Posts com a tag "poesia"

Entre recantos e desvãos: Ilha de Boipeba

Nestas férias, viajei para a Bahia, disposta a encontrar o mais hospitaleiro de todos os povos.

Fomos para a Ilha de Boipeba, um lugar com ares e mares caribenhos: linda vista, turismo que começa a gerar lucros e uma população muito pobre.

Perto de Morro de São Paulo e recém-descoberta pelos turistas, a ilha ainda é um vilarejo sem grandes emoções. Praias desertas, clima agradável e água-de-coco e moqueca a preço de banana é o que dá para encontrar por lá.

São os próprios nativos que oferecem passeios pela ilha. Quer ir de barco até o outro lado do rio? Quinze reais. Quer que eu leve suas malas? Dez reais. Passear em volta da ilha? Sessenta reais.

Assim, eles nos exploram à medida em que exploramos a ilha deles. E exageram: tanto que chegaram a nos cobrar quinhentos reais descaradamente quando tentávamos negociar por um precinho bacana para irmos de lancha até uma praia a menos de quinze minutos de onde estávamos.

Com uma relação estreita de clientelismo, servidão e inferioridade, o convívio entre nativos e turistas acaba não sendo dos mais simpáticos. Somos tratados como se não quiséssemos papo, como se fossemos ruins, como se estivéssemos atrapalhando a vida deles. O que, de fato, não deixa de ser verdade.

Depois de alguns dias por ali tentando uma prosa, é fácil tornar seu passeio de integração algo puramente turístico. Desconfiados, fechados e desacostumados das pessoas que por ali passam no verão, me acostumei a não vê-los.

Até que. Até que conheci Marquinhos.

Tudo bem que já tínhamos encontrado gente legal por lá. A Dona Antonieta do acarajé, o tiozinho do mercado e. E só. E é por isso que, no início, não demos muita bola para Marquinhos, nosso guia no passeio de canoa pelo mangue.

Eu nunca vou saber se um passeio de mangue é, de verdade, bacana. Porque quem era bacana ali era Marquinhos. Que nos ensinou a diferença entre mangue branco, vermelho e siriiba. Que me deu a maior descoberta biológica do ano: que existem ostras no mangue. Que não toma café da manhã (almoça, almoça e janta). Que come moqueca às oito horas da manhã (com feijão e farinha). Meu ídolo.

E foi de Marquinhos uma das cenas mais incríveis que a pessoa que aqui vos escreve já viu. Meu holy moment.

Sentados na canoa, sob a luz do pôr-do-sol, eu, Gustavo e Marina – que conhecemos por lá e que nos convenceu a fazer o passeio – ouvimos uma história de família, enquanto assistíamos a Marquinhos remar.

– Vou contar como meu avô comprou a primeira canoa dele.

E sorridente e orgulhoso contou com detalhes a história que ouve desde sempre. Com direito a pausas de emoção e até mesmo a um momento em que passou os dedos rentes aos olhos (digno de cinema), contou a história do dia em que um avião da Força Aérea Brasileira, indo de Ilhéus para Recife, caiu numa praia de Boipeba.

O avô e o tio de Marquinhos assistiram à queda. E foi de seu avô a ideia de chamar os moradores da ilha para ajudarem no resgate. Depois, nadou até o avião e encontrou uma senhora. Esperta, já estava despida das pesadas vestes que as mulheres pomposas daquele tempo usavam. Ele foi ajudá-la. Ela pediu que socorresse primeiro seus filhos.

Os moradores de Boipeba que participaram do resgate foram consagrados heróis. Chamados pela Aeronáutica para um evento, foram aplaudidos, receberam cumprimentos e a eterna gratidão da Força Aérea – que disponibilizou a eles seus aviões perpetuamente. E ganharam moedas de ouro. Daí, a canoa.

Mas a história não para por aqui.

Há poucos anos, uma senhora chegou na Ilha de Boipeba procurando pelo avô de Marquinhos. Ao encontrá-lo, contou que sua mãe pediu a ela que não deixasse de conhecer o homem que salvou sua vida antes mesmo do nascimento.

