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Exercícios nº 2: formas breves

Sábado à noite, dois ingressos para um espetáculo qualquer no Sesc Vila Mariana. Um colega indicou exatamente esta peça: “Exercícios nº 2: formas breves”, mas como não o conheço muito e não sei do seu gosto, quase que desconsiderei. Só decidi dar uma chance quando o espetáculo praticamente tropeçou no meu caminho: ganhei dois convites.

Já no Sesc, esperei meu namorado chegar. No fim das contas, descobri que ele não chegaria a tempo e lá fui eu fazer uma coisa estranhíssima que amo: ir ao teatro sozinha. Nada mais assustador e empolgante do que se aventurar a entrar num teatro qualquer sem ninguém para te apoiar, para servir de testemunha. Experimente. Tudo pode acontecer numa peça de teatro, sempre leve isto em mente.

Confesso que comecei a assistir ao espetáculo com um pé atrás. Li um pouco sobre a peça: “fragmentos de livros”, “elenco diverso”, “universo contemporâneo”. Tudo isso daria uma bela sessão de um pouco de tudo formando um nada desinteressante, não é mesmo? Pois é, mas não é este o caso.

Atuações brilhantes. Não posso acreditar que alguns não são atores profissionais. Já vi tanta peça com gente “renomada” que não chega a fazer metade do que eles fizeram. Expressão corporal, elenco em perfeita sincronia e aquele chiadinho carioca a peça toda.

O figurino é preto. Não é uniforme, apenas preto, o que acentua o trabalho dos atores e, assim como o cenário, torna possível as diversas cenas. Aliás, sobre o cenário: impecável. Mesmo. Dos melhores que já vi. Das projeções aos fios e às roupas espalhadas pelo chão. Um tudo que vira nada e volta a ser tudo: as roupas viram terra, que viram chão, que viram roupas. Os fios são parte de um hospital, de uma fábrica, do cenário e chegam até a parecer um céu. Pode?

Um trabalho coletivo e lindo que mescla pesquisa, leitura, atuação, artes plásticas, expressão corporal e o que mais você conseguir imaginar. Aproveite para ver, afinal, uma das mensagens da peça é: “O homem se faz na linguagem que o faz”.

Exercícios nº 2: formas breves
Direção: Bia Lessa
Sesc Vila Mariana
Até o dia 13/12
Sextas e sábados às 21h
Domingos às 18h

Meu caso com a polícia

Eu já fui parada pela polícia nove vezes. Sete destas vezes foram em um ano e meio. Você pode afirmar que assim foi porque eu tirei as calotas do carro naquela época. Que o carro parecia carro de bandido, como diria minha mãe. Mas não. Já fui parada dirigindo o carro dela, o meu, o de um amigo.

Aliás, a primeira vez em que me pararam eu tinha acabado de tirar a permissão para dirigir. Fomos para uma balada linda em Bragança Paulista intitulada Porkaria’s – para você sentir o drama. Na volta, Tarcisinho (um amigo que não bate bem das ideias) estava bêbado e o carro foi para… Tcharam! Para mim!

E é claro que a polícia rodoviária nos parou naquele dia. O guarda pediu para eu abrir o porta-malas e eu só senti o bafo de pinga do Tarcisinho me dizendo: “Bella, é só apertar aqui que abre!”. É claro que eu fiz ele sair do carro e abrir o porta-malas. De pé, meio cambaleando, ele disse: “Seu guarda, essa é minha noiva… Ela tá dirigindo porque eu não tô muito bem…”. Como me disseram amigos depois, não sei o que foi pior: ser parada às 5 da manhã na estrada com a permissão para dirigir, um carro desconhecido e um amigo bêbado ou ter me passado por noiva desta figura:

Tarcisinho e eu num carnaval qualquer.

Este foi só um exemplo. Já fui cercada pela polícia (que me perguntou se eu tinha drogas no carro), já engatei um papo com um policial sobre uns alunos que eu tinha que assistiam a uma novela muito violenta, já fui parada porque denunciaram que eu não tinha habilitação (mas eu tinha, rá!) e na sétima vez já cheguei a perguntar: “Seu guarda, pelamordedeus, por que eu?”.

Acontece que se eu estiver passando de carro por uma blitz e um caminhão de cocaína estiver na minha frente e um carro com oito caras bêbados estiver atrás de mim, tenha a certeza de que eu serei a que verá o dedinho do guarda apontando para o acostamento. Por um lado, tudo bem, porque eu não bebo nunca. Por outro: caramba, policiais, vocês estão comendo bola!

