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Mentira e consequência

Das coisas que aprendi na vida, que a mentira tem perna curta não me marcou tanto quanto descobrir que ela tem consequência.

Eu tinha menos de uma década nesta terra. Era um tempo em que minhas pernas serviam embaixo da mesa de mármore da sala de estar. E era por lá mesmo que fazia a lição de casa: perna de índio, costas apoiadas no sofá, vez ou outra a tevê ligada.

Eu já odiava matemática. Imaginem então que haviam me ensinado divisão. O terror dos terrores para mim. Logo que fui apresentada à operação horripilante, uma calculadora caiu em minhas mãos e… O milagre se fez.

Sim, era uma mágica. Imaginem que bastava digitar lá “250”, seguido do botão que sinalizava a divisão “÷”, seguido de por quanto se queria dividir “5” e a resposta surgia, majestosa: “50”. Era uma maravilha, o mais alto nível de tecnologia já alcançado pelo homem, na minha humilde opinião. Nem Super Nintendo me parecia tão comovente quanto aquele pequeno pedaço de plástico inteligente.

Porém, eu já sabia que não era uma coisa correta fazer uso da mesma nas lições de casa. Certa vez meu pai me deixou com a tarefa de terminar a lição. Deixou também uma calculadora para que eu mesma conferisse o resultado. Quando voltou, eu tinha apenas a resposta. O processo era uma incógnita. Não demorei muito tempo na mentira, ele havia me pegado.

Passei, então, a ficar sem a calculadora. Era triste, mas era a realidade, deveria ser enfrentada e para brincar, primeiro era necessário terminar os afazeres. Meu pai proferia como um mantra seu lema: “Primeiro a obrigação, depois a diversão”, sempre se referindo (nesta ordem) à lição de casa e ao Super Nintendo.

Voltemos, então, à sala de estar. Minhas pernas esmagadas embaixo da mesa de centro, uma bolota de tarefas de matemática sobre divisão e meu real convencimento de que não havia motivos para entender o processo se aquela pequena máquina cheia de números era capaz de me dar os resultados.

Não tinha calculadora por perto, mas sabia que no meu quarto tinha uma. Enquanto meu pai preparava o jantar, apareci na cozinha, dizendo: “Vou ao banheiro”, como se alguém que realmente vai ao banheiro anunciasse isto assim.

Trouxe a calculadora escondida, mas não tive tempo de levá-la até a lição de casa: o jantar estava pronto. Como boa menina educada, na pia da cozinha lavei minhas mãos para o jantar, quando ouvi uma voz bradar:

“Você não lavou as mãos?”

Claro que eu não tinha lavado as mãos.

“Mas você foi ao banheiro e não lavou as mãos?”

Isto foi uma afronta à minha higiene. Sim, eu estava lavando as mãos agora, não lavei antes porque não fui ao banheiro, era uma mentirinha – queria dizer, mas desdizer a mentira é algo que exige paciência e certo jogo de cintura. Eu tinha só oito anos.

O sermão durou por volta de meia hora, o jantar inteiro, enquanto eu pensava porque raios não fui mais ágil na mentira ou não contei logo a verdade. A bronca teria sido mais amena.

Do episódio, sobrou a percepção de que se minto, devo saber arcar com as consequências. E lavar as mãos antes.

A escola nova ainda é velha

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.

Ouvi o poema novamente ontem, na  peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?

O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.

No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.

O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.

Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…

A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?

Happy birthday, teacher. E zíper na boca.

Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.

Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.

Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.

É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.

Pelo direito ao próprio corpo: aborto

Não faz muito tempo, escrevi por aqui sobre o mau atendimento médico. Citei o consultório de uma dermatologista e, para indicar que era escuro, escondido e com ares de coisa ilegal, escrevi que mais parecia uma clínica de aborto clandestina. Nos comentários, a @anarina me corrigiu dizendo que “clínica de aborto clandestina tem cara de consultório de alto padrão”.

Aí, lembrei que deveria ter escrito “clínica de aborto da periferia”. Porque, realmente, devem existir lugares muito bonitinhos para se abortar. Pesquisando sobre, descobri um documentário feito pela própria Ana Carolina sobre o aborto. O documentário se chama “Clandestinas, o Aborto no Brasil” e fala sobre esta questão esquecida e escondida da nossa realidade.

Lá vemos depoimentos de quem decidiu abortar (como, onde e por qual motivo), vemos a luta da Marcha Mundial das Mulheres, dados sobre a saúde pública, o depoimento de um médico e de pessoas conhecidas como Soninha Francine e Elke Maravilha.

Segundo o documentário, a lei que proíbe o aborto é dos anos 40 e hoje o permite em caso de estupro (ou de risco de vida). Mas já desde os anos 70, mulheres lutam pela descriminalização e pela legalização do aborto. Pelo direito da mulher ao seu próprio corpo. Afinal, se nós, mulheres, não lutarmos por isso, não são os homens que lutarão.