Pois é: a senhora elegante do desastre de avião estava grávida.

Marquinhos rema de volta ao cais, enquanto penso em quantas histórias mais estão guardadas nas famílias daquela ilha que, até pouco tempo atrás, nem energia elétrica tinha. Mal tem saneamento básico.

Boipeba talvez não seja ilha para turistas. Talvez seja preciso passar mais tempo por lá para descobrir seus recantos, seus desvãos.

Nem todo mundo é Marquinhos. Mas toda ilha merecia ter um desses.

A escola nova ainda é velha

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Os versos acima são de Casimiro de Abreu, do poema “Meus oito anos”, publicado em 1859.

Ouvi o poema novamente ontem, na  peça “A aurora da minha vida”, em cartaz em São Paulo no Teatro Bibi Ferreira. A peça, de Naum Alves de Sousa, foi sucesso nos anos 80 ao contar das mazelas do sistema educacional na época da ditadura. E se hoje a história se perde um pouco para nós, jovens, que não vivemos estes tempos, causa uma reflexão perturbadora para os envolvidos com educação: quer dizer, então, que ainda somos os mesmos?

O cenário é uma sala de aula e por lá passam os anos: os alunos ora são pequenos e a “tia” controla a briga dos mais exacerbados. Depois, então, crescem, numa passagem natural do tempo: a forma de lidar com o outro muda, as relações entre os colegas, alguns acatam ordens, outros reagem.

No entanto, a maior reflexão que a peça me causou não foi quanto aos personagens e seus dilemas pessoais. O que mais me impressionou foi ver uma escola dos anos 70 perfeitamente atualizada com a escola de hoje. Se analisarmos escolas reais do mesmo nível econômico, veremos que a peça, infelizmente, ainda é atual.

O tema militar, os confrontos dos personagens e o controle da ditadura não acontecem mais. Mudamos da lousa verde escrita a giz para o quadro branco com canetinha e para a lousa digital, mas ainda nos relacionamos com os alunos como acontecia há muito tempo. Nossas escolas públicas e particulares perderam o prestígio, nossos professores talvez estejam mais desmotivados e a escola, mais perdida na relação com a família, mas, de fato, uma coisa não mudou: ainda não aprendemos a ensinar a pensar.

Acho que nunca vou sentir saudades da aurora da minha vida…

A frase é de uma aluna que, durante a aula, percebe a chatice de ter de se enquadrar no modelo proposto pela escola. Lá é explícito: os alunos entram diferentes e saem pensando igual. “Na escola militar é assim, é bem melhor”, sugere um dos personagens que sonha em servir o Exército. Antes da escola militar, aquela em que ele estuda já é deste jeito. E quem disse que hoje em dia é diferente?

Happy birthday, teacher. E zíper na boca.

Apesar das tentativas, das discussões, da constante busca por uma pedagogia que considere o aluno, que considere o contexto, o professor, a relação, o aprendizado, ainda somos todos massacrados. No ensino fundamental e médio, um rio de conteúdo “para o vestibular”. Não se aprende a viver. Não se aprende a conviver. Não se aprende. Aprendemos a obedecer. E assim seguimos ensinando.

Com um currículo antiquado, fechado há tempos para atender o ensino superior, nossa educação segue. Segue aos trancos e barrancos, sem preparar para a vida e sem preparar para o ensino superior, já que muitos mal conseguem chegar ao ensino médio.

Para a elite, para os que entram no sistema e conseguem seguir as normas, alcançar as metas e ter bom comportamento, ótimo. Eu fui uma dessas. E você que está me lendo agora, provavelmente também foi um desses. Mas, para a grande maioria da nossa população, só resta o abandono desta instituição que não acolhe.

É no fim da peça que uma senhora diz, lá no meio de todos: “Quando eu era nova, a escola já era velha”. Isso escrito para representar os anos 70. E a escola continua igual – velha. E ainda não conseguimos achar uma solução para tudo isso.

Todo mundo amarela uma hora?

