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O despertar da primavera

Provocativa, instigante, sensual, rebelde? Não se iluda

Olhando as fotos, a produção antenadinha e a coleção de indicações ao Prêmio Shell do musical O despertar da primavera, você pode muito bem se sentir tentado a correr para gastar muitos reais para vê-lo. Não perca tempo. Eu explico o motivo.

Fui assistir à estreia do musical em São Paulo. A peça, que ficou em temporada no Rio de Janeiro, chegou aqui neste último final de semana.

Um texto clássico, numa superprodução. Aliás, se tem algo de bom que posso falar desta peça é isto: em cartaz no teatro Sérgio Cardoso, tem cenário caro, figurino bem pensado, banda ao vivo, coreografia bem ensaiada e produção incansável atirando para todos os lados (com twitter, blog, site, formspring e afins). Uma superprodução mesmo.

Não sou das críticas teatrais mais ferrenhas. Principalmente porque, quando se trata de teatro, admiro só a tentativa. Acho linda, enriquecedora e merecedora de aplausos qualquer tentativa legítima.

Acontece que a peça não me convenceu. É produzida, ensaiada, teatral, tem os maiores diretores brasileiros mas, simplesmente, não tem graça. Não consegue carregar o texto, nem dar veracidade aos fatos porque nada ali pulsa.

Alguns fatores técnicos contribuem, como a  iluminação que, apesar de elogiadíssima por meio mundo, simplesmente não valoriza a peça. Deixa o ambiente escuro e não enfoca o rosto dos atores nos momentos necessários.

A cenografia é outro ponto baixo. Carregada, chega até mesmo ao ponto de ser cafona. Muita informação em cena —  e informação desnecessária. O cenário não consegue ser lúdico, nem simbólico, nem rústico. Tenta inovar, mas acaba careta.

Além disso, o uso contínuo do microfone faz a peça parecer um filme dublado. Como o som é reverberado apenas pelas caixas, temos que buscar por alguém abrindo e fechando a boca na multidão, para, então, entender qual ator está falando.

Apesar disso, atores e atrizes esforçados em seus papéis. Muito novos e também muito talentosos. Isto, claro, exceto quando os meninos entram em cena e cantam e dançam como o extinto grupo Br’oz, e quando as meninas matracam no mesmo tom agudo das irmãs de Ariel no filme A Pequena Sereia.

Pois bem. E quem sou eu para apontar tudo isto, não é mesmo? Quem sou eu, já que a peça é a mais elogiada que já vi na vida?

Exatamente por conta deste rio de elogios, tenho que colocar aqui o que senti. Porque não sou chata assim como pareço, mas ou eu estou muito errada ou o resto do mundo é que está. Em todo caso, acontece que esta superprodução, realmente, não me convenceu. E acredito que minha singela opinião não abalará a estrutura financeira da peça.

PS: Você viu? Gostou? Eu estou certa ou fui num dia ruim? Deixe sua opinião.

Economia leiga

Do pouco que sei sobre economia, algo entre o nada e o menos ainda, ando preocupada com a própria.

Imaginem que dia desses parei em um estacionamento que custava 17 reais. E não era pela semana toda: o preço era por algumas horas com o carro estacionado ao lado do restaurante. Tudo bem que o endereço era um dos mais caros da cidade, mas mesmo assim, fiquei pensando: onde foram parar os estacionamentos de 5 reais?

Isto, definitivamente, não é em São Paulo

Sim, onde foram parar as horas por 3, 4, 5 reais? Antes, me parece que estacionar o carro era sinônimo de deixar alguns trocados. Não era necessário ter dinheiro, mas sim ter disponibilidade para achar algumas moedas perdidas pela bolsa.

Em São Paulo, nada mais escapa: até os flanelinhas cobram caro. Uma vez, tentei ir à Pinacoteca e, sutilmente, o dono da rua me cobrou 10 reais para deixar o carro ali. Na Vila Madalena também não sai por menos ─ e sempre com pagamento adiantado, claro!

Na mesma semana em que comecei a pensar com meus borbotões sobre o assunto, a revista Veja SP trouxe uma reportagem sobre o alto custo dos estacionamentos de São Paulo. Toda a pesquisa que eu precisava para fazer minha análise econômica estava logo ali:

Parte do levantamento feito pela reportagem

Analisei a pesquisa e levei em conta também o fato de eu, que sou super pão-dura, nunca ter encontrado um estacionamento de 6 reais na Alameda Santos. Assim, minha média foi baseada ora na pesquisa, ora no meu instinto de motorista pão-dura. Então, concluí que duas horas com o carro estacionado na região da Avenida Paulista equivalem a 14 reais, em média.

