Posts com a tag "família"
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
(Construção, Chico Buarque)
Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.
Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.
Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.
Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.
A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?
Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.

Será?
Por Isabella Ianelli em 24/02/2010 | cotidiano | 12 comentários
Eis que eu estava, na semana passada, olhando os acessos das pessoas a este humilde blog, quando noto um endereço de entrada estranho. Aliás, antes fosse estranho. Tremendamente conhecido: webmail.nomedaempresa. A empresa em que meu pai trabalha.
A pessoa passou vinte e sete minutos futricando por aqui. Que coisa, não, gente? Alguém que trabalha com meu pai e utiliza o e-mail da empresa recebeu o endereço do meu blog por e-mail e passou um tempo lendo meus escritos ou… Ou… Ou…
Obrigada pela interpretação, Raul.
Sim, meu pai leu este blog. Mas, calma, tudo bem. Ele gostou. Entrou no dia seguinte e passou mais sete minutos por aqui. Comentou na hora do jantar que adorou, que eu escrevo bem e indicou a leitura para o meu primo, que respondeu prontamente: “Ah, eu já dei uma olhadinha. A tia me mandou também”. Ah, claro, como não? Minha mãe passou este blog para toda a lista de contatos dela.
Se você achou isso engraçado, é porque não conhece o caso da eleição para a escolha da Miss Usp. Minha mãe só não comprou o jurado porque não tinha. Era uma votação virtual. Então, ela mobilizou a família toda, os amigos, os conhecidos. E deve ter pedido aos inimigos também. Foi uma grande eleição, do tipo: 100 votos para Isabella e 3 para a concorrente.
Eu fui Miss Usp Outubro de 2005. E, por isso, fui reconhecida na Festa de San Gennaro.
Caros leitores, o Sarney só continua no Senado porque minha mãe ainda não decidiu se mobilizar. Se ela entrasse no twitter e levasse a campanha #forasarney tão a sério quanto levou a da Miss Usp, faria Marcos Mion, Junior Lima e companhia morrerem de inveja. E convenceria fácil o Ashton Kutcher.
Que meus pais são cidadãos virtuais não é uma má notícia. Agora, há poucos dias da descoberta do meu blog, a grande questão, a pergunta que não quer calar, o cerne deste post é: sobreviverá minha criatividade às visitas diárias de pais e convidados?
Sim, pois já ouvi uma piadinha em casa que podou minha capacidade criativa. Ao ver que Ágatha Christie e Bombom Cherry Brand não tinham água em seus respectivos potes e transferindo a culpa para mim, meu pai disse, em tom de deboche: “Por que você não escreve no seu blog assim: ‘Sabe, hoje eu descobri que minhas cadelinhas não são virtuais, elas bebem água…’?”.
Aguardem pelos próximos capítulos.
Por Isabella Ianelli em 18/08/2009 | cotidiano | 3 comentários
Despertador programado para tocar às nove da manhã em Vargem. Casa dos avós, interior, cidade pacata. Longe da loucura da cidade grande. Da maldade alheia. Não? Não.
Seis horas da manhã, acordo com a campainha tocando. Muitas e muitas vezes. Saí na janela para ver o que queriam. Vargem, que é pacata até mesmo às duas da tarde, às seis da manhã ainda dorme. Não entendia o que o homem queria. Ele gritava e gesticulava, mas eu não conseguia decifrar o que ele dizia. Quando decidi pegar o interfone, vi meu avô por lá, foi mais rápido.
Colocaram fogo no cedrinho da casa dos meus avós.
Antes de continuar, esta é uma cerca viva igualzinha: de cedrinho
Sim, o sistema de “cerca viva” não é dos mais seguros, já que o cedrinho envelhece, fica com galhinhos secos e qualquer fogo se alastra. Mas, em tantos anos, nunca houve um incêndio por lá. Até o último ano. Porque desde o último ano, já colocaram fogo no cedrinho três vezes.
Nas outras vezes, colocaram em horário comercial. Desta vez, aproveitaram a rua vazia, o sono dos moradores e… Riscaram um fósforo por lá.
Não, não há a possibilidade de ter ocorrido um acidente. Uma bituca de cigarro não faz tamanho estrago nas condições da manhã de hoje: fria, resultado de uma noite de sereno e com as plantas úmidas. Fora que eu, claro, investiguei o local e não achei resquício de cigarro ou qualquer outra coisa que pudesse ter causado um incidente.
Pois é. Não é só na cidade grande que se trapaceia. E não é só com motivos que fazem isso. Tem gente que faz por pura maldade mesmo. Mas também tem gente bondosa. A vizinha da frente, com quem não temos contato nenhum, viu as chamas da janela do quarto dela e foi lá, de pijama, apagar o fogo, antes mesmo de meu avô, a mangueira e eu chegarmos até o local.
Tem quem faça maldade gratuita. Mas também tem quem faça o bem sem olhar a quem.