Desde 2004, sou fã confessa do grupo O Teatro Mágico. Assim: foi paixão à primeira vista. Conheci o grupo pela Internet e passei um bom tempo sendo fã à distância. Um dia, tomei coragem e fui assistir a uma apresentação. Foi o início de um longo trajeto como fã de carteirinha. Do tipo que chega bem antes da apresentação e só vai embora bem depois.

O grupo, que é liderado pelo querido Fernando Anitelli, conseguiu levar para os palcos uma mistura de diversas manifestações artísticas. No entanto, mais inusitada do que a proposta de reunir tanta gente diferente com o mesmo objetivo, é a bandeira da arte independente levantada com fé por Anitelli e sua trupe.

Músicas para baixar na Internet, contato direto e frequente com os fãs e um jeito acolhedor de lembrar do nome, da família, da última vez que viu e essas coisas que mostram que a mesma pessoa que estava em cima do palco, está ali, sem maquiagem ou pose, conversando com você. De igual para igual. Parece óbvio, básico, normal e até mesmo necessário para uma real admiração, mas qualquer um sabe que não é bem assim na prática das outras bandas.

Por este e por outros motivos, O Teatro Mágico ganhou destaque como mais do que uma banda: um ideal. Assim, todo mundo que conhece o grupo acaba (de uma maneira ou de outra) chegando ao debate da arte independente, da música para baixar, da liberdade do artista, da necessidade do contato direto com o público, da desmistificação do ídolo etc e tal. E quem entra em contato com o universo do grupo, chega também aos projetos paralelos dos artistas que estão n’O Teatro Mágico mas que carregam, além desta, outras bandeiras, como é o caso da “boneca do tecido”.

Gabriela Veiga, circense, bióloga, vegetariana convicta e idealizadora do projeto Hábitos e Habitat

Acontece que, na semana passada, O Teatro Mágico apareceu na novela das oito. Sim, na novela da Globo. Sim, O Teatro Mágico. E como eu vi um mar de manifestações surgindo e um Fernando Anitelli oscilando no Twitter entre explicações pacientes aos fãs e o bloqueio dos mais irritadinhos, pensei que eu tenho onde interferir nesta história.

É claro que eu não esperava menos. Aguardei ansiosamente pelo burburinho e pelas perguntas assustadas do tipo: “O Teatro Mágico se vendeu?”. Os fãs seguem mais do que uma banda e a indignação sobre a aparição na novela da Globo era esperada. E é legítima. Explico.

Há anos, os fãs frequentam os shows da trupe e, em determinado momento, ouvem um pequeno discurso exaltado do líder do projeto, falando sobre a dificuldade da divulgação do grupo, da falta de acesso à chamada “grande mídia”, do jabá pago pelas grandes gravadoras. Entre outras coisas, Anitelli não deixa de citar a alienação da televisão, como é o caso da música Xanéu no. 5 (crítica evidente ao canal no qual apareceram).

E quando falamos de novela, falamos de algo que é assistido por uma grande parte da população e que, acima de tudo, é um veículo ótimo de manutenção dos valores em voga e criação de moda. Sim, basta a mocinha (ou a vilã) usar um determinado esmalte para que este vire febre. Cintura baixa, cintura alta, preto, cinza, rosa. Tudo é ditado, essencialmente, ali. A moda do povo, o que vai vender, o que vai acontecer, o que vai tentar virar febre nos próximos nove meses.

Por isso, acho mais do que saudável que os fãs coloquem Sr. Anitelli e companhia na parede perguntando: “E aí? Qual é a de vocês?”. Primeiro, porque é a prova de que estes fãs, de alguma maneira, entenderam o recado dado nos shows. E depois porque Anitelli, que é um cara muito inteligente e coerente, interessado em arte, cultura e disposto a meter a mão na massa para que algo, de fato, ocorra neste país, tem lá suas explicações para a aparição na novela: a audiência é incrível, pela novela o grupo chegou a pessoas que não têm acesso à Internet, a trupe foi convidada etc e tal.