Exceto na última quinta-feira, em que eu voltava para casa lá pelas onze da noite e fiquei parada na Av. Dr. Arnaldo. Suspeitei que o trânsito fosse por causa de algum jogo de futebol, mas não. Um policial parado em cada pista da avenida. Carro por carro, a pergunta:

- Boa noite. A senhora ingeriu alguma bebida com álcool hoje?

- Não.

- A senhora pode assoprar aqui?

Sim, eu fiz o teste do bafômetro! Sempre quis fazer o teste. Afinal, não beber nunca deve ter algum lado positivo, já que sempre passo de chata em todas festas e em todos bares para todas as pessoas.

E poder assoprar e ver o aparelhinho denunciar 0.0 é tão gratificante para alguém como eu, que sempre volto para casa com sono e a maquiagem borrada. Parecendo uma bêbada.

Chai nosso de cada dia

Fui aproveitar o dia quente e a baixa umidade relativa do ar para fazer o que os especialistas não recomendariam: caminhar na praça.

Depois, morrendo de sede, fome e numa crise de abstinência de chocolate, parei no único local da Mooca em que podemos comer a qualquer hora. Sim, aquela padaria cujo nome não vou mencionar porque, de fato, não merece propaganda nem no meu blog xinfrim. Bem, mas é o que temos, não?

Lá fui eu pedir um suco de melancia e um sanduíche de pão integral com queijo cottage. Tudo pra fazer valer a caminhada. Eis que ali estou quando um tipo urbano (parafraseando Alberto Guzik) me chamou a atenção.

Mãe e filha. Recém-saídas do maior estereótipo possível de peruas da classe média paulistana. Daqueles tipos que, se você vê numa peça de teatro, tira sarro e depois comenta como o autor foi clichê. Pois é.

A filha sai para zanzar pela padaria quando a mãe diz para o atendente do balcão: “Eu quero um chai.”. Ahm? Ouvi bem? O que ela quer? O atendente responde: “É pra já! Ô Zé, vê aí um chai.”.

Ok. Se você é uma pessoa que transita por outras culturas, já sabe o que é um chai. Agora, se você faz parte da massa da população brasileira, você aprendeu o que é chai há alguns meses, quando a novela Caminho das Índias invadiu sua casa com um monte de palavras estranhas inseridas num contexto novelesco.

E desde quando as padarias passaram a ter o tal do chai? Por onde andei esse tempo todo?

E foi ali, saboreando o queijo cottage, mas de olho no chai alheio, que percebi que, realmente, não temos ideia da influência das novelas globais na vida do brasileiro.

Quanto tempo mais dura essa moda? A novela acabou ontem. Teve reconciliação, bebê à vista, Juliana Paes e Rodrigo Lombardi como o casal ideal. Até a menina que nem dez anos deve ter jurou amor eterno a um menininho tão pirralho quanto ela. Já não basta esse amor romântico sendo difundido aos quatro cantos? Agora estão invadindo as padarias também? Baguan Keliê!

Dicas sobre a USP

Finalmente voltei a frequentar a Cidade Universitária. E reparei que muita coisa continua igual por lá. Por isso, elaborei uma pequena lista de dicas aleatórias e preciosas para você que passa por lá.

1) Se quiser almoçar bem, vá ao Sweden, ao lado da FEA. Você vai pagar um pouco mais caro (algo em torno de R$30,00 o quilo), mas vai comer saladas deliciosinhas, ter boas opções e vai almoçar com um público mais cara de shopping center do que de universidade pública. Aproveite e sente nas mesinhas de fora. Leve uns amigos para conversar enquanto estiver na fila. Ou vá sozinha e, enquanto tempera a salada, seja paquerada por um cara que parece o Raj.

Ei, quer azeite?

2) Combine com uma turma e faça uma visita monitorada ao MAC. Vale a pena. Fique de olho no Paço das Artes, coisas maravilhosas acontecem por lá. Se tem estômago, vá ao Museu do Crime. Se o que tem é paciência, vá ao MAE.

3) Cuidado em dias chuvosos. Dizem as línguas mais cautelosas, que é em dias assim que os criminosos atuam por lá. Como os guardas ficam nas cabines ou fazendo rondas de carro (já que chove e ninguém quer se molhar), fica mais fácil roubar sem ser incomodado. Por isso, pare o carro em lugares mais movimentados.

4) Não perca, por nada, a feira de livros que acontece anualmente na FFLCH. Por mais que você não queira comprar livros, vá. Os preços são absurdamente baratos. Há alguns anos, achei um lançamento por menos da metade do preço. Livro da Gloria Kalil, badaladíssimo! Comprei dois: um pra mim, outro pra tia Sônia.

Glorinha informa: não é chic[érrimo] informar que o presente da sua tia custou uma bagatela.

