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Mulher de um homem só

Hoje, no início da noite, recebi um livro em pdf em meu e-mail. O livro foi enviado pelo autor para jornalistas, formadores de opinião e blogueiros famosos, sensatos e influentes. Como não sou nem uma coisa nem outra, o livro veio parar na minha caixa de entrada por outras vias que não cabe aqui citar. Mas. Mas…

Despretensiosa, comecei a ler. Despretensiosa mesmo. O que esperar de um livro com o título: “Mulher de um homem só”? Eu pensei em: 1) prostituição; 2) drogas e prostituição; 3) um romance. Tudo clichê, claro.

E na primeira página já voltei para a capa: “É um homem que tá escrevendo isso aqui? Corajoso…”. É. O autor se chama Alex Castro. Mas não me perguntem como ele conseguiu. Como ele sabe destas incertezas e inseguranças tão femininas. Nem sei onde ele aprendeu estes tantos detalhes. Aliás, onde?

Pois bem. Vou dizer do que se trata. Quem conta a história é Carla, a esposa de Murilo. Carla conta a história dela, dele e de Júlia, a melhor amiga de Murilo. A melhor amiga, claro, permanece grudada na vida do casal e provoca ciúme, ódio e (por que não?) amor na esposa insegura. Não, Carla não é louca. Nem maluca de ciúme. Todas suas neuras são as neuras de todas as mulheres que conheço. Coisas que aposto que Murilo nem sonha.

Carla conta sua história com Murilo, sua história com Júlia e, como se não bastasse, conta a história de Murilo e Júlia. Como é que ela sabe o que aconteceu nos mínimos detalhes, tantos anos antes de conhecer os dois? Ah, sabe. A gente sempre sabe. Não sabe?

E é esta maneira de narrar os detalhes, as pausas, os gestos e os olhares, quando nem ao menos se estava presente na cena, que faz com que a gente entenda Carla. Quem não é Carla? Vocês, homens, não são. Nem entenderiam. Só Alex.

Por fim, não posso deixar de citar o que mais me passou pela cabeça enquanto o lia. Mulheres, quando alguém escreve que parece que é a gente, com quem comparamos? Sim, com ele: Chico Buarque. E foi esta frase que encontrei no final do livro, quando Alex (tô íntima) explica tudo: “Uma leitora chegou a dizer que, ao lado de Chico Buarque e Miguel Paiva, eu era o homem que mais entendia de mulher do Brasil. Não sou, claro, até porque gente não se entende, mas foi bom de ouvir.”.

Não sei se entender é a palavra certa. Mas só o fato de fazer eu me sentir tão confortável lendo os dilemas daquela mulher, vendo-a colocar os acontecimentos de forma tão delicada, tão observadora e perspicaz…

Enfim. Escrevo isto aqui para pedir perdão para o autor por ter me deliciado com seu pdf. O livro é, realmente, muito bom e já sei até quem vou presentear com um exemplar impresso e bonito que nem o da foto. O lançamento será aqui em São Paulo, dia 1 de agosto e parece que o livro já esta à venda pela internet. Aqui você encontra tudo direitinho.

Preciso dizer que recomendo?

PS: E, no final, não é que adorei o título? Muito sutil.

Tudo o que eu precisava ler

Para Vinicius de Moraes, como se sabe, o trágico do amor é que ele acaba. Ou melhor, que a paixão acaba e, para Vinicius é a exigência da paixão (…) que comanda os movimentos da existência. Mas isso é ainda dizer muito pouco. Pois o trágico não é que a paixão acaba. Se fosse só isso, bastaria trocar de objeto, como faz o desejo. O problema é que o amor não acaba: se às vezes é preciso pular, é sempre por outras forças, impasses, apelos, mas não porque o amor acaba. Se o amor acabasse, não haveria o luto. O luto é precisamente o fato de que o amor só acaba depois. O escritor argentino Macedonio Fernandes dizia que ‘as coisas começam sempre antes’; já o amor termina sempre depois. O luto é operar-se vivo do amor. É preciso separar os mundos, desjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente, para que então, depois, o amor acabe: ‘Se pudesses, deverias frequentar um outro mundo’, diz Ovídio.”

Banalogias, Francisco Bosco

Dom Casmurro

“Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada.”


Quando li essa frase em Dom Casmurro, de Machado de Assis, não me contive. Achei tão propícia que a copiei na minha agenda da época. Hoje, assisti à minissérie Capitu e não é que a mesma frase está lá, intacta, transposta do livro e dos meus rabiscos para a voz de Bento? É tão verdadeira…

Algumas descobertas

  • Ontem fui assistir à apresentação de ballet das minhas alunas. Que coisa linda… Descobri que sou muito coruja! Enquanto elas esboçavam alguns simples passos, eu olhava da platéia, embasbacada, feito uma tia babona.

  • Hoje fui na Livraria Cultura, que estava lotada devido a um evento do tipo “virada cultural”. Em um cantinho que me acomodei, passei mais de uma hora lendo o livro “A vida como ela é“, dos contos compilados de Nelson Rodrigues. Minha descoberta: gosto mesmo do que ele escreve!

  • Não comprei o livro, porque li grande parte por lá mesmo e já imaginei o preço salgado da obra. Comprei alguns sobre educação, encomendei outros e… Confesso: tenho dor ao comprar livros. Pode? Posso parecer mesquinha, mas é um dinheirão que se vai… Não que não seja bem aplicado, mas queria ter mais boas bibliotecas por perto para poder ler em casa tudo o que quero. E também queria que os livros fossem bem mais baratos.

Quando Nietzsche chorou

“- Um homem profundo precisa de amigos – começou ele, como se falasse mais para si do que para Breuer. – Se todo o resto falhar, sobrarão seus deuses. Mas eu não tenho amigos nem deuses. Eu, como você, tenho desejos e meu maior desejo é a amizade perfeita, uma amizade inter pares, entre iguais. Que palavras inebriantes, inter pares, palavras com tanto conforto e esperança para alguém como eu que sempre viveu só, que sempre procurou mas nunca encontrou sua outra metade. Às vezes, tenho me desabafado através de cartas para minha irmã, para amigos. Mas, quando encontro as pessoas face a face, sinto-me envergonhado e dou as costas.
- Exatamente como está dando as costas para mim agora? – interrompeu Breuer.
- Sim – e Nietzsche quedou-se emudecido.
- Tem algo para desabafar agora, Friedrich?
Nietzsche, ainda espiando pela janela, acenou positivamente com a cabeça:
- Nas raras ocasiões em que não consegui agüentar a solidão e dei vazão a explosões públicas de lamento, odiei-me uma hora depois e me senti um estranho em relação a mim mesmo, como se tivesse perdido minha própria companhia. Também nunca permiti aos outros se desabafarem comigo… eu não estava disposto a assumir a dívida da reciprocidade. Evitei tudo isso… até o dia, é claro – voltou o rosto para Breuer – em que demos as mãos e concordamos com nosso estranho contrato. Você é a primeira pessoa com quem sempre mantive o rumo. E mesmo com você, de início, esperei traição.”

Irvin D. Yalom
Quando Nietzsche chorou
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