está lá.

“Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível.” Yoshi Oida contando que um bom ator deve ser capaz de sumir — em “O Ator Invisível”

Se até pouco entendíamos que as tantas técnicas de voz, de palco, de posicionamento é que rendiam um bom trabalho ao ator, hoje o não atuar é padrão nas boas escolas de, vejam só, atuação. A palavra que caiu em desuso, apesar do forte uso: a ideia é a de que sentir é muito melhor do que simplesmente atuar e que não atuar é um grande jeito de interpretar. De tão simples, confuso.

E se depois do estranhamento inicial chega a parecer simples, não é menos refinada esta maneira de entender a atuação. Se sua escolha é não atuar, sua escolha é não se submeter ao fácil, não enganar o público com truques, não recorrer a técnicas que não tenham como fim único te colocar em contato com aquela sensação, com aquele texto e te enraizar no presente de forma que você seja aquilo e mais nada.

“Interpretação vem do corpo, do jeito de andar, do jeito de se movimentar, do jeito de dançar, do jeito de olhar e não do cérebro e da memória.” Depoimento de Karim Aïnouz no livro sobre o método de atuação de Fátima Toledo e este cinema que vem do corpo

E daí se eu não atuar, acontece o quê? Sou sempre eu ali? Não. Se você não atua, você vive, e o resultado é surpreendentemente melhor. Porque por estar ali por inteiro, o público não mais enxerga um ator. Não há joguete. É uma pessoa e pronto, não é preciso desmascarar trejeitos, se preocupar com tipos… O público pode enxergar além. O texto, finalmente, se apresenta.

“Cada texto é diferente e, se o ator está realmente respondendo ao texto, sem se censurar, cada personagem vai afetar o ator de uma maneira diferente.” Continua…

“A personagem é uma pessoa real.” Harold Guskin no livro “Como parar de atuar”

Por isso a grandeza do gesto mínimo. Do pouco. Do antes. Do começo. Da respiração fluida, dos rituais de limpeza, da bioenergética, da importância do pé no chão, da meditação e da necessidade de leituras, de estudos e do contato com diversas formas artísticas.

Absorva arte, diz Harold Guskin!

De Stanislavski e Grotowski a Yoshi Oida e Harold Guskin, passando pela novata brasileira Fátima Toledo, todos têm em comum uma só base: começa em você. Não no outro, não no texto, não numa ideia mirabolante que pode surgir.

O mais belo a ser exposto não pode ser construído privilegiando nosso senso intelectual. Somos sensações! Personagem não se constrói, gente é de carne e osso. Como no teatro essencial de Denise Stoklos, que troca a composição teatral pela presença do ator. Que nos entende entre ativos silêncio e espaço: ator é passivo entrando em ação.

Não somos seres tão racionais quanto pensamos. Nem somos tão diferentes. Nossas particularidades são todas universais. Usemos todas, então.

Festival de 67: minha música vencedora

Devia ser mais uma tarde comum na minha vida. Entrei na sala e vi minha irmã ouvindo uma música esquisita e parando de tempos em tempos para transcrevê-la. Parei para ouvir e, de fato, não é que a canção era curiosa?

Eu tinha onze anos e a música não fazia sentido nenhum para nenhuma de nós duas. Paramos para rir. “Sem lenço, sem documento”? “O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas”? “Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores”? Mais risos, um ponto de interrogação. A gente pouco entendia, mas muito gostava de tentar decifrar aquele enigma.

A música estava em uma dessas coleções de CDs promocionais de farmácia (do tipo: nas compras acima de cinquenta reais, pague mais dez e leve um CD!). Catalogado como MPB, trazia ainda Elis Regina cantando Fascinação, uma música que também descobri de maneira peculiar na infância: era o tema de abertura de uma novela do SBT que eu amava. Pois é.

Elis, Gil, Gal, Bosco, Elba: nenhum tinha vez. Alegria, Alegria era fascinante para nós, letra e melodia: a única que tocava naquelas caixas de som enormes da sala de estar. As duas obcecadas pela obra do cara dos caracóis no cabelo. Por que sem lenço, sem documento? Casamento, escola, Coca-cola? Por que Alegria, Alegria?

Eu quero seguir vivendo, amor...

A música ficou em quarto lugar no festival de 67. Mas, para mim, é a melhor de Caetano, embora ele não ache e sugira até sentir um certo incômodo por isso. Se eu estivesse naquela plateia em 67, certamente faria parte do coro que gritava “Primeira!” para a canção dele e gastaria o resto das cordas vocais no ápice da música: “Eu vou… Por que não?”.

Para entender o bom da música brasileira, para sentir e morrer de inveja daquele tempo, é preciso ver este documentário: Uma Noite em 67. Foi lá, nesta noite que não vivi, que percebi que apesar de ser suspeita para falar da obra de Chico Buarque (de gostar de tudo, de me derreter de amores – inclusive por Roda Viva), apesar de achar Ponteio ótima e saber da importância de Domingo no Parque… Apesar de tudo, aquele era o ano de Alegria, Alegria. A grande vencedora, para mim.

Sim, é preciso ver este documentário. Para não saber para quem torcer, para se deslumbrar a cada novo artista, para desmistificar o ídolo. Para ver Chico Buarque sem saber o que dizer, Gilberto Gil menino, Caetano Veloso inocente e já sem papas na língua e Roberto Carlos sendo levado por uma repórter pentelha. Para ver o que nunca mais vimos.

Para morrer de raiva por saber que hoje temos a Internet, o Youtube, bandas se tornando independentes, mas antes tínhamos músicas incríveis passando na televisão. Festivais sendo transmitidos, compositores novos, cantores excelentes, poesia nas letras, arte nas melodias e batalhas quase que sangrentas pelo primeiro lugar.