Por Isabella Ianelli em 3/08/2009 | cotidiano | 3 comentários
Minha família decidiu passar o feriado em Monte Verde. Muito bem. Eu conheci a cidade quando, em 2005, fomos todos (pai, mãe e irmã) e passamos alguns dias comendo, comprando, comendo e comprando. Não sou muito chegada a compras, mas, sim, sou bem chegada a comidas, então, resolvi ir de novo. Só que desta vez com pai, mãe, primos e respectivas. Ou seja: a vela do grupo.
Em 2005, malandrona no teco-teco e…
…neste feriado: me sobrou um anão.
Logo nos primeiros dias me fiz esta questão: por que é que eu inventei de vir? Sim, a turma é bem animada. Sim, comer é uma delícia. Chocolates aos montes, centrinho lindo, pousada bonitinha, wireless etc. Mas eu odeio frio. Odeio! Meu nariz escorre, não consigo sair da cama nem passear pela cidade sem repetir irritantemente a insuportável frase no mesmo tom: “Ai, que friiiio!” (para mim mesma, claro, já que os casais não me ouviam).
Está certo que fui para Monte Verde com a certeza de que iria conhecer todas as trilhas da região. Assim como os montes, as montanhas, os vales, os rios… Queria estar bem cansada para ir para a cama às 22 horas, felicíssima. Só não pensei que poderia chover durante (quase) o feriado inteiro e isto impossibilitar (quase) todos os meus planos.
Com as trilhas fora da agenda (só fiz uma!), o que nos resta é passear pelo centrinho. Passear e comprar. Eu não tenho muita paciência para compras e sempre acho que posso achar tudo pela metade do preço no Brás. Aí, decido ficar no hotel lendo e sou taxada de antissocial pelo grupo. Pode?
Minha gente, não nasci para fazer excursão. Odeio essa de: vem comprar gorros com a gente, depois compramos luvas para ela, depois meias para ele e blusas pro outro e, então, vamos tomar chocolate com você. Ahhh, não mexam com meu chocolatinho. Gosto assim: galera, cada um no seu quadrado pra um lado e nos encontramos tal hora.
Como se não bastasse, em meio a uma crise de o que é que eu vou ser quando crescer e estando numa fase de férias e balanço de lucros e expectativas, não é que eu encontro, na menor loja da minúscula cidade, minha ex-chefe? Olhando nas prateleiras luvas e cachecóis e roçando (sem querer, hein?) o bumbum com ela, ouço um “Iiiisa?“, com aquela voz que eu bem conheço. Virei já preparada para o golpe.
Ok, absolutamente nada contra a pessoa, muito simpática, educada e tal. Mas eu pedi demissão e ver seu antigo emprego sendo esfregado na sua cara durante a viagem ociosa não é uma coisa muito agradável. É mais ou menos assim: “Saí de lá faz um mês para pensar na vida, você já ganhou mais um salário e eu continuo pensando…”.
Apesar de tudo, Monte Verde é uma graça. Não coma fondue (os dois que já comi por lá são péssimos), escolha bem uma pousada, cuidado para não atolar o carro quando chover (meus dois primos tiveram a proeza de atolar dois carros), não vá sem um par (essa é pra eu não esquecer), leve um livro bom, umas botas para sujar, muita roupa de frio e uma família animada.
No fim das contas, posso dizer que foi bom. Nada paga diversão em família. Valeu a pena o fondue ruim, o frio exagerado, a dona da pousada, a estrada horrível, as irritações que os grupos causam etc e tal. Mas, por favor, me lembrem de não querer voltar para lá tão cedo.
Por Isabella Ianelli em 15/06/2009 | cotidiano | 2 comentários
O que dizer de alguém que detalhou passo a passo o processo de impeachment do então presidente para a neta? Para a neta de seis anos de idade. O que falar de quem me colocava no carrinho de feira para me levar para a escola? Que me ensinou a gostar de Vargem, de política, de conversar e de ficar quieta? O que dizer de um avô ranzinza o suficiente para fechar a cara quando alguma coisa sai do seu controle e molenga o bastante para chorar por qualquer coisa?
Francisco Tacito. Ele que colocou na minha cabeça que eu seria médica. Ele que nem se importa mais com isso. E que formou uma ranzinzinha no mundo (além da minha mãe): eu. Eu que, quando pequena, saía apagando as luzes da casa. Eu que conto moedinha por moedinha. Que tenho dinheiro guardado, que não gasto com besteira. Que gosto de Demônios da Garoa e de música italiana. Que, às vezes, podo as plantas da casa dele. Não ficam boas, eu sei, mas ele diz que sim. Pega a tesoura e conserta tudo.
Ele que compra berinjela toda semana para mim. Que acorda antes das galinhas. Que adora doces. Que cochila sentado depois do almoço. Que mexe nas sobrancelhas. Que sai espantando os cachorros de dentro de casa. Que ensinou a todos os netos o mesmo batuque: “quem-qué-pão, quem-qué-pão”. Que senta com os joelhos para cima. E que, sem saber, me ensinou a sentar assim também.
Feliz aniversário para o dono do controle remoto! Parabéns, vô Chico!
Por Isabella Ianelli em 5/06/2009 | cotidiano | 1 comentário