Mais do que entender que um filho é uma benção divina (para muitas pessoas deve ser assim mesmo), é preciso que entendamos que a mulher é dona de seu corpo. Ter um filho não pode ser considerado um castigo, um caminho sem volta: deve ser uma decisão consciente na vida de uma mulher.

E aí que a coisa fica muito bonita assim na teoria. Mas vai ter gente que vai dizer que, se o aborto for liberado, muitas mulheres vão abortar. Errado. Muitas mulheres já abortam. Algumas com Cytotec (que é encontrado facilmente no mercado negro), outras em clínicas clandestinas e, segundo uma pessoa da área, é fácil você que tem dinheiro pagar para seu ginecologista te internar no hospital mais caro da cidade dizendo que você teve um aborto espontâneo e que ele precisa fazer a curetagem.

Para a namorada do filho, dá-se um jeito. Mas permitir em lei, de jeito nenhum.

A frase acima é de Soninha Francine e reflete o moralismo da nossa sociedade. Interromper uma gravidez que não é desejada na sua família, ali ao seu lado, tudo bem. Dizer para todos o que aconteceu, não. E continuamos com o discurso pelo “direito à vida”. E a vida de quem vai parir? E a vida desta criança depois de nascer?

É incrível como passamos horas defendendo uma barriga grávida, mas não damos conta de cuidar das crianças do país. No documentário, Elke Maravilha também pergunta: por que não são defendidas tão ferrenhamente as vidas que já saíram do útero? Quantas crianças são abortadas com sete, oito, quinze anos de idade e nada é feito? Quantas são vítimas de maus-tratos? Quantas nascem sem expectativa, sem planejamento, sem base? E quantas mulheres encaram a gravidez como uma estrada sem volta, como se fosse fácil ter um filho, como se a maternidade fosse uma benção divina dada na hora errada, mas impossível de recusar?

E as garotas da periferia que engravidam, que se submetem a abortos em condições precárias, que morrem? Por que esta hipocrisia toda em torno da questão se as mulheres da classe alta também abortam – só que com cuidados redobrados?

"Aborto é crime sangrento". É? Experimente ter filhos.

É claro que não queríamos que o aborto fosse necessário. As imagens das campanhas contra o aborto nos pegam pela beleza: aqueles bebês lindos, com pais alegres, num campo verde. Seria lindo se assim fosse. Se todos tivesse condições financeiras, psicológicas e vontade de ter esses bebês. Na prática, sabemos que não é assim. Que a mulher sofre por um erro (ou por um acidente) e que a criança pode vir a sofrer sua vida toda.

Hoje é o Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto. Tempo de refletir a respeito. Se faria, se não faria, se deixaria a namorada ou a prima fazer não importa: o aborto já é feito. Os gastos com a saúde pública já são grandes por conta disso. Legalizar só traria um benefício às mulheres e um amparo a quem tem consciência de que ainda não chegou sua hora de ser mãe.

Sobre nomes

Olívia, Valentina, Manuela, Eduarda, Júlia. Pedro, Elias, Antônio, José, João. Clara, Ana, Maria, Elisa, Luísa, Laura…

Um destes certamente pode ser o nome de sua avó ou de seu avô. Ou de uma tia, ou de um parente mais distante. No entanto, com poucas exceções, acredito que estes nomes não eram de seus primos ou estavam tão presentes quando você se formava na escola. Da educação infantil (ou da pré-escola) ao ensino médio (ao colegial), os nomes que te cercaram devem ter sido outros.

Na minha trajetória escolar, sempre fui a única Isabella do colégio – inteiro! Quem precisava do sobrenome para completar a identificação eram as Gabrielas, Julianas, Carolinas, Fernandas, Danielas, Lucianas… Assim como os meninos com os nomes de Bruno, Rafael, Gabriel, Rodrigo, Tiago… Isabella agora é um nome da moda, mas há uma crescente mudança para nomes mais – digamos – antigos, como os citados lá em cima.

Hoje, alguns destes nomes que eram comuns quando eu estava no colégio, continuam nos cartórios e nas escolas de educação infantil, no entanto, em menor escala. Aliás, é através do meu trabalho com crianças que, informalmente, acompanho os nomes da moda. Não sei por que, mas gosto do assunto. Tanto que, aos oito anos de idade, fiz minha mãe comprar o livro Que nome darei ao meu filho? e o estudei minuciosamente. E se você também tem curiosidades acerca, não precisa se precipitar e comprar um livro feito para gestantes, pode conferir este ranking de nomes registrados, dividido pelo período que você escolher.

É difícil saber exatamente qual nome está na moda, porque estes tipos de ranking nos dão os nomes mais comuns levando em conta várias classes sociais de vários locais do país. E, na prática, não é bem assim que a coisa funciona.