5) Frequente os sites das faculdades. Cursos de extensão, idiomas, palestras, encontros e coisas muito interessantes não são amplamente divulgadas. Na verdade, algumas até são, mas devido ao tamanho da Cidade Universitária e à distância entre uma faculdade e outra, confiar no boca-a-boca não é o meio mais eficaz de se informar de tudo o que acontece e te agrada.

6) Se é aluno regularmente matriculado na USP, conheça o CEPEUSP. Se não é, chore por não poder fazer yoga, fitness ou alongamento pelo preço de R$5,00 semestrais.

Estou chorando também, caro leitor.

7) Andar de ônibus é o meio mais eficaz de fazer amizade com alguém da USP. Na verdade, é o segundo meio. O primeiro é entrar no mesmo seminário que a pessoa (levando em conta, claro, que existem grandes possibilidades disto virar briga). Se você for de ônibus, vez ou outra aposente o fone de ouvido e o texto da próxima aula e encontrará pessoas estranhíssimas. Tipo:

- Alguém que te vê com umas partituras do coral que você começou há dois meses, engata um super papo sobre música e te adiciona no orkut;

- O cara que fazia teatro com você, foi rei e seu pai numa peça e é a pessoa de quem você não consegue lembrar o nome, apesar de ele insistir em te chamar pelo seu de dois em dois minutos;

- Um cara que dá aula de filosofia e marketing (ahm?) para amigos seus em outra faculdade e sabe mais de astrologia do que qualquer revista de começo de ano;

- E mais todas as pessoas da sua sala. Amizade simples que começará no: “Onde você mora?” e terminará com uma carona diária em alguns anos.

Gostou? Tem mais dicas sobre a USP? Manda pra cá que eu estou precisando!

Complexo sistema de direção

Sou do tipo que passa um bom tempo dirigindo e que sempre é a condutora do carro. Por isso, quando ando de ônibus acho tudo divertido. Alto, lento, bruto e o melhor: é uma delícia poder abaixar a cabeça para enxergar o prédio, torcer o pescoço para ver melhor alguma coisa que passou, focar em pessoas, casas, árvores. De ônibus; no carro raramente consigo esta leveza.

Sim, porque entre dar a direção a alguém ou tomar as rédeas do carro, eu prefiro a segunda opção. Sou do tipo que, como co-pilota, fica brecando num freio invisível, tem tiques nervosos nos pés (afundando, constantemente, o esquerdo numa embreagem imaginária), diz ais, uis e grita: “Cuidado, ele brecou!”. Insuportável, eu sei. Mas é sem querer.

Aliás, quando comecei a dirigir, minha maior decepção foi notar que eu não mais poderia observar o mundo ao meu redor. Tinha que focar toda minha atenção em um complexo sistema de ruas, retrovisores, marchas, pedais, semáforos, motos, placas. Uma coisa. A adaptação foi difícil.

Não repita isto, Isabella. Foque.

Além de querer observar o mundo e não poder, eu ainda tinha que saber o caminho para chegar ao meu destino. Óbvio, não? Mas tudo isso, junto, é muito complicado. E se você está acostumado a ser sempre o co-piloto, prepare-se: na hora em que assumir o volante, você não vai saber pra onde ir.

Eu pegava o carro e tinha que fazer a rota ainda na garagem. E era difícil. Pensava, pensava. Mesmo que fosse um caminho conhecido, um lugar para onde eu sempre ia. Não adianta: como co-pilota eu focava em outras coisas. Cores de casas, bancas de jornal, nuvens, árvores, conhecidos, desconhecidos, tudo era uma divertida distração. Tive que mudar o foco.

E, com o tempo, você vai pegando a manha de ser pilota. Você aprende que, naquela avenida, a pista da esquerda anda mais (não, isso não é tão comum quanto vão te ensinar nas aulas práticas). Mas, quando chega num determinado local, é melhor pegar a pista da direta porque na esquerda sempre tem um carro lerdo dando seta pra entrar na outra rua (existem muitos lerdos no mundo, você vai aprender). Depois, hora de voltar pra pista da esquerda porque tem um ponto de ônibus (e eles raramente encostam, gostam mesmo é de parar no meio da rua). Pronto: chego dois minutos e trinta e oito segundo mais cedo e toda sorridente. Sou malandra.

Devido a este complexo sistema de códigos, às vezes meu GPS biológico falha e é por isso que eu paro em algum cruzamento da Avenida Paulista e me pergunto: “E agora? Direita ou esquerda? Tô no lado dos Jardins? Ou do Centro?”. Simplesmente não sei, tenho que recomeçar todo um raciocínio enquanto o co-piloto tira sarro, diz pra eu pensar mais, fala que não acredita que eu não sei.

Esperem pegar o carro.

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