No entanto, acredito que o que o povo do Twitter não conseguiu dizer em 140 caracteres é: a luta de vocês foi para isso? Sim, sem dúvidas a novela deu um destaque ótimo ao grupo, mas até que ponto isto vale a pena? Durante alguns minutos na telinha da Globo, a trupe foi só mais um adereço do teatro montado pelo autor, pelo diretor e pela produção. Quem assistiu não viu O Teatro Mágico (a não ser quem conhece), mas viu, sim, um grupo de circo, com algumas músicas fazendo a reinauguração do “Restaurante do Garcia”.

Não condeno o grupo por aparecer na Globo. Não acho que ninguém ali se vendeu. Também não acredito que: “Ou é o trono ou é o inferno”, como dizia uma música que eles costumavam cantar e que um trecho está como título deste texto. Sim, a história teve pontos altos. Só não posso achar que este é um marco na história d’O Teatro Mágico. Marco, para mim, foram os shows da Virada Cultural, com milhares de pessoas cantando. Marco foram os aniversários da trupe, com outros milhares declamando poemas em uníssono, marco foram os CDs vendidos, marco é a febre do boca-a-boca.

Não posso acreditar que só teremos um outro grande marco quando, um dia, convidarem o grupo para um novo capítulo de novela. Isso, para mim, foi uma mera consequência, um reconhecimento tardio, um ponto numa história de outras tantas conquistas mais interessantes.

Era uma vez…

 

“… o amor nasce nos olhos de quem é feliz…”
 
Era uma vez uma menina encantada e boba por um grupo (uma banda? uma trupe?) chamado O Teatro Mágico. Ela gostava, gostava muito, cantarolava as músicas em casa, tentava contatos, site, downloads, e-mails. Até que um dia… Um dia, um amigo seu foi a um show e trouxe um cd pra ela. Ah, a menina ficou muito feliz. Muito! Cantava mais ainda, mas ainda não tinha ido a um show deles. Por quê? Vai saber, a menina era também muito estranha! Nem ela sabia.
Um dia, decidiu: olhou a agenda da trupe, respirou fundo, comprou um ingresso e foi encarar seus medos. “E se eu não gostar?”, pensava. “Saio de fininho, por isso, vou sozinha”. A menina era tão estranha, mas tão estranha que não queria ninguém ao seu lado para não ser “influenciada”. É, a menina era também influenciável.
E foi. E amou. E, no fim do show, ficou num misto de timidez e alegria. Foi quando um cara, que fazia parte do grupo, veio conversar com ela. Ela conversou com ele, assim como falou com quase todos e pegou autógrafos e comprou dvds, cds e ganhou (!) um outro. E assim foi embora.
Alguns shows se passaram, a menina já estava curada de seu trauma de não querer ir a shows do grupo e de só querer ir sozinha e, então, passou a convidar pessoas para irem com ela. Nos shows, ela nunca mais viu o cara. Quer dizer, viu sim. Via sempre lá no palco, com seu violino. Ele nunca aparecia para conversar.
Um dia, ele apareceu. A menina, encantada, boba, estranha, influenciável e (também) tola, foi se apresentar novamente. Foi quando o cara disse: “Eu lembro, claro. Conversamos no seu primeiro show. No Sesc Ipiranga, não foi?”. A menina quase não acreditou. Como ele lembrava? Por que ele lembrava? E percebeu que este cara também devia ser estranho…
No show seguinte (sim, foram milhares), ela e o cara sentaram para conversar. Ele falava e ela tentava entender tudo. Ele falava de música, da indústria, contava sua história e a menina lá: toda encantada, boba, estranha, influenciável, tola e atenciosa. Não queria deixar passar uma vírgula. Ela percebeu que, além de tudo, ele era também muito inteligente.
E em meio a muitos shows, muitas conversas, alguns livros trocados, um carnaval “pulado”, uma virada cultural da pesada, três worksaraus, belas músicas, Octopus, muitas histórias, lindos contos, alguns segredos e outras tantas parcerias, a menina viu nascer uma amizade. Por isso, ela se sentiu no direito de pagar o mico de escrever para seu ídolo maior um monte de palavras desconexas só para registrar: FELIZ ANIVERSÁRIO.
 
