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A escola nova ainda é velha

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.

Ouvi o poema novamente ontem, na  peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?

O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.

No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.

O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.

Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…

A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?

Happy birthday, teacher. E zíper na boca.

Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.

Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.

Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.

É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.

Quanto custa esta escola?

Um dos passos mais importantes na história dos pais – e do que eles querem para o futuro de seus filhos – é a escolha da escola. Já pensou em que colégio vai colocar seus filhos? No mesmo em que você estudou? Num mais perto da sua casa? No mais caro da cidade?

Tendo filhos ou não, isso certamente já passou pela sua cabeça: em que lugar eu confio a ponto de querer dividir uma parte da minha vida? Considerando a escola pública brasileira – o que se fala dela na mídia, o que se sabe observando de perto uma – todos nós pensamos em pagar um colégio para nossos futuros, presentes, inevitáveis ou ilusórios pimpolhos. Certo?

Sim, pagando teremos garantia de excelência – é o que passamos a vida inteira acreditando. Afinal, se o colégio te cobra mensalidades, você passa a ser mais do que o pai de um estudante de lá. Agora você é cliente. E pode reclamar se o banheiro estiver sujo, se o professor tiver faltado, se o diretor não te ouvir e, às vezes, até mesmo se seu filho for mal na prova.

No entanto, basta passear por algumas escolas particulares para ver que a qualidade do ensino não está diretamente associada ao preço da mensalidade. Na educação, esse clientelismo não funciona. Nem deveria funcionar, afinal, educação não se compra, é um processo. E não se adquire com a mesma lógica com que compramos sapatos.

Pensando sobre isso, dia desses encontrei o blog de uma mãe, jornalista, esclarecida, bem sucedida e questionadora que optou por colocar seus dois filhos numa escola pública. Não, a escolha não aconteceu por falta de dinheiro. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, onde ela já morou, seus filhos estudaram nas ditas “melhores” escolas, dividindo espaço com filhos de estrelas da televisão brasileira, artistas e gente cult.

Acontece que principalmente por não concordar com a proposta pedagógica destas escolas (e por ainda ter que arcar com suas mensalidades caras), ela saiu em busca de outras. E visitou uma pública. Ao ver a abertura do diretor, a acessibilidade dos professores e a vontade de progredir da escola, não teve dúvidas: matriculou seus filhos lá.

A localização desta escola pública, numa área nobre da cidade, conta muito, claro. E no blog ela conta tudo com detalhes. E ainda fala sobre a transição dos filhos, as dificuldades da escola, os problemas do relacionamento entre as crianças e sobre a coragem que teve que ter para manter sua escolha.

Embutido nos discursos que ela narra dos parentes e amigos desesperados pela escolha dela, vemos muito o preconceito que temos com a escola pública. E, mais do que isso, como acreditamos que qualquer escola particular é melhor do que uma pública. A relação não é tão simples assim. O preço que se paga não garante nada. Ou garante que façam tudo um pouco mais escondido.

O fato desta mãe confiar a educação de seus filhos a uma escola pública – e ainda escrever sobre – é muito bom. Como ela mesma cita, é importante que a classe média entre em serviços públicos e cobre por um atendimento decente. É o início de um novo pensamento. Afinal, a escola pública não é de graça.

Na cabeça ou na mochila

Quando você para de conviver diariamente com crianças, passa a ter menos coisas engraçadas para contar. Mas de uma história eu não me esqueço.

No ano passado, dei aula para crianças de quatro anos de idade. Metade do ano fui estagiotária professora auxiliar e na outra metade peguei a bomba assumi a sala.

Todos os dias, as crianças chegavam na sala de aula e tiravam da mala a agenda, o copo (com a escova de dente dentro) e penduravam a lancheira.

Em um dia frio, um dos meus alunos, Arthur, chegou todo encapotado e com um gorro na cabeça. Arrumou seus pertences e, no meio da brincadeira com os amigos, tirou o gorro e o colocou na mesa, ao lado do seu copo com sua escova de dente.

Arthur e o Bidu de massinha

Caro leitor, aqui faço uma pausa para um comentário: se você nunca viveu um dia na educação infantil, não sabe o que é administrar uma sala com 17 crianças de quatro anos de idade. Não imagina o que é rezar diariamente para uma convivência pacífica. Para ninguém chutar, morder, bater, arranhar e para ninguém retrucar. E também nunca se viu pedindo aos céus para que todos consigam controlar seus esfincteres até a chegada ao banheiro. Se você tem filhos, sabe do que estou falando. Agora multiplique por 17. Tranque numa sala. E jogue uma louca dentro. Por isso e por otras cositas más eu passei o ano passado inteiro descabelada.

Pois bem, tudo isto para dizer que, muitas vezes, no calor da coisa, esquecemos que são crianças. E que sempre têm uma visão peculiar. E que são criativas, inocentes e obedientes até. Teoricamente, nós, pedagogos, estudamos para (entre muitas outras coisas) aprender a lidar com as peculiaridades do ensino. Mas é que com dois pendurados no lustre, três correndo ao seu redor, um com febre, uma puxando o cabelo da outra e cinco formando uma quadrilha de tráfico de batom da Xuxa, fica realmente muito difícil. Você esquece até que é gente.

Então, ali estava eu, jogada no meio da muvuca, quando a professora que trabalhava comigo, ao sair da sala, viu o gorro do Arthur ao lado do copo da escova de dente dele. Apontando para a mesa, disse: “Arthur, coloca na cabeça ou guarda na mochila!”. Saiu da sala e eu fiquei por lá, tentando administrar a galera.

Depois de alguns minutos, olho para o lado e vejo o Arthur segurando o copo (com a escova de dente dentro) em cima da cabeça.


- Arthur, o que foi?

- A professora disse pra eu colocar na cabeça ou guardar na mochila, mas eu ainda não escovei os dentes…

- O gorro, Arthur!

- Ah…

E ele fez a cara que eu mais queria ter registrado na minha vida. Uma mistura de “entendi” com “envergonhei”. Arthur um menino tão carinhoso e tão esperto, me mostrou que, realmente, é tão simples e tão complexa essa terra de gigantes.
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