Para morrer de amores pela música brasileira, que nunca é tarde. Se você ainda não começou a se desmilinguir por ela com um CD promocional qualquer, aproveite e comece agora com este documentário.

“Alice”, de Tim Burton

Desde abril do ano passado espero por este dia. O dia de ver Alice.

Nem tanto pela história, mas mais por conta do meu caso com Tim Burton. Adoro seus filmes e ver uma história tão sem nexo (como Alice foi na minha infância) nas mãos dele era a oportunidade perfeita de me ver perdida novamente. Só que, desta vez, num lugar mais sombrio, mágico e… E mais Tim Burton!

Apesar das críticas ferrenhas, fui esperançosa de ver na tela mais do diretor e menos da loirinha protagonista.

O filme começa devagar e demora para começar a nos prender. A culpa não é do diretor. Ele precisava dar uma satisfação, afinal Alice é a continuação daquela história que lemos na infância. Pois é, Alice cresceu e leva um tempo até esta história engatar e até o País das Maravilhas começar a fazer algum sentido.

Quanto às críticas negativas que li a respeito da atuação de Mia Oompa-Loompas Wasikowska, a moçoila que protagoniza a história, confesso que achei todas injustas. Comecei com um pé atrás com aquela cara lavada, aquele loiro homogeneamente espalhado em sua pele, alma, cabelo e coração. No entanto, não demora muito para sentirmos que ela é perfeitamente Alice e que não haveria outra para ocupar seu lugar.

Confesso que no início pensei em Scarlett Johansson para assumir o papel. Mas aí lembrei que meu namorado não se concentraria no filme etc e tal. E desconsiderei a possibilidade. Tim Burton acertou sim na protagonista.

Scarlett como Cinderella. Quem sabe um dia, ahm?

No filme, Anne Hathaway vive a Rainha Branca e, apesar de eu adorar a atriz, acredito que este tenha sido seu pior trabalho. Não sei se é muito fácil brilhar como a mocinha da trama. Coisa chata esse papel. Tirando uma ou duas cenas, sua personagem não muda no tom da fala, nas expressões e é até um estereótipo estranho: fica com as mãos levantadas o tempo todo, numa pose de mocinha muito esquisita. Nem merece uma foto por aqui.

Apesar de Johnny Depp estar muito bem como o Chapeleiro Maluco, o grande destaque vai para Helena Bonham Carter, a baixinha cabeçuda da foto acima, esposa de Tim Burton e a alma de qualquer filme dele. A Rainha Vermelha é a essência da trama e, vez ou outra, consideramos a ideia de torcer apenas por ela. Ela é o que há de Tim no filme. Malvada, excluída, esquisita, estranha, sombria… Frágil.

Resumindo, Alice é um filme de figurino impecável, cenário e efeitos lindos e algumas atuações brilhantes. Mas… Sim, eu esperava por algo mais. Eu queria mais de Tim Burton nos cenários, nos diálogos, mais magia no País das Maravilhas e menos sensatez por lá. Mas eu também fui cheia de expectativas. E mesmo não sendo tão obscuro quanto eu pensava que seria, Tim Burton é Tim Burton e por isso eu recomendo. Qualquer obra dele merece ser apreciada.

Por que assistir a Up, Altas Aventuras?

Eu sei, você não tem mais dez anos de idade e não vê desenhos animados desde Shrek – que te insistiram pra assistir. Mas Up, Altas Aventuras quase que não é um desenho animado. Quase que é vida real.

Dirigido por Pete Docter, Up foge do que costumamos ver em desenhos animados. Em primeiro lugar, esqueça aquele ritmo frenético de filmes que não querem perder a atenção dos pequerruchos. Importante, claro. Mas muito melhor é oferecer a crianças, adultos e idosos uma outra forma de narrativa. Ora calma, ora agitada. Cenas sem falas, nas entrelinhas. Tempo para a tristeza, tempo para o sofrimento. Simplesmente: tempo.

Os personagens centrais não são, digamos, mocinhos. Tudo bem que esta fórmula já foi repensada há um tempo nos desenhos. Mas cabe ressaltar: no centro da trama estão um senhor e um menino. Duas gerações separadas e agora unidas.

Carl, Russel e um GPS

Duas pontas da sociedade: criança e idoso tratados com respeito. Não são passivos, dependentes ou infantilizados. Mas também não são heróis disfarçados. O filme se preocupa em manter o idoso como idoso, a criança como criança e até o animal como animal (cena rara nessas áreas). O idoso apegado às suas coisas, sua casa, seu passado. A criança que dá chilique porque quer ir ao banheiro. O animal que não se mete no meio da briga para ajudar seu defensor porque, ora, é um animal.

E como todo bom desenho, Up toca no tema do amor. No amor romântico, sim, mas vai além: o amor nasce entre os protagonistas com a aventura. Uma nova amizade, um novo sentido para viver. Uma cena em especial representa o rompimento de Carl com seu passado. Sua nova missão.

Só pelos motivos citados, eu já assistiria ao filme mais umas três vezes. Mas tem mais: Up toca em um tema delicado para um filme infantil e em que poucos se arriscam a entrar, a morte. Sem religiosidade ou misticismo, as decepções e a morte são tratadas, simplesmente, como parte da vida.

Agora se você já está achando Up, Altas Aventuras um desenho racional demais, não acredite em nada do que eu escrevi aqui em cima. Imagine um sonho, uma casa, balões e a cena que toda criança já quis viver na vida.

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