Para Galdino, o maior artista que conheço. Um grande amigo que O Teatro Mágico me trouxe. Milhões de motivos mais para continuar sorrindo. E fazendo arte.
 
Minha eterna admiração… E um imenso “obrigada”! Por tudo.
 
Bella, Cruella, “True”, ela.
 

X Moradias: um sonho

Neste fim de semana, eu e meu companheiro de aventuras fomos conferir o X Moradias, que o Sesc SP e o Goethe-Institut São Paulo realizaram por aqui. Primeiro ele (o companheiro) comprou os ingressos. Marcado: sábado, às 17 horas, no Sesc Consolação. Como já esperávamos, recebemos crachás de identificação e um detalhado percurso para seguir pelos arredores da Consolação. Como não esperávamos, chovia e não recebemos guarda-chuva. Oito visitas pela frente, nós dois, um roteiro, uma chuva. O que esperar disto? Tudo. Ou nada. Lá fomos nós.

No primeiro apartamento, uma freira nos recebeu com mais duas ajudantes. Estava depilando o buço. Sim, tudo para fazer com que a gente se sinta exatamente dentro da intimidade de alguém que não conhecemos (mas parece que sim), que não sabemos se é real (será uma atriz?), exatamente num lugar de São Paulo por onde passamos quase todos os dias. Um lugar tão público e (agora) tão privado. A freira nos contou sua história e nos sugeriu que vestíssemos hábitos e posássemos para algumas fotos. Topamos, claro. Eu me identifiquei com a vestimenta, mas quase terminei o namoro quando olhei pro lado… Já na porta, recebemos da freirinha uma lembrancinha, um Deus te abençoe e um discreto aperto no traseiro. Interessante.

Chegamos na segunda casa. Um casarão abandonado. Uma mulher, Juliana e seu filho de, no máximo, sete anos, nos receberam. Visitamos o casarão. Várias famílias divididas em quartos. Ela nos contou que acolhe por lá quem não tem casa e que prioriza mulheres com crianças. Entramos numa sala em que, na tevê, Juliana contava sua história e citava a morte do marido no casarão. Um homem mal encarado passou pela gente. Será? Será que é real, que é ficção? Que ele foi contratado pra ficar encarando os “espectadores”? Será que a Juliana é atriz? Que o Mateus não é seu filho, mas sim um desses talentos precoces? Que o menininho calcula todos seus movimentos, que foi contratado para deixar o chinelo cair de seu pé de vinte em vinte segundos?

Chegamos na terceira casa e eu me espantei. Didi nos recebeu. Simpática, disse que o Gui tinha dito que estávamos chegando (?), que era pra ficar à vontade. Uma república. Entramos no quarto de um dos meninos. Ele estava no orkut, Didi nos contou que eles estavam escrevendo um artigo sobre Pedagogia Libertária e nos convidou para assistir a um documentário, Terráqueos. Depois de alguns minutos, outros papos e algumas pessoas a mais no quarto, entre elas uma menina grávida, Didi disse que a gente já podia ir, que o Gui não ia, que sei lá o que. Sim, eu tive a certeza de que ela ia com a gente: se preparou, nos chamou.“Talvez seja parte do percurso, passar numa casa real e andar com uma pessoa para quem tudo será supresa também…”, pensei. Em menos de dez minutos ela tinha se tornado minha amiga: vegetariana, simpática, bonita, pedagoga. Eu já cogitava a possibilidade de frequentar semanalmente aquela república repleta de adesivos pró-vegetarianismo, roupas penduradas em varais improvisados e estudantes revolucionários. Foi quando a grávida passou mal. Desespero, pânico. Didi nos expulsou. Disse que era pra gente ir, que eles iam ficar bem. Meu namorado tentou: “Posso ajudar?”. “NÃO! NÃO! Vai, vai, vai…”, berrava minha quase amiga de infância. Saímos boquiabertos. Sem chão. Uma estrutura se ergueu e foi destruída em doze minutos. Mas era tudo tão real… Olhamos no programa: era a casa em que estavam os atores do CPT. Ah, entendemos tudo. Minha casa predileta.

