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Pieda, a receita quase esquecida
Para tirar este blog do jejum, resolvi escrever sobre pieda.

Pieda é um prato italiano que, ao contrário da macarronada, não se popularizou.
Toda vez que falo em pieda, ouço um “ahm?” e tenho que explicar da forma mais injusta. Digo que é uma panqueca de fubá. Mas é mentira, muita mentira!
Pieda é uma massa (ok, parece uma panqueca) feita de polenta. Sim, primeiro a polenta é preparada e, desta base, é feita a massa: misturando a polenta com farinha de trigo.

Depois, pequenos discos são feitos. E passados na chapa. A polenta tem um toque rústico, não assa por completo e fica quase que queimada em alguns pontos. É sério, uma loucura.

A pior parte de explicar para vocês, reles mortais que sobrevivem sem pieda, é quando falo sobre o recheio: repolho e escarola. Não, não faça essa cara. Juro que é o recheio ideal.

Ao contrário da panqueca, que chega à mesa prontinha, os discos de pieda são colocados empilhados na mesa e cada um monta seu prato com a verdura de sua preferência (ou com uma mistura das duas).
Minha avó Ina faz pieda desde que me conheço por gente e esta é minha refeição predileta desde sempre. Perguntei para meu avô Chico e ele disse que a família dele também preparava este prato. Dona Ina jura que é mentira dele.

Por ser feita à base de fubá e recheada de verduras não muito apreciadas como prato principal, deduzimos que é um prato vindo dos italianos pobres. E muito sabidos. Meus avós concordam com a história.
O engraçado é que quase ninguém sabe fazer pieda. Procuro na Internet e tudo que encontro é um link nada confiável do Yahoo Respostas (com uma receita muito diferente). Se busco por piada ou piadina, encontro receitas de massas à base de banha de porco.
Já tinha quase certeza de que a receita da pieda havia sido originada no imaginário da minha família. Assim como a sopa de bolinha – sim, isto existe: é o prato do Natal e todos da família têm espasmos de felicidade só de ouvir falar nela, de tão deliciosa.
Até que descobri que a família do Gustavo Gitti também prepara pieda. E é igualzinha.

Investigando sobre, descobrimos que a pieda chegou aqui por conta do lado Ferrini de minha avó, que veio de Forlì, uma região da Itália pertencente à Emilia-Romagna. Os Montanari, do Gustavo, também vieram de lá.
Já ouvi dizer que aquela é a terra da pieda, muito embora eu nunca tenha passado por lá para constar. Os tios falam, a gente acredita, não é?
Receita de pieda
Muito simples.
1) Prepare uma polenta (como não faço a menor ideia de como preparar uma polenta, vou confiar no seu domínio de pesquisas no Google e pular esta etapa, ok?).
2) Faça como minha avó e misture toda a polenta com farinha de trigo até dar o ponto (não me arrisco a perguntar com mais detalhes, pois bem sei que minha avó não tem medidas na hora de cozinhar, é tudo à moda antiga. Portanto, primeiro especialize-se em massas).
3) Abra a massa em pequenos discos e passe-os na chapa com pouco óleo até você achar que estão bons o suficiente.
4) Refogue o repolho e a escarola (separadamente).
5) Pronto: a pieda está pronta para ser servida.
Mais fácil do que isso, só nascendo em família que faz pieda, diz aí. Ou então namorando alguém que tem família que também prepara. Ou os dois.
Sobre um fato cotidiano
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego(Construção, Chico Buarque)
Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.
Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.
Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.
Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.
A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?
Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.
A descoberta
A pessoa passou vinte e sete minutos futricando por aqui. Que coisa, não, gente? Alguém que trabalha com meu pai e utiliza o e-mail da empresa recebeu o endereço do meu blog por e-mail e passou um tempo lendo meus escritos ou… Ou… Ou…
Aguardem pelos próximos capítulos.
Maldade e bondade gratuitas

O caso de Monte Verde
Minha gente, não nasci para fazer excursão. Odeio essa de: vem comprar gorros com a gente, depois compramos luvas para ela, depois meias para ele e blusas pro outro e, então, vamos tomar chocolate com você. Ahhh, não mexam com meu chocolatinho. Gosto assim: galera, cada um
Apesar de tudo, Monte Verde é uma graça. Não coma fondue (os dois que já comi por lá são péssimos), escolha bem uma pousada, cuidado para não atolar o carro quando chover (meus dois primos tiveram a proeza de atolar dois carros), não vá sem um par (essa é pra eu não esquecer), leve um livro bom, umas botas para sujar, muita roupa de frio e uma família animada. No fim das contas, posso dizer que foi bom. Nada paga diversão em família. Valeu a pena o fondue ruim, o frio exagerado, a dona da pousada, a estrada horrível, as irritações que os grupos causam etc e tal. Mas, por favor, me lembrem de não querer voltar para lá tão cedo.