Faz pouco tempo, li o livro Freakonomics, que trata de diversos assuntos de uma maneira curiosa, com um ar de economia excêntrica para leigos.

Em um dos capítulos, os autores do livro, através de uma longa pesquisa, constataram que quem dita a moda no mundo dos nomes não são os mesmos que ditam a moda na nossa vida. Por isso, no auge da carreira de Michael Jackson, o registro pelo nome de Michael não cresceu nos Estados Unidos. Trazendo isto aqui para terras brasileiras, podemos lembrar do nascimento da filha de Xuxa, Sasha. Um nome estranhíssimo, escolhido por uma super estrela do nosso povão, que cogitamos que poderia virar moda. E não virou.

Que tal Madonna?

Mas por que isso? Quem dita a moda dos nomes? Os autores explicam que não são as celebridades. São aqueles que têm emprego, carro do ano, vida confortável e que estão próximos a você. Logo, quem dita a moda dos nomes é a classe média, dita alta.

E como a coisa funciona? Simples. A classe média elege alguns nomes para sair do comum. Olívia, Valentina, Eduarda, Antônia. No início, a coisa não pega para todo mundo. Estes nomes ficam sendo mais elitizados. Após dez anos, como num passe de mágica, eles são vistos na lista dos nomes mais registrados pelas outras classes sociais.

O livro exemplifica tudo com listas de nomes mais comuns nos Estados Unidos. Não dá aquele clique na gente, porque não estamos em contato com estes nomes cotidianamente, mas é muito simples passar esse raciocínio pra cá.

O engraçado é que, quando a moda pega para as outras classes, a classe média alta perde o interesse pelos nomes e procura por outros para batizar seus pimpolhos. Exatamente como acontece com todas as outras coisas da vida.

Quanto custa esta escola?

Um dos passos mais importantes na história dos pais – e do que eles querem para o futuro de seus filhos – é a escolha da escola. Já pensou em que colégio vai colocar seus filhos? No mesmo em que você estudou? Num mais perto da sua casa? No mais caro da cidade?

Tendo filhos ou não, isso certamente já passou pela sua cabeça: em que lugar eu confio a ponto de querer dividir uma parte da minha vida? Considerando a escola pública brasileira – o que se fala dela na mídia, o que se sabe observando de perto uma – todos nós pensamos em pagar um colégio para nossos futuros, presentes, inevitáveis ou ilusórios pimpolhos. Certo?

Sim, pagando teremos garantia de excelência – é o que passamos a vida inteira acreditando. Afinal, se o colégio te cobra mensalidades, você passa a ser mais do que o pai de um estudante de lá. Agora você é cliente. E pode reclamar se o banheiro estiver sujo, se o professor tiver faltado, se o diretor não te ouvir e, às vezes, até mesmo se seu filho for mal na prova.

No entanto, basta passear por algumas escolas particulares para ver que a qualidade do ensino não está diretamente associada ao preço da mensalidade. Na educação, esse clientelismo não funciona. Nem deveria funcionar, afinal, educação não se compra, é um processo. E não se adquire com a mesma lógica com que compramos sapatos.

Pensando sobre isso, dia desses encontrei o blog de uma mãe, jornalista, esclarecida, bem sucedida e questionadora que optou por colocar seus dois filhos numa escola pública. Não, a escolha não aconteceu por falta de dinheiro. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ela já morou, seus filhos estudaram nas ditas “melhores” escolas, dividindo espaço com filhos de estrelas da televisão brasileira, artistas e gente cult.

Acontece que principalmente por não concordar com a proposta pedagógica destas escolas (e por ainda ter que arcar com suas mensalidades caras), ela saiu em busca de outras. E visitou uma pública. Ao ver a abertura do diretor, a acessibilidade dos professores e a vontade de progredir da escola, não teve dúvidas: matriculou seus filhos lá.

A localização desta escola pública, numa área nobre da cidade, conta muito, claro. E no blog ela conta tudo com detalhes. E ainda fala sobre a transição dos filhos, as dificuldades da escola, os problemas do relacionamento entre as crianças e sobre a coragem que teve que ter para manter sua escolha.

Embutido nos discursos que ela narra dos parentes e amigos desesperados pela escolha dela, vemos muito o preconceito que temos com a escola pública. E, mais do que isso, como acreditamos que qualquer escola particular é melhor do que uma pública. A relação não é tão simples assim. O preço que se paga não garante nada. Ou garante que façam tudo um pouco mais escondido.

O fato desta mãe confiar a educação de seus filhos a uma escola pública – e ainda escrever sobre – é muito bom. Como ela mesma cita, é importante que a classe média entre em serviços públicos e cobre por um atendimento decente. É o início de um novo pensamento. Afinal, a escola pública não é de graça.

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