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Oitenta e cinco
O que dizer de alguém que detalhou passo a passo o processo de impeachment do então presidente para a neta? Para a neta de seis anos de idade. O que falar de quem me colocava no carrinho de feira para me levar para a escola? Que me ensinou a gostar de Vargem, de política, de conversar e de ficar quieta? O que dizer de um avô ranzinza o suficiente para fechar a cara quando alguma coisa sai do seu controle e molenga o bastante para chorar por qualquer coisa?
Francisco Tacito. Ele que colocou na minha cabeça que eu seria médica. Ele que nem se importa mais com isso. E que formou uma ranzinzinha no mundo (além da minha mãe): eu. Eu que, quando pequena, saía apagando as luzes da casa. Eu que conto moedinha por moedinha. Que tenho dinheiro guardado, que não gasto com besteira. Que gosto de Demônios da Garoa e de música italiana. Que, às vezes, podo as plantas da casa dele. Não ficam boas, eu sei, mas ele diz que sim. Pega a tesoura e conserta tudo.
Ele que compra berinjela toda semana para mim. Que acorda antes das galinhas. Que adora doces. Que cochila sentado depois do almoço. Que mexe nas sobrancelhas. Que sai espantando os cachorros de dentro de casa. Que ensinou a todos os netos o mesmo batuque: “quem-qué-pão, quem-qué-pão”. Que senta com os joelhos para cima. E que, sem saber, me ensinou a sentar assim também.
Sobre as diferentes…
… reações do meu pai e da minha mãe.
Caso 1
Comprei um tecido acrobático vermelho. Ok, já escrevi sobre ele aqui. Pendurei-o no vão da escada para… Bem, sei lá para que. Para me deslumbrar. Meu pai chega em casa:
- Que legal! Já sabe onde vai pendurar? Não, em árvore não. A gente manda fazer uma trave. Ó. Deste tamanho, tá bom?
Minha mãe chega:
- OOOOO QUEEEE ÉEEE ISSOOOOOOO? O que você vai fazer com isso? Você não está subindo nesse tecido, não é, Isabella? RICAAAARDOOO, ela está subindo no tecidoooooo!!! – Depois que expliquei que era uma brincadeirinha, que não estava subindo no tecido amarrado na escada. – Hunf. Como decoração de natal até que ficou legal…
Caso 2
Eu e minha irmã colamos adesivos de formigas na cozinha. Não, não estamos regredindo, compramos adesivos específicos para decoração de paredes. Meu pai chega em casa:
- Olha só… Formigas!
Minha mãe chega. Do quarto, eu a escuto em sua primeira aparição na cozinha, reclamando, literalmente, para as paredes:
- Não gostei.
Mais tarde, então, quando pergunto o motivo:
- Eu queria formigas espaçadas! Vocês não têm noção de espaço não? Tinha que acabar aqui e não aqui. Vou tirar.
Não vai não. Alguém já viu formigas andando aleatoriamente? Elas gostam é de filinha!
Ágatha Christie
É estranho chamar um bicho de estimação por seu nome e (suposto) sobrenome. Mas é muito difícil se contentar com o primeiro nome num momento de estresse.
No meu caso, impossível não me sentir ridícula ao gritar, no meio da rua, para a levada cocker que reside aqui em casa:
- Ágatha Christie, já pra dentro!
A escritora que me perdoe…
A “vira-latinha”.
Distrital
Ontem fui a um parque aqui da Mooca que conheço pelo nome de Distrital. O Distrital foi o parque da minha infância: lembro de freqüentá-lo, principalmente, com meu pai. Lembro do parquinho, de andar de patins com minhas primas, das brincadeiras com bola com minha irmã, das caminhadas com meu pai, de ficar de cabeça para baixo no trepa-trepa, do vô Rubens dizendo que isso não fazia bem e de acreditar nisso até pouco tempo (até me apaixonar pelo circo e adorar contrariar a gravidade).
Muito bem. Pois foi o circo que me levou de volta ao local. Fiquei sabendo que o Distrital oferece aulas de circo de graça pela manhã. Então, buscando melhorar minha performance circense e fazer aulas também no período da manhã, lá fui eu em busca da lona e sonhando com o picadeiro.
Quando cheguei no Distrital… Meu Deus! Tudo veio à tona! Lembrei do meu pai jogando bola por lá… Vi o trepa-trepa! Tantos lugares que ficaram na minha memória… Tantos outros que não me recordo…
Enfim, a experiência foi incrível. Apesar do alto teor sentimental do lugar, achei tudo com cara de abandonado. O parquinho, os jardins, os espaços, as quadras.
Quando entrei na administração, então! Pensei que tivesse voltado uns 30 anos no tempo. Atrás do balcão, uma senhora muito gorda datilografava em uma máquina de escrever antiga enquanto fumava compulsivamente. A decoração do lugar, seus arquivos com cara de poeira: tudo denunciava o abandono. Um senhor magro (bem magro) e simpático me recepcionou e melhorou minha impressão.
Mas voltei pra casa indignada: tanta coisa boa por lá, por que tudo está tão abandonado? Será que foi só impressão minha? Fiquei com vontade de ajudar, trabalhar lá (acredita?), pensar em projetos para o local…
Quanto ao circo, estou esperando as aulas de lá voltarem. Mas não vejo a hora de voltar a freqüentar meu parque da infância.