Muito bem. Duas horas na Rua da Mooca devem sair por volta de 6 reais. Duas horas na Avenida Paulista, 14 reais. E duas horas na Rua Doutor Mário Ferraz, no Itaim Bibi, 17 reais.

Assim, fiquei pensando no dia em que teremos que ter mais de três notas de 10 reais apenas para estacionar o carro. Pode parecer exagero, mas economica e praticamente falando, nunca vi um estacionamento baixar o preço. A tendência é piorar. A tendência é que, um dia, a Rua da Mooca passe a cobrar 17 reais.

Sim, porque teremos mais carros nas ruas, o aluguel subirá, assim como o preço da água e da luz, o salário do manobrista aumentará, o preço do seguro também etc. E isso me faz crer que estes preços não vão estacionar como nossos carros.

Será que daqui a algum tempo estaremos deixando 50 reais sem nem perceber? E o que acontece quando tantos reais valem apenas algumas horas no estacionamento? A moeda desvaloriza? Como isto funciona?

E agora é que vem a parte que eu entro em pânico: eu, sinceramente, não sei o que acontece. Sim, economia foge do meu controle de uma tal forma que eu não sei se este movimento é natural, se sou eu que estou pirando com pouco, se a nossa moeda vai mudar em três anos e se tudo bem se 100 reais virarem gorjeta.

Qual é o rumo disto tudo? Algum economista de plantão?

Sobre um fato cotidiano

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

(Construção, Chico Buarque)

Dia desses, o pai de uma pessoa próxima a mim morreu. Assim, como costuma ser e a gente costuma não entender: do nada.

Talvez por ter tido contato com ele (ou talvez por ter tido pouco contato com a morte), fiquei bastante chocada. E pensei no que ouvi também dia desses: quando uma pessoa morre, uma parte da gente morre junto. Eu sei que isto pode parecer clichê, mas a frase não tem romantismo algum.

Morre uma parte nossa porque morre a relação que tínhamos com aquela pessoa. Morre a amizade, o encontro, morrem as piadas, morrem os locais. Você morre para o outro assim como ele morreu para você. A relação que vocês tinham (íntima ou não, de amizade ou de coleguismo) morre. E pode até reaparecer mais para frente de modo semelhante com outra pessoa, mas nunca mais será igual. Porque nunca mais será a mesma. Morreu entre seus olhos.

Pensei, então, nas vezes em que passei pela rua em que ele morava. A rua em que o conheci e em que ele morreu, “no meio do passeio público”. Trágico. Ou cotidiano. Pensei que, não faz muito tempo, o encontrei por ali e pensei em parar para cumprimentá-lo. Bobagem. A gente tem todo o tempo do mundo, não é mesmo? Trágico. E cotidiano.

A morte é tão cotidiana que assusta. E por ser tão certa e tão cotidiana, não conseguimos encará-la de maneira natural. E devemos? Não deve ser comum ficar feliz com a partida de quem gostamos. Mas, em tanto tempo aqui na Terra, nossa cultura não conseguiu ainda naturalizar os fatos. Há quanto tempo pessoas nascem? E quantas morrem? E quantos de nós morrem ao longo da vida por causa da morte dos outros?

Não conseguimos. Não vivemos como se isto pudesse acontecer hoje, amanhã ou depois com qualquer um de nós. Como se toda esta sólida construção não pudesse ser destruída assim, do nada. Como se vida não fosse… Frágil. Pura sorte.

Será?

Mau atendimento médico

Eu tenho um bom histórico de maus atendimentos. No entanto, tenho uma experiência um tanto quanto diferente da da maioria da população. Eu não sou mal atendida em restaurantes e lojas: meu negócio são os consultórios médicos.

Quando tenho que ir ao médico, pego a lista do convênio, seleciono os endereços mais interessantes e vou jogando no Google médico por médico. Ganha pontos quem tem: 1) publicações científicas; 2) artigos publicados em revistas e 3) um site decente.

