Posts com a tag "poesia"

Onde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?

Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi
por que me segue o esqueleto?

Livro das perguntas
Pablo Neruda

Sobre músicas e incógnitas


Minhas músicas prediletas, geralmente, têm um certo mistério, algo indecifrável que eu vou descobrindo com o tempo e, assim, gostando cada vez mais da música. É quase que uma regra. Aliás, é uma regra porque tem exceções.

Assim é com Abaçaiado, d’O Teatro Mágico; Panapaná, do Galdino; Toada Velha Cansada, do Cordel do Fogo Encantado.

Sobre esta última, nunca entendi versos como “toada velha cansada/atrás do fogo encantado/nesse terreiro sem cerca”. Encontrei um sentido (meu, totalmente subjetivo e independente da vontade de Lirinha): o som, chegando e invadindo com lembranças… O resto da música é uma linda declaração de amor.


Depois, então:
“eita mulher voadeira/misterioso pavão/o riso teu tem corisco/e o peito teu tem trovão/e os meus dois olhos bandeiras/fogueiras clarão”. Voadeira, segundo o Houaiss é um regionalismo (do Norte e do Centro-Oeste do Brasil) que significa “barco veloz e com motor de popa”. Voadeira aqui adquiriu um novo sentido: ela escapa dele, ele não a decifra, ela voa. Pode ser? Misterioso pavão: o pavão é tão bonito que encanta e leva muitos mistérios naquelas penas todas: tantas cores, tantos tons… Que tal?

O riso teu tem corisco e o peito teu tem trovão: suspiros meus!

Precisa entender mais?

"Eu tava triste, tristinha…"

Capa do cd OctOpus I – quem tem ouvidos ouça. Foto: Vinny Campos.
… Até que fui ao primeiro worksarau da “dupla” Vinny e Galdino! Sim, eles abriram as portas da enorme casa em que residem em Embu das Artes para mais de vinte amigos, conhecidos, fãs e ídolos.
O worksarau (workshop + sarau) teve início com a apresentação do fotógrafo e querido Vinny Campos sobre uma frase de Galdino que encabeça o cd OctOpus I – quem tem ouvidos ouça: “Estamos surdos de tanto ver”. Vinny citou sua experiência em publicidade, assim como falou sobre suas maiores referências em fotografia: Sebastião Salgado e Oliviero Toscani. Muitas intervenções, dúvidas e finalizamos com um debate sobre a arte (ou não) da fotografia e a possível antiarte da publicidade.
Logo depois, um delicioso jantar (com opções vegetarianas!) foi servido e, em seguida, paramos para ouvir algumas pérolas de Willians Marques. Seria impossível descrevê-las aqui porque pareceriam absurdas. Só cito que ele já ficou muitos dias com as axilas irritadas e, então, descobriu que estava passando Bom Ar ao invés de desodorante. Confundiu os frascos. Bom Ar Pinho Campestre. Pode?!
Após o jantar, foi a vez de Galdino dar uma aula sobre a história da música. Ele abordou todo o desenvolvimento, desde os primeiros registros musicais até chegar ao nosso sistema, em que música e comércio estão vinculados. Tudo isto com muita segurança, já que ele é um grande estudioso e leitor voraz do assunto. Como músico independente em seus dois trabalhos (como violinista d’O Teatro Mágico e em seu trabalho solo), Galdino tem grande experiência no assunto e sua fala contribuiu muito para a riqueza do sarau.
Com Galdino fomos convidados a repensar sobre a música que ouvimos e a necessidade de conhecer mais outros estilos. No mais, discutimos a figura do artista como um ser pensante (que defende seus ideais e aproveita sua visibilidade para chamar a atenção para fatos que considera importantes).
Então, fomos levados a uma sala com um palco (sim, a casa tem um!) em que os artistas se apresentaram. Muitas músicas depois, fui surpreendida com uma música que Galdino fez “…para Bella, minha amiga professora.”. Não sabia da música, fiquei comovida. É suave, sensível, simples e MUITO representativa para mim. Um grande presente de um grande amigo! Valeu o ano de 2009.
O sarau varou a madrugada e às nove da manhã todos já estavam prontos para a feira de artesanatos de Embu das Artes. Fomos nos despedir de nossos anfitriões por lá e terminamos o sarau com arte na rua.
Tem coisa melhor?

EUSINTOCSEICSOUMTANTOBEMAIOR

Que saudade d’O Teatro Mágico!


Alguém acha um pedaço meu?

Dicas:
1) Estou de branco;
2) Perto do palco;
3) Olhando para o Galdino.

Show na Praça do Relógio, USP, início de 2007.

Uma pausa; uma pergunta; uma poetisa

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

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