Uma flor, não? Conheci como Didi, mas descobri que se chama Nara Chaib Mendes: danada, me enganou direitinho!

Na quarta casa, um escritório, um homem que falava alguma língua incompreensível nos atendeu na porta. Pediu nossas identidades e entregou para um outro homem, este mascarado. Nos pediu para pegar um ovo cada um e marcar nossas digitais ali. Tudo compreendido por meio de mímicas, esforços e deduções. O mesmo homem, muito simpático, nos levou para uma sala lá atrás. Algumas instruções estavam escritas: escrever nas paredes nome, idade, e-mail, profissão, cidade etc. Quando terminamos, ele apareceu. Tinha fritado os ovos, um para cada um e trouxe um pão. Colocou a mesa, nos serviu vinho. Sentamos, comemos e conversamos numa língua comum a todos que ali estavam. Uma língua qualquer.

Quinta parada. Uma academia de boxe. Não uma qualquer: uma academia embaixo de um viaduto. Conhecida como Projeto Viver ou Cora Garrido Boxe, aulas de boxe são dadas gratuitamente ali, num lugar em que nunca alguém poderia imaginar. Um lugar que passou por transformações sociais depois desta iniciativa e que eu nem sabia existir em São Paulo. Assistimos a um trecho de um documentário e fomos para a próxima etapa.

Entramos no sexto apartamento, fomos para o quarto. Muitos copos de plástico dispostos numa mesa e no chão, todos com nomes. Uma moça dentro do quarto. Não nos dirigiu uma palavra, apontou a cama. Sentamos. “Querem água?”, perguntou. Aceitamos. Pegou dois copos, encheu de água, nos deu. Disse: “Vou contar uma história.” e deu o play no computador. Ouvimos a história de um cara. Acabou. Ela nos pediu para contar também. Contamos. Meu namorado ganhou uns dois mil pontos comigo ao contar a história de como nos conhecemos. Ela gravou. Anotou nossos nomes em pedaços de fita-crepe, colou nos copos, tirou um sarro da história que ele contou e nos dispensou.

Na sétima casa, uma instalação no andar de baixo. Projeções de uma mulher em diversas posições em cima de um sofá. Subimos. No quarto, a mesma arrumava o armário, separava as coisas do marido e os presentes recebidos: acabou o casamento de oito anos. O motivo não foi muito bem explicado. Aconselhei a tentar mais uma vez, mas ela não quis ouvir. Vai entender…

Por fim, a última parada. Uma pessoa me colocou na porta da frente da casa, um sobrado lindinho numa rua com cara de bairro, no centrão de São Paulo. A mesma pessoa orientou meu companheiro de aventuras a entrar pela porta dos fundos. Recebi um celular tocando. Juliana, denunciava o aparelho. Uma mulher com um forte sotaque falava do outro lado da linha e disse que, a partir daquele momento, aquela era a minha casa e eu era a Juliana. Então eu entrei na casa, conheci minha vida e, quando não entendia, perguntava a ela: “Tem uma revista em alemão em cima da cama. Eu leio alemão?”, “Massss ê claro, Xu! Você ê alemã!”. A Juliana original foi conduzindo meus passos enquanto o Gui, marido da Juliana, conduzia os passos do meu namorado. “Coloque o CD para tocar”, o Gui dizia. “Passe a mão no cabelo dele”, falava a Juliana. E então, neste teatro de marionetes, nos olhamos, dançamos, olhamos pela janela e o Gui e a Juliana contaram: três, dois, um. Puf. Acabou a música. Ligação encerrada. Como um sonho.

Tudo isso para dizer: o que é real, o que é inventado? Serviu para mostrar que “life is not but a dream”, como ele sempre diz. As pessoas na rua: quem monitorava nossos passos? Sim, tinha gente fazendo isso. Mas quem? Como saber? Parece um sonho. Porque é. Não é? Os atores do CPT me colocaram no universo mais real do mundo. A história que contei para a menina da água podia ter sido inventada. Ela não perguntaria. Porque já sabe: é um sonho! Este povo sempre sabe.

Página 1 de 41234