Apesar de tanta cautela, já me dei muito mal. Isto porque a grande maioria dos médicos conveniados não têm vida online, o que dificulta muito a minha pesquisa. Porque, afinal, pode ser que ele seja um médico péssimo e desatualizado ou apenas um senhorzinho simpático com toda sua vida acadêmica nas estantes da universidade e muito conhecimento na cachola.

Não, não fui atendida por ele

Meu critério para definir se um médico é bom ou não é muito simples e muito difícil de ser alcançado: ele tem que estar disposto a solucionar meu problema. (Ponto para Dr. House!) Isto pode parecer óbvio, mas acredite que não é. Além disso, também é interessante que ele se entenda como médico e não como mecânico. Sabe aquele tipo que vê problema em tudo, praticamente quer trocar seu motor por um mais novinho? Então.

Certa vez resolvi ir a uma dermatologista aqui pertinho de casa. Joguei no Google e ela tinha alguns depoimentos em revistas femininas. Ponto para ela, lá fui eu.

Cheguei num consultório lotado de representantes de laboratórios (aliás, este é o grande mal dos dermatologistas e o que sempre me deixa com um pé atrás). Sentei, ela me perguntou qual era o meu problema e eu expliquei que queria que ela me receitasse um protetor solar diário e um creme para passar à noite.

Pois bem, ela não olhou minha pele e mandou a pérola: “Para o seu caso, são tantas sessões de peeling”. Oi? Como assim, amiga? Aqui da cadeira você já viu minha pele? Já percebeu que sou alérgica a um tipo de ácido? Então, ela me disse para buscar (no Google?) o nome do ácido que me deu alergia e retornar ao consultório. Estava me mandando embora sem protetor ou creme. Ela queria mesmo é que eu enchesse o bolsinho dela por fora do convênio. Coitadinha.

E não foi só isso: já caí nas garras de um endocrinologista desatualizado e ruim, nas de duas ginecologistas estúpidas, bem como de mais uma dermatologista com cara de açougueira e um consultório que mais parecia uma clínica clandestina de aborto.

Depois de tanta experiência na área, concluí que minha pesquisa pelo Google, em geral, não é um bom critério de seleção. O que realmente ainda funciona é alguma referência pessoal interessante do médico. Como nem sempre temos, cabe ressaltar que a classe médica ainda não se rendeu à internet. Nem os pacientes reclamões.

Beatriz

Não gosta de cominho. Nem de coentro. Reconhece as iguarias já no cheiro do tempero do restaurante. Da calçada.

Não come a feijoada de um – porque nela há um dos dois. Nem o bife à rolê. É capaz de parar uma refeição no meio por causa do tempero. Mesmo que o colega de mesa garanta que não consegue sentir nada.

Alho e cebola, tudo bem. Cominho e coentro: nunca. Sofre pelo nordeste. O que, por lá, não leva esses temperos?

Chove pelo lustre da casa dela. Bem que pensou duas vezes antes de comprar um apartamento no último andar. Mas o preço estava bom e ela queria muito se mudar. Já não sabe se acredita no zelador ou na síndica. Talvez no zelador.

Agora, sempre que chove, pensa na casa dela. No dia que choveu estava lá, para acudir a casa num momento daquele. E olha que nem era para estar por lá. Devia estar viajando, decidiu chegar antes.

Chuva em São Paulo não é uma coisa boa. Lá no sul, tomou banho de chuva umas mil vezes. Aqui, a chuva é ácida, traz enchentes, água pelo lustre.

Não dormiu esta noite. Quer dizer, modo de dizer, né? Dormir dormiu sim, mas acordava de duas em duas horas, com cólica, tomava um remédio, deitava, esperava o sono voltar. Por isso está cansada a esta hora. Cansada.

Passou Jack nas unhas. Gostou do meu Arábia. Não gosta de passar esmalte ralo, não gosta: mancha. Riu do nome da cor de um esmalte: Inveja Boa. E isso existe? Devia ser branco, ao menos.

Beatriz na minha frente. Todas as personagens que já me confundiram naquela loira de olhos tão azuis, voz tão doce e presença tão delicada. Como Liz se encaixa ali? Não sei. Onde está Alaíde, de Vestido de Noiva? Procuro. E aquela que casa depois que cansa de tomar refrigerante? E a noiva do Ivam? Todas ali, escondidas dentro dela.

Será esta só mais uma personagem? Será esta parte, esta que eu vejo, sua Beatriz?

De louça, de éter, divina. Cléo de